Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteAna Mendes Godinho, directora de estratégia da Universidade Nova de Lisboa: “Macau vai ser mercado de formação” A antiga ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social de Portugal esteve em Macau, em Junho, para assinar, em representação da Universidade Nova de Lisboa, um acordo para intercâmbio de alunos com a Universidade de Turismo de Macau. Ao HM, Ana Mendes Godinho destaca a evolução do ensino superior e as esperanças que a cidade universitária de Hengqin suscita Com que impressões ficou do ensino de Macau e Hong Kong nesta última visita? Foi a minha quarta vez em Macau. Notei uma grande diferença nestes últimos anos do ponto de vista económico, e naturalmente no desenvolvimento da indústria turística. Mas muito mais interessante foi ver a evolução da dimensão da educação, e a forma como a Universidade de Turismo de Macau (UTM) se afirmou e se transformou ao longo dos tempos. É interessante ver que a UTM tem, aproximadamente, a mesma data de criação da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril [ESHTE, integrada na Universidade Nova de Lisboa]. Mesmo estando tão distantes, [as duas instituições de ensino superior] acabaram por ter percursos muito interessantes e a mesma vontade inicial de ter a capacidade de uma especialização e formação de pessoas para a área do turismo. Foi reconhecido que é fundamental ter pessoas qualificadas na área do turismo para a actividade crescer em valor. É muito interessante ver quase dois projectos gémeos que agora se voltam a encontrar nesta parceria, que queremos que cresça mais. Esteve em Macau a propósito do 4º Fórum de Reitores de Universidades da China e dos Países de Língua Portuguesa e também do 35º Encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Sim. Mas elogio a forma como a UTM evoluiu do ponto de vista das instalações, e neste momento tem um novo hotel-escola extraordinário. Destaco também o investimento que fizeram na qualificação e investimento dos currículos da escola, alinhando-se também com as necessidades do turismo. Concretamente, o que poderemos esperar do protocolo assinado a 15 de Junho? Deu-se a assinatura do protocolo para o intercâmbio de alunos e professores, mas também para o reconhecimento de duplas certificações de alunos que estudem na ESHTE, agora no novo contexto com a Universidade Nova de Lisboa. Portanto, vai haver a dupla certificação de cursos e mestrados, mas ficou aberto um caminho para uma maior presença física nos dois campus. Refere-se ao programa de bolsas de estudo que arranca já neste ano lectivo. Também falo disso. Acho que é um programa simbólico, pois mostra a forma como valorizamos a experiência que os alunos possam ter na UTM. A UTM preparou um curso de uma semana para os alunos que entrarem com as melhores notas no ano lectivo 2026-2027 nas cinco licenciaturas da ESHTE, e que terão a oportunidade de ir uma semana, em Setembro, à UTM com uma bolsa oferecida pela Universidade Nova de Lisboa. [Esse curso] inclui a cultura e história do património de Macau, a gastronomia e uma dimensão associada à indústria do jogo. Pode ser muito interessante para os alunos terem essa experiência. De que forma pode Macau trazer novas perspectivas à Universidade Nova na área do turismo e do jogo? As áreas que identificamos para projectos conjuntos nos próximos tempos são essencialmente o turismo e tecnologia. Macau, neste momento, está com uma evolução muitíssimo grande do ponto de vista de investimento tecnológico, até associado a outras áreas e outras universidades, e também na área das questões de turismo, saúde e longevidade. Portanto, estas foram duas áreas-chave identificadas para projectos conjuntos a desenvolver, no novo campus em Hengqin. Portanto, na futura cidade universitária. Sim. Portanto, Macau e Portugal são plataformas de ligação à China, por um lado, e à Europa. Diria que somos este entreposto de ligação aos países de língua portuguesa e temos esta enorme oportunidade de internacionalização das nossas escolas. Quando fala na área da saúde, recentemente a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura de Macau falou na aposta do turismo de saúde no território. Esta questão foi falada na visita, ou ficou com a percepção deste investimento? Fiquei com a percepção de que há um forte investimento e que é dada prioridade à dimensão da saúde em Macau. Na articulação entre as duas escolas identificámos como essencial a forma como o investimento feito nessa articulação entre turismo e saúde também responde ao desafio da longevidade, mas como qualidade de vida. [Observámos] como esta relação entre turismo e saúde pode ser um elemento diferenciador. Portanto, essa dimensão da qualidade de vida associada à alimentação, gastronomia e a estilos de vida, onde o turismo pode ser um elemento diferenciador, é algo em que Portugal está a investir muito. Diz que a UTM tem investido em tecnologia. De que falamos, concretamente? Falamos essencialmente de como a tecnologia pode acrescentar, por um lado, valor à indústria do turismo, e também de como pode ajudar a que haja uma maior eficiência e produtividade no turismo. Isso permite aumentar a qualidade de vida dos trabalhadores e os salários. Se nós hoje não tivermos capacidade para sermos mais eficientes, retirando funções que, hoje em dia, não acrescentam valor e são feitas pelas pessoas, atribuindo-as à tecnologia, podemos libertar trabalhadores da área do turismo para funções mais qualificadas. Esse cenário não poderia levar ao desemprego, por exemplo? Não é necessário equilíbrio? Naturalmente que é evidente que tem que haver um equilíbrio, mas nós também queremos que haja uma maior dignificação de quem trabalha no turismo, colocando nas funções dos humanos aquilo que acrescenta mais valor e retirando aquilo que não acrescenta valor e que muitas vezes perturba – o que é mais mecânico, funções desenvolvidas à noite e que tiram qualidade de vida. Temos de ser inteligentes na forma como utilizamos e colocamos a tecnologia ao serviço do turismo. Mas temos de liderar esse processo por antecipação e esse é o grande desafio: planear, preparar, sermos nós a comandar a utilização da tecnologia ao serviço do que interessa, e não nos deixarmos ir por um efeito não controlável e massificado que não interessa. É nesta parte que a academia é fundamental, pois tem de ter a capacidade para antecipar. Refiro agora um programa concreto que lancei quando era ministra, em 2020, o “Programa UPskill”, em que as empresas tecnológicas fizeram um levantamento das competências necessárias para os próximos cinco anos e, em parceria com as universidades, fizeram acções para trabalhadores. Conheci pessoas que fizeram estas formações e que tiveram uma total transformação de vida, e é isso que o turismo está a precisar em todo o mundo, essa antecipação inteligente. É também por isso que nos queremos posicionar internacionalmente, e com parcerias como a que temos com a UTM, podemos ser uma referência na capacidade de antecipação e de reconversão de competências, que é necessária. Falo não apenas dos que se estão a formar, mas também na reconversão de quem já está no mercado de trabalho. Tendo em conta a realidade de Macau, com o sector do jogo, acredita numa substituição de funções pela tecnologia, por exemplo? A tecnologia está numa aceleração tão grande que o que achamos hoje que vai acontecer amanhã já é passado. Mas basta pensarmos nas soluções de robôs que neste momento estão a surgir e que, por exemplo, conseguem entregar e distribuir produtos, realizar serviços e que estão customizados à medida do negócio. E, portanto, certamente que nessa área haverá uma evolução enorme. Haverá certamente uma evolução em termos da gestão de informação e dados, não apenas do jogo, mas das reservas hoteleiras, da gestão em termos de “revenue management”, gestão de clientes. Temos de ser inteligentes para identificar as áreas onde, neste momento, estamos a desperdiçar valor, perdendo tempo em tarefas burocráticas e que, com a tecnologia, se pode acrescentar valor ao território. Esse é o grande exercício a fazer. Macau é um território pequeno, e vai firmar-se cada vez mais como um mercado de formação e não como um mercado que vai absorver todos os licenciados na área do turismo. Portanto, o futuro passa mesmo por criar parcerias, para que Macau seja um território que forma pessoas no turismo. É evidente que Macau tem uma grande oportunidade para a especialização na área da educação, sendo uma porta aberta para toda a China. A Universidade Nova também celebrou acordos, nesta visita, com a Universidade Politécnica de Hong Kong e a Universidade Metropolitana de Hong Kong. Trata-se de um território com uma dimensão diferente na área do turismo. A abordagem que fizemos com Hong Kong resultou do facto de a Universidade Politécnica de Hong Kong ter uma semelhança muito grande com a Universidade Nova de Lisboa em termos de escolas. Com a UTM, o acordo foi direccionado para o turismo, mas com a Universidade Politécnica de Hong Kong o acordo foi mais transversal a outras dimensões. Vimos, claramente, da parte da Universidade Politécnica de Hong Kong, um grande interesse em ter em Portugal uma porta aberta para uma interacção, pois o nosso país começa a ser um espaço de referência na área da educação internacional, nomeadamente pelo peso de alunos estrangeiros que a Nova tem. Cerca de 22 por cento dos alunos são estrangeiros. Algumas universidades portuguesas têm celebrado acordos para marcarem presença na futura cidade universitária de Hengqin. Considera que o projecto uma porta de entrada para o ensino superior português no mercado asiático? Acho [um projecto] muito interessante. Havendo uma história partilhada com Macau, torna-se mais fácil o estabelecimento dessas ligações. Vejo Hengqin como uma porta segura e muito interessante do ponto de vista de parcerias estratégicas para o desenvolvimento da interdisciplinariedade das universidades portuguesas. Parece-me que é uma oportunidade muito interessante para que as universidades portuguesas tenham acesso a alunos asiáticos, numa lógica de diversificação de mercados.
Andreia Sofia Silva PolíticaUTM | Sam Hou Fai pede maior alinhamento com Hengqin O Chefe do Executivo defendeu que a Universidade de Turismo de Macau deve “intensificar a organização e planeamento estratégico” tendo em conta a futura Cidade (Universitária) de Educação Internacional de Macau e Hengqin, fazendo a devida actualização pedagógica O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, deixou recados à Universidade de Turismo de Macau (UTM) na cerimónia de graduação de estudantes, que aconteceu na passada quinta-feira. Os recados vão no sentido de adaptação ao futuro do ensino e trabalho, passando por Hengqin. “Esperamos que a Universidade de Turismo de Macau intensifique a sua organização e planeamento estratégico no sentido de acelerar a sua integração na estrutura da Cidade (Universitária) de Educação Internacional de Macau e Hengqin”, disse no seu discurso. O governante pediu à UTM que “aprofunde a colaboração entre [as áreas de] indústria-universidade-investigação”, e que amplie acordos no que diz respeito a “intercâmbios académicos, estágios práticos, treino e inovação científica e tecnológica”. Outro recado deixado pelo Chefe do Executivo surgiu no sentido de a UTM dever estar “estreitamente alinhada com as necessidades do desenvolvimento nacional e da RAEM, optimizando continuamente o conteúdo de disciplinas e a configuração de cursos”, tendo em conta o contexto de integração regional crescente de Macau com a província de Guangdong. A ideia é que haja “um alinhamento preciso entre a formação de talentos e o desenvolvimento industrial, oferecendo um sólido suporte humano e intelectual ao desenvolvimento duradouro da nação e da RAEM”. Quase metade com trabalho Num outro comunicado divulgado pelo Gabinete de Comunicação Social, são citados dados de empregabilidade dos graduados da UTM, tendo em conta um inquérito realizado no ano lectivo de 2024/2025. Assim, “dos diplomados que terminaram a licenciatura, 48,5 por cento começaram a trabalhar meses após a graduação”, pelo que quase metade dos licenciados consegue emprego pouco tempo após terminar o curso, segundo a instituição de ensino superior. Além disso, “33,7 por cento optaram por prosseguir os seus estudos”, sendo que, dos alunos que seguem para o nível de mestrado, “66 por cento começaram a trabalhar meses após a graduação”. De destacar que apenas 8 por cento destes alunos “decidiram continuar a estudar”, ou seja, partindo para a fase de doutoramento. No discurso da cerimónia de graduação, Sam Hou Fai lembrou que a UTM já formou “sucessivas gerações de profissionais altamente qualificados, dotados de sólidos conhecimentos técnicos, boas competências gerais e visão internacional”. “Muitos dos ex-alunos encontram-se activamente na linha da frente da indústria cultural e turística, em Macau e no exterior, contribuindo de forma significativa e positiva para o desenvolvimento do turismo local e para a diversificação adequada da economia”, acrescentou o governante.
Hoje Macau PolíticaUTM | Criada empresa de consultadoria e promoção cultural A Universidade de Turismo de Macau (UTM) criou uma nova empresa que vai dedicar-se ao exercício de consultadoria em áreas como turismo, cultura, investigação, cursos de formação e ainda gestão de investimentos comerciais. A empresa foi baptizada Desenvolvimento de Cultura e Turismo da Universidade de Turismo de Macau e a informação consta no portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos. A UTM é a única accionista, com uma quota de 500 mil patacas. O Conselho de Administração é constituído, por escolha de Sam Hou Fai, por Diamantina Luíza do Rosário Sá Coimbra, como presidente, Fátima Henrique Boyol Ngan e Cindia Lam, que desempenham as funções em regime de cumulação de funções. Lau Vai Lan é a fiscal única e vai receber 56.400 patacas por ano. Os restantes membros do conselho de administração não têm prevista remuneração fixa.
João Santos Filipe SociedadeUniversidade de Turismo de Macau cria empresa na Ilha da Montanha A Universidade de Turismo de Macau (UTM) criou uma empresa no Interior para a prestação de serviços de educação e consultadoria na Zona de Cooperação Aprofundada entre Macau e Cantão. A informação consta do portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos (DSSGAP). Segundo a informação oficial, a denominada “Companhia de Consultadoria em Educação da Universidade de Turismo de Macau na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin” vai poder ministrar cursos no Interior, dado que terá como objecto “actividades de testes e avaliações no domínio da educação e ensino”, assim como “formação empresarial”. Nos meses mais recentes, as instituições públicas de Macau têm aberto representações no Interior, principalmente na Zona de Cooperação Aprofundada, como aconteceu com a Universidade de Macau, que criou uma empresa semelhante, com o mesmo objecto social, para gerir o futuro campus, no outro lado da fronteira, cujo terreno teve um custo de 946 milhões de renminbis. Além das actividades de educação, a empresa da UTM vai dedicar-se à consultoria na área da educação, desenvolvimento, intercâmbio e transferência de tecnologia, investigação sobre políticas e regulamentos, realização de conferências e exposições, gestão empresarial e organização de actividades de intercâmbio cultural e artístico. A empresa conta com um capital social de 100 mil renminbis, nesta fase, que poderá ser aumentado no futuro, de acordo com os investimentos planeados. A UM também iniciou a actividade com um capital de 100 renminbis que foi depois aumentado para 4 mil milhões. Vice-reitora no comando Segundo a informação oficial, a nova empresa tem como presidente do Conselho de Administração Loi Kim Ieng, que é actualmente a vice-reitora da UTM. A administração é completada pelos administradores Max Zhao Wei Bing, responsável pela Faculdade de Turismo Criativo e Tecnologias Inteligentes, e Clara Lei Weng Si, responsável pela Faculdade de Gestão de Hospitalidade Inovadora. Nenhum dos membros do Conselho de Administração é remunerado, ao contrário do que acontece com Lau Vai Lan, fiscal da empresa, que tem uma remuneração de 56.400 patacas por ano.