Cavalleria rusticana: a ópera-prima de Mascagni

A ópera Cavalleria rusticana, do compositor italiano Pietro Mascagni, é um melodrama em um acto com libreto em italiano de Giovanni Targioni-Tozzetti e Guido Menasci, e uma das óperas mais representativas do género operático pós-romântico denominado verismo, associado a compositores italianos tais como Umberto Giordano, Francesco Cilea, Giacomo Puccini, e Ruggero Leoncavallo, para além de Mascagni. O libreto é baseado num conto e subsequente peça do romancista Giovanni Verga, um autor verista italiano que, tal como outros do mesmo movimento literário, procurou retratar o mundo com maior realismo, escrevendo sobre temas como a vida dos pobres e os problemas do homem e da mulher contemporâneos, geralmente de natureza sexual, romântica ou violenta, que em geral não eram considerados adequados para a literatura.

Em Julho de 1888, o editor milanês de música Edoardo Sonzogno anunciou um concurso aberto a todos os jovens compositores italianos que ainda não tinham visto uma ópera sua representada em palco. Convidou-os a apresentar uma ópera em um acto e as três melhores (seleccionadas por um júri de cinco destacados críticos e compositores italianos) representar-se-iam em Roma, a cargo de Sonzogno.

Mascagni ouviu falar do concurso apenas dois meses antes da data final e pediu ao seu amigo Giovanni Targioni-Tozzetti, um poeta e professor de literatura na Real Academia Naval italiana em Livorno, que lhe proporcionasse um libreto. Targioni-Tozzetti escolheu Cavalleria rusticana, um conto popular de Giovanni Verga como a base da ópera. Ele e o seu colega Guido Menasci puseram-se a compor o libreto, enviando-o a Mascagni por partes, às vezes apenas uns poucos versos escritos na parte de trás de um postal. A ópera foi finalmente apresentada no último dia do prazo. No total, apresentaram-se 73 óperas a concurso, e no dia 5 de Março de 1890, o júri seleccionou as três obras finais: Labilia de Niccola Spinelli, Rudello de Vincenzo Ferroni e Cavalleria rusticana.

Havia outras duas óperas baseadas na história de Verga que foram a concurso. Uma delas, de Domenico Monleone, foi também baseada na história, e também intitulada Cavalleria rusticana. A ópera não teve êxito no concurso, mas foi estreada mais tarde nesse ano em Amesterdão a que seguiu uma digressão com êxito pela Europa, acabando em Turim. Sonzogno, desejando proteger a lucrativa propriedade em que se havia convertido a versão de Mascagni, empreendeu acções legais e com êxito conseguiu que a representação da ópera Monleone fosse proibida em Itália.

Embora Mascagni tivesse começado a escrever outras duas óperas antes (Pinotta, estreada em 1932 e Guglielmo Ratcliff, estreada em 1895), Cavalleria rusticana foi a sua primeira obra terminada e representada, continuando a ser a mais conhecida das suas quinze óperas e operetas. Para além de Cavalleria rusticana, apenas Iris e L’amico Fritz permaneceram no repertório standard, com Isabeau e Il piccolo Marat nos limites exteriores do repertório italiano.

O seu êxito foi um fenómeno desde a sua primeira representação no Teatro Costanzi em Roma, no dia 17 de Maio de 1890, até à actualidade. Quando Mascagni morreu em 1945, a ópera tinha alcançado, em Itália apenas, as 14.000 representações.

A primeira representação de Cavalleria rusticana causou sensação, com Mascagni a aparecer 40 vezes a saudar na noite de estreia, ganhando o Primeiro Prémio do concurso. Naquele mesmo ano, depois de se venderem todas as representações no Teatro Costanzi, a ópera produziu-se por toda a Itália e em Berlim. Em Dezembro, Gustav Malher dirigiu a obra em Budapeste. Pouco depois, as cidades de Munique, Hamburgo, S. Petesrburgo, Dresden e até Buenos Aires acolheram a obra. Em Março de 1891, foi apresentada em Viena. Teve a sua estreia em Londres no Teatro Shaftesbury no dia 19 de Outubro de 1891 e no Covent Garden no dia 16 de Maio de 1892. Aos 26 anos de idade apenas, Mascagni tinha-se tornado internacionalmente famoso.

Os produtores norte-americanos lutaram entre si, as vezes mesmo através dos tribunais, pela primeira apresentação da ópera naquele país. Cavalleria rusticana finalmente foi estreada em Filadélfia na Grand Opera House no dia 9 de Setembro de 1891, seguida por Chicago no dia 30 de Setembro de 1891. A ópera foi estreada em Nova Iorque no dia 1 de Outubro de 1891 com duas representações rivais no mesmo dia, uma representação vespertina no Casino, dirigida por Rudolph Aronson e uma à tardinha no Liceo Lenox dirigida por Oscar Hammerstein. A ópera estreou no Met no dia 30 de Dezembro de 1891 num programa duplo com um fragmento de Orfeo ed Euridice de Gluck e, desde então, foi aí representada mais de 600 vezes.

A acção de Cavalleria rusticana é passada numa aldeia na Sicília, na manhã do Domingo de Páscoa, no séc. XIX. Uma rapariga triste e ansiosa, Santuzza, procura o seu amante Turiddu, recentemente regressado da tropa, que a traiu e voltou para a sua antiga noiva, Lola, que entretanto se tinha casado com o abastado Alfio. Santuzza tenta, em vão, recuperar o seu amante. Louca de ciúmes, conta a Alfio, o marido enganado, sobre Lola e Turiddu, selando, nesse momento, o destino de Turiddu. Alfio desafia-o para um duelo. Após despedir-se da sua mãe, Turiddu parte para o seu encontro fatal…

A ópera contém árias famosas como a siciliana “O Lola c’hai di latti la cammisa”, o poderoso hino “Inneggiam, il Signor non è morto…”, o famoso Intermezzo sinfonico, e “…a te ! la mala Pasqua !!!”, entre outras.

Cavalleria rusticana continua a ser uma das óperas mais populares hoje em dia; nas estatísticas da Operabase aparece como a n.º 27 das cem óperas mais representadas no período 2005-2010, sendo a 16.ª em italiano e a primeira de Mascagni.

 

Sugestão de audição da obra:
Pietro Mascgani: Cavalleria rusticana
Plácido Domingo (tenor) as Turiddu; Elena Obraztsova (mezzo-soprano) as Santuzza; Renato Bruson (baritone) as Alfio, Fedora Barbieri (mezzo-soprano) as Mamma Lucia; Axelle Gall (actress) as Lola; Coro del Teatro Alla Scala di Milano, Georges Prêtre – Decca: 470570-2

20 Ago 2019

Ressonâncias

Há obras que nos tocam pela densidade humana que nelas perpassa e não por outras qualidades específicas, técnicas e formais – a obra até pode ser lisa, mediana, coxa.

No cinema isso é muito claro. Lembro-me do delicioso Saint Jack, de Peter Bogdanovich, um filme “menor” dos anos oitenta com uma personagem maior do que a vida, e onde Ben Gazzara interpreta um americano “exilado” e que actua ou como um proxeneta muito especial ou um facilitador de negócios, iluminando com a sua sageza as noites de Singapura.

A dado momento Jack é colocado diante da tentação de se tornar um delator, em troca de uma quantia que lhe permitiria regressar à terra. Mas a sua “pureza” é a liberdade com que agencia vidas sem com elas interferir, e escolhe permanecer na sua “pobreza essencial” – afinal, o seu modo taoista de “seguir a linha da água” e de estar em ressonância com o mundo, numa conectividade concreta. Revi-o agora no YouTube.

Mais recentemente recordo-me de outro filme (também está no YouTube), O Visitante, de Thomas McCarthy, interpretado por Richard Jenkins, de 2008, que a política de Trump em relação à emigração actualizou.

Um renomado professor de economia, Valter, epítome de uma classe média de sucesso, atravessa uma crise por causa da viuvez que lhe revelou a irrelevância dos seus valores. Sente-se agora um “homem sem qualidades”, que vive agarrado às memórias da sua mulher, uma pianista de carreira, ao ponto de sem qualquer sucesso querer aprender a tocar piano.

A contragosto, vai a Nova York dar uma palestra, onde mantém um apartamento. Chegando lá, descobre um casal de imigrantes ilegais a viver no apartamento, ele árabe, ela negra. Mas, sendo um homem sem reservas mentais percebe que eles foram enganados e deixa-os ficar.

Tarek, um jovem sírio-libanês, é percussionista e a música acaba por tecer entre os dois uma verdadeira cumplicidade. Valter percebe que afinal não é um caso perdido para a música, apenas estava enganado no instrumento.

Por acidente, Tarek é preso e deportado, a sua namorada tenta desaparecer no anonimato, e Valter, que luta contra a desumanidade com que as autoridades tratam Tarek, acaba por se envolver com a mãe deste, uma mulher decente e educada, chegada do lado dos derrotados da História, para se inteirar da situação do filho.

No fim ficam todos sozinhos porque a vida não se compadece, mas Valter está mudado e o filme acaba com o académico e reputado palestrante a tocar tambor no metro.

Valter toca tambor no metro para se identificar com Tarek, essa figura anónima do bem que as absurdas e cínicas leis humanas penalizam, e para tentar recuperar o que aprendeu com ele: a Ressonância, essa sílaba de uma frase que só no transporte de um ritmo (fantasmaticamente colectivo) se deixa formular como um lugar (mental, atópico) onde o mundo deixa de ser um estranhamento.

Ao resumi-lo, reduzimos à caricatura este filme sóbrio e aparentemente simples, com quatro personagens e um drama atualíssimo, mas o que nele vale é a densidade das personagens e o seu subtexto: creio que a ressonância neste filme é a metáfora para falar da escuta, o seu primeiro tema, ou antes, da escuta deficiente com que nos condenamos ao isolamento social. Vivemos em sociedades doentes porque já não nos escutamos nem aos outros nem a nós mesmos, e a pele do tambor é aqui o tímpano que nos falta.

Nas sociedades actuais, como diria Sloterdijk, somos sempre convidados a ouvir o que ajuda a não ouvir o mundo e a alteridade. Valter enganara-se anos a fio de instrumento musical porque, preso às imagens da sua mulher e à sua música sedativa e funcional, deixara de se ouvir.

O outro grande tema do filme é, concomitantemente, o da hospitalidade.

A hospitalidade não é apenas o acolhimento do outro, mas o modo como através da presença do outro no meu espaço vital eu deixo de mentir a mim mesmo. Como nos ensinou a psicanálise, a mentira a si mesmo é primeiro que tudo uma proteção narcísica, defendemo-nos contra a imagem desfavorável que podemos dar de nós mesmos; neste sentido, a mentira secunda a intenção de quem tem vontade se perseverar a si mesmo. Lidar com um outro, o que acarreta tensão, obriga-nos a resolver este estado de reféns da consciência intencional e a transitar mais rapidamente para o plano da verdade.

A hospitalidade não abriga então apenas as dimensões da fraternidade e da responsabilidade, é igualmente um passo essencial para o amadurecimento e o auto-conhecimento. É outra forma de ressonância.

E isto serve tanto para os planos individuais como colectivos.

Também no Youtube, à procura de estudar a estrutura de várias óperas, por súbita necessidade profissional descubro uma versão inteira (e legendada) da Carmen, de Bizet, com a romena Angela Gheorghiu no lugar da protagonista, que me fascina. Como até agora andava distante da ópera não tinha dado conta do trabalho desta intérprete, não só no canto como no magnetismo que transmite às personagens. E há um pormenor da encenação que amplifica a força e sensualidade da personagem: quando a Carmen está em cena há uma máquina de vento ligada que lhe electriza o cabelo e o corpo. O fito é dar-lhe uma aparência indomável, e o instrumento é, de novo, a ressonância. Três obras magnificas para rever muitas vezes.

25 Abr 2019

Ópera | Novo livro de Shee Va lançado este sábado

A Fundação Rui Cunha (FRC) promove este sábado o lançamento da nova edição do livro de Shee Va, intitulado “Ópera no FIMM 18- Tomo III“. O autor é médico gastrenterologista e, segundo um comunicado da FRC, “alia ciência e arte no seu modo de vida”.

Shee Va é descrito como um “auto-didacta no mundo da música e sensível à sequência das notas, o seu ritmo e dinâmica” e como alguém que “tempera as agruras da vida com a ópera”.

“Servindo-se das óperas que Macau viu durante as edições dos trinta anos do Festival Internacional de Música de Macau, e acompanhando os passos de amadurecimento do personagem que levado pela primeira vez, por seu pai, a ver um espectáculo lírico, aos doze anos de idade, este Tomo III conclui a trajectória de aprendizagem desta criança, agora transformado em adulto jovem”, aponta a FRC.

O livro, que se estende por três volumes, é “apenas um guia iniciático para todos aqueles que queiram conhecer o mundo da ópera”. O autor da obra abordou também “os motivos que conduziram os compositores à escolha dos enredos e as interpretações emotivas dos artistas sob visão dos directores de cena”. A apresentação do livro tem entrada livre e acontece às 17h.

13 Dez 2018

Ópera | Joyce DiDonato no CCM a 13 de Janeiro

A cantora lírica Joyce DiDonato vai marcar o início das celebrações do 20º aniversário do Centro Cultural de Macau com um espectáculo no dia 13 de Janeiro. A artista vai marcar presença em palco vestida com criações de Vivienne Westwood e acompanhada pela orquestra Il Pomo d’Oro

 

As comemorações do 20º aniversário do Centro Cultural de Macau têm início no próximo mês com o concerto da americana Joyce DiDonato, uma referência no canto lírico da actualidade.

O evento está marcado para o dia 13 de Janeiro, às 20h e traz ao palco do CCM a cantora lírica, vestida com as criações da estilista Vivienne Westwood e acompanhada pela orquestra barroca Il Pomo d’Oro, dirigida por Maxim Emelyanychev.

O espectáculo integra a digressão “Em Guerra e Paz” que apresenta um concerto composto por uma série de árias em que “o timbre de DiDonato flutua entre a inocente simplicidade e a maturidade das emoções (…) e desfia uma perspectiva abrangente do Barroco através de obras do compositor inglês Henry Purcell, do génio alemão George Frideric Handel, e da criatividade italiana de Leonardo Leo”, aponta a organização em comunicado.

Reconhecimento premiado

Joyce DiDonato foi galardoada, em 2015, com o Grammy para “Best Classical Solo Album” com o disco “Joyce & Tony – Live From Wigmore Hall” e, este ano, foi a vez de receber o galardão máximo do prémio Olivier para “Outstanding Achievement in Opera”.

A artista foi ainda proclamada pela revista New Yorker como “talvez a mais potente cantora de sua geração”. Com uma voz “nada menos do que ouro de 24 quilates”, de acordo com a Times, Joyce DiDonato conhecida também pela sua originalidade enquanto performer conquistou destaque internacional com a sua participação em óperas de Handel e de Mozart, sendo ainda aclamada pelos suas interpretações de bel canto nas obras de Rossini e Donizetti.

Com uma demanda crescente a nível internacional, a cantora lírica esteve no Carnegie Hall e no London’s Barbican Centre, e foi solista convidada na BBC’s Last Night of the Proms, de acordo com a apresentação da cantora na sua página oficial.

Os trabalhos mais recentemente destacados de Joyce DiDonato incluem as interpretações com a Orquestra Filarmónica de Roterdão dirigida por Yannick Nézet-Séguin, a Filarmónica de Berlim sob a batuta de Sir Simon Rattle e com a Orquestra Sinfónica de Chicago sob o comando de Ricardo Muti.

Joyce DiDonato interpretou ainda os papéis de Sister Helen em “Dead Man Walking” no Teatro Real Madrid e no London’s Barbican Centre e de Didon em “Les Troyens” sob o comando de John Nelsons, em Estrasburgo.
Para que o público tenha oportunidade de conhecer melhor a artista, o CCM tem agendada uma tertúlia uma hora antes do início do espectáculo aberta a todos. Os bilhetes já se encontram à venda com valores entre as 180 e as 580 patacas.

4 Dez 2018

FIMM | Ópera “L’Elisir D’Amore” sobe ao palco do CCM na sexta-feira

É já na próxima sexta-feira que arranca o Festival Internacional de Música de Macau (FIMM). “L’Elisir D’Amore”, ópera em dois actos do compositor italiano Gaetano Donizetti, tem as honras da grande abertura

Foi em Milão, no ano de 1832, que “L’Elisir D’Amore” se estreou em palco. Desde então correu mundo, tornando-se uma presença frequente em casas de ópera de renome internacional. A obra intemporal do compositor italiano Gaetano Donizetti (1797-1848) chega agora a Macau, integrada no FIMM, quando se assinalam os 170 anos da sua morte.

A trama gira em torno do amor que tudo supera – desde os interesses materiais às diferenças de classe social. A ópera, em dois actos, composta em apenas seis semanas, centra-se num jovem camponês (Nemorino) que se apaixona por uma rica e bela proprietária de terras, que o atormenta com a sua diferença (Adina). Nemorino convence-se de que uma poção mágica o poderá ajudar na conquista do seu amor e, com a chegada à aldeia do sargento Belcore que pede Adina em casamento, empenha todas as suas economias num frasco de elixir do amor, que adquire ao charlatão Dulcamara.

O segundo acto começa com Nemorino a implorar a Dulcamara um elixir mais potente, face à iminência da assinatura do contrato de casamento entre Adina e Belcore. Em troca, sem dinheiro para pagar, o jovem camponês aceita alistar-se no exército de Belcore. Dulcamara conta a Adina o que se passa com Nemorino, e esta acaba por ganhar consciência do amor que o protagonista lhe devota, entregando-lhe o papel que o resgata do serviço militar e admitindo que o amará para sempre. Nemorino vem a herdar uma fortuna, de um falecido tio, e Dulcamara vangloria-se dos poderes do seu elixir que, além do amor, trouxe riqueza ao jovem camponês que acaba por casar-se com Adina.

Um elenco de luxo

“L’Elisir d’Amore” – que vai subir ao palco do Centro Cultural de Macau na sexta-feira e no domingo – é uma produção da Ópera de Zurique. Com duração de duas horas e 45 minutos, incluindo um intervalo entre os dois actos, é interpretada em italiano, com legendas em chinês, português e inglês. O tenor Arturo Chacón-Cruz, aluno de Plácido Domingo, e a aclamada soprano Laura Giordano, dão vida às personagens de Nemorino e de Adina.

A ópera conta com a mestria visual do célebre encenador alemão Grischa Asagaroff que a viu pela primeira vez no início dos anos 1980, numa famosa produção em Hamburgo. Com efeito, seria preciso uma década para voltar a contactar com “L’Elisir d’Amore” e apaixonar-se de imediato, com a famosa ária “Una furtiva lagrima”, uma das razões que o levou a aceitar o desafio de encenar a obra.

“Esta produção em Macau, com uma grande orquestra [Orquestra de Macau, dirigida pelo maestro austríaco Ralf Weikert], um coro famoso [Coro Lírico Siciliano] e um maravilhoso elenco de grandes cantores e actores, mostrará ao grande compositor Donizetti por que, passados 186 anos, a sua ópera continua a ser um êxito intemporal”, observou o encenador num encontro com a imprensa, que teve lugar na sexta-feira. “Estou muito feliz por poder mostrar ao público [de Macau] uma das minhas produções preferidas”, complementou Grischa Asagaroff.

O preço dos bilhetes para “L’Elisir d’Amore”, o espectáculo de abertura do FIMM, oscila entre 300 e 600 patacas.

25 Set 2018

CCM | Companhia de Dança da Ópera de Gotemburgo apresenta “Noético”

OCentro Cultural de Macau apresenta “Noético”, um espectáculo apresentado pela Companhia de Dança da Ópera de Gotemburgo, “um dos grupos de dança contemporânea mais arrojados da Escandinávia”, de acordo com um comunicado do Instituto Cultural. O espectáculo tem lugar no palco do Grande Auditório, no dia 18 de Novembro. Concebido pelo coreógrafo Sidi Larbi Cherkaoui, “Noético” mistura moda, design e movimentos contemporâneos, “enquadrados num cenário minimalista, cultural e sonicamente eclético”, aponta a mesma fonte. A peça explora mente, corpo e espaço, onde 20 bailarinos aparecem trajados de preto e branco, com a assinatura da marca belga “Les Hommes” e expressam “um turbilhão de emoções manuseando formas em fibra de carbono imaginadas pelo conhecido escultor e cenógrafo britânico Antony Gormley”. A música é composta por Szymon Brzóska e “evolui gradualmente para uma mescla fantástica de passagens orquestrais, percussão e solos vocais interpretados pela cantora sueca Miriam Andersén”.

7 Set 2018

“Elektra” estreia hoje no São Carlos

“Elektra”, de Richard Strauss, que estreia hoje, em Lisboa, “é uma magnífica, forte e fabulosamente intensa ópera, que exige muito dos cantores e da orquestra”, disse à agência Lusa a encenadora Nicola Raab.

A produção do Teatro Nacional de S. Carlos (TNSC), protagonizada pela soprano alemã Nadja Michael, estreia-se na quinta-feira, no grande auditório do Centro Cultural de Belém, no âmbito do ciclo “De Zeus a Varoufakis: A Grécia nos Destinos da Europa”.

A encenadora Nicola Raab, que pela quarta vez trabalha com o TNSC, realçou, em declarações à Lusa, o grau de exigência desta ópera para cantores e orquestra, pela “amplitude da partitura” e pela sua “intensidade e violência vocal e orquestral”, mas com “todos os condimentos para uma noite marcante”.

Nicola Raab afirmou que a sua opção para apresentar esta ópera foi “uma extrema concentração na protagonista, Elektra, à volta da qual, e da sua questão psicológica, se desenvolve todo o drama musical”.

A origem da tragédia

O cenário é a Grécia Antiga, a cidade de Micenas, no Peloponeso, onde a narrativa se desenvolve em torno do tema da vingança: a mãe de Elektra, Klytämnestra, assassina o marido, Agamenon, com a ajuda do amante, Aegisth, levando a que a personagem que dá nome à peça procure justiça, alcançada quando o irmão, Orestes, mata os dois.

Conhecendo já a ópera, cujo libreto de Hugo von Hofmannsthal se inspirou na tragédia de Sófocles, esta é a primeira vez que Nicola Raab encena “Elketra”.

O convite do São Carlos, revelou a encenadora, tinha apenas uma condição, “encontrar uma maneira de concentrar a ópera e não fazer o habitual”.

“E eu respondi que era óbvio, pois a concentração está toda [na personagem] Elketra, ela é o centro de todo, tudo roda à volta, presos à sua vontade”, disse.

Para a encenadora, esta “concentração” em torno da personagem Elektra “não é uma restrição, mas antes um sentido de liberdade”.

Em palco, o cenário é um quadrado dourado, e toda a ação dramática se passa naquele espaço concreto.

A ópera, de Richard Strauss (1864-1949), foi estreada em 1909, em Dresden, na Alemanha, e segundo o TNSC, “embora [o compositor alemão] já tenha atrás de si obras que sujeitam a linguagem tonal a abusos pontuais, em ‘Elektra’ atinge níveis de audácia harmónica, orquestral, vocal e dramatúrgica que chocaram, e ainda hoje chocam, a audiência”.

Se a ópera, aquando da sua estreia, se revelou inovadora do ponto de vista estético-musical, Nicola Raab afirmou que “a inovação hoje pode estar na forma em como se concentrou todo o drama, para criar uma extrema intensidade”.

“Eu vejo esta ópera como um todo, para uma noite marcante, sem me preocupar com o histórico da própria ópera”, acrescentou.

A ópera, sob a direção do maestro britânico Leo Hussain, sobe à cena na hoje, às 21h00, e novamente nos dias 04, às 16h00, e 07 de fevereiro, às 21h00.

Elenco de ouro

Além de Nadja Michael, do elenco fazem parte Allison Oakes, Lioba Braun, James Rutherford, Marco Alves dos Santos, Mário Redondo, Sónia Alcobaça, Rui Baeta, João Terleira, Patrícia Quinta, e ainda, Maria Luísa de Freitas, Cátia Moreso, Paula Dória, Carla Simões e Filipa van Eck.

A encenadora alemã defendeu a actualidade do espectáculo operático, algo que não passa por uma actualização do guarda-roupa ou a transposição para o contexto actual, mas sim “pelos sentimentos que são experimentados em palco e como nos identificamos com eles”.

“Podemos dizer, ao assistir a uma ópera, o que acontece a esta personagem, a sua situação, a sua vivência, ou a sua psicologia, são sempre actuais, pois aquelas personagens podemos ser nós”, disse.

Elektra, prosseguiu, “está traumatizada por qualquer coisa e não se pode mover, está presa a uma situação, e recusa-se a sair dessa situação, o que acontece a qualquer um de nós que tenha passado pelo que ela passou”.

Nicola Raab encenou, anteriormente, também nesta sala lisboeta, “A Flowering Tree”, de John Adams, na temporada de 2015-16. Raab disse à Lusa que gosta de trabalhar em Lisboa e o facto de ter encenado outras produções do TNSC, lhe dá uma “familiaridade” e um “gosto em voltar”.

Raab já apresentou também encenações suas no Festival de Salzburgo, na Áustria, e no de Aix-en-Provence, em França.

1 Fev 2018

Livro | Shee Va publica obra sobre a ópera no território

É o primeiro de três tomos dedicados às óperas a que a cidade assistiu. O médico Shee Va foi à procura do passado musical da cidade e passou-o a livro, com a ajuda de uma personagem que tem o tempo de vida do Festival Internacional de Música

 

Pouco antes de Macau se ter despedido da administração portuguesa, a “Aida” veio ao território. Onze anos antes, Ileana Cotrubas explicava, numa “Traviata” na cidade, porque é que tinha conquistado um lugar de destaque no mundo das sopranos.

Há ópera em Macau há quase 30 anos – o tempo de vida do Festival Internacional de Música – e desde o mês passado que existe um livro que recupera a memória deste género musical no território. É o resultado de uma iniciativa de Shee Va, médico amante de música erudita, e trata-se apenas do primeiro de três tomos. A ideia é escrever sobre todas as óperas desde o estabelecimento do festival.

“O meu gosto pela ópera vem desde criança”, explica ao HM o autor de “Ópera no Festival Internacional de Música de Macau (FIMM)”. O gastrenterologista regressou a Macau em 2012 e, desde então, tem sido um activo divulgador do género, com várias sessões na Fundação Rui Cunha, em parceria com o advogado Frederico Rato. Na sequência dos ciclos de que foi co-autor, decidiu recordar as óperas anuais de Macau – aquelas que são trazidas pelo festival.

“Claro que escrever sobre óperas, não tendo formação musical, é difícil mas, de qualquer modo, quis transmitir o meu gosto, como melómano que sou, pela música e pela ópera”, explica. A volta ao texto que se impunha pela falta de formação específica sobre a matéria foi dada com a construção de uma espécie de romance: há uma personagem com a idade do festival, um homem de 30 anos, que foi à ópera pela primeira vez em 1999. Foi ver a “Aida” levado pelo pai, que lhe deixa em herança todas as memórias relacionadas com a presença da ópera no FIMM. “Fiz com que esse rapaz nascesse com o Festival e o acompanhasse durante estes 30 anos.”

Os primeiros anos

O exercício de recuperação do passado do FIMM permitiu descobrir diferenças no modo como a ópera foi sendo apresentada ao público local. “‘O Barbeiro de Sevilha’ foi feito na Fortaleza do Monte. Aproveitou-se o edifício antigo que, naquela altura, era a Meteorologia, acrescentou-se umas pinturas a imitar Sevilha e tocou-se a ópera ao ar livre”, conta o escritor sobre a primeira apresentação do género verdadeiramente encenada.

Existe ópera no FIMM desde a segunda edição do evento, mas as dificuldades de uma produção do género e a inexistência de uma sala de espectáculos com boas condições fizeram com que o então director, Adriano Jordão, não tivesse incentivado este tipo de espectáculo. “Depois, com o segundo director, João Pereira Bastos, que já tinha sido director do São Carlos, o género foi cultivado”, explica Shee Va.

As óperas produzidas ao tempo de João Pereira Bastos eram bastante diferentes daquelas que surgiram depois da transferência de administração, conclui o autor. Antes de 1999, a produção tinham uma participação local maior, apesar dos artistas que chegavam da Europa. “As produções eram mais vividas”, refere.

Depois da transferência de administração, passou-se por um período em que Macau tinha um contributo modesto na produção, uma tendência que terá terminado no ano passado. “A produção foi completamente local e, portanto, vive-se muito mais. Quando vem de fora não existe a mesma envolvência. Mesmo em termos de aprendizagem, é mais interessante para a formação das pessoas ter as coisas feitas localmente.”

“Ópera no Festival Internacional de Música de Macau” é uma edição da Associação dos Médicos de Língua Portuguesa de Macau.

10 Jan 2017

Ópera | Concerto gratuito para festejar retorno à Pátria

O Cinema Alegria acolhe um concerto da Ópera de Pequim às 20h00 deste sábado, com o aniversário do Retorno de Macau à Pátria como mote. O espectáculo é gratuito e organizado pela Fundação Artística de Ópera Chinesa da China e pela Fundação Macau, pelo que os interessados podem adquirir bilhetes até às 18h00 de hoje. Este ano celebra-se o 16º aniversário de criação da RAEM, em Dezembro de 1999. A Fundação Artística de Ópera Chinesa da China existe com o objectivo de promover o gosto e conhecimento da população por este estilo musical, que faz já parte da cultura deste país. Em 2009, o colectivo foi convidado pela Fundação Macau para trazer a Macau o Grupo Juvenil da Ópera de Pequim da China e o Grupo de Arte da Ópera de Pequim da China para espectáculos deste género musical. O concerto deste ano conta com a participação do grupo referido, proveniente da província de Hubei. Em palco serão apresentadas as peças clássicas ‘Cobra Branca’ e ‘Rei Macaco’. Cada residente pode adquirir um máximo de quatro bilhetes, contactando o Centro UNESCO.

4 Set 2015

Plácido Domingo este sábado no Centro Cultural

“A ópera é a nossa vida”

Esteve para vir a Macau em 1999, mas tinha a agenda cheia. Sábado o território volta a traçar o destino daquele que é considerado “um dos três tenores”. Plácido Domingo anseia conhecer o Teatro D.Pedro V, falou do crescimento da ópera na China e não deixou de comentar a recente crise na bolsa de Xangai

Plácido Domingo chega com roupas de cores cinzentas, que contrastam com a sua pose descontraída, e canta um pouco enquanto os jornalistas tiram a fotografia da praxe. Perguntam quantos falam português, mas diz que o Fado não vai, desta vez, fazer parte do repertório. Fala daquilo que faz há anos como se fosse a primeira vez que pisasse um palco. Já pisou muitos, desta vez vai pisar o palco do Centro Cultural de Macau (CCM), ao lado das cantoras Virgínia Tola e Micaela Oeste.
Considerado um dos “três tenores”, juntamente com José Carreras e o falecido Luciano Pavarotti, Plácido Domingo promete trazer ao público de Macau um espectáculo que todos possam ouvir e admirar.
“Certamente que a ópera é a nossa vida, e em todos os sítios onde vou adoro fazer o concerto e temos um programa muito interessante, porque é feito para todos os que vierem assistir. É muito importante para nós que o público esteja contente”, disse. placido
“Para um artista a coisa mais importante é estar em boa forma. Depois de cantar por tantos e tantos anos, ainda acho excitante e desafiante cantar num lugar pela primeira vez. Penso que o público tem o direito de descobrir isso. A coisa mais importante de facto é estar em boa forma e sentir essa ligação. O CCM tem apenas capacidade para mil lugares, o concerto que demos em Tóquio foi para cerca de cinco mil, e já actuámos para dez, doze mil pessoas…mas em todos eles queremos que o público sinta a música e tu tentas dar tudo o que podes. Estamos em boa forma e cantamos tudo o que temos na alma, porque cantamos com a alma”, disse ontem, num encontro com a imprensa.
Plácido Domingo esteve quase para estar em Macau em 1999, mas a agenda apertada trocou-lhe as voltas. “Tenho de dizer que é muito especial estar em Macau. Fui convidado para vir a Macau na transferência do território para a China, e não pude vir porque na altura não estava disponível. Há muitas ocasiões especiais e essa era uma delas, para o público daqui, um dia tão especial. Mas hoje estamos aqui, é um grande prazer. Esta cidade é fenomenal, as luzes…tenho a dizer que isto é muito mais do que Las Vegas, e eu estive a cantar durante três semanas em Las Vegas.”

A ópera na China

Ao lado dele, Virgínia Tola e Micaela Oeste mostram-se orgulhosas de cantar com aquele que consideram o mestre da ópera. São bem mais novas do que ele, mas Plácido Domingo diz estar numa fase em que gosta de ensinar a sua arte aos mais jovens.
“Quando comecei a cantar, muito jovem, as sopranos podiam ser minhas avós. Depois comecei a cantar com cantoras como Monserrat Caballet, depois com cantoras que poderiam ser minhas irmãs, depois cantei com as minhas irmãs mais jovens, e agora canto com as minhas filhas, e às vezes com as minhas netas. É óptimo para mim cantar com pessoas mais jovens, porque se conseguir transmitir algo de geração em geração, será bom.”
Plácido Domingo já cantou na China há muitos anos, mas só agora o país se abre para este género musical. placido
“Quando a ópera de Xangai foi construída eu cantei lá, em Pequim, num teatro extraordinário, fizeram 52 produções, 42 óperas internacionais, como Wagner, Puccini. Dez óperas foram compostas em chinês. Então esse trabalho é um fenómeno extraordinário. Não interessa a língua. Lembro-me que há 27 anos quando me estreei na China, estava a cantar um programa completo em música espanhola. O público estava tão entusiasmado que cada vez que eu cantava eles começavam a aplaudir. Era a primeira vez que estavam a ouvir aquilo, e estavam fascinados”, recordou o tenor.
“Nos últimos anos tem sido extraordinária a quantidade de cantores chineses que têm surgido e que estão em teatros internacionais em todo o mundo. Sem dúvida que há um talento extraordinário”, acrescentou.
Mas nem só de música se fez esta conversa. Ao falar da imensidão da China, Plácido Domingo lembrou a recente crise na bolsa de valores de Xangai, mas defende que tudo vai acabar por ficar bem.
“A China é um país enorme e bem sucedido em termos económicos, apesar de nas últimas duas semanas ter tido alguns problemas, mas isso acontece em todo o lado. O mundo estava um pouco preocupado, mas penso que já não estão. Tudo indica que as coisas vão ficar bem.”
De Macau Plácido Domingo fala apenas do brilho dos casinos e deposita esperanças no desenvolvimento da ópera local. Para ele, o Teatro D.Pedro V passará obrigatoriamente pela agenda.

28 Ago 2015