PARTILHAR

Opovo português votou maioritariamente contra a coligação PSD-CDS, contra as mentiras sistemáticas e compulsivas, contra a austeridade e a falsa recuperação económica do país. É certo que não votou de forma ordeira, alinhada, porque a nossa esquerda é um saco de individualidades cujos egos, paradoxalmente, os impedem de se juntar sob a mesma bandeira. No entanto, se abstrairmos as concepções teóricas mais longínquas, existe um fundo comum entre o Bloco de Esquerda, a CDU, o Livre, o Agir e etc.

Esse fundo comum passa, por exemplo, pela salvação do que resta do Estado Social, pelo fim da sangria das privatizações incompreensíveis, pelo aumento do salário mínimo, a reposição das pensões, a fiscalização severa da actividade bancária, entre outras medidas. Esta esquerda não terá dúvidas quanto à necessidade, para salvar a economia das pessoas (não as finanças dos corruptos) de implementar uma série de medidas que, na sua “radicalidade”, não irão além de algum keynesianismo. O fantasma da colectivização, da saída inconsequente do Euro, o papão do “comunismo” já não colhem junto de mentalidade contemporâneas esclarecidas e servem apenas para assustar espectadores de algo similar à Fox News.

Hoje ser de esquerda significa muito, para além da solidariedade e da igualdade de oportunidades, ser por uma fiscalização democrática dos processos político-estatais, das compras e das vendas, dos negócios e das negociatas e, sobretudo, colocar um freio nos desmandos que a alta finança tem provocado nas economias, com o conluio dos boys dos partidos do arco da governação, para não ir mais alto.

Os resultados eleitorais são claros: o povo português votou contra aquilo que entende ser uma política de direita neo-liberal, subvencionada pelos poderes europeus para deixar Portugal à mercê dos investidores e das corporações estrangeiras, pela criação de um país de salários baixos e propriedade em queda. O povo português votou na esquerda e deu-lhe uma maioria.

Só que esse mesmo povo (ou grande parte dele) considera o PS um partido de esquerda, cuja acção não poderia nunca ir contra o Estado Social e que estaria obviamente de acordo com as medidas que acima expusemos como sendo consensuais ao resto da esquerda. Para o eleitorado, o PS não poderia nunca pactuar com esta política de austeridade mais merkeliana que a Merkel, com este desprezo absoluto pelas condições de vida dos cidadãos. Por isso, trinta e tal por cento ainda deram o seu voto a António Costa.

Qual não terá sido a desilusão geral quando o chefe do partido mais votado da esquerda, vem à ribalta no pós-eleitoral reconhecer uma derrota e, mais grave, mostrar-se disposto a permitir um governo de direita, ao invés de negociar um governo à esquerda, contrariando assim a vontade expressa do povo. Terá isto alguma coisa a ver com a passagem de António Costa pelo Bilderberg?

Esta “traição” à vontade popular atira de vez o PS para a insignificância política pois deixa bem claro a todos que, sob a liderança de António Costa, não é alternativa à direita, na medida em que não pretende deixar de comer da farta gamela do arco da governação. PSD-CDS e PS são actores de uma e mesma política: a dos tachos, a do segura-te ao poder a todo o custo, já lá voltamos mas tudo ficará na mesma — alheios que estão os valores, as ideias e as visões de uma sociedade mais justa.

Se Costa alinhar com a direita, ao invés de ser primeiro-ministro de um governo de esquerda, estará a trair os seus eleitores e não se auguram bons tempos para o PS. Os elementos mais direita rapidamente verão as vantagens de alinharem com o PSD-CDS, enquanto que os outros, as bases, preferirão votar no Bloco de Esquerda ou na CDU. Ou seja, está no horizonte a “pasokisação” do Partido Socialista, na medida em que condiciona a sua presença a ser cada vez mais irrelevante no espectro político nacional.

Afinal, é natural: os fenómenos europeus tendem a chegar tarde a Portugal. Mas, em geral, chegam. Esta poderá ter sido mesmo a última vez em que o PS teve oportunidade para trair.

4 COMENTÁRIOS

  1. Não é nada disto que se está a passar: António Costa rejeitou formar um governo com a coligação de direita, contrariando o Presidente da República e diz que vai falar com TODOS os partidos e não só com os do governo. Cavaco e o Governo estão em fila de espera. Ele também disse sempre e continua a dizer que não vai alinhar com mais medias de austeridade deste governo. Portanto, tudo ao contrário do que aqui dizem. Mais jornalismo sério, por favor.

    • Cara Maria,

      Este artigo é um editorial. Não é uma peça de jornalismo. Há uma clara diferença entre um artigo de opinião e um artigo noticioso. “Jornalismo sério” aplica-se aos artigos noticiosos. Os editoriais estão carregados de opinião e ironias. Daí estar escrito “editorial”. Para que as pessoas percebam as diferenças. Cumprimentos e gratos pelo seu comentário.

    • Se ele alinha-se nessa Coligaçao iriamos ficar na mesma… Assim juntou-se com os da Esquerda. Pode até nao dar em nada. Mas algumas medidas ja tomaram em tao poucos dias, como os outros nao o fizeram em anos…
      Vamos Esperar e ver se a Coligaçao de Esquerda nao entra em Fusão…

  2. Com o António Costa vamos esperar para ver que Pais vamos ter.. Pelos menos salario temos aumento, pouco e graduakmente ate ao fim da legislatura isso temos.. Repor salarios da Funçao Publica… Reor os doedecimos… Esperamos para ver. Aumentos das reformas mais baixas. Pensoes salarios….
    Reformas, pelo menos uma Vida Digna para quem tem muito pouco, podemos esperar. Mas como eu sou como Sao Tome. Ver para crer…

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here