A Colecção do Museu Luís de Camões

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] trabalho realizado no conseguir reunir um espólio para o Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões, criado pela primeira vez em 4 de Novembro de 1910 por Portaria Provincial do Governador Eduardo Marques, mas nunca aberto ao público e provisoriamente instalado na Casa do Jardim da Gruta de Camões, “gorou-se devido a uma defeituosa orgânica. Para emendar esse erro, o Governador interino Álvaro de Melo Machado pela Portaria n.º 214 de 12 de Outubro de 1911, exonerou tão numerosa e decorativa comissão, substituindo-a (…) na mesma data, por uma composta apenas de três vogais, o capitão Albino Ribas da Silva, o intérprete-sinólogo e coleccionador de arte chinesa José Vicente Jorge, e o apontador da Repartição das Obras Públicas, Manuel Ignácio Rezende, que tinha também manhas de coleccionador de arte chinesa”, como refere Gonzaga Gomes. Mas também estes não deram conta do trabalho e assim se perdeu a ocasião para a criação de um Museu em Macau. Tanto mais que, lamentavelmente, “entretanto, muitas antigualhas de interesse que poderiam figurar nele e que então ainda existiam em Macau, tanto na posse dos particulares como nas igrejas, conventos e estabelecimentos públicos, se foram sumindo ou estragando-se, por desleixo, incúria ou ignorância e, não poucas vezes, vendidas ao desbarato.”

Os anos passavam e nada de Museu. A 17 de Junho de 1920 foram aprovados os estatutos do Instituto de Macau, uma associação científica, literária e artística que pretendia promover a criação de um museu e a conservação de edifícios e objectos de valor documental, históricos ou artísticos existentes em Macau. Dela apenas se registam algumas conferências, mas o Museu…, nem vê-lo!

A 20 de Janeiro de 1926, a Direcção das Obras dos Portos propunha-se organizar uma ‘Exposição Industrial e de Estudo’ para servir de início a um futuro Museu e Exposição Permanente dos produtos das indústrias locais e mostruário de produtos da Metrópole e das Colónias Portuguesas e em que se reunissem todos os elementos dispersos e alguns talvez desconhecidos do público, sendo por isso dividida em várias secções: Secção Fotográfica, Secção Cartográfica, Hidrográfica e de Maquetes, e Secção Industrial. Estava-se próximo da conclusão das obras do novo porto da Rada, que se cria vir dar um novo alento à cidade. A ideia evoluiu para uma Exposição Industrial e com os artigos que aí iriam ser expostos, é proposto criar um museu em Macau, instituído pelo Governador interino e Director das Obras dos Portos, Almirante Hugo de Lacerda por Portaria de 5 de Novembro de 1926. Mas o Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões só abriu portas a 24 de Junho de 1929, tendo como Director o Cónego António Maria de Morais Sarmento. Encontrava-se dividido por dois edifícios; no 1º andar do edifício de Leal Senado, sob a direcção de um dos Directores Técnicos do Museu, Dr. Telo de Azevedo Gomes, a secção histórica do Museu continha as pedras com inscrições históricas, armas, brasões, etc., assim como espécies artísticas e pictóricas, obtidas principalmente por empréstimo de particulares. Já a secção comercial e Sacra do Museu, estava exposta no rés-do-chão da Santa Casa da Misericórdia. (Local onde até 2016 esteve o Cartório Notarial e que agora foi alugado pela Pharmacia Popular.) No entanto o recheio do museu era paupérrimo.

Das ofertas

Ainda antes do Museu abrir, encontrando-se com o espólio armazenado no Palacete da Flora, a fábrica de vidro Shimada de Osaka no Japão, ofereceu-lhe um mostruário de artigos de vidro. Um mês depois, o Boletim Oficial de 3 de Dezembro de 1927 publica o Regulamento dos Serviços do Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões. O semanário A Verdade de 1 de Novembro de 1928 refere ter Hee Cheong feito a magnífica oferta para o Museu Luís de Camões de uma artística vitrina de curiosas porcelanas no valor de cerca de duas mil patacas.

A 13 de Agosto de 1931, a explosão no Paiol Novo da Flora, que fez vinte e um mortos e cinquenta feridos, destruiu completamente o Palacete da Flora e provocou grandes estragos nas redondezas. Na mansão do coleccionador de arte chinesa Dr. Manuel da Silva Mendes, situada na encosta Sul do Monte da Guia, a explosão reduziu a cacos grande parte dos seus pratos brasonados de porcelana. Este advogado, professor de Liceu e jornalista, escritor de assuntos chineses, veio a falecer quatro meses depois. Os herdeiros venderam algumas das mais importantes peças a coleccionadores estrangeiros, já que o Governo não se decidia a adquirir a preciosa colecção para o recheio do Museu Luís de Camões. Até que, constituída uma comissão, o museu foi enriquecido com esses “bronzes, objectos de barro tumulares, barros vidrados de Seák-Uán (Shiwan, em Foshan, onde se encontra o forno imperial Nanfeng), algumas peças de celadão, uma ou outra peça em esmalte, uns poucos exemplares de jade, havendo numerosas aguarelas chinesas, mais de uma dezena de retratos de mandarins a óleo, sendo, contudo, raríssimas as peças em porcelana”, como refere Luís Gonzaga Gomes. Ficaram expostos no primeiro andar do edifício do Leal Senado onde, em 28 de Dezembro de 1933 se fez uma exposição também para mostrar os quadros adquiridos pelo Leal Senado, assim como pelo seu presidente, Luís Gonzaga Nolasco da Silva, que os ofereceram ao Museu.

No entanto, um lugar permanente para o Museu estava difícil de se encontrar. Os mostruários adquiridos pelo Governo após a Exposição Industrial tiveram que sair da Santa Casa, pois esta precisava da sala. O mesmo aconteceu três anos mais tarde com os objectos colocados no edifício do Leal Senado em consequência do desenvolvimento da Biblioteca Pública, que estava instalada no mesmo andar e na mesma ala desse edifício, sendo por isso removidos para o Palacete de Santa Sancha, que abriu ao público a 12 de Dezembro de 1936. Aí teve uma passagem efémera pois, logo no ano seguinte foi o Museu instalado na Casa do Jardim da Gruta de Camões, actual Casa Garden.

Da passagem do Museu pelo edifício do Leal Senado, para onde lá nunca mais voltou, ficaram as lápides de granito encontradas em diversas localidades da cidade e incrustadas nas paredes do átrio. Já as lajes sepulcrais, que estavam colocadas no chão do átrio, foram removidas e colocadas no Museu Arqueológico das Ruínas de S. Paulo, instituído pelo então Governador Jaime Silvério Marques (1959-1962).

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