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Aqui estamos como que filtrados e caídos na Terra, em cima dela, movendo-nos na horizontal, uma linha deitada nos traça os movimentos e só subidos vamos quando nas passagens aéreas descolamos os pés do solo. A linha do nosso electro alivia, mas desfazemo-la logo nas aterragens. Movidos nestes socalcos vamos tendo uma plasticidade maior em vários degraus da atmosfera, mas nada que se assemelhe à marcha e pés no solo que batido está pela gigantesca «Pegada Humana» e que, espalhado por todo o lado, roda em volta de si mesmo, sempre deitado, e assim por eternos caminhos vamos encontrando o amor do outro, que convida a uma horizontalidade instintiva: a tempestade da paixão é demasiado vertical para o nosso já tão desenvolvido hedonismo e há mortalhas que são ainda refinados locais que nos observam para leitos e neles depositamos um desejo melancólico de paragem, assim como um ultra-romantismo à Soares de Passos de uma prostração que nos tome, de ossos tilintando no osso que somos em solfejos de delícias estranhas.

Certo é que ando tudo muito magro, a carne está reduzida, e onde ela não abunda, a natureza se infiltra na sua essência mineral. Outrora os doentes de tuberculose ardiam nos vapores da sua libido que os descarnava e fazia belos com a luz de uma fixação ígnea, que era por vezes o estado de paixão em que se encontravam: quando não há alimento para fora temos essa tendência para nos auto-devorarmos, alimentados que estamos de um fogo interior, um ritual de canibalismo que passa pela paixão de si mesmo.

O tempo em que vivemos reduz, no entanto, a fixação. Diluímo-nos mais em vez de condensarmos, a falta de convicção não ajuda o Eros a abrir a altura remota das suas asas e os órgãos são para usar mas estão pouco disponíveis para assombros. Vemos tanta gente nua, morta, uns em cima dos outros, iguais por toda a parte, em partes iguais, que o laborioso deus nos dá “trincadas” em sugestivos desafios só para não esquecermos da sua inteira missão.

Protegemo-nos uns dos outros como se as pragas nos fossem conquistar e, impostos os venais apetrechos, apelamos à sua bondade para exercer os ritos de acasalamento. A carne que se multiplicara na carne está em queda contínua, vamos esvaziando-nos nela e, como não somos “tocados”, nada acontece além de andarmos em roda no solo da Terra, que também já fora germinal. Vem aí a altura: cidades, carros e o Eros alado tem fundições neste plasma, mas quer andar como que fugido dos escombros dos aterros. Ninguém nos educou para o Amor: fomos alicerçando alguns saberes na marcha e ela, de tão giratória e móvel, foi excluindo aspectos essenciais e nisso reside a incompetência para termos feito a aventura do deus em nós.

Sequazes e enlaçados, ainda urdimos desejos de vir a partilhar o impensável dessas coisas fugidias mas que depressa se esfumam quando compreendemos uma certa morte que é essa devastada essência humana impossível de ser reabilitada. Nós já somos os seres da aventura breve, do que apetece, do que esquece, do que deseja mas não abarca, nós somos os últimos seres do patamar das emoções e nelas já não temos lugar. Esgotámos o tempo na Roda, a Roda gira…. mas não nos devolverá nem as cinzas do amor perdido, nem um outro, que redentor e farto nos venha compensar de um funesto ensinamento. Não somos os românticos de olhos luminosos, anda tudo pouco mais que macilento num vaivém de sabores pois que há saberes que não escolhem hospedeiros tais.

Se cairmos não haverá um terno amor necrófilo perante a beleza do nosso provável cadáver, que numa espécie de doença rara o queira consubstanciar, uma qualidade inaudita do amor. É assim, segregados e sem guindastes futuros, que esperam talvez sorridentes o nosso gradual fim, fazemos uma esteira muito móvel onde nos deitamos num grande artefacto de coisas boas, os nossos pés não são os pés do outro “mas se ambos confundimos tanto os nossos pés, diz-me com que pés eu hei de seguir?”

Não ter tal interrogação é ser cativo. Fulminados desta prática somos urgentes na manutenção das nossas causas, que causam não raro um vazio estranho pois que dela só parte de nós fica elevada, e, nem mesmo chorar nos é permitido. Calcinados talvez pela vida que guiada nos conduziu a um secreto abismo, circulamos por toda a parte para que não notem tanto cansaço, talvez desolação, talvez uma secreta esperança… buscamos um sonho que insiste em não saber de nós.

Nós que fôramos unos, procuramos a metade dividida como uma leve lembrança , mas a nossa própria iniquidade nos separa do encontro, somos essa metade sinalizada e em risco, pior ainda que não encontrar o outro é a de vertermos a existência em coisa nenhuma. Exaltados e mais experimentais somos deixados no patamar das provas e dela saímos mais pequenos sempre que não compreendemos a beleza da tentativa.

Não duvidamos que a ordem das coisas impulsiona-as para a harmonia, seria preciso um “rasgão” cego na dobra para falharmos em todas as direcções, mas nos aspectos movediços a função da mobilidade se traduz por inércia, e sem o mínimo de sustentação nas coisas mais bonitas elas afastam-se de nós recusando a oferenda. Muitos contemplarão a sua face de eternos D. Quixotes e nada mais verão que supostas ruínas de moinhos cansados . Animou-os as fomes, que findaram, gerando mais fome, até ao terror dos manjares.

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