Sandeman – O homem da capa negra

Amélia Vieira -
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Sandeman foi um teólogo do século XIX unido ao Catolicismo e talvez seja por aqui que a beberagem da marca tomou nome. As capas só depois de Cardeal é que se tornam púrpuras e talvez, acima deles, já fique mais ténue a própria noção metafísica de Deus. Porém, os meus sentidos captaram muito bem no rudimentar de um país cinzento a Capa Negra no alto dos promontórios de Lisboa, com um chapéu de breu e um cálice na mão. Seria um cálice normal, não era o sagrado, o da ceia, o do vinho da amizade, não era esse: o santo graal não entra nas capas negras, nem os promontórios lhe são destinados: esta era a imagem que fica da frágil infância, um convite velado como os antídotos da Rainha da Noite que nunca resultaram.
Ele ficou para sempre como um presságio de mau augúrio no topo da cidade, como os corvos e um poema de Poe. O tempo passou e deu lugar ao destronar da sua sombra, com muitos efeitos coloridos de néon que brilhavam doravante em caleidoscópica miragem, nos efeitos dos arco-íris da «Poesia está na Rua» dos rubros cravos e do panfletismo de massas. O mundo tinha-se tornado um Natal ao rubro, e das capas mesmo em épocas revolucionárias, havia ainda as do Pai Natal e as azuis dos Super-Homens.
Contudo, voltei a vê-lo com toda a nitidez das profecias na colina alta da cidade, ainda de negro, menos azeviche, opaco, mesmo, e mais esguio, simulado em frágil Deus do Sinai, disse-me: – Não olhes para mim!
Mas era tarde. Viu-o! E sei que o que se passou não é confidenciável. Numa escarpa onde morrem os sonhos, este estar de pé é um saudoso equilíbrio de antanho… prostrado está do cansaço do Homem.
A economia dispara ondas de choque e bem cedo já a repartição da riqueza tal como a conhecemos se alterará, desaparecendo o efeito do poder da materialidade financeira. O que foi dado do cimo de uma Montanha era outrora território mas, numa Terra como esta que herdámos, esse aspecto já não é passível de ser trocado por outro qualquer elemento. E, como um qualquer sem-abrigo, um pária ou um ser cansado, desaparece do espectro óptico, numa imanação toda de vulto e de gravidade. As minhas pupilas não se fecham neste isntante, ele ficou comigo a falar de coisas que não quero interpretar, descodificar, aquela presença magoa-me e, retornado que está nas cidades onde deambula, pressinto que nos ausculta, nos pede algo que não sei explicar. «Esta é a Voz da Europa» (Ezra Pound), ouvimos-lhe «Uzura», tão quietos no gelo destas transformações, que o relembramos. sandeman-anuncio-original-1928
Ontem mesmo, na cálida cidade, uma jovem mulher comprava trivialmente «Mein Kampf». Olhei-a, olhámo-nos, e quase sorri, e o homem da Capa Negra parecia dizer-me: Vê. «Arreceio-me de ti, de ti, Velho Marinheiro! Da tua mão macilenta! Assim comprido e delgado lembra a tua compleição um litoral enrugado». Rimas do Velho Marinheiro. A Europa gela com as idas às urnas, cada vez que lá deixa o querer, as nossas órbitas tornam-se mais profundas.
A China tem um véu de poeira inaguentável… em Portugal fazem-se lindos debates para daqui a cem anos, as redes sociais são transpessoais, as fúrias passeiam-se devagar entre ciprestes que confundimos com frondosas árvores do Paraíso. As serpentes vêm beber o leite no cimo das Falésias de Mármore, as cadeiras baloiçam de rabo em rabo, sem caudas nem capas para as suster.
Há um dia em que as capas negras dos estudantes também caem nos oceanos e se fica a pensar nas práticas ritualísticas de tais esforços, que os jovens se emolam por conquistas de tal ordem graves, que uma Nação inteira tenta rápido esquecer. Os Fados estão mais Fúrias que fadados ao seu trivial condão, enquanto as coisas se “normalizam” e pedimos tréguas para a montagem de uma era que nos foge. É previsível até certo ponto saber para onde vamos, mas nem todos, querem concordar que o espaço é o mesmo. Se o território se vai, os caminhos estão abertos, e nem sempre acontecem poemas como na minha rua que escrito tem no asfalto no espaço de um quilómetro esta coisa maravilhosa: “Adoro-te”. As estrelas podem cair a nossos pés e a rota dos Magos estar já desfeita, nem sempre nascem salvadores, mas a marcha prossegue. “No mais pantanoso dos abismos depuram os alquimistas os seus metais.”
Estamos parados a ver se não estamos delirando num vasto mar de probabilidades ameaçadoras. A vida é todos os dias e dia após dia vamos vivendo com as regras que temos, mas velozmente as coisas mudaram.
«Aqui a voz da Europa», fala Ezra Pound. Uma ideia é colorida por aquilo que contém. Sim, mas o Homem da Capa Negra não me veio dar ideias nenhumas. Ele não tem ideias, vive por um desígnio inalterável e já não bebe. Para combater o crescente, bebamos, bebamos vinho, mesmo que estejamos ébrios, é o nosso vinho. Mas não perder o sentido e nunca deixar a «Voz da Europa» tomar o pulso das grandes questões. Sempre os poetas são porta-vozes, e tanto as coisas saem bem, como lhes saem muito mal. Mas o mal é como as ideias, não se enegrece por aquilo que contém( se é que ele é escuro) uma vez que os fantasmas são brancos, de onde nos vem tal percepção?
Hoje, que porta bandeiras temos que não sejam os aviões de metralha? Os porta-vozes anunciam-nos e alertam-nos para o quê? Para nada. Cada um alucina dentro do seu mundo aberto que se quer adaptável para o efeito de maré morta do devir. Estamos confinados à desdita de tudo ser razoável e não ser viável, somos o que sobrou dos quentes dias, das cores e de um mundo feito de muita púrpura e vivos escarlates, mas, o que aconteceu ainda não sabemos, nem falamos disso, não temos concordâncias verbais para debates tão surpreendentes.
Expectantes estamos na Hora, como os corvos transportando a Barca, estamos a ver se o morto não tomba do bico impreciso das aves friorentas, se elas se mantém na zona de conforto que faz da morte dos mártires belas estátuas jacentes, estamos em guarda, salvaguardando as muitas coisas boas, bebendo-as, antes que os túneis sejam atirados aos rios, aos mares, e nos falte o sabor da Maçã. Parece que elaboramos o futuro que há-de vir como um furioso cavalo a relinchar, e subitamente, a quadriga não nos deixa ver a cor. Por detrás desta fórmula há factos, cobradores de impostos, quotidianos difíceis, vidas que ao tempo se dão para acalmar os vendavais, e de tão estanques e gelados com o que aconteceu nas eleições ali em cima, supomos que aquilo é outra coisa. Será certamente, mas com o mesmo prósito de sempre, e talvez seja por isto que encontrei o Homem da Capa Negra.
Somos os Cantos de Maldoror.
Prossegue o Natal em que as meninas adoptam perús para não serem mortos, talvez isto seja verdadeiramente a notícia melhor, coisas tão simples como um sorriso. O resto não retém o nosso entusiasmo mais que breves segundos num ciclo de coisas que começam a perecer.
«Eis que por vezes se ouvem gritos nos silêncios das noites sem estrelas. Embora ouçamos esses gritos, aquele que os solta não está, contudo, aqui perto; pois podem ouvir-se estes gemidos a três léguas de distância, transportados pelo vento de cidade em cidade.»
Lautréamont.
E, por fim, o mundo não é mais que a Cidade.

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