O caso do caso

Claro que importa perceber em que circunstâncias morreu Lai Man Wa, directora-geral dos Serviços de Alfândega, titular de um alto cargo do território e com funções particularmente delicadas. Importa perceber porque é um assunto do interesse público. Por ser do interesse da população, fez bem o Chefe do Executivo em chamar os jornalistas para uma conferência de imprensa sobre o assunto, mesmo que essa conferência não tenha sido mais do que uma declaração, sem direito a perguntas e a respostas. Mas a convocatória para esta conferência de imprensa foi a única coisa que Chui Sai On fez bem no modo como geriu, em termos de comunicação, a morte de Lai Man Wa – o Chefe do Executivo quis antecipar-se a boatos.
Não vale a pena sequer recordar os detalhes das primeiras informações oficiais divulgadas apenas quatro horas depois da descoberta de um corpo não imediatamente identificado na casa de banho pública do jardim dos Ocean Garden. Desde o caso Ao Man Long que, muito provavelmente, o comum mortal de Macau não prestava tanta atenção aos pormenores das notícias, que reproduz com rigor nas conversas reais e virtuais que vai tendo sobre o assunto. Porque se trata de uma questão de interesse público, o público interessou-se.
O interesse do público não terá sido, no entanto, aquele de que o Governo estaria à espera.61115P21T1 Bastou a divulgação de dois ou três detalhes da morte de Lai Man Wa para que a desconfiança se tornasse generalizada: parece não haver vivalma que não tenha ficado de pé atrás com as declarações do Governo sobre a matéria – declarações estas que, admito, poderão corresponder à mais cândida verdade e serem de um enorme rigor científico. Mas a desconfiança não torna o caso mais simples.
Há um caso dentro do caso Lai Man Wa. O caso Lai Man Wa, que continua a suscitar pedidos de investigação aprofundada, é um; depois, há a desconfiança em relação à palavra do Governo, dos governantes e das autoridades policiais – uma desconfiança que não foi mantida em sussurro e, por isso mesmo, levou a uma nova conferência de imprensa e à revelação de vários detalhes sobre o que aconteceu, sem que tal tivesse, de modo algum, contribuído para serenar os ânimos, ou seja, para tornar toda esta história mais convincente.
O caso Lai Man Wa, independentemente do que ainda seja apurado, é preocupante: é de uma vida que estamos a falar e é, além disso, a vida de alguém que jurou servir o território.
O caso dentro do caso, de uma natureza diferente, também deveria levar os dirigentes da terra a dois minutos de reflexão, por ser revelador de duas realidades não menos chatas para quem governa a terra, sobretudo nos tempos que correm e com as tendências que chegam de Pequim para este Outono/ Inverno:
1) O Governo não domina a arte da comunicação. Não sabe fazer a filtragem que é essencial para que seja transmitida a mensagem correcta. Não sabe escolher o tempo certo para falar. Diz de mais para depois dizer de menos. Não é uma novidade. O caso Lai Man Wan só veio provar que se trata de um problema crónico.
2) Muitas das pessoas que vivem em Macau não acreditam na boa-fé do Governo, porque não acreditam na palavra dele. É nos momentos críticos que se testa a relação dos que mandam com os que são mandados. O caso dentro do caso Lai Man Wa não trará ninguém para a rua, não será motivo para manifestações, mas é mais uma pedra num sapato que há muito se tornou apertado.

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