Entrevista MancheteAna Mendes Godinho, directora de estratégia da Universidade Nova de Lisboa: “Macau vai ser mercado de formação” Andreia Sofia Silva - 27 Jul 2026 A antiga ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social de Portugal esteve em Macau, em Junho, para assinar, em representação da Universidade Nova de Lisboa, um acordo para intercâmbio de alunos com a Universidade de Turismo de Macau. Ao HM, Ana Mendes Godinho destaca a evolução do ensino superior e as esperanças que a cidade universitária de Hengqin suscita Com que impressões ficou do ensino de Macau e Hong Kong nesta última visita? Foi a minha quarta vez em Macau. Notei uma grande diferença nestes últimos anos do ponto de vista económico, e naturalmente no desenvolvimento da indústria turística. Mas muito mais interessante foi ver a evolução da dimensão da educação, e a forma como a Universidade de Turismo de Macau (UTM) se afirmou e se transformou ao longo dos tempos. É interessante ver que a UTM tem, aproximadamente, a mesma data de criação da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril [ESHTE, integrada na Universidade Nova de Lisboa]. Mesmo estando tão distantes, [as duas instituições de ensino superior] acabaram por ter percursos muito interessantes e a mesma vontade inicial de ter a capacidade de uma especialização e formação de pessoas para a área do turismo. Foi reconhecido que é fundamental ter pessoas qualificadas na área do turismo para a actividade crescer em valor. É muito interessante ver quase dois projectos gémeos que agora se voltam a encontrar nesta parceria, que queremos que cresça mais. Esteve em Macau a propósito do 4º Fórum de Reitores de Universidades da China e dos Países de Língua Portuguesa e também do 35º Encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Sim. Mas elogio a forma como a UTM evoluiu do ponto de vista das instalações, e neste momento tem um novo hotel-escola extraordinário. Destaco também o investimento que fizeram na qualificação e investimento dos currículos da escola, alinhando-se também com as necessidades do turismo. Concretamente, o que poderemos esperar do protocolo assinado a 15 de Junho? Deu-se a assinatura do protocolo para o intercâmbio de alunos e professores, mas também para o reconhecimento de duplas certificações de alunos que estudem na ESHTE, agora no novo contexto com a Universidade Nova de Lisboa. Portanto, vai haver a dupla certificação de cursos e mestrados, mas ficou aberto um caminho para uma maior presença física nos dois campus. Refere-se ao programa de bolsas de estudo que arranca já neste ano lectivo. Também falo disso. Acho que é um programa simbólico, pois mostra a forma como valorizamos a experiência que os alunos possam ter na UTM. A UTM preparou um curso de uma semana para os alunos que entrarem com as melhores notas no ano lectivo 2026-2027 nas cinco licenciaturas da ESHTE, e que terão a oportunidade de ir uma semana, em Setembro, à UTM com uma bolsa oferecida pela Universidade Nova de Lisboa. [Esse curso] inclui a cultura e história do património de Macau, a gastronomia e uma dimensão associada à indústria do jogo. Pode ser muito interessante para os alunos terem essa experiência. De que forma pode Macau trazer novas perspectivas à Universidade Nova na área do turismo e do jogo? As áreas que identificamos para projectos conjuntos nos próximos tempos são essencialmente o turismo e tecnologia. Macau, neste momento, está com uma evolução muitíssimo grande do ponto de vista de investimento tecnológico, até associado a outras áreas e outras universidades, e também na área das questões de turismo, saúde e longevidade. Portanto, estas foram duas áreas-chave identificadas para projectos conjuntos a desenvolver, no novo campus em Hengqin. Portanto, na futura cidade universitária. Sim. Portanto, Macau e Portugal são plataformas de ligação à China, por um lado, e à Europa. Diria que somos este entreposto de ligação aos países de língua portuguesa e temos esta enorme oportunidade de internacionalização das nossas escolas. Quando fala na área da saúde, recentemente a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura de Macau falou na aposta do turismo de saúde no território. Esta questão foi falada na visita, ou ficou com a percepção deste investimento? Fiquei com a percepção de que há um forte investimento e que é dada prioridade à dimensão da saúde em Macau. Na articulação entre as duas escolas identificámos como essencial a forma como o investimento feito nessa articulação entre turismo e saúde também responde ao desafio da longevidade, mas como qualidade de vida. [Observámos] como esta relação entre turismo e saúde pode ser um elemento diferenciador. Portanto, essa dimensão da qualidade de vida associada à alimentação, gastronomia e a estilos de vida, onde o turismo pode ser um elemento diferenciador, é algo em que Portugal está a investir muito. Diz que a UTM tem investido em tecnologia. De que falamos, concretamente? Falamos essencialmente de como a tecnologia pode acrescentar, por um lado, valor à indústria do turismo, e também de como pode ajudar a que haja uma maior eficiência e produtividade no turismo. Isso permite aumentar a qualidade de vida dos trabalhadores e os salários. Se nós hoje não tivermos capacidade para sermos mais eficientes, retirando funções que, hoje em dia, não acrescentam valor e são feitas pelas pessoas, atribuindo-as à tecnologia, podemos libertar trabalhadores da área do turismo para funções mais qualificadas. Esse cenário não poderia levar ao desemprego, por exemplo? Não é necessário equilíbrio? Naturalmente que é evidente que tem que haver um equilíbrio, mas nós também queremos que haja uma maior dignificação de quem trabalha no turismo, colocando nas funções dos humanos aquilo que acrescenta mais valor e retirando aquilo que não acrescenta valor e que muitas vezes perturba – o que é mais mecânico, funções desenvolvidas à noite e que tiram qualidade de vida. Temos de ser inteligentes na forma como utilizamos e colocamos a tecnologia ao serviço do turismo. Mas temos de liderar esse processo por antecipação e esse é o grande desafio: planear, preparar, sermos nós a comandar a utilização da tecnologia ao serviço do que interessa, e não nos deixarmos ir por um efeito não controlável e massificado que não interessa. É nesta parte que a academia é fundamental, pois tem de ter a capacidade para antecipar. Refiro agora um programa concreto que lancei quando era ministra, em 2020, o “Programa UPskill”, em que as empresas tecnológicas fizeram um levantamento das competências necessárias para os próximos cinco anos e, em parceria com as universidades, fizeram acções para trabalhadores. Conheci pessoas que fizeram estas formações e que tiveram uma total transformação de vida, e é isso que o turismo está a precisar em todo o mundo, essa antecipação inteligente. É também por isso que nos queremos posicionar internacionalmente, e com parcerias como a que temos com a UTM, podemos ser uma referência na capacidade de antecipação e de reconversão de competências, que é necessária. Falo não apenas dos que se estão a formar, mas também na reconversão de quem já está no mercado de trabalho. Tendo em conta a realidade de Macau, com o sector do jogo, acredita numa substituição de funções pela tecnologia, por exemplo? A tecnologia está numa aceleração tão grande que o que achamos hoje que vai acontecer amanhã já é passado. Mas basta pensarmos nas soluções de robôs que neste momento estão a surgir e que, por exemplo, conseguem entregar e distribuir produtos, realizar serviços e que estão customizados à medida do negócio. E, portanto, certamente que nessa área haverá uma evolução enorme. Haverá certamente uma evolução em termos da gestão de informação e dados, não apenas do jogo, mas das reservas hoteleiras, da gestão em termos de “revenue management”, gestão de clientes. Temos de ser inteligentes para identificar as áreas onde, neste momento, estamos a desperdiçar valor, perdendo tempo em tarefas burocráticas e que, com a tecnologia, se pode acrescentar valor ao território. Esse é o grande exercício a fazer. Macau é um território pequeno, e vai firmar-se cada vez mais como um mercado de formação e não como um mercado que vai absorver todos os licenciados na área do turismo. Portanto, o futuro passa mesmo por criar parcerias, para que Macau seja um território que forma pessoas no turismo. É evidente que Macau tem uma grande oportunidade para a especialização na área da educação, sendo uma porta aberta para toda a China. A Universidade Nova também celebrou acordos, nesta visita, com a Universidade Politécnica de Hong Kong e a Universidade Metropolitana de Hong Kong. Trata-se de um território com uma dimensão diferente na área do turismo. A abordagem que fizemos com Hong Kong resultou do facto de a Universidade Politécnica de Hong Kong ter uma semelhança muito grande com a Universidade Nova de Lisboa em termos de escolas. Com a UTM, o acordo foi direccionado para o turismo, mas com a Universidade Politécnica de Hong Kong o acordo foi mais transversal a outras dimensões. Vimos, claramente, da parte da Universidade Politécnica de Hong Kong, um grande interesse em ter em Portugal uma porta aberta para uma interacção, pois o nosso país começa a ser um espaço de referência na área da educação internacional, nomeadamente pelo peso de alunos estrangeiros que a Nova tem. Cerca de 22 por cento dos alunos são estrangeiros. Algumas universidades portuguesas têm celebrado acordos para marcarem presença na futura cidade universitária de Hengqin. Considera que o projecto uma porta de entrada para o ensino superior português no mercado asiático? Acho [um projecto] muito interessante. Havendo uma história partilhada com Macau, torna-se mais fácil o estabelecimento dessas ligações. Vejo Hengqin como uma porta segura e muito interessante do ponto de vista de parcerias estratégicas para o desenvolvimento da interdisciplinariedade das universidades portuguesas. Parece-me que é uma oportunidade muito interessante para que as universidades portuguesas tenham acesso a alunos asiáticos, numa lógica de diversificação de mercados.