José Anjos: “Escrever é o acto de resistir”

És poeta (acerca do teu livro de poesia, primeiro e até agora único, Manual De Instruções Para Desaparecer, acerca do qual escrevi aqui neste jornal), músico (baterista na banda Não Simão) e fazes muitas leituras de poesia, um pouco por toda a cidade de Lisboa, mas tens dois lugares mais recorrentes, que são dois bares, O Povo e o Irreal. Fazes ainda parte de um grupo de performance de poesia, onde se reúne a música e a palavra, No Precipício Era O Verbo (acerca do qual já se falou aqui, aquando da entrevista ao António de Castro Caeiro). Qual de todas estas actividades é para ti a principal, se é que há uma principal?

Não posso dizer que algumas delas seja, em absoluto, a principal, embora tenha noção da prioridade que cada uma ocupa na minha vida e a cada momento. Há uma hierarquia móvel na definição dessa prioridade, até porque me vou dedicando a várias áreas ao mesmo tempo, entre as quais o direito, e tenho cada vez mais projectos na área da música e da poesia (alguns dos quais me dão já imenso trabalho mesmo ainda sem terem saído da cabeça). Este ano foi, sem qualquer dúvida e para meu imenso gáudio, mais dedicado à poesia, à música e ao palco: escrevi um novo livro de poemas, que sairá pela chancela da abysmo no início deste ano, gravei um álbum, cujo EP sairá no início deste ano também, com a banda Não-Simão, liderada pelo Simão Palmeirim e onde sou baterista, gravei um trabalho do projecto No Precipício era o Verbo, com o Carlos Barretto, o André Gago, o António de Castro Caeiro e eu, projecto este que nos levou ao CCB em Dezembro passado pela mão do João Paulo Cotrim (abysmo) e do Fernando Luís Sampaio (CCB) e cujo cd está já à venda, com art-work do André da Loba. Será também lançado, previsivelmente em Abril deste ano, a segunda fase deste projecto – que consiste na edição de um livro/cd (também pela abysmo) com todos os poemas e textos incluídos no cd, interpretados por ilustrações do André da Loba. Aparte estes projectos, tento fazer e organizar o máximo número de leituras possível.

E como vês a relação entre a escrita de poesia e o ler poesia nos bares?

Ler em público é uma actividade à qual me dediquei muito nos últimos anos, especialmente desde a criação – pelo Alex Cortez, pelo Nuno Miguel Guedes e por mim – das noites dos Poetas do Povo, projecto do qual já não faço parte mas visito com pertinente frequência, seja como espectador ou convidado. Presentemente organizo, com o João Paulo Cotrim, as quartas de poesia do poço, no bar Irreal. Quanto à relação da escrita de poesia com a sua leitura nos bares, considero, em primeiro lugar, que existe quase acidentalmente e que, mercê do facto de juntar no mesmo espaço vários poetas e leitores, alargamos necessariamente o campo de autores e obras que compõem a nossa biblioteca íntima. Nem todos leitores escrevem poesia, mas não se pode escrever poesia sem ler poesia. E no meu caso quanto mais leio, mais escrevo – e mais deito fora. Talvez possa dizer que o ler e ouvir poesia nos bares me permitiu conhecer quase todos os autores – vivos e mortos –  que hoje são para mim referências literárias e afectivas inelutáveis (tu és um deles), e me ajudaram não só a compreender e a tornar mais claro o que eu próprio escrevo (ou melhor, aquilo que afinal tenho para – ou tento – dizer) mas também a rejeitar falsos textos e a saber dizer não a mim próprio. Em segundo lugar, o poema contém infinitas possibilidades em suspensão – como um campo quântico – que se concretizam e apresentam quando o mesmo é lido, seja em silêncio ou em voz alta. O mero acto de ler é já de si uma observação interpretativa e uma interferência necessária que cria uma realidade tão íntima que não sabemos se estava lá antes do colapso da leitura. Exemplo disso é o facto de o texto estar sujeito a diferentes leituras e interpretações consoante as pessoas, o que só demonstra, como dizia o Helder Macedo há umas semanas numa conferência a propósito de Shakespeare, que o texto é “um organismo vivo”. Ora, vejo o processo de escrita como uma proposta de investigação e leitura das coisas que se organizam – e a forma como elas se organizam – perante a nossa percepção. Escrever é para mim o resultado (conseguido ou não) de um acto passivo de contemplação. Ler o poema, por sua vez, implica um gesto idêntico ao de abrir uma porta num dado momento da realidade, por trás da qual o poema passa a ser um lugar onde cabe apenas uma única pessoa. Ler um poema em voz alta, maxime perante uma plateia que o desconheça, é multiplicar a invenção de lugares ou, em última instância, de lugar nenhum. A privacidade absoluta num lugar sem privacidade. Por outro lado, o gesto de ler em voz alta, venha ele a revelar-se mais ou menos gratificante na sua intenção, é um prazer inegável e quase inexplicável, embora não desprovido de riscos: é sempre possível fazer explodir um poema por excesso ou defeito na sua interpretação e intenção formais. Nem o poeta nem aquele que lê o poema sente mais ou sabe sentir melhor do que quem o ouve, por muito que assim queira parecer. Neste aspecto concordo em absoluto com o que o Leonard Cohen escreveu: “O poema não é senão informação. É a Constituição do país interior(…). Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Respeita a privacidade do texto. Foi escrito em silêncio. A coragem da actuação é dizê-las. A disciplina da actuação é não as violar.”

E como entendes a poesia. De outro modo, imagino que leias e gostes de poesia diferente daquela que escreves, que procuras nos poemas que lês e o que procuras nos que escreves?

Creio que a dada altura a poesia tem de ser entendida necessariamente como um acto – ou gesto – de resistência, independentemente dos aspectos concretos e emocionalmente relevantes que daí advêm para cada pessoa e a cada momento, estes sempre mudando, como a memória. Escrever é, para mim, resistir contra e resistir a: (i) resistir à frustração, sem dela abdicar mas sem sucumbir ao seu jugo (o acto criativo forja-se na sustentabilidade da frustração enquanto forma de resistência, desde logo ao próprio eu e às suas artimanhas de imediatez hedonista), e (ii) resistir contra a angústia da nossa existência e da dos outros, que se torna quase insuportável, escrevendo-a, descrevendo a sua beleza terrível. Há uma responsabilidade do artista, do autor, perante o sofrimento e a violência. Há poemas que dizem tudo e que não teriam sido escritos sem essa a intenção de resistir contra a impassividade, a resignação e a cegueira selectiva (começando pela nossa) que, de certo modo, nos permitem sobreviver, mas sem nada fazer para mudar. A humanidade é uma escolha irreversível e lancinante, diria mesmo bruta. Escrever é o acto de resistir contra essa condição, dando-lhe o significado íntimo possível. Ler é aprender esse ofício da resistência. Necessariamente procuro (ou melhor, descubro) novos poetas e estilos de poesia que me afastam de uma noção unívoca de poesia, que, por mais confortável possa parecer, não acredito existir. Por outro lado, e desde já me contrario, encontro em poemas de estilo absolutamente diversos a mesma fonte, talvez até vis-a-vis os meus. Mas é preciso a autodestruição dos processos de escrita, de certa forma aprender a escrever com a “mão esquerda”, como o Miró (simbolicamente é claro); mudar de intenção e nome, queimar o nome, deixar de escrever para – talvez – saber escrever. Neste aspecto, o acto de ler e voz alta e em público têm-me permitido fazer essa mudança de lugar sem cair no meio.

Acreditas que estes eventos de leitura de poesia acabem por levar mais pessoas à poesia?

Não acredito, tenho a certeza! Vejo isso desde que os Poetas do Povo se abriram à cidade, como noutros casos (e.g. as quintas de poesia do Miguel Martins e as sessões do Nuno Moura). Obviamente que se me disseres que a educação, a aquisição e prática de bons hábitos de leitura levam mais pessoas à poesia do que todos estes eventos juntos, estarei de acordo. Mas creio que dificilmente se pode levar poesia a pessoas que fora deste contexto não estariam disponíveis. No fim, estes eventos acabam por confrontar as pessoas com autores, poemas e versos impossíveis de sacudir e levá-las a ler motu proprio. Cumprem talvez uma tradição no verdadeiro sentido da palavra traditio, que é o da partilha.

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