FRC | Porcelanas de Lei Iat Po expostas até dia 14

Chama-se “Regresso à Navegação” e é a mais recente exposição patente na galeria da Fundação Rui Cunha disponível para visita gratuita desde terça-feira. Esta é a oportunidade para ver peças de porcelana de Lei Iat Po oriundas de Cantão, uma zona conhecida pela indústria tradicional de cerâmica

 

A Fundação Rui Cunha (FRC) inaugurou esta terça-feira a exposição de porcelana de Macau e Guangzhou “Return to Navigation” [Regresso à Navegação], da autoria do artista Lei Iat Po (李溢坡). Na galeria, estarão disponíveis 40 peças de porcelana colorida da região de Cantão, uma indústria tradicional com origem na dinastia Qing e desenvolvida sobretudo para exportação. Esta indústria ganhou popularidade entre as cortes europeias e a aristocracia ocidental, tendo sido um factor importante na promoção da cultura chinesa no exterior a partir dos séculos XVIII e XIX.

Segundo uma nota da FRC, a porcelana de Cantão – também conhecida por Guangcai –, é famosa pelas cores fortes e vibrantes, os padrões complexos e intricados, e as aplicações douradas, pintadas à mão e ricamente decoradas.

Sendo uma indústria típica do sul da China, ganhou vitalidade também em Hong Kong e Macau no passado século XX, nomeadamente a partir das invasões dos anos 1930 e durante a instabilidade política do continente. Muitas fábricas mudaram-se para Macau e Hong Kong o que fez disparar a produção no sul da China, nomeadamente nos anos 50, graças a uma maior procura internacional destas peças de exotismo oriental a crescer na fase do pós-Guerra.

A porcelana de Cantão foi ao longo dos séculos um exemplo bem-sucedido de fusão entre o Oriente e o Ocidente, contribuindo para o vantajoso intercâmbio cultural. Em Macau, no auge dos anos 1960, existiam dezenas de fábricas. Mas nos anos 1980 a produção regressava ao continente, bem mais competitivo em mão de obra e custos, no rescaldo da Revolução Cultural.

Arte familiar

Lei Iat Po nasceu em Macau em 1954, tendo revelado um interesse pela arte da porcelana colorida devido ao negócio de família. Este foi influenciado desde a infância pelo pai, que produziu e exportou peças para os mercados europeu e americano. Lei Iat Po trabalhou na Fábrica de Bases de Madeira Guangcai do seu pai e, mais tarde, na Fábrica de Porcelana Colorida Guangcai.

Sob a orientação do progenitor, seguiu o famoso mestre Zhao Zhuo para aprender a tecnologia de controlo da queima no forno. Mais tarde, aprenderia sobre técnicas de pintura artesanal e coloração de porcelana.

Com curadoria de Margareth Lei Siu Heng, a colecção disponível na FRC apresenta peças de valor inestimável, pela qualidade e grau de complexidade na execução, revelando os anos de aperfeiçoamento e dedicação a esta técnica centenária pelo artista, que pretende continuar a divulgar a sua arte e a preservar o importante passado histórico. As obras vão estar expostas até ao dia 14 de Março.

6 Mar 2025

Alexandre Pais, director do Museu Nacional do Azulejo: “Portugueses não tinham o segredo da porcelana” 

Estudioso da influência da porcelana chinesa na cerâmica portuguesa, Alexandre Pais é um dos contribuídores do livro “Rotas da Cerâmica”, que conta a história do comércio da porcelana e da sua produção em Jingdezhen, na China. O livro editado pelo Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro também aborda o período de grande exportação para a Europa, sobretudo para Portugal, a partir dos séculos XVI e XVII

 

 

Como surgiu a possibilidade de participar nesta obra?

Já tinha tido contactos com o professor Carlos Morais e fizemos uma série de projectos. O meu texto é sobre a integração da faiança portuguesa de inspiração oriental e é um resumo da minha tese de doutoramento. O livro, em si, é importante porque nos apresenta o ponto de vista do Oriente em relação à porcelana. Normalmente, tudo o que existe é sempre do ponto de vista do Ocidente. Pelo que li, há muita bibliografia oriental à qual os ocidentais não têm acesso, incluindo sobre escavações arqueológicas.

Como chega porcelana chinesa a Portugal ao ponto de inspirar a nossa cerâmica?

Ela entra nos finais do século XV e início do século XVI, após a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Portanto, com Vasco da Gama chega logo uma série de porcelanas. Ela depois começa a ser comercializada em grande quantidade, e Portugal é o primeiro país europeu a comercializar grandes quantidades de porcelana, mas também outro tipo de materiais e objectos. A porcelana entra de facto no gosto de toda a sociedade, com objectos para todas as bolsas, menos para as classes mais desfavorecidas.

Até à burguesia, digamos assim?

Do que chamamos burguesia, que na altura não existia, mas mercadores, classes um pouco mais abastadas que não pertenciam à nobreza. A porcelana é disseminada por todo o mercado europeu, e depois, quando perdemos a independência e ficamos sob alçada da coroa espanhola, outros países começam a cobiçar as rotas portuguesas do Oriente, nomeadamente os holandeses. [Chega mesmo a haver] a apreensão de diversas caravelas que transportavam porcelanas, que depois são vendidas no mercado de Amesterdão, e a partir daí a Holanda começa a querer o caminho e perdemos essa rota comercial pela associação com Espanha. Não quer dizer que deixe de entrar porcelana em Portugal, mas entra pouca, e não temos já essa importância. Não temos provas, mas parece-nos que as olarias portuguesas começam a produzir um tipo de decoração que, não sendo porcelana, invoca o Oriente. Existe um produto genuíno que é mais raro e caro, mas os portugueses começam a consumir esta faiança que tem qualquer coisa de exótico. E é por aí que vai sendo feita esta produção. É curioso porque surge um pouco também como contraponto às produções espanholas, que são diferentes. Depois também terá algumas componentes exóticas. A sensação que tenho é que a nossa faiança surge como contraponto ao que é produzido na península e como resposta à perda da rota e da quantidade de porcelana que vinha para a Europa.

O domínio espanhol levaria a porcelana chinesa também para Espanha.

Não estudei muito esse ponto, mas é óbvio, porque os espanhóis, ao ficarem com o reino português, ficaram com todas as rotas comerciais. Depois havia a rota de Manila para compensar a questão das rotas holandesas, e a porcelana e os espanhóis também faziam encomendas específicas à China, como os portugueses anteriormente também faziam. Mas Espanha acaba por beneficiar do facto de nos ter sob sua alçada.

Depois de 1640 como ficou o comércio da porcelana? Reforçou-se, houve uma expansão no mercado?

Não inicialmente, porque os primeiros 20 anos não foram fáceis. Falamos de 1640, mas o processo da restauração da independência foi longo. Isso nota-se pela própria produção de faiança: numa fase inicial, ainda tenta acompanhar a questão do exotismo, mas começamos a notar uma certa decadência. À medida que vai havendo dinheiro e reforço das rotas comerciais portuguesas, e como depois começa a ser possível encomendar directamente na China, a produção passa a ser completamente diferente da que era no século XVI. Aí era o azul e branco, mas a partir desta altura, em finais do século XVII, começamos a ter as chamadas famílias, verde, rosa. Começamos a ver, como há uma alteração do gosto e da própria utilização, pois a sociedade torna-se mais complexa, uma mesa portuguesa começa a ter mais produtos, surgem mais exigências em termos de higiene, por exemplo. Aí começam a ser encomendadas à China uma série de formas diferentes e objectos com outras características, surgem as peças brasonadas. Com o século XVIII dá-se uma grande expansão da loiça brasonada para o mercado interno, e aí a faiança deixa de ter qualquer importância.

Além do brasão, que elementos destaca nessas peças?

Algumas obras são encomendas específicas com elementos relacionados com os locais a que se destinam, como é o caso das casas religiosas. As grandes alterações prendem-se com a morfologia, a quantidade de peças que são encomendas com novas utilidades. São produzidas terrinas com a forma de animais, vegetais e frutas, o que tem a ver com a cenografia barroca das mesas temáticas.

Eram, portanto, feitas encomendas específicas aos fabricantes chineses.

Sim, mas isso já no século XVI. Havia motivos que eram levados para o centro produtor e que às vezes não eram bem interpretados. Mostrava-se um motivo e ele era invertido, por exemplo. Há erros porque o oleiro chinês não sabia interpretar bem as instruções, frases ou palavras invertidas, por exemplo.

O livro fala dos centros de produção na China, nomeadamente em Jingdezhen. Era uma importante actividade económica na altura?

Sim. Jingdezhen é uma região quase totalmente dedicada à olaria. Havia mais centros produtores na China, mas esta região era o ponto principal. Produziam também para outros centros na Ásia, mas era em Jingdezhen que estavam os centros de produção imperiais. Havia loiça para a corte, para o imperador e para exportação. Este centro ainda hoje está activo e replica muitas produções antigas.

O que revela o comércio de porcelana sobre as ligações entre Portugal e a China?

O Oriente sempre foi um foco de interesse para o Ocidente. Os portugueses são um povo muito curioso em relação a outras culturas e povos. Nota-se essa predisposição até na nossa expansão. O Oriente era uma civilização muito requintada e avançada e suscitava curiosidade. Ter objectos de uma cultura que não é próxima, com uma noção de exotismo, é sempre um factor apetecível, e dá uma dimensão mais sofisticada a quem a possui. Despertou-me curiosidade, na caracterização da cidade de Lisboa no século XVII e dos tipos de população, com pessoas oriundas da Índia, do Japão, da China. A convivência era relativamente estável entre essas populações e a população portuguesa.

Nós mostrávamos as nossas faianças no Oriente? Os missionários levavam algumas peças?

Suponho que seria algo residual. Tentei perceber se na China e Japão haveria faiança portuguesa, e tenho informação escrita de que haveria alguns exemplares em Hiroshima, mas não tenho mais dados.

Portugal importava mais porcelana chinesa do que outros países europeus?

Não sei se isso está estudado. Inicialmente, no século XVI, até à perda da rota comercial, tínhamos mais comércio com o exterior. Éramos os maiores importadores de produtos chineses, nomeadamente de porcelana. Nos séculos XVII e XVIII já existiam as companhias orientais holandesas e inglesas. Tendo em conta a quantidade de serviços de porcelana brasonados que há em Portugal dessa época, mostra que tínhamos um papel muito destacado na importação.

Ainda se encontram influências dessa ligação na cerâmica de hoje em dia, por exemplo?

Não. Essa influência dura todo o século XVII, e um dos últimos anos começa a ser já muito residual. A partir do momento em que retomam as rotas comerciais com a China, no final desse século, a faiança volta a ser um produto para classes menos endinheiradas, sem necessidade de grande decoração. Nessa altura as olarias portuguesas começam a trabalhar mais no azulejo. A cerâmica passou para segundo plano.

Há visões do Oriente no azulejo português, por exemplo?

Sim, visões da China e do Japão feitas com base em gravuras europeias. Muitas retratam um quotidiano que é imaginado, sempre com a ideia do exótico. Não é o retrato real de uma sociedade, mas a fantasia sobre o que é a vida do outro. Falamos de uma sociedade que, para nós, era pagã, adorava vários deuses, tinha hábitos estranhos. Mas ainda no século XVII, encontramos alguma influência exótica no azulejo português, embora não seja determinante. No caso da faiança, essa influência está muito presente inicialmente, mas progressivamente o que interessa é uma recriação de elementos que vão sendo aplicados na faiança. Depois adicionam-se elementos ocidentais, criando-se um produto híbrido. Nós não tínhamos o segredo da porcelana.

Porquê?

Não se percebia que material era, e pensava-se que a matéria de porcelana era um tipo de búzio específico. A produção de porcelana nunca foi privilegiada porque tínhamos imenso comércio com a China e, provavelmente, terão pensado que não valeria a pena produzir em Portugal. Demora algum tempo até a Vista Alegre começar a produzir porcelana, já no século XIX, ainda que o segredo do material tivesse sido descoberto antes.

 

A história do comércio 

Editado pelo Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro, “Rotas da Cerâmica” conta com a participação de diversos autores, com a edição por Carlos Morais e Ying Han. Além da colaboração de Alexandre Pais, o livro tem ainda a colaboração de Guo Mo, da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau, que aborda “os motivos chineses na faiança portuguesa: três exemplos de ‘venerar sem subserviência’”. Destaque ainda para o capítulo dedicado à “expansão e influência da cultura da cerâmica chinesa no sudeste asiático”, da autoria de Han Yeliang e Zhi Rui, da Universidade de Línguas Estrangeiras de Dalian, na China.

9 Jun 2022

Porcelana chinesa | IIM e Fundação Macau promovem exposições em Lisboa e Aveiro 

[dropcap]A[/dropcap] porcelana chinesa vai estar em destaque em duas mostras nas cidades de Lisboa e Aveiro, em Portugal. Uma delas tem lugar no Centro Cultural e Científico de Macau (CCCM), em Lisboa, e é promovida pela Associação de Arte e Cultura Chinesa de Macau, em co-organização com a Fundação Jorge Álvares e patrocínio da Fundação Macau.

A exposição é inaugurada no próximo dia 7 de Novembro, quinta-feira, e irá mostrar ao público “a variedade de formas e de desenhos desses artigos de porcelana”, servindo também para comemorar o vigésimo aniversário do estabelecimento da RAEM e assinalar os 70 Anos da implementação da República Popular da China, bem como os 40 anos do restabelecimento de relações diplomáticas entre a China e Portugal.

A porcelana chinesa vai também estar em foco na 14ª. edição da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, onde vão ser inseridas uma exposição que ocorre de 2 a 31 de Novembro, na Galeria dos Morgados da Pedricosa, junto ao Museu de Santa Joana. Esta última iniciativa conta com a colaboração do Instituto Internacional de Macau.

29 Out 2019

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29 Out 2019