IIM | “Retratos de Luso-Asiáticos na Índia” lançado quinta-feira

Será lançado esta quinta-feira o livro, com a chancela do Instituto Internacional de Macau (IIM), “Retratos de Luso-Asiáticos da Índia”, da autoria do arquitecto João Palla Martins. O livro inclui textos da professora emérita do departamento de Antropologia do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Rosa Maria Perez, e de Delfim Correia da Silva, director do Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Goa.

A obra reúne cerca de 100 imagens de rostos captados pelo autor junto das comunidades de luso-descendentes da Índia, contando com apoios do Núcleo de Animação Cultural de Goa, Damão e Diu, o Instituto Camões e a Fundação Oriente. Este é o quinto número da colecção de Retratos de Luso-Asiáticos, depois do álbum relativo a Macau publicado em 2020, do Myanmar e do Sri Lanka em 2021, e da Malásia em 2022.

Duas exposições sobre o tema foram igualmente realizadas em 2019, nomeadamente na galeria da Universidade de Aveiro, integrada no II Congresso Internacional “Diálogos Interculturais Portugal-China” e, em seguida, na galeria da Universidade de Macau. Desde 2017 que o arquitecto João Palla Martins percorre vários países, fotografando os rostos das comunidades Luso-Asiáticas com o objectivo de oferecer um olhar sobre estas fisionomias tão peculiares. As fotografias são acompanhadas de ensaios teóricos ou científicos por autores convidados a reflectirem sobre temas como identidade, miscigenação e memória. A sessão de quinta-feira tem início às 18h30 contando com a moderação de Jorge Rangel, presidente do IIM.

16 Jan 2024

Fotografia | Inaugurada mostra “À Descoberta de Macau e Hengqin”

O Instituto Internacional de Macau (IIM) acolhe, desde segunda-feira a exposição de fotografia “À Descoberta de Macau e Hengqin”, que nasce do concurso organizado pelo IIM e que pode ser vista no auditório do Carmo, na Taipa.

Segundo um comunicado do IIM, a mostra, patente até ao dia 15 de Dezembro, inclui os trabalhos premiados de Li Man Lok, Nicholas Mok e Wu Kun Chio, na categoria de residentes de Macau, e as imagens de Evans Chen, Ng Pak Lun e Marisa C. Gaspar, na categoria geral. Encontram-se ainda expostas as fotografias seleccionadas pelo júri e que mereceram uma menção honrosa, além das que receberam um prémio especial por sócio atribuído pela Associação de Fotografia Digital de Macau.

O concurso, patrocinado pela Fundação Macau, recebeu mais de 270 fotografias a concurso, sendo que as inscrições terminaram no passado dia 9 de Outubro. A mostra pretende “estimular o conhecimento da população, especialmente entre os mais jovens, das riquezas do património de Macau, das suas tradições e as atracções da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”, destaca o IIM. Além de estar aberta ao público em Macau, a exposição poderá depois ser visitada até ao final do ano em Hengqin.

A avaliação das fotografias foi efectuada pelo júri do concurso, composto por Lei Hong e Un Wai Man, em representação da Associação de Fotografia Digital de Macau, António Monteiro, em representação do IIM, Ng Chi Wai, da Associação dos Embaixadores do Património de Macau e Francisco Ricarte, da associação Halftone, que publica periodicamente uma revista de fotografia.

Esta mostra conta com organização do IIM e de entidades como a Associação de Fotografia Digital de Macau, o Clube Leo Macau Central, a Associação dos Embaixadores do Património de Macau e a Macau Cable TV, com a colaboração da Halftone, a Associação dos Jovens Macaenses (AJM) e a Language Exchange and Culture Promotion (LECPA), sendo patrocinada pelo Fundo do Desenvolvimento da Cultura.

6 Dez 2023

IIM | Livros “Pequenos Exploradores” apresentados dia 29

Serão apresentados no próximo dia 29 de Outubro os dois primeiros livros da colecção “Pequenos Exploradores”, editada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM). A apresentação das obras bilingues ilustradas integra o 5.º Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

Destinadas ao público infantil, as duas edições, intituladas “Um Passeio por Macau” e “É Dia de Festa!” contam com a colaboração da editora Mandarina, da Associação dos Embaixadores do Património de Macau e da Associação dos Jovens Macaenses (AJM) e o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura.

As obras inspiram-se “no património e nas festas e festividades de Macau” e têm o objectivo de “criar nos mais novos o interesse pelo património local de Macau, as suas atracções históricas e turísticas, assim como as festividades chinesas e portuguesas mais conhecidas da cidade”. Destaque ainda para o facto de os livros, além de escritos em português e chinês, incluírem uma secção de aprendizagem do patuá, dialecto tradicional da comunidade macaense em vias de extinção, a fim de darem a conhecer os pequenos leitores algumas palavras.

O IIM pretende fazer chegar a colecção de livros às escolas locais, “fazendo com que as crianças tenham mais contacto com as características únicas de Macau”. Espera-se que até ao final do ano possam ser apresentadas mais duas edições desta colecção que se focam nas temáticas da cultura, identidade e gastronomia.

17 Out 2023

IIM | Lançado livro sobre comendador Arnaldo de Oliveira Sales

Foi lançado, esta segunda-feira, o livro “Comendador Arnaldo de Oliveira Sales (1920-2020)” sobre esta importante figura da diáspora macaense, e que conta com contributos de Pedro Catarino, José Eduardo Garcia Leandro, José Luís de Sales Marques, Clube Lusitano de Hong Kong e prefácio de Jorge Rangel

 

Falecido em Março de 2020 com 100 anos de idade, o comendador Arnaldo de Oliveira Sales, conhecida figura da diáspora macaense e da comunidade portuguesa de Hong Kong tem agora um livro que recorda o seu percurso. Lançado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) esta segunda-feira, “Comendador Arnaldo de Oliveira Sales (1920-2020)”, conta com testemunhos de pessoas que com ele conviveram de forma próxima, nomeadamente José Sales Marques, seu familiar, ou o antigo governador de Macau Garcia Leandro. A obra conta ainda com contributos de Pedro Catarino, diplomata português, e do Clube Lusitano de Hong Kong, tendo ainda prefácio do próprio presidente do IIM, Jorge Rangel.

Nascido em 1920 em Cantão, Oliveira Sales foi o primeiro presidente do Conselho Urbano de Hong Kong (um conselho municipal responsável pelos serviços municipais na ilha de Hong Kong e em Kowloon), em 1973, tendo sido ainda um dos fundadores da Federação Desportiva e do Comité Olímpico de Hong Kong, e presidente desta instituição em 1972, durante os Jogos Olímpicos de Munique.

Ao HM, José Sales Marques destaca o papel que Oliveira Sales teve quando presidiu à Câmara Municipal do Leal Senado. “Posso dizer que ele me inspirou em muitos aspectos no trabalho que desenvolvi no Leal Senado, particularmente em relação às questões da cultura. Fez-me sentir a importância de tratar e acompanhar a questão da cultura. Por isso é que nos meus tempos no Leal Senado nunca deixei de ter esta área sob minha directa responsabilidade.”

Arnaldo Sales era primo direito da mãe de Sales Marques. “Conheci-o já numa fase diferente. Ele era um homem muito ocupado e muitas vezes ouvíamos dizer que ele vinha a Macau falar com os governadores. Comecei a ter uma relação mais próxima com ele a partir do momento em que fui para o Leal Senado.”

O economista macaense recorda que, em 1993, quando passou a assumir as funções de presidente da câmara, o território tinha um problema com a gestão do lixo, tendo Oliveira Sales dando algumas sugestões a Sales Marques para o solucionar.

“Ele foi presidente do Conselho das Comunidades Macaenses e teve também um papel importantíssimo no lançamento dos encontros dos macaenses, incluindo na questão de procurar obter a maior unidade possível entre as diversas Casas de Macau. Punha a sua autoridade para de facto fazer sentir às pessoas a importância da nossa comunidade como um todo”, lembrou.

Relações próximas com Macau

O HM contactou Garcia Leandro para perceber que contributo deu para este livro, mas até ao fecho desta edição não foi obtida uma resposta. No entanto, no livro “Macau nos anos da Revolução portuguesa: 1974-1979”, o antigo governador português do território dedica um capítulo a Oliveira Sales, que aponta como sendo uma “figura notável” e uma “personagem carismática e fascinante”, que permitiu “um excelente elo de ligação a Hong Kong”.

“Foi das pessoas que mais me impressionaram em toda a vida”, escreveu Garcia Leandro, que o descreveu também com sendo um “homem complexo, orgulhoso, hábil e eficiente, um excelente gestor que muito honrou Portugal, tendo recusado todos os convites para aceitar a cidadania britânica”.

Uma vez que Oliveira Sales foi presidente, durante três mandatos, do Urban Council de Hong Kong, nesse período “as relações de Hong Kong com Macau foram muito reforçadas”, recordou Garcia Leandro.

Aquando da sua morte, a Federação Desportiva e Comité Olímpico de Hong Kong recordou que “sob a sua presidência de 1967 a 1998, os atletas de Hong Kong foram ganhando reconhecimento gradualmente em muitas competições multidesportivas internacionais, como os Jogos da Commonwealth, os Jogos Olímpicos e os Jogos Asiáticos”. “Com a sua visão e o máximo esforço, Hong Kong permaneceu como uma entidade desportiva separada após a passagem da soberania”, do território do Reino Unido para a China, enfatizou a organização.

“O seu trabalho como presidente do Conselho Urbano, Membro da Autoridade de Habitação, Comité Consultivo de Direito Básico de Hong Kong e outros serviços públicos foi amplamente reconhecido pelos governos de Hong Kong e por várias organizações. A sua morte é uma grande perda para o desporto e para a comunidade local”, acrescentou aquela organização.

O Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou também a morte do comendador e recordou “uma das figuras mais relevantes da comunidade macaense e portuguesa” em Hong Kong.

26 Abr 2023

IIM lança nova edição de “Jogos e Brincadeiras de Macau”, de J.J. Monteiro

O Instituto Internacional de Macau (IIM) lança, na próxima sexta-feira, 31, o livro “Jogos e Brincadeiras de Macau”, de José Joaquim Monteiro, mais conhecido por J.J. Monteiro, o “poeta-soldado”, já falecido. A edição ilustrada, e em versão bilingue, é o extracto do livro do autor “Meio Século em Macau”, onde narra em versos, os seus primeiros dias em Macau e como rapidamente se apaixonou por esta terra e pelas suas gentes.

De 1937 a 1988, J. J. Monteiro assistiu a muitos jogos e brincadeiras da época, em especial o tempo de infância e adolescência dos seus filhos na rua do Bairro do S. Lourenço, à volta do conhecido poço da Caixa Escolar, mesmo em frente ao Liceu em Tap Seac e, posteriormente, na Praia Grande, brincando às escondidas, agarradas, triól, talu (bilharda), cromos, tapa, 5 sacos, chiquia.

No prefácio, da autoria de Jorge Rangel, presidente do IIM é referido que J.J. Monteiro “surpreendia pela facilidade com que versejava, com boa rima e correcta métrica, sobre os mais variados assuntos de Macau, desde as cenas do quotidiano e os usos e costumes à história de Macau e à filosofia chinesa, também identificou as diversificadas actividades que ocupavam as muitas horas de lazer dos jovens e crianças.”

“É precisamente este o tema da edição agora dedicada aos jogos e brincadeiras das gentes de Macau. Uma introdução, escrita pelo seu filho Rogério, que também coordenou a edição e produziu muitas das ilustrações, explica o contexto e o significado destas manifestações lúdicas que fizeram a delícia de muitas gerações e os rapazes e raparigas de hoje já mal conhecem”, adianta o prefácio.

Muitas obras

“A Minha Viagem para Macau” (1939), “A História De Um Soldado” (1940, 1952, 1963 e 1983), “De Volta a Macau” (1957 e 1983) e “Macau Vista Por Dentro” (1983) são os títulos dos seus primeiros livros, sendo talvez “Macau Vista Por Dentro” a sua obra mais importante, revelando já um visível amadurecimento e um conhecimento profundo das origens e do percurso dos portugueses no Oriente, assim como de aspectos relevantes da cultura da China milenar.

Após o seu falecimento, em 1988, a família do autor procurou dar vida ao legado e às suas obras que não tinham sido editadas, tendo posteriormente feito publicar pelo Instituto Cultural “Anedotas, Contos e Lendas” (1989), e pelo Instituto Internacional de Macau “Meio Século em Macau”, em dois volumes (2010), e “Memórias do Romanceiro de Macau” (2013), e a sua última obra “Vulgaridades Chinesas” encontra-se em preparação pela família.

23 Mar 2023

IIM | Rika Naito e António Aresta ganham Prémio Identidade

A professora Linda Rika Naito e a professor António Aresta foram distinguidos pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) com o Prémio Identidade, edição de 2022. O anúncio foi feito ontem “após deliberação unânime” do júri constituído pelos órgãos sociais do IIM.

Esta é a primeira vez que o IIM atribui o prémio a uma individualidade de nacionalidade estrangeira. Rika Naito lecciona Estudos sobre Macau nas universidades japonesas de Keio, Sophia e também em Tóquio. Estudou língua portuguesa em Leiria e Aveiro, tendo completado a licenciatura em Língua Portuguesa na Universidade de Sophia.

Em 2009, obteve Mestrado pela Universidade Aberta de Tóquio, com a tese “transformação da etnicidade macaense após a transferência de poderes”. Publicou ainda vários livros em japonês sobre a Cultura, Gastronomia e Literatura Macaenses. Em 2016, ganhou o 19º. Prémio literário Rodrigues, o Intérprete, conferido pela Embaixada de Portugal no Japão.

Por sua vez, António Manuel Borges Aresta é licenciado e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras do Porto, onde também concluiu a parte curricular do doutoramento em Filosofia. Foi professor de Filosofia em Portugal, Macau e Moçambique. Dedica-se a investigar a história cultural de Macau e a história da filosofia, tendo vários livros publicados em prol da memória de Macau no Oriente.

O Prémio Identidade, instituído em 2002, destina-se a distinguir personalidades, individuais e colectivas, que, nos campos da Cultura em geral, nas Artes, no Pensamento, na Antropologia, nas Ciências Jurídicas e na Educação e Ensino “tenham contribuído relevantemente para a substanciação dos factores da identidade de Macau”.

27 Set 2022

IIM | Exposição com imagens de concurso dia 26 no Lou Lim Ieoc 

É inaugurada na próxima terça-feira, dia 26, no pavilhão Chun Chou Tong, jardim Lou Lim Ieoc, a exposição de fotografias do concurso “A Macau que eu mais amo!”, promovido pelo Instituto internacional de Macau (IIM) em parceria com a Associação de Fotografia Digital de Macau, o Clube Leo Macau Central e a Associação dos Embaixadores do Património de Macau.

As imagens que integram esta exposição foram captadas pelos vencedores do concurso. Na categoria estudantes, venceram Cheong Man Hou, Ao Wai Ieng e Wang Jun Jing, enquanto que na categoria geral foram premiadas as fotografias de Cheong Chi Fong, Lei Heong Ieong e Lei Wai Leong.

Além disso, foi atribuída uma menção honrosa a uma dezena de obras, tendo sido também entregue um prémio especial a sócio da Associação de Fotografia Digital de Macau. Esta mostra estará patente até ao dia 30 deste mês.

Segundo um comunicado do IIM, o concurso contou com “uma participação significativa de jovens estudantes e do público”, tendo recebido mais de 222 imagens.

21 Out 2021

História | Batalha de 24 Junho de 1622 recordada com lançamento de site

Mariana Pereira, arqueóloga e doutoranda em património cultural, criou um website para recordar e reunir dados sobre a batalha de 24 de Junho de 1622, quando os portugueses impediram a invasão de Macau por forças holandesas. O projecto, que fica hoje online, tem o apoio do Instituto Internacional de Macau

 

É hoje oficialmente lançado o website dedicado à batalha travada em Macau a 24 de Junho de 1622, quando portugueses derrotaram as holandesas que tentavam invadir o território. O projecto é apoiado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), mas nasce da iniciativa de Mariana Pereira, macaense e arqueóloga, actualmente a fazer um doutoramento na área do património cultural.

“Espero que no futuro esta seja uma plataforma onde se possa colocar informação disponível sobre o 24 de Junho, que se desdobra em muito mais do que aquilo que as pessoas veem e as celebrações que decorrem”, defendeu ao HM.

O projecto vai estar disponível em português, chinês e inglês e visa reunir memórias, fotografias, estudos e outras informações históricas dispersas sobre este evento histórico, mas que é também uma demonstração da identidade local.

Segundo Mariana Pereira, existem “vários tipos de 24 de Junho”. “O que está a acontecer é que o 24 de Junho está muito associado a uma festa portuguesa que parece ser mais recente do que a celebração da batalha. O arraial está a ter uma maior visibilidade e gostaríamos de trazer algum equilíbrio, com outras componentes, porque tudo forma o 24 de Junho em Macau”, acrescentou.

Este é “o único evento macaense”, que não se celebra em outro lugar do mundo, e que está muito “associado à história de Macau como cidade”. “Quem acha que tem alguma ligação emocional ou histórica com a celebração deveria poder juntar-se e relacionar-se com este evento”, disse Mariana Pereira, que será a gestora do projecto.

História esquecida

A responsável pela iniciativa aponta que a parte histórica do 24 de Junho “tem sido extremamente esquecida”. “Esta não foi apenas uma batalha dos portugueses, mas de muitos macaenses, chineses e escravos. Houve muita gente envolvida a defender Macau neste dia, mas não se sabem muito bem as histórias, há muitos rumores e dados por confirmar.”

Como exemplo, Mariana Pereira fala do tiro ao paiol. “Talvez tenha havido mais do que um tiro, mas os holandeses dizem que não levou com tiro nenhum. Não há registos arqueológicos, mas apenas escritos. Julga-se que foi um evento mais complexo do que aquilo que se escreve, mas foi uma vitória para a Macau que existia na altura. Foi reconhecida pelos mandarins, que enviaram um apoio a Macau, mas não se sabe bem para quem.”

O São João já era celebrado em Macau antes de 1622, mas só depois da batalha foi proclamado santo patrono da cidade. “O 24 de Junho foi tomado como uma vitória local e o Leal Senado referiu a divina intervenção de São João, pelo que há aqui um elemento religioso e católico forte, que é interessante. É por isso que São João Baptista passa a ser um dos santos patronos de Macau.”

Mariana Pereira está a fazer o seu doutoramento no Cambridge Heritage Research Centre, da Universidade de Cambridge, e tenciona terminar a sua tese no próximo ano. O seu estudo foca-se na forma como as comunidades portuguesa e macaense na diáspora usam o património cultural para expressar a sua identidade, usando as celebrações do 24 de Junho e do festival da Lusofonia como exemplos.

O website será apresentado hoje, a partir das 18h30, numa sessão aberta promovida pelo IIM para assinalar a data histórica. A sessão conta com apresentações da Associação dos Macaenses, Casa de Portugal em Macau, Associação dos Jovens Macaenses e Associação dos Embaixadores do Património de Macau. Serão também abordadas “perspectivas para o futuro sobre esta importante data que recentemente tem sido comemorada através de um Arraial que foi classificada como um dos elementos do Património Cultural Intangível de Macau”.

24 Jun 2021

IIM | Inscrições abertas para concurso de fotografia

As inscrições estão abertas para mais uma edição do concurso de fotografia do Instituto Internacional de Macau (IIM) focado no território: “A Macau que eu mais amo”. Além do retrato de aspectos de Macau como monumentos históricos e edifícios classificados, os participantes podem submeter imagens relativas a manifestações de natureza cultural ligadas ao património imaterial, hábitos, costumes e crenças, eventos turísticos ou ainda festividades populares tradicionais e religiosas das culturas chinesa, portuguesa e macaense.

A página electrónica do IIM, indica que o concurso é lançado “no intuito de reforçar o sentimento de pertença, e promover um conceito de identidade radicado nos valores culturais e históricos de Macau”. “Destina-se a estimular o conhecimento da população, especialmente entre os jovens, das riquezas do Património Cultural, construído ou não, de Macau, e das tradições que enformam Macau”, descreve a entidade.

O concurso é dividido numa categoria para estudantes, voltada para jovens locais do ensino primário, secundário e universitário em Macau ou com estudos no exterior, e uma categoria geral destinada a titulares do BIR permanente ou não permanente. Em cada categoria há 1º, 2º e 3º prémios, cinco menções honrosas e um prémio especial a um trabalho apresentado por sócios da Associação de Fotografia Digital de Macau. O primeiro classificado recebe um troféu e 5.000 patacas.

Os trabalhos devem ser do período entre Setembro de 2020 e Agosto deste ano, e há um limite máximo de cinco fotografias por pessoa. Os interessados têm até 27 de Agosto para os entregar.

3 Mar 2021

Livros | IIM lança obra sobre o missionário Júlio Massa

O Instituto Internacional de Macau apresenta na próxima, terça-feira, dia 19 de Janeiro, o livro “Júlio Augusto Massa – Missionário pensador”. Segundo uma nota oficial divulgada ontem, aquele que é o 12º. volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, da autoria do prof. António Aresta, constitui uma biografia do missionário transmontano de Freixo de Espada à Cinta, que chegou a Macau em 1935, tornando-se depois sacerdote e professor interino do Liceu de Macau, leccionando português e latim.

Fundador do jornal “O Clarim”, o Pe. Júlio Massa era também “um pensador com grandes afinidades com o existencialismo cristão, entrelaçado com as paisagens exteriores da vida”, que teve sempre Macau no seu imaginário, tendo deixado poemas escritos.

Além de contar com transcrições de alguns desses poemas, o livro “Júlio Augusto Massa – Missionário pensador” conta ainda com testemunhos dos seus alunos, o padre Américo Casado e Eduardo Francisco Tavares, entre outros reunidos e recordados pelos membros da Associação dos Antigos Alunos do Seminário de S. José de Macau e por muitas outras pessoas.

No dia do lançamento, a apresentação ficará a cargo de Tereza Sena, investigadora de História, havendo ainda lugar para uma mensagem em vídeo da presidente da Câmara do Freixo de Espada à Cinta, Maria do Céu Quintas, terra natal do Pe. Júlio Massa.

13 Jan 2021

RAEM, 21 anos | Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau: “O maior valor de Macau é o seu legado”

Ex-secretário adjunto de Rocha Vieira, Jorge Rangel assumiu vários dossiers e por pouco um problema de saúde não o afastou do cargo antes da transferência de soberania. 21 anos depois, Jorge Rangel defende um novo modelo de desenvolvimento para o território que não dependa tanto do jogo e acredita que deve existir equilíbrio na implementação da educação patriótica

 

Que análise faz à RAEM 21 anos depois da transição?

Sendo sempre fácil identificar insuficiências e até apontar naturais desvios, creio ser justo reconhecer que, em larga medida, os compromissos assumidos no acordo firmado em 1987, na Declaração Conjunta, foram cumpridos e o território conheceu períodos de crescente prosperidade. Houve, é certo, alguns graves acidentes de percurso.

Tais como?

Falo dos casos de corrupção que ganharam notória repercussão, mas esses percalços foram resolvidos pela via judicial, constituindo um teste à capacidade de resposta do sistema instituído, mesmo sabendo que nem todos terão concordado com a forma como alguns dos problemas criados foram resolvidos. Foram, entretanto, atribuídas à RAEM especiais responsabilidades.

Fala do seu papel de plataforma com a China…

E também da articulação de Macau com a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” e como centro mundial de turismo e lazer. Foram, igualmente, definidos novos percursos com vista à sua progressiva integração na Grande Baía Guangdong – Hong Kong – Macau. Estávamos precisamente nesta fase do desenvolvimento da RAEM, com a ilha vizinha de Hengqin em rápida transformação para servir este propósito, quando a pandemia impôs uma pausa, que pode e deve ser muito bem aproveitada para repensar os objectivos imediatos e as estratégias de médio e longo prazo.

A pandemia obrigou Macau a olhar-se de uma outra forma? Qual o caminho para recuperar de uma crise desta dimensão?

Claro que sim. A receita global, proveniente do jogo, fazia acreditar que o seu desenvolvimento seria linear e sempre continuado, à medida que as autoridades fossem permitindo a entrada de mais e mais visitantes do continente, criando emprego, mas também recorrendo mais e mais a mão-de-obra importada. Cheguei a expressar uma opinião sobre a vulnerabilidade do nosso modelo de desenvolvimento, dependente das receitas dos casinos. Disse que, numa situação de crise, como por exemplo um grave problema de saúde que tornasse imperativo o fecho das fronteiras, o nosso modelo seria, inevitavelmente, posto em causa e iria obrigar a um lúcido redimensionamento e a uma redefinição das prioridades. Há lições penosas que importa extrair e sobre elas, com coragem, repensar metas e ritmos de crescimento. E fazer incidir uma atenção maior na população.

Defende então um maior equilíbrio ao nível do turismo.

Os casinos e o turismo devem existir para servir os interesses da população e nunca o contrário. É imprescindível conseguir um muito maior equilíbrio. É estulto e estúpido o propósito primário de trazer mais e mais visitantes todos os anos. Em tudo há um limite e nós já ultrapassámos o nosso, até porque o nosso espaço é exíguo e a sustentabilidade do território depende mais da qualidade desse turismo do que do número de visitantes. Oxalá a pandemia nos permita repensar e redimensionar o nosso modelo de desenvolvimento, até porque o Chefe do Executivo, atento aos insistentes apelos das autoridades centrais, quer apostar numa maior e bem necessária diversificação.

Mas não haverá limitações a essa diversificação?

Ela é possível, havendo que apostar nas mais-valias do território, que vão da cultura e do património a um turismo de qualidade, muito mais selectivo e benéfico para a economia local. [Há também que apostar] nas indústrias, com as mais avançadas tecnologias e a inteligência artificial, com o suporte das universidades e dos seus centros de estudos e investigação. Temos também a área das finanças, assumindo alguns dos propósitos de maior utilização da moeda chinesa no exterior. E é preciso ter uma noção clara e realista dos nossos limites de espaço e dos nossos condicionalismos geográficos, sociais e políticos, em conjunturas nem sempre favoráveis. Haverá que ter em conta também as vantagens e os óbices que resultam da progressiva e, provavelmente, irreversível integração no projecto da Grande Baía, adoptando uma posição pró-activa mais consistente e consequente.

Que análise faz da governação de Ho Iat Seng?

Este, que é o seu primeiro ano em funções, foi imensamente prejudicado pela pandemia. Por isso não será possível fazer uma apreciação justa da sua governação em relação às linhas de acção que foram aprovadas e não inteiramente realizáveis. Mas podemos avaliar muito positivamente o esforço assumido para conter a pandemia e proteger a população dos seus nefastos efeitos. Houve liderança e sentido de missão. E as suas preocupações, desde o início, com a contenção nos gastos, a utilização correcta dos fundos públicos e contra o “despesismo” são de louvar.

Qual foi, para si, o melhor e o pior momento da transição de Macau?

Tutelei o Gabinete das Cerimónias e fui designado pelo Governador para acompanhar os assuntos da transição, trabalhando com a comissão preparatória e acompanhando o futuro Chefe do Executivo até ele tomar posse. E, no âmbito da Administração Pública, que era uma das áreas da minha responsabilidade, acompanhei de perto os processos de formação e “localização” de quadros, bem como os de integração e de ingresso nos quadros da República Portuguesa. Foram processos de particular complexidade. Também acompanhei os trabalhos do Grupo de Ligação e estive em reuniões da comissão interministerial sobre os assuntos de Macau. Estava em Hong Kong no âmbito de uma intervenção cirúrgica para remoção de um tumor, que me poderia ter impedido de continuar em funções governativas num tempo de grande exigência e intensa participação, quando tudo era urgente. Estava preparado para solicitar a minha dispensa e substituição, receando já não poder corresponder, quando recebi a visita do Governador.

Mas continuou no Executivo.

Na opinião da minha família deveria pedir ao Governador que autorizasse a minha saída, mas ele trazia-me uma pasta cheia de novas responsabilidades que acabei por aceitar, ficando em funções até ao último dia. Foi o fim de um tempo de Portugal e também o fim definitivo do meu exercício de funções públicas.

Mas houve bons momentos.

Foram muitos, e incluem a forma empenhada como o Gabinete das cerimónias funcionou, cumprindo exemplarmente uma missão, em nome de Portugal, e a forma como, indo até onde era possível no pouco tempo que nos restava, a conclusão do processo de “localização” de quadros, viabilizando uma transferência suave da administração.

E os maus momentos?

Se ainda vale a pena falar deles, recordo algumas incompreensões que rodearam o tratamento de vários processos que dependiam das autoridades nacionais e as questões políticas que condicionaram o diálogo, e o andamento célere e correcto de assuntos que requeriam urgência, a qual nem sempre foi correspondida. Mas isso já é passado e deixou de ter interesse para mim.

A transferência da soberania esteve envolvida em algumas polémicas. Acha que está na altura de encerrar definitivamente o passado?

Quem viveu aqueles acontecimentos não os esquecerá jamais. As polémicas a que se refere ganharam dimensão pelas motivações políticas que as estimularam. Sobre elas já muito foi dito, embora algo possa ter ficado por contar, nomeadamente sobre os bastidores e a intriga política que sempre existiu e existirá e que se agrava enormemente nos períodos de mudança histórica. É minha convicção que, com todas as dificuldades e incompreensões que rodearam o processo de transição, se cumpriu da melhor maneira possível a missão que aceitámos e que exigiu de nós tudo quanto lhe pudemos dar. Trabalhei com os seis últimos governadores de Macau. Pude ver, comparar e entender as motivações de cada um, até pela relação de grande proximidade e confiança que pude manter com quase todos. Sei que quiseram fazer o melhor em nome de Portugal. Mas nenhum se livrou de polémicas, que existem sempre no decurso da acção governativa, naturalmente surgidas ou intencionalmente provocadas.

Considera que há hoje uma tentativa de apagar o passado colonial por parte de algumas personalidades de Macau? É necessário reforçar esse aspecto para a manutenção da identidade de Macau?

São ainda vozes pouco generalizadas e que não tiveram grande eco, mas vão surgir, inevitavelmente, mais. Aliás, é bom lembrar que, nos próprios dias 19 e 20 de Dezembro de 1999, já em alguns organismos locais eram defendidas mudanças maiores, além de ali festejarem entusiasticamente (leia-se “patrioticamente”) a mudança.

Porque é que essas ideias não avançaram?

Foi o pragmatismo das autoridades centrais que foi sempre travando alguns ímpetos maiores, como acontecera no período da Revolução Cultural, de muito má memória cá fora e, sobretudo, lá dentro, pela forma como atingiu muitos milhões de pessoas. Convém também lembrar que, mais do que a sociedade civil chinesa tradicional de Macau, foram as autoridades centrais que quiseram que à RAEM fosse cometida a responsabilidade de se assumir como plataforma de cooperação com os países de língua portuguesa e que múltiplas iniciativas tivessem sido realizadas neste domínio. Cabe às instituições de matriz portuguesa e a muitas outras entretanto criadas continuar a defender a singularidade de Macau, porque o seu real valor é caracterizado pela sua diferença, mesmo no contexto da Grande Baía.

O que pensa do projecto actual da Escola Portuguesa de Macau (EPM) e da educação de matriz portuguesa?

Acompanhei de perto o processo de criação da EPM, como membro do Governo responsável pela educação, ainda antes da decisão final tomada pelo Estado Português, que escolheu um modelo diferente daquele que havíamos defendido. Já estávamos a prepará-la e a fazer ensaios e estudos sobre o seu papel e dimensão. Tomada a decisão, embora não tivesse deixado de oferecer as minhas opiniões, que apontavam para um maior envolvimento, desde o início, das instituições de matriz portuguesa e do Governo de Macau, abrindo-se o caminho para a participação da própria RAEM no apoio ao seu funcionamento, apostámos na sua criação segundo o modelo escolhido. Fiquei desligado dela [da EPM] durante muito tempo e voltei a acompanhar mais de perto o seu funcionamento, como membro do Conselho de Curadores da Fundação da EPM. A minha participação será, contudo, transitória.

Mesmo com todas as mudanças que já ocorreram, considera a EPM um projecto importante.

Sempre considerei a EPM a instituição mais relevante para garantir a permanência de portugueses e um bom ensino em língua veicular portuguesa, além de promover a difusão da língua e da cultura, podendo ainda contribuir seguramente para a viabilização do preceito da Lei Básica que atribui à língua portuguesa o estatuto de língua oficial. Espero que, com base na experiência feita, os seus responsáveis, através de um diálogo que se deseja amplo com as entidades financiadoras e todas as outras que têm um papel a desempenhar no seu regular funcionamento e nas experiências pedagógicas ensaiadas, encontrem para ela o melhor modelo de gestão e que os seus planos curriculares sejam consentâneos com a realidade presente, como escola portuguesa no estrangeiro e, simultaneamente, como estabelecimento de ensino particular da RAEM.

Mas, no que diz respeito ao ensino do português, há ainda outras entidades. Qual a estratégia a adoptar para elas?

O Instituto Português do Oriente deve também merecer a continuada atenção das autoridades para que possa cumprir bem a sua relevante missão, em articulação com o Camões – Instituto para a Língua e Cooperação. Quanto ao Jardim de Infância D. José da Costa Nunes e outras escolas e centros de formação onde a língua portuguesa é ensinada, importa, igualmente, assegurar-lhes a colaboração necessária e contribuir para que lhe sejam garantidos os meios adequados ao seu regular funcionamento. Creio que, no âmbito dos Serviços de Educação e Juventude da RAEM, é possível e desejável ir ainda mais longe, mas esta é matéria que já transcende o âmbito da pergunta feita.

Preocupa-o a aposta crescente na educação patriótica?

Macau é uma região chinesa com um estatuto especial transitório. É apenas natural que as autoridades, quer centrais, quer locais, se preocupem com a educação patriótica, mas, exactamente por causa deste estatuto especial que ainda deverá vigorar, oficialmente, por mais quase 30 anos, é bom que haja um sentido de equilíbrio e muita lucidez na forma como essa educação é ministrada. Os programas e textos de apoio não devem, a meu ver, ser simplesmente transpostos duma realidade diferente, mas sim adequadamente adaptados, sob pena de se tornarem ineficazes. O amor à Pátria sempre foi um valor naturalmente assimilado e convictamente assumido. Pode até ser estimulado e cultivado, mas nunca imposto. Quem não perceber isto, não deve estar a perceber nada do que tem a ver com o presente e o futuro da RAEM.

Como perspectiva o futuro da RAEM?

Faltam quase 30 anos [para 2049]. Parece muito tempo, mas, na realidade, nem o é, já que estes vinte, desde a transferência da administração, passaram assaz vertiginosamente. Podemos perspectivar o porvir através dos planos de desenvolvimento aprovados ao longo da última década e meia, primeiro para o Delta do Rio das Pérolas, e, logo a seguir, a sua articulação crescente e interligação regional, para culminar agora no ambicioso projecto da Grande Baía. Esses planos apontam metas para 2022 e para 2035, prazo fixado para a sua conclusão. As coordenadas do desenvolvimento de Macau estão ali claramente delineadas, através do plano sectorial elaborado pelo Governo da RAEM, o qual merece mais ampla difusão, para que todos possam tomar conhecimento do que está verdadeiramente em preparação. Executado o plano da Grande Baía, entrará certamente em vigor um plano que estabelecerá as linhas mestras da integração definitiva.

Mas, no contexto da Grande Baía, Macau deverá ser um território único.

O que devemos desejar é que haja sempre clarividência para se entender que o maior valor de Macau reside no seu legado de séculos. A sua diferença é a marca da sua singularidade e só a manutenção da sua singularidade garantirá a utilidade da sua participação e da sua integração em condições que ainda estão por definir e podem, por isso, depender ainda da nossa legítima intervenção, em nome das associações e outras organizações da sociedade civil a que estamos ligados, como residentes permanentes. Filho da terra, invocarei sempre a legitimidade de participação que essa antiguidade deve facultar. Mas essa legitimidade de participação deve ser assegurada a todos quantos, de qualquer origem, aqui têm a sua casa e aqui decidiram fazer o seu futuro, que é o mesmo que dizer, fazer o futuro de Macau, sua terra, com as suas gentes, que acreditam que sem memória não haverá futuro. Esse futuro, porém, dependerá sempre muito mais da China do que de nós, dos rumos que ela for apontando para o seu desenvolvimento nas próximas décadas e dos sucessos da afirmação da sua influência crescente no mundo.

21 Dez 2020

IIM | Irmãos Marreiros ganham Prémio Identidade por “obra de reconhecida qualidade”

Vítor Marreiros, designer, e Carlos Marreiros, arquitecto, são os vencedores da edição deste ano do Prémio Identidade 2019 do Instituto Internacional de Macau, por serem “duas personalidades bem conhecidas de Macau” e “dois casos de sucesso”. Carlos Marreiros diz que a distinção é o mote para continuarem a fazer um bom trabalho

 

[dropcap]O[/dropcap] Instituto Internacional de Macau (IIM) decidiu atribuir este ano o Prémio Identidade aos irmãos Vítor Marreiros, designer, e Carlos Marreiros, arquitecto. De acordo com um comunicado do próprio IIM, a distinção justifica-se com o facto de os dois irmãos serem “indiscutivelmente dois grandes talentos de Macau e duas notáveis histórias de sucesso, como inspirados criadores, artistas consumados e profissionais respeitados, com obra de reconhecida qualidade realizada e, ambos, com significativa projecção no exterior, o que tem prestigiado Macau, sua terra natal, além-fronteiras”.

O facto de já terem trabalhado juntos em inúmeros projectos faz com que se enquadrem “perfeitamente no espírito do galardão que lhes foi agora atribuído”. O prémio será entregue no próximo Encontro das Comunidades Macaenses, que se realiza no território na última semana de Novembro deste ano.

Em declarações ao HM, Carlos Marreiros mostrou-se satisfeito por ser um dos nomes escolhidos.
“Há tanto anos que tenho trabalhado de forma desinteressada para a formação da identidade macaense que naturalmente fico feliz e contente por ser recipiente deste prémio. É uma honra. Claro que não trabalhamos para prémios, mas quando somos distinguidos aceitamos e vemos isso como um incentivo para continuar a trabalhar, mais e ainda melhor.”

Carlos Marreiros destaca o facto de ter ganho o prémio com o irmão, “um grande designer e artista”. “Fizemos trabalhos em conjunto nos últimos 35 anos e vamos continuar a ter projectos. Poder receber esse prémio juntamente com os nossos irmãos macaenses que estão cá em Macau é um sinal de alegria. Vamos recebe-lo com humildade e sabemos que doravante ainda temos de nos esforçar para trabalhar melhor”, frisou. O HM tentou chegar à fala com Vítor Marreiros, mas até ao fecho da edição não foi possível estabelecer contacto.

Provas dadas

Carlos Alberto dos Santos Marreiros é arquitecto, urbanista, artista plástico e gestor cultural, com formação superior obtida em Macau, Portugal, Alemanha e Suécia. Além de arquitecto muito conceituado, com cerca de duzentas obras concebidas em Macau, Hong Kong, China, Portugal e Austrália, e de docente universitário e orador em conferências internacionais, desempenhou cargos em organismos públicos e da sociedade civil, entre os quais os de presidente do Instituto Cultural de Macau (1989-1992). Preside, actualmente, ao Albergue SCM, e é igualmente curador da Fundação Macau, membro do Conselho Consultivo da Cultura, do Conselho do Ambiente e do Conselho para as Indústrias Criativas da RAEM e presidente honorário da Associação de Engenharia e Construção de Macau. O IIM recorda que, como artista plástico, protagonizou mais de duas dezenas de exposições individuais e participou em mais de cinquenta colectivas em várias partes do mundo. Nesse aspecto, impossível não mencionar que foi o artista escolhido para representar Macau na 55.ª Exposição Internacional de Arte de Veneza, em 2013.

Victor Hugo dos Santos Marreiros é considerado um dos melhores designers de Macau, tendo-se notabilizado no ramo do design gráfico e como artista, com trabalhos de elevado mérito, muitos dos quais reflectindo a identidade cultural de Macau, que contribuiu para valorizar enormemente, descreve o IIM.

Foi director artístico do Instituto Cultural, bem como da Revista de Cultura do mesmo organismo e da TDM – Teledifusão de Macau, além de fundador do Círculo dos Amigos da Cultura, da MARR Design e da Victor Hugo Design e membro da Associação de Design de Macau. Participou em exposições e eventos culturais realizados em vários países.

2 Jul 2019

Jorge Rangel diz que população entendeu desafio político depois da Declaração Conjunta

[dropcap]O[/dropcap] presidente do Instituto Internacional de Macau e ex-governante no território disse à Lusa que a população local entendeu o desafio político da transição após a declaração conjunta luso-chinesa, que foi assinada há 32 anos.

“Não obstante as apreensões e as dúvidas, que são inevitáveis em qualquer período de mudança histórica, creio que a população de Macau soube compreender o desafio político que foi obrigado a enfrentar e fê-lo com louvável serenidade e dignidade”, disse Jorge Rangel, que foi deputado e secretário para a Administração Pública, Educação e Juventude no antigo território administrado por Portugal.

A Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a Questão de Macau, assinada em 1987, marcou o início do processo de transição de Macau para a China, pondo-se termo, 25 anos depois do 25 de Abril, ao “ciclo do Império”, segundo a expressão de numerosos historiadores, cujo princípio do fim teve início em Goa, em 1961.

Uma vez “definido o futuro de Hong Kong, todos sabiam que era chegada a nossa vez e o desejo de muitos era que os interesses da população, bem como a sua maneira de viver, fossem devidamente salvaguardados”, sublinhou o ex-governante, que tutelou ainda em Macau os aspectos relacionados com a transição.

“Felizmente o diálogo, muito intenso e interessado entre as partes envolvidas, permitiu ultrapassar dificuldades e divergências, até se conseguir um acordo que foi considerado positivo, definindo todo o enquadramento político do processo de transição, que mais tarde, como membro do governo do General Vasco Rocha Vieira, de 1991 a 1999, pude acompanhar todos os dias até por ser matéria da minha tutela”, recordou.

No dia em que se assinala o aniversário da declaração conjunta luso-chinesa, o presidente do instituto defendeu que, “quarenta anos volvidos, é justo reconhecer que a transição se processou em conformidade com os preceitos definidos” pelos dois Estados e pelo território, “respeitando e mantendo a singularidade” de Macau.

Para comemorar o aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China, o Instituto Internacional de Macau acaba de publicar o livro “Macau – um Diálogo de Sucesso”, da autoria de Fernando Lima, que acompanhou o processo negocial entre Portugal e a República Popular da China.

O prefácio é do embaixador António Martins da Cruz, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros.

A sessão de lançamento será feita em meados de Maio em Macau, com a presença do autor e do prefaciador, seguindo-se depois a sua apresentação em Lisboa e em Pequim.

15 Abr 2019

IIM | Tese sobre ensino superior após transição distinguida com prémio

[dropcap]L[/dropcap]ai Chi Ian foi um dos investigadores distinguido pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) para o Prémio Jovem Investigador 2018, que será entregue no próximo dia 31. A tese de Lai Chi Ian versa sobre o ensino superior após o período da transição de soberania, e intitula-se “The Impacts of Colonial Transition on the Development of Higher Education in Macau, with reference to Hong Kong”.

O IIM decidiu atribuir o mesmo prémio a um outro investigador, de nome Cheong Iok Kei, por ter desenvolvido o trabalho de investigação “Parenting stress, parental self-efficacy, social support and the quality of life with Macao SEN’s parent”. Ambos os prémios foram atribuídos na área das ciências sociais, sendo que o júri decidiu não atribuir o prémio relativo às ciências aplicadas.

De acordo com um comunicado do IIM, o prémio em questão “tem por objectivo incentivar jovens estudantes, professores, recém-licenciados e criativos a investigação e ao aprofundamento dos estudos visando o desenvolvimento da RAEM, essencialmente nos sectores estratégicos da economia e da diversificação, do património e da identidade, das ciências aplicadas, e da História de Macau”.

O concurso “foi muito concorrido”, uma vez que foram entregues 27 trabalhos de investigação a concurso, analisados pelos professores universitários Mok Kai Meng e Chan Ka Wai.

O prémio tem o apoio da Fundação Macau e um valor pecuniário de 25 mil patacas. Este é atribuído desde 2001 e “pretende estimular uma maior participação das novas gerações, destinado a diversificar a intervenção social, criar oportunidades e expandir o âmbito do conhecimento”.

4 Jan 2019

História | Instituto Internacional quer lançar livro sobre padre Gaetano Nicosia

O Instituto Internacional de Macau tem em mãos o projecto de fazer a biografia do padre Gaetano Nicosia, falecido o ano passado e que dedicou grande parte da sua vida a ajudar os leprosos que viviam em Ka-Hó. Ontem foram lançados três livros em chinês sobre D. Arquimínio da Costa, padre Lancelote Rodrigues e padre Mário Acquistapace

 

[dropcap style≠’circle’]A[/dropcap] vida de missionário em Macau do padre Gaetano Nicosia vai ser passada a escrito. A garantia foi dada ontem por Rufino Ramos, secretário-geral do Instituto Internacional de Macau (IIM), a entidade que será responsável pela publicação da obra sobre o incontornável sacerdote, que faleceu no ano passado.

“Vamos fazer um livro, mas é sempre difícil arranjar quem escreva. Houve pessoas que aceitaram, mas depois vieram com a justificação de que não podiam”, disse ontem o responsável à margem do lançamento das versões em chinês de três obras sobre sacerdotes que desenvolveram trabalho missionário e social no território: D. Arquimínio da Costa, padre Lancelote Rodrigues e padre Mário Acquistapace.

Nascido em Itália em 1915, Gaetano Nicosia ficou conhecido por trabalhar de perto com os leprosos que viviam na leprosaria de Ka-Hó, em Coloane, numa altura em que se temia a aproximação a estes doentes. Antes disso, Gaetano Nicosia também passou por Hong Kong.

Rufino Ramos adiantou ainda que é objectivo do IIM, presidido por Jorge Rangel, publicar mais livros sobre outras figuras da Igreja Católica que passaram por Macau e que ainda são lembrados por muita gente. Contudo, existem dificuldades de ordem editorial.

“A nossa dificuldade reside em encontrar alguém com a capacidade de escrever bem. Hoje mencionei aqui dois missionários, um deles o padre António Roliz, que muitos chineses ainda devem conhecer, porque passaram por dificuldades e foi o padre Roliz que os ajudou”, explicou.

Para o secretário-geral do IIM, Macau teve “outros padres que se destacaram na área da música e da sinologia, mas vamos aos poucos tentar dar a conhecer”. “Há muitos chineses que não conheceram bem os padres portugueses e a comunidade portuguesa actual pode não conhecer muitos párocos. Haveria padres chineses que trabalharam mais com uma comunidade”, acrescentou.

Chegar aos chineses

Os três livros que têm agora uma edição chinesa fazem parte de uma colecção de dez manuais. Rufino Ramos frisou que é objectivo dar a conhecer a história de vida destes padres a toda a população de Macau.

“Temos esta colecção já há algum tempo e achamos que era importante a comunidade chinesa inteirar-se do que estamos a fazer, e também que conhecessem o trabalho que certos missionários fizeram em Macau no século passado. O IIM não existe apenas para os falantes de português, também queremos que a comunidade chinesa perceba os valores culturais de Macau.”

Os livros estão à venda no website do IIM e poderão ser distribuídos no mercado livreiro de Hong Kong, mas Rufino Ramos alerta para as dificuldades de penetração no mercado chinês. “É difícil distribuir na China porque estamos mais preparados para lidar com o chinês tradicional do que o simplificado [na tradução das obras]. Vamos tentar distribuir os livros em Hong Kong. Não garanto que na China consigam receber os livros se os comprarem online.”Arquimínio da Costa foi um bispo português “muito popular, que se expressava em cantonês e que se dava muito bem com toda a gente”, disse Rufino Ramos quando questionado sobre a importância que estas figuras da Igreja tiveram para as comunidades locais. “Esteve muitos anos em Macau e trabalhou no sector da educação, foi uma figura muito consensual.” Já o padre Mário Acquistapace, italiano, era “simpatiquíssimo”. “Trabalhou com pobres e viveu uma vida quase de santo na missão de Coloane. Fez muitas obras sociais”, disse o secretário-geral do IIM.

O mais conhecido de todos eles será o padre Lancelote Rodrigues. “Era conhecido de todos os diplomatas de Hong Kong, bebia whisky com eles. Cuidou dos refugiados vietnamitas quando eles estiveram cá, e creio que muita gente fora de Macau conhece bem o padre Lancelote porque ele ajudou muita gente.”

11 Jul 2018

Exposição de caligrafia chinesa patente em Aveiro

[dropcap style≠’circle’]A[/dropcap] exposição de caligrafia chinesa intitulada “Um Janus Cultural: A Complexidade de Macau em exibição caligráfica” foi inaugurada no passado dia 18 no Museu de Santa Joana de Aveiro. De acordo com um comunicado, “as obras expostas versam sobre temas de Macau, poemas ou escritos antigos sobre a cidade que o artista fez bem em evocar, especialmente poemas e comentários de letrados chineses sobre a coexistência pacífica entre as comunidades e sobre o modo de vida de macaenses”.

O evento foi co-organizado com a Fundação Jorge Álvares e o Instituto Milénio de Macau, uma instituição de ensino superior privada.

29 Mai 2018

IIM | Personalidades da diáspora macaense ganham Prémio Identidade

[dropcap style≠’circle’]F[/dropcap]rederico Alberto Silva (Jim Silva), ex-presidente da União Macaense Americana, e António Manuel Pacheco Jorge da Silva, ex-presidente do Lusitano Clube da Califórnia, foram os distinguidos pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) para a edição deste ano do Prémio Identidade.

De acordo com um comunicado, esta distinção aconteceu dado que estas personalidades, a residir nos Estados Unidos há muitos anos, deram a “contribuição para o reforço do sentimento de pertença a Macau”.

Jim Silva foi profissional da área financeira em Hong Kong e, depois de se radicar nos EUA, preparou textos que foram publicados em livros sobre as suas memórias da guerra do Pacífico e os seus conhecimentos sobre o patuá, a religião, a culinária e o legado cultural dos seus avós, elementos esses agregadores de uma comunidade. Este macaense publicou seis livros e redigiu em inglês uma introdução à História de Portugal para divulgação entre a juventude macaense da diáspora.

Por sua vez, António Pacheco Jorge da Silva, que exerceu funções de arquitecto em Macau, Hong Kong, Reino Unido e EUA, dedicou-se, após a sua aposentação, a escrever a geração dos descendentes dos portugueses em Macau, incluindo as suas experiências em muitas regiões da China e integração nos países da diáspora, analisando as suas implicações sociais e culturais. O IIM adianta que “de forma desinteressada e persistente têm ambos dedicado grande parte da sua vida a este esforço consequente de divulgação da história e da cultura de Macau, impulsionando a valorização e o reforço da Identidade Macaense”.

24 Mai 2018

Iniciativa chinesa “uma Faixa, uma Rota” analisada em livro publicado em Macau

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] presidente do Instituto Internacional de Macau defendeu hoje que a iniciativa “uma faixa, uma rota” é, além de um processo de desenvolvimento e integração, a visão chinesa da globalização.

Jorge Rangel falava na apresentação do livro “A iniciativa chinesa ‘uma Faixa, uma Rota’ – O papel de Macau e dos Países de Língua Portuguesa”, também a cargo do presidente do Instituto de Estudos Europeus, José Luís de Sales Marques, e do professor da Universidade de São José Francisco Leandro.

A iniciativa de infraestruturas, que Pequim apresentou ao mundo em 2013, tem como objetivo refazer o mapa económico e político mundial, ao mesmo tempo que procura reformular o modelo de desenvolvimento eurocêntrico convencional, de acordo com um dos artigos que integram a publicação.

O livro, publicado pelo Instituto Internacional de Macau e produzido pelo grupo de media Macaulink, apresenta os desafios e o papel de Macau e dos países lusófonos no âmbito de um dos projetos diplomático e económico mais importante da atualidade.

Simultaneamente, pretende explicar o papel de Macau e dos países de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste) naquela iniciativa e no projeto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, outro plano chinês para o século XXI.

Anunciada pelo Presidente chinês, Xi Jinping, a iniciativa “Faixa económica da rota da seda e a Rota da seda marítima do século XXI”, mais conhecida como “uma Faixa, uma Rota”, está avaliada em 900 mil milhões de dólares e visa reativar as antigas vias comerciais entre a China e a Europa através da Ásia Central, África e Sudeste Asiático.

Redes ferroviárias intercontinentais, portos, aeroportos, centrais elétricas e zonas de comércio livre estão a ser construídos em mais de 60 países, abrangendo 65% da população mundial.

No lançamento foi anunciado que o livro, publicado em inglês, vai ter em breve versões em chinês e em português.

17 Mai 2018

IIM lança “O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes”

O papel que Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes desempenharam no diálogo cultural entre a Europa e o Oriente figura no centro da obra que vai ser apresentada amanhã no Clube Militar. O livro, que resulta de um trabalho de investigação de Carlos Botão Alves, tem a chancela do Instituto Internacional de Macau (IIM)

 

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] que têm em comum Antero de Quental (1842-1891) e Manuel da Silva Mendes (1867-1931)? Além de pertencerem a “uma geração de grande empenhamento político e social” e “fecunda do ponto de vista literário”, partilharam “uma busca por correntes sapienciais” do Oriente, “com o objectivo pedagógico de regenerar o Homem e, por conseguinte, a sociedade”.

Quem é o diz é Carlos Botão Alves, autor d’ “O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes” que, embora publicada em 2016, vai ser oficialmente apresentada amanhã no Clube Militar. O livro, que mergulha na área do pensamento e da literatura, visa “a compreensão de como é que os dois autores activaram um conjunto de estratégias e de instrumentos para efectivarem uma real tradução cultural”. Uma acção com a qual pretenderam “inserir elementos da sabedoria e da filosofia orientais (budista e taoísta) nos seus sistemas de interpretação do mundo e do Homem”, lê-se na sinopse da obra que integra a colecção Suma Oriental do IIM.

Em entrevista ao HM, o professor e investigador do Instituto Politécnico de Macau (IPM) coloca a tónica precisamente na “reflexão profunda” que ambos fizeram, apesar das diferentes formas de contacto com a cultura oriental. Isto porque, no caso de Antero de Quental, a exposição ocorre por via dos livros, sobretudo das traduções francesas, enquanto Manuel da Silva Mendes estabeleceu um contacto directo em Macau.

A Carlos Botão Alves interessou acima de tudo “esse passo de ir conhecer o outro – esse traço de atitude” – mais do que a forma de contacto. “As primeiras grandes traduções da história do encontro com o Oriente foram feitas nos mosteiros por pessoas que, apesar de nunca terem visto o Oriente, o compreendiam. O ver é no século XX e XXI”, sublinha o investigador, apontando que o contacto directo pode ter, aliás, desvantagens: “Pode dar a ilusão de proximidade e de maior potenciação de um conhecimento, mas pode fazer sobretudo com que se resolva essa necessidade que o homem tem de encontrar o outro por estar perto”. Com efeito, “muitas vezes, o que sucede, como na Macau actual, é que, de facto, nunca se encontram realmente, vivendo em paralelo”, sustenta Carlos Botão Alves, para quem que o contacto directo pode levar ainda ao “desencanto”.

A Antero de Quental e a Manuel da Silva Mendes interessou “o Oriente intelectual que permite emprestar determinados conceitos ao Ocidente para este se regenerar”, o que mostra “uma ideia global do Homem que hoje em dia parece muito óbvia, mas que não seria tanto no final do século XIX”, sublinha o investigador.

Mergulho a Oriente

“Estes dois homens atravessaram culturas e línguas e foram buscar conceitos que fazem todo o sentido, criando eles próprios uma súmula. Trata-se de uma enormíssima novidade”, observou o autor. Carlos Botão Alves é, por isso, peremptório ao afirmar que as obras de ambos acabam por “contradizer” a mensagem do famoso poema do britânico Rudyard Kipling à luz da qual “O Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente e nunca os dois se encontrarão”.

“Ambos tentam fazer com que o homem não se perca na contingência de um mundo que perece e que muda e fazem-no através dessa aproximação a Oriente, realça o autor, para quem os dois republicanos confessos “perceberam exactamente que a actividade política que nunca negaram e continuaram só se faz se houver uma riqueza espiritual que o permita. Era o que faltava ser devidamente cultivado na cultura ocidental que eles vêm buscar às correntes orientais”, destaca Carlos Botão Alves.

“Pode-se perguntar como homens tão empenhados na vida sociopolítica do momento (Antero de Quental sempre em Portugal e Manuel da Silva Mendes em Portugal e em Macau) se interessaram por questões como o budismo ou o taoísmo. Ora, tal faz todo o sentido”, enfatiza. Isto porque “não lhes interessa estudar o budismo como budismo, ou o taoísmo como taoísmo, ou mesmo a raiz de todos eles: o hinduísmo. Não lhes interessam só por si, mas antes na medida em que podem ser esclarecedoras para a sua própria cultura”, complementa. “É a ideia de que se está a ganhar no material e a perder no espiritual que os leva a lançarem um apelo a outras culturas onde podem encontrar ainda uma flama de espiritualidade”.

Carlos Botão Alves dá o exemplo concreto do poeta da geração de 70. “Lidos que estão Saint-Simon, Owen ou Proudhon, ou seja, todos aqueles teóricos do socialismo do século XIX, nomeadamente as correntes francesas, [fica patente] que a reforma sociopolítica só se fará se puderem criar condições inerentes a cada um dos indivíduos para que eles próprios se reencontrem”, contextualiza. Ora, é precisamente essa “preocupação pedagógica”, de que “é preciso reformar o Homem antes de reformar a sociedade do Homem”, que “faz com que Antero de Quental se interesse pelo budismo” que, como aliás escreveu, “traz consigo toda a satisfação, toda a consolação e toda a alegria”.

Carlos Botão Alves, radicado em Macau desde 1985, iniciou os estudos que culminaram na obra em apreço na década de 1990, a partir da leitura de uma conferência, que lhe “despertou a atenção”, dada por Manuel da Silva Mendes no Clube Militar, onde, precisamente por isso, vai ser apresentado o livro. Em causa, “talvez o mais longo texto de Silva Mendes sobre o ‘Tao Te King’ [clássico de Lao Tse] e a via da verdade e da virtude”.

O interesse do autor por Silva Mendes começou naquele momento, mas viria a amadurecer de forma particularmente profícua quando foi dar aulas na Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Deli, durante dois anos, como professor convidado. “Foi ali que tive contacto directo com os textos em edições muito cuidadas das correntes de sabedoria indiana, que estão na base de tudo”, explica o autor.

Esse trabalho acabou por conduzir a uma tese de doutoramento em literatura comparada, no âmbito da qual se debruçou sobre a obra sonetística de Antero de Quental (com a qual “convivia já há várias décadas por via dos estudos) e a produção ensaística de Manuel da Silva Mendes. “Queria encontrar uma forma de puxar o Silva Mendes para as luzes da ribalta e a forma que encontrei foi fazer um trabalho de literatura comparada com Antero de Quental”.

Carlos Botão Alves acabou por ir mais longe, entrando num contexto mais alargado dos estudos orientalistas quando, na busca por conceitos que permitissem analisar os textos de ambos e aproximá-los, encontrou no domínio da chamada tradução cultural um campo fértil para pôr então Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes lado a lado.

16 Mai 2018

História de Macau | IIM arranca com ciclo de conferências

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] Instituto Internacional de Macau (IIM) vai levar a cabo um ciclo de conferências sobre a História de Macau. A primeira sessão intitula-se “Serão Macaense sobre a Invasão Holandesa de 1622” e tem lugar no próximo dia 24 de Maio, pelas 18h15, no auditório da Escola Portuguesa de Macau (EPM).

A sessão conta com o contributo do jornalista e autor de livros históricos João Guedes e ainda José Basto da Silva, presidente da Associação dos Antigos Alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco.

De acordo com um comunicado, o objectivo desta iniciativa é “estimular o conhecimento dos alunos do ensino secundário, de acontecimentos importantes que moldaram Macau”. A primeira sessão contará “com a projecção de vídeos sobre o acontecimento e distribuição de material de leitura aos presentes”. Vai ainda ser lançado “um concurso entre os estudantes da EPM, em forma de pequenos contos de história, a fim de reunir posteriormente os melhores trabalhos para serem incluídos numa publicação do IIM”.

É também objectivo do IIM, presidido por Jorge Rangel, “levar posteriormente esta iniciativa aos jovens das escolas de matriz luso-chinesa e inglesa de Macau”. O projecto conta com o apoio da Fundação Macau.

15 Mai 2018

Literatura | Obras sobre Silva Mendes lançadas na próxima quinta-feira

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] Clube Militar vai ser palco, na próxima quinta-feira, pelas 18h30, do lançamento de dois livros com a chancela do Instituto Internacional de Macau (IIM). As obras em questão são “O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes”, de Carlos Botão Alves e “Manuel da Silva Mendes”, de António Aresta, indicou o IIM em comunicado.

As apresentações vão ser realizadas por Ana Cristina Dias, professora de língua e literatura da Universidade de Macau, José Rocha Diniz, administrador do Jornal Tribuna de Macau, Carlos Botão Alves, autor de um dos livros e professor do Instituto Politécnico de Macau, com a coordenação de Jorge Rangel, presidente do IIM.

14 Mai 2018

Música | IIM lança obra de Enio de Souza focada em instrumentos chineses

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] Instituto Internacional de Macau (IIM) vai lançar a obra “Instrumentos Musicais Chineses – Colecção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa”, da autoria de Enio de Souza, no próximo dia 21 de Maio pelas 18h30.

Trata-se da dissertação de mestrado realizada na Universidade de Católica Portuguesa (UCP) por Enio de Souza, “uma personalidade ligada há mais de três décadas a instituições culturais e centros de investigação académica cujo objecto principal tem a ver com estudos de Macau e das relações interculturais de Portugal com a China, nas suas diversificadas vertentes, sendo hoje um reconhecido especialista em diversas matérias neste domínio”.

Este projecto tem o apoio da Fundação Jorge Álvares e Albergue SCM, e revela “o contexto histórico da música chinesa e respectiva organologia, a que se segue um outro em que é divulgada a história da colecção que constitui objecto principal deste trabalho”. “São depois classificados e caracterizados os instrumentos, cada um dos quais é mostrado através de bonitas fotografias coloridas, sendo também referidos os selos, marcas e inscrições neles existentes”, acrescenta o comunicado do IIM.

A obra faz parte da colecção “Suma Oriental”, do IIM, e já foi lançado pela UCP no passado dia 11 de Abril, contando com a “numerosa participação de professores, estudantes, entidades ligadas a Macau, colegas e amigos do autor”.

10 Mai 2018

IIM | Inscrições abertas para concurso de fotografia local

O Instituto Internacional de Macau já abriu as inscrições para mais uma edição do concurso de fotografia dedicado ao território, “A Macau que eu mais amo”. Este ano há novidades: a organização quer imagens capazes de registar uma cidade além dos edifícios

[dropcap style≠’circle’]U[/dropcap]ma Macau além do cimento e dos monumentos. Um território além do visível à primeira vista e mesmo do palpável é o desafio que o Instituto Internacional de Macau (IIM) faz na edição deste ano do concurso de fotografia. “Ao contrário das edições anteriores desta iniciativa, este ano, o IIM pretende aproximar os concorrentes dos valores culturais e tradicionais do território”, explicou António Monteiro ao HM.

A ideia é alargar os motivos de interesse dos participantes e convidar à exploração de características do território capazes de ir além do interesse comum pelos edifícios ligados ao património local. “Queremos aproximar os jovens e, de forma geral, os residentes, a participar num concurso em que registem imagens que não se resumam ao património físico e em que espelhem também os valores tradicionais da comunidade local”, refere o responsável. O objectivo é preservar a dinâmica social e cultural do território de modo a que sejam registadas características “que possam estar em risco de desaparecer ou de serem esquecidas”.

Como exemplo, António Monteiro sugere que seja dada mais atenção a situações que envolvam pessoas, gastronomia, lojas ou letreiros que caracterizem Macau, “visto serem também elementos inerentes à cultura local”, diz. “É preciso ver mais do que as Ruínas de S. Paulo e o Farol da Guia. As pessoas geralmente tendem muito a fotografar o património físico, mas não focam aspectos que tenham que ver com festividades, por exemplo, com as culturas tradicionais, e é isso que estamos a querer fazer nesta edição”, esclarece.

O próprio nome, sublinha António Monteiro, remete para este objectivo, ou seja, para a procura de situações que envolvam também a emoção. “A Macau que eu mais amo” pretende que “as pessoas se dirijam a assuntos que as façam sentir mais o lugar onde vivem, sendo que é uma forma de colocar a população a olhar para a Macau invisível”.

Imagens de todos

O concurso é dirigido a dois tipos de participantes, tendo uma componente geral e uma outra orientada para os mais jovens. “O evento foi sempre mais aberto para a vertente jovem, não só crianças, mas principalmente estudantes universitários”, refere o responsável. O foco nos estudantes tem também como objectivo chegar a pessoas que tenham na sua formação a componente de imagem e da fotografia, de modo “a usarem esse conhecimento e poderem com ele, fazer os seus registos de Macau”.

Os prémios dividem-se entre montantes em dinheiro e certificados de participação. Para as três melhores imagens há prémios de cinco mil, três mil e duas mil patacas. Há também uma menção honrosa que é composta por um certificado e a oferta do montante de 500 patacas, “o que é uma novidade”. Há ainda o prémio especial para o melhor trabalho apresentado pelo sócio da Associação de Fotografia Digital de Macau, que co-organiza a iniciativa com o Instituto Internacional, com o valor de mil patacas. As candidaturas estão abertas a todos os residentes até 31 de Agosto.

António Monteiro não deixa de referir o crescente número de participações, principalmente da faixa mais jovem da população. A razão, aponta, é o investimento na divulgação tendo em conta este tipo de público. “Temos tentado fazer uma maior promoção junto das escolas, tanto do ensino secundário, como nas universidades”, explica. “Além disso, tentamos promover a iniciativa de modo a abranger um público mais geral e temos investido, por exemplo, na divulgação via Facebook, onde conseguimos chegar a mais pessoas”, remata.

10 Mai 2017

Maria Helena do Carmo, escritora: “São todas histórias de ‘filhas’ minhas”

Maria Helena do Carmo está em Macau para apresentar o seu sétimo livro. “Estórias de Amor em Macau” reúne doze contos sobre mulheres e percorre quatro séculos de história do território. Ao HM falou do trajecto até à escrita de romances históricos e do livro que vai ser apresentado a 18 de Abril no Instituto Internacional de Macau

Começou por trabalhar em rádio. Como foi o trajecto até chegar à literatura?

Foi a própria evolução da vida. Fui para a rádio quando estava em Goa. Era estudante e tive um convite para participar num programa porque o meu português não tinha sotaque. Fiquei a participar em programas infantis porque só tinha 15 anos. Depois entrei como locutora, a tempo inteiro, na emissora oficial de Goa aos 18 anos. Saí quando teve de ser, refugiada como todas as senhoras em Dezembro de 1961. Continuei esse trabalho em Angola até que resolvi continuar a estudar. As minhas habilitações literárias tinham ficado em Goa e não tinha nada que comprovasse os meus créditos literários. Comecei a fazer o 7º ano por disciplinas e acabei por continuar os estudos. Fui locutora até ao meu segundo casamento e, a partir daí é que enveredei pelo ensino de história.  A vida de locutora em que não se tem horários não se coadunava com a vida familiar. Acabei no ensino que está ligado à comunicação. Um professor também é um actor num palco e fui professora até à reforma. Depois tinha de continuar a comunicar e a forma que encontrei para o fazer foi através da escrita.

Porquê o romance histórico?

Porque são factos verídicos. Prefiro sempre situações da vida real do que a ficção e o romance histórico tem um fundo verdadeiro, apesar de, por vezes, ser ficcionado, mas é sempre baseado numa história que existiu.

Depois de Goa, Angola e mesmo Moçambique, como é que apareceu Macau?

O meu marido veio para cá trabalhar e as mulheres vão sempre atrás dos maridos. Ainda hoje não são elas que dizem que vão trabalhar para fora. Nessa altura já a lei permitia que as mulheres que viessem e tivessem o seu emprego poderiam continuara  trabalhar aqui. Fui professora de história, mas como não preenchia o horário tinha de dar desenvolvimento pessoal e social. Considero-me uma cidadã do mundo. Nasci na Madeira, fui para o continente muito pequena, aos doze anos fui para a Índia, fui para Angola, Moçambique e regressei a Angola. Todos eles me agradaram e por minha vontade teria ficado em cada um deles para sempre. No fundo, fui obrigada pelas circunstâncias, pela política e pelas guerras a ter de mudar de vida e a ter de me adaptar a novas situações.

A escrita acerca de Macau começou com a tese de mestrado, “Os Interesses dos Portugueses em Macau na primeira Metade do Século XVIII”. A partir daí, e já no romance, Macau continuou a ser o cenário. Alguma razão especial?

Quando vim para Macau consegui aqui fazer muita pesquisa. Ia muitas tardes para o arquivo histórico e com os documentos que recolhia fui tendo pistas para trabalhos futuros. Também gostei sempre do oriente e ao estudar a história de Macau fiquei fascinada com determinadas situações e incongruências. Há gestos e atitudes que têm uma grande diferença entre o ocidente e o oriente. Senti-me bem em Macau e tinha material para escrever. O primeiro livro que fiz foi a partir do projecto para a universidade. Verifiquei que o trabalho tinha alguns erros, por ter sido influenciada por autores que não estavam correctos, e quando fui aos documentos é que os verifiquei. Foi quando escrevia o meu primeiro romance, “Uma Aristocrata Portuguesa no Macau do Século XVII – Nhónha Catarina de Noronha”. Escolhi esta personagem por se destacar. Naquela altura, não era fácil para uma mulher viajar. Viajavam as escravas porque não eram ninguém. O facto de ela ter ido para Timor e ter regressado sozinha com a filha foi uma atitude que me encheu de admiração e por isso tentei aprofundar a sua vida. Foi assim que nasceu o livro.

Todos os seus livros se debruçam sobre uma personagem histórica. No “Estórias de Amor em Macau” temos doze. Porquê esta opção?

Foi por acaso. Já me tinham dito que deveria escrever contos por serem mais sucintos e interessantes. Nunca fui muito por aí porque quando pego numa personagem tenho tanta coisa para dizer que não estava a ver reduzida uma história a um conto. Uma vez, em conversa com o meu ex-orientador, ele sugeriu-me que pegasse no Tomé Pires e fazer a história da filha dele, Inês de Leiria, que o Fernão Mendes Pinto encontrou na China. Eu concordei e recordei que quando li a peregrinação também achei o facto curioso. Fiz um conto porque achei que a matéria não dava para fazer um romance. Depois de fazer um, surgiram outros. A seguir apareceu um conto a pedido do Instituto Internacional de Macau para uma revista. Havia uma história de uma menina, a “Menina Mulher”, deste livro, que me impressionou. Era uma menina de 15 anos que morreu a dar à luz. Já tinha dois contos, porque não fazer um terceiro? Numa vinda a Macau visitei o Museu da Santa Casa da Misericórdia. Vi o retrato da Marta  Merop e fui ler o livro. Sintetizei a história e fiz um conto, o “Serva, Senhora”. Trata-se de uma menina que foi posta à porta da igreja de S, Domingos. Foi recolhida por uma madre que a levou para o colégio. Teve uma história atribulada mas acabou por ser amada e por ser tornar  a mulher mais rica de Macau na altura.

Que histórias salienta?

Para mim são todas histórias de “filhas” minhas. Umas escolhi pela época em que viveram e outras por se terem salientado.

São só mulheres. Uma forma de as tirar da sombra?

São mulheres com os respectivos amores. A descriminação aqui na China ainda é mais evidente. Os pais gostam todos de ter meninos mais do que meninas e, até há pouco tempo, eram mesmo rejeitadas. Depois a mulher sempre esteve, de facto, em segundo plano. Aliás, logo no início deste livro tenho este verso feito por mim: “Na China permanece o velho ditado: as mulheres sustentam metade do céu. Os homens brilham no espaço estrelado. Elas ocupam o negro desse extenso véu”. Geralmente os homens é que brilham e as mulheres estão sempre delegadas para um outro plano. Sinto desde miúda que o homem é a pessoa importante, é ele o chefe de família. A mulher dependia da sorte: do marido que tinha ou do pai.

É também um livro que acompanha cerca de quatro séculos da história local. 

Sim. Começa desde o tempo de Tomé Pires e vai até à transferência de administração. Acompanha a evolução de Macau nos aspectos económico, político e social. O social foi, sempre o mais difícil até ao século XX. O sector económico começou a registar mudanças quando o território deixou de viver só do comércio para passar a viver de outras actividades com o aparecimento de fábricas como a de panchões, de vestuário e de brinquedos. Acompanha ainda a própria orgânica política. No início, era o capitão das viagens que mandava até termos um governador. Este livro tem um conto do séc. XVI, dois do XVII, três do XVIII, três do XIX e três do XX. Abarca a evolução do território ao longo destes quatro séculos, do espaço físico e das suas gentes. De uma forma sucinta temos o evoluir de uma cidade e foi isso que mais me entusiasmou.

Como é que é este processo de ficcionar a história?

Se não vivemos na época e não conhecemos a vida da pessoa, temos de a imaginar. Isso acontece de acordo com o quadro em que se vivia. Temos de imaginar a mentalidade e os costumes e descrevê-los de acordo com o que terá acontecido a uma ou outra pessoa. Estou a pensar por exemplo, na Harriett Low, uma americana que chegou a Macau no principio do séc. XIX. Solteira e livre mas era mulher e, por isso, teve os seus problemas. Sofreu da maledicência de muitas pessoas que a criticavam e foi uma figura também importante. Teve um amor não correspondido apesar de ser uma pessoa de quem se gostava por ser invulgar. Mas neste livro também temos o amor ao próximo. Sobretudo o da madre Teresinha. Esteve cá numa época em que existiam muitos casos de cólera e de febre tifóide, numa economia em mudança. Já havia liceu e algum progresso em determinados aspectos mas a acção social ainda era muito precária. Não existia assistência às crianças e aos inválidos. A madre Teresinha teve uma acção tão importante que tem uma rua com o seu nome. Mereceu ser destacada nesse amor ao próximo.

Tem tido livros publicados em Portugal. Considera que a literatura com ligação a Macau chega ao público português? 

Consegue chegar a um determinado público. A maioria da população, hoje em dia, não é de leituras. A televisão veio roubar muito o hábito da leitura, à noite, na mesa de cabeceira. A televisão apoderou-se de um espaço e de um tempo que era dedicado à leitura. Por outro lado, os jovens gostam mais de brincar com aparelhos electrónicos e a literatura não os entusiasma muito. Se não há publico para as coisas do oriente também não há para as outras. Acho mesmo que o facto de existirem livros que tratam do oriente atrai muita gente porque é diferente e exótico. Fiz dois livros com a Chiado Editora e o facto de não serem muito vendidos, além de a época ter sido economicamente difícil, teve muito que ver com a falta de promoção. Mas acho que esse não é um problema da Chiado, mas sim de uma situação transversal a todas as editoras que depois se reflecte nas vendas.

Vamos ter mais livros sobre o território?

Macau é uma possibilidade  de voltar a ser o cenário de mais livros. Já fiz o séc. XVII, XVIII e XIX. Falta me o XX.

13 Abr 2017