Como um farol

Habituamo-nos a saber que certos faróis dominam as encostas da terra. Lá em cima uma luz que aclara o tempo. Que tem tanto de meteorologia como de calendário. E avisa quem vem lá. Senão o farol, o sino de uma torre, um quebra-luz. Um tambor. Uma bandeira.

Henrique de Senna Fernandes representava o domínio de toda uma comunidade sempre com relutância em distinguir de onde vinha. Senna Fernandes era, por inteiro, a peça que unia o labirinto. Que o endireitava e lhe aprumava as pétalas, elevando as suas rosas. A sua presença abraçava toda a ideia de um passado. De uma regra de partilha que culminava na união entre os povos. E o mundo fez-se assim. Mais completo. Como quem olha para o Céu e diz: “Só mais um bocadinho”. E esse bocadinho durou 87 anos menos dez dias.

Henrique de Senna Fernandes nasceu em Macau, no dia 15 de Outubro de 1923. Na mesma volta da Terra nascia em Cuba o escritor italiano Italo Calvino. O filósofo francês Michel Foucault viria ao mundo exactamente três anos depois. Isto para quem quer acreditar na precisão dos astros, que ditam a personalidade do ser humano e lhe definem o rumo. O que é certo é que todos elegeram a escrita como o seu dever no mundo.

Dentro de Senna Fernandes, um rumorejar de realidades diversas que se escreveu nas entrelinhas da herança ancestral portuguesa, goesa e chinesa, que já se prolonga por dois séculos e por muitas gerações.

Foi essa álgebra que equacionou e definiu os passos de uma criança e o pôs a crescer num enclave tropical onde a portugalidade moldou a essência do cenário. Uma cidade calma, onde a vida simples acontecia e os governadores desembaraçavam os éditos directamente do seu palácio.

Henrique crescia na Praia Grande repleta de juncos e vapores alimentados nos despojos das caravelas. O mar a bater em território intocado ainda sem aterros, sem a abrupta mão do homem. Do outro lado, o interior, a viagem para a China, a pequena distância, na pega de uma tancaneira, com passagem fugidia pela Rua da Felicidade, onde outros sentidos se consumiam.

O ardor pela escrita começou cedo, aos 11 ou 12 anos, que anunciavam o despertar da puberdade e o remate da inocência. Do pai recebeu a amizade das letras, com o sabor dos livros que lhe despertavam a imaginação e o levavam para bem longe da sua península, nessa altura sem pontes e sem extensões. Aí disciplinou a sua ânsia e alongou o seu mundo.

Antes do liceu, a atenção de um professor exaltou-lhe as ideias, incitando-o a aprender mais, a ler com entusiasmo e a procurar enredos e esclarecimentos para a vida que badalava como sinos. Depois, a escrita mais a sério, desenfreada, a rabiscar cadernos com histórias que o encantavam. Normalmente com raparigas, que desde pequeno enfeitiçaram o seu traço, definindo toda a trama da sua literatura ainda por nascer.

No pano de fundo uma guerra. O Japão a assolar Hong Kong. A família a perder a prosperidade e a escrita a tornar-se o esconderijo de uma brincadeira muito mais séria. O seu olhar atirado para os outros a indagar os seus actores. À procura de falas e de amores proibidos, que lhe acercavam a alma. A misturar vivências, juntando os discordes da sociedade. Entretendo-se com eles, atirando-os ao ar, deixando-os a fermentar dentro de um baú, que se foi enchendo com os seus contos que revelavam muito mais do que uma juventude, formando, daí para a frente, uma personalidade que foi aprendendo a caminhar à sombra das suas personagens. Marinheiros, dançarinas, homens das leis. Outros fora delas.

Depois chegou a vez de Portugal, com o seu inusitado deslumbramento. Anos complicados em Coimbra, a debater-se com as intransigências de um mal amado curso de Direito, mas imprescindível para o seu futuro. Colega de Agostinho Neto, Carlos Wallenstein e do seu conterrâneo Carlos d’Assumpção, que com ele partilhava a ilustre ascendência bem-nascida em Macau. Desse período ficou o espanto e o júbilo das raízes portuguesas. Mais tarde conseguiu formular sentimentos aglutinando as suas duas origens, dizendo: “Se Portugal é a minha pátria, Macau é a minha mátria”, sempre com ironia por uma coisa que só se pode rever nas nuvens do céu. Senna Fernandes, apesar de tudo, sabia de onde vinha e conhecia o lugar para onde ia, porque aí tinha nascido.

De regresso ao território macaense o Direito deu-lhe a subsistência. Com escritório aberto na Almeida Ribeiro pôde delinear o seu rumo com pleno à vontade. A advocacia dava-lhe a liberdade financeira para construir os seus castelos e as suas princesas. Amante da boa vida, partiu para uma carreira dada a experiências e ensinamentos, formando no seu cargo de professor na Escola Comercial Pedro Nolasco – onde seria também director – os andamentos de centenas de macaenses e estudantes da sua língua-mãe. Lugar onde não faltaram os preceitos que nenhum compêndio sabia descrever. Conhecimentos de uma vida de muitos degraus que complementaram com dedicação a educação dos seus filhos.

À parte, ao sabor das ventoinhas no tecto, a sua escrita ganhou toda a consistência. Nos livros plantou os seus amores, a memória de desejos fugazes e proclamou a paixão assolapada pelo ente feminino que o ajudou a definir como nenhum outro a ambivalência do ser macaense com os seus intricados enredos apaixonados que envolviam orgulho, saudade e esperança. Do seu engenho saltaram “Nam Van” e “Mong-Há”, ambos livros de contos, e os seus mais brilhantes “Amor e Dedinhos de Pé” e “A Trança Feiticeira”, que ganharam o galardão de ingresso na grande tela do cinema.

Figura interventiva na sociedade de Macau, o escritor macaense – distinção que se deveria escrever sempre com maiúscula – nunca deixou de apontar o dedo à ineficácia de Portugal na elaboração de um plano de futuro para o território, que deixava passar os seus governadores como quem mudava de casaco, nunca se importando certeiramente com os alicerces da casa que foi construindo.

A família Senna Fernandes, apesar de alguns receios, acreditou sempre em Macau e aqui continuou a viver depois da passagem de testemunho para a China, país que nunca deixou de abraçar a figura da comunidade macaense como vínculo cravado na história e modelo de uma cultura única no mundo, de tolerância pacífica e interligação memorável. Da qual Henrique Senna Fernandes, para além das palavras que o tornaram eterno, foi o verdadeiro paradigma. No Homem, na compreensão e na herança que deixa.

Senna Fernandes foi dignificado quatro vezes pela administração portuguesa, recebendo a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique (1986), a Medalha de Mérito Cultural (1989) e a Medalha de Valor (1995), concedidas pelo governo de Macau, e o título de Grão-Oficial da Ordem de Sant’Iago de Espada, recebido das mãos do presidente Jorge Sampaio, em 1998. Seria ainda agraciado, já pela administração chinesa, com a Medalha de Mérito Cultural (2001) e com diversos títulos Honoris Causa, que confirmaram todo o carinho e importância concedidos pelas gentes da sua terra.

O advogado e escritor deixou viúva, sete filhos, nove netos e dois bisnetos. Senna Fernandes deixa também obra inacabada e uma imensa saudade em todo o fulgor expressivo de Macau, que do lado de lá da sua encosta nunca deixará de iluminar. Como um farol, o sino de uma torre ou um tambor.

11 Out 2020

Henrique, a palavra – sempre

Um dia ante a solicitação de resumir a literatura francesa do seu tempo, André Gide pensou e concluiu: “De nós todos, só ele sobreviverá”. Falava de George Simenon, o autor de mais de cem livros, quase todos do género policial, criador da figura do inspector Maigret, mais vivo e real na sua enticidade do que quantos personagens por esse mundo fora… O autor dos “Faux monnaieurs”, referia-se ao génio do contador de histórias.

O que nós queremos da literatura é o mesmo que queremos da vida: aventura, romance, grande história no cenário de magníficas paisagens.Se me dessem a regalia de levar um só livro para um longo degredo no deserto, por isso levaria, por certo, “As Mil e uma Noites”…

Eis a chama que nos fascinava em Henrique de Senna Fernandes – arquivo vivo e inesgotável de histórias, episódios, personagens da comédia humana da velha Macau, que sobrevivia para nosso deleite ao fluir refulgente do seu verbo evocador, arauto de uma retentiva de memórias que lograva a alquimia de tornar presente o “morto” passado. Ouvi-lo era como estar nos coxins de Haroum Al-laxide, fascinados sem cansaço com a narrativa hipnótica de Sherazade… por mil e uma noites.

A primeira vez que o encontrei, no seu escritório da Almeida Ribeiro, ia para o convidar para escrever para a Revista de Cultura do ICM, e passaram-se cinco horas como cinco minutos… Nasceu aí a minha grande paixão, o meu primeiro fascínio por Macau. Henrique era assim, era isto, que é raro – encarnação da alma de um lugar. A força jorrante do seu verbo evocativo, de tão densa e impaciente de exprimir-se, embargava-lhe momentaneamente a voz, mas isso mesmo tinha o poder de mais nos empolgar a atenção, à vivacidade e fluência, nos seus assomos expansivos e suspensões mágicas.

Henrique, meu amigo, obrigado por nos ter deixado para a eternidade o retrato dessa “Macau eterna”, uma Macau que te antecedeu mas não no olvido letal, porque se perpetua nas tuas obras escritas. Henrique, “o contador de histórias”: Ficará, para sempre aqui, no coração da cidade uma praça vazia e uma cadeira vazia, à espera da tua voz.

Repeti agora as palavras de admiração (e despedida já…) que te disse em público e tive a graça de serem por ti ouvidas:

Henrique, meu Amigo, és o símbolo vivo, e o derradeiro, dessa Macau eterna, porque essa esvai-se, esbarronda-se todos os dias sob nossos olhos. E é quando os tempos nos encenam espectáculos como este, que nós mais valorizamos a Memória, intangível fio que entretece os fragmentos do tempo, nos alicerça a identidade que nos salva de perecermos nas vagas letais, de nos descaracterizarmos em amnésias esquizofrénicas.

Serás, Henrique, talvez, o abencerragem simbólico daquela Macau eterna… Serás…
Mas venha o que vier, por mais espalhafatoso em arquitecturas, mais embasbacante em números e estatísticas, mais engordado em tamanhos que não em grandeza – aquela Macau sempre nos contemplará do mais alto firmamento, sempre mais alta e sublime que arranha-céus e orçamentos, porque foi projecto universal de quem sonhou, com ela e através dela, a unidade essencial do género humano, as famílias humanas todas em ecúmena fraterna.

11 Out 2020

Henrique de Senna Fernandes, o autor que falta traduzir e estudar 

Nam Van – Contos de Macau, livro de Henrique de Senna Fernandes, tem agora uma edição em inglês, mas o caminho não se fica por aqui. David Brookshaw, tradutor da obra do escritor macaense, acredita que seria importante mais traduções em inglês sobretudo a pensar na diáspora macaense que reside nos EUA. Dois académicos defendem que há ainda muito a estudar na obra de Senna Fernandes

No ano que marca o décimo aniversário da morte do maior romancista macaense de sempre, a organização do festival literário Rota das Letras decidiu apostar na tradução, para inglês e chinês, de Nam Van – Contos de Macau, de Henrique de Senna Fernandes. No entanto, não só é preciso traduzir mais obras de Senna Fernandes para que se tornem mais globais, como são necessários mais estudos académicos sobre aquilo que escreveu.

Ao HM, David Brookshaw, tradutor oficial da obra de Senna Fernandes para inglês, destaca o facto de este tipo de traduções necessitarem sempre de um grande trabalho de diálogo e de sedução junto das editoras. A literatura macaense pode ser considerada de nicho e o interesse por ela pode dissipar-se com os anos, mas David Brookshaw acredita que fazem falta mais traduções em inglês a pensar na diáspora macaense a residir nos EUA.

“Quando fiz a tradução de ‘A Trança Feiticeira’ para a Hong Kong University Press achava que seria interessante para os leitores de Hong Kong, mas isso não chega para justificar uma tradução em inglês. A Hong Kong University Press tem uma editora parceira nos EUA e acho que esse mercado é importante, porque o país está mais aberto a traduções do que o meu país, por exemplo [Reino Unido].” Além disso, “há uma importante diáspora nos EUA que já não tem ou que nunca teve o português como língua”.

Traduzir Senna Fernandes para inglês também seria importante “para o campo de estudos sobre literaturas asiáticas”, exemplificou David Brookshaw.

O tradutor, que actualmente se dedica a traduzir Pepetela, escritor angolano, e que também se debruça sobre os escritos de Mia Couto, confessa que chegou a tentar uma tradução, também junto da Hong Kong University Press, de “Amor e Dedinhos de Pé”. “Não consegui nada com esse contacto, porque isso tem a ver com as pessoas que estão nas editoras. E o editor da Hong Kong University Press reformou-se há muito tempo e nunca mais tive esse contacto pessoal. Depois vieram outros projectos”, adiantou.

Quanto a “Nam Van – Contos de Macau”, David Brookshaw já tinha traduzido dois contos para o projecto de uma antologia. Desta vez coube-lhe a tradução dos restantes contos e a revisão do que já tinha traduzido.

“Nestes 20 anos melhorei como tradutor. O meu inglês e português são melhores”, disse. “Pelo que vejo o Ricardo [Pinto] tem interesse em promover a literatura de Macau em língua portuguesa para inglês, para ter um público maior em Macau e até na grande China.”

Uma obra documental

Rogério Miguel Puga, académico da Universidade Nova de Lisboa (UNL) que se dedica a estudar muita da literatura macaense, também defende a aposta na tradução das obras de Henrique de Senna Fernandes, tendo em conta o carácter documental da sua obra. “É de louvar esta iniciativa [de traduzir Nam Van – Contos de Macau] e talvez se pudessem traduzir mais obras dele. Os contos são muito interessantes. Isso iria facilitar o acesso a essa literatura por parte dos investigadores de língua inglesa, para poderem estudar a literatura de Macau em comparação com outras”, defendeu ao HM.

Além da tradução, Rogério Miguel Puga fala da importância da academia olhar mais para os escritos de Senna Fernandes. “Há ainda muita coisa a explorar na sua obra, sobretudo esta dimensão plural dos seus romances. Já há muita coisa estudada e publicada mas há um trabalho [necessário] de sistematização das principais temáticas da literatura macaense, que estão todas, de uma forma mais desenvolvida e substancial, na obra de Senna Fernandes. A obra dele funciona como um repositório representativo das temáticas da literatura macaense. Há muito trabalho ainda por fazer e espero que os novos investigadores o façam”, apontou.

Também Dora Nunes Gago, docente da Universidade de Macau (UM), acredita que continua a ser importante olhar os contos e romances de Henrique de Senna Fernandes do ponto de vista dos estudos comparatistas.

“Apesar das diversas teses e estudos já realizados sobre o autor tanto em Macau como em Portugal ou no Brasil, e outros países, creio que continuam a surgir novas vias de abordagem e de análise, nomeadamente através de perspectivas comparatistas.”

No caso da UM, o departamento de português tem neste momento dois alunos do mestrado de Estudos Literários e Culturais a estudar as obras do autor, além de que Nam Van – Contos de Macau foi também tema de uma tese de mestrado defendidas em Julho do ano passado, também na UM.

“De um modo geral os alunos de mestrado mostram interesse e lêem com muito agrado as obras do autor. Os alunos da China sentem-se seduzidos pela representação de um universo social e cultural que é distinto deles, apesar da proximidade. Já os alunos de Macau revelam curiosidade relativamente ao passado da sua terra”, frisou Dora Nunes Gago.

Um “natural contador de histórias”

Traduzir Henrique de Senna Fernandes é trazê-lo para o século XXI e fazer com que ele perdure no tempo. Mas é também um meio para que chegue a novas gerações, apesar de David Brookshaw o considerar “um escritor um pouco do século XIX”. Mas, datas à parte, o que os leitores querem são boas histórias, aponta o tradutor.

“Ele foi um natural contador de histórias. São histórias empolgantes em que a juventude contrasta com a velha geração conservadora. É o liberalismo contra o conservadorismo com a qual os jovens podem sempre identificar-se. Embora chame o autor de um ficcionista do século XIX era também a juventude que ele conhecia. Ele cresceu no tempo dos grandes filmes de Hollywood e portanto as histórias dele também funcionam um pouco como filmes.”

Além disso, traduzir Henrique de Senna Fernandes tem a tradução primordial de contribuir para a manutenção da comunidade macaense, tema onde perdura “um certo pessimismo”. “Talvez por essa razão seja preciso dar a conhecer a vida da comunidade. E mesmo que o futuro seja outro é preciso conhecer a história, sobretudo durante a vida e juventude do Henrique”, disse.

É esse ponto que é tão importante e que “fascina” Rogério Miguel Puga: o facto de estarmos perante obras que são verdadeiros retratos documentais de uma época, sociedade ou comunidade. “Os romances de Senna Fernandes funcionam quase como crónicas ou documentários da vida de Macau em termos da acção dos romances e da interacção entre a cidadela cristã e a comunidade chinesa, as especificidades da comunidade macaense. Ele utiliza inclusivamente diálogos e termos em patuá e isso torna a obra de Henrique de Senna Fernandes muito interessante, assim como os contos.”

Uma forma de reflexão

Para Dora Nunes Gago, há um “indiscutível valor cultural, social e histórico da obra de Henrique de Senna Fernandes que se mantém, pois é intemporal”. “Através da leitura dos seus romances, revisitamos o passado de Macau, e, através dessa revisitação, colhemos lições para o nosso presente e futuro. Assim, no mundo globalizado do século XXI, marcado em certa medida pelo individualismo, extremismos e rejeição de diferenças, a obra de Senna Fernandes convida-nos a reflectir sobre as mais variadas formas de tolerância, de aceitação do ‘outro’ distinto e diverso, sobre os modos de ultrapassar barreiras, aparentemente quase intransponíveis, entre diferentes comunidades , línguas e culturas”, acrescenta a académica.

Mais do que isso, os escritos de Senna Fernandes são uma “voz que se ergue a relembrar os complexos e ricos meandros da identidade macaense, contribuindo para um sentido de pertença, no caso dos leitores de Macau, e que parece que se esbate, ao longo do tempo, devido a uma descaracterização que afecta continuamente Macau”, conclui Dora Nunes Gago.

11 Out 2020

Henrique Senna Fernandes, escritor, no dia em que comemora os seus 80 anos: “Vale sempre a pena sonhar”

Em todas as entrevistas, muito fica por escrever. Por exemplo, as pausas, as inflexões, os olhares que se trocam entre entrevistador e entrevistado. Nesta fica muito mais. Fica, sobretudo, a incapacidade de traduzir fielmente o amor pela vida que a presença de Henrique de Senna Fernandes invoca. E a certeza de que a vida, mesmo aos 80 anos, continua a ser atrozmente… curta.

80 anos. Como se sente?
Sinto-me bem e sinto-me feliz, porque tenho amigos e parece-me que as pessoas têm um carinho especial por mim. Chegar aos 80 anos, afinal, é viver alguma coisa.

Muitas memórias?…
Quando penso no passado… nasci em 1923, no ano em que começou a construção do porto de Macau, o chamado Porto Exterior… havia nessa altura tantas esperanças no porto como as que há hoje em relação à ponte. Esse foi um sonho que se esfumou e ainda bem porque queriam dar cabo da Praia Grande.
Passados quatro anos fizeram aqui uma feira comercial, na zona onde hoje está o D. Bosco. Havia um lago, com barcos e… muitos namoros. Eu ainda era um miúdo, lembro-me que me encantava ganhar uns gatinhos de vidro.

Macau parece ser uma terra que, ciclicamente, tem grandes esperanças. A sua experiência diz-lhe que vale a pena sonhar?
Vale sempre a pena sonhar apesar das desilusões enormes que sofremos. Nós somos uma comunidade resistente, adaptamo-nos bem às circunstâncias…

Lembro-me que em 1999, foi algo pessimista, mas depois…
Foi uma crise terrível. A China era uma incógnita, por isso existiam grandes inquietações em toda a gente. Muitos foram-se embora, tal era o medo ou desejo de segurança. Antes da transição, quando vim de uma conferência da Lusofonia no estrangeiro, em Setembro, é que tive a noção mais perfeita de que o nosso mundo ia desaparecer, que ia ser um corte. Era uma coisa muito dolorosa, ser estrangeiro na sua terra. Quando nos encontrávamos na rua, as pessoas olhavam para mim e perguntavam “Fica?”. “Fico”, respondia eu. Havia necessidade de companhia naquele sofrimento, de partilha. Nessa correu em Macau que eu tinha partido. Uma prima afastada minha disse-me quando me viu na rua “Voltou?”, “Voltei.”, “Ai qui medo, julgava que o primo ia-se embora e nos deixava sós”. Vimos partir muita gente.
Eu não podia abandonar Macau.

Porquê? Gosta muito desta terra?
Gosto muito. Estou habituado a esta vida e mais que isso. Sem me querer armar em herói, se partisse sentia que traía esta terra. Não estou a censurar ninguém, mas foi isso que senti: que traía a minha terra, que traía amigos que não podiam sair. Pior: traía os meus antepassados todos, os ossos que estão em São Miguel. Nunca quis que fossem trasladados, porque eles só conheceram esta terra.

Não se arrependeu de ter ficado?
Por amor de Deus, nunca! Estou habituado a altos e baixos. Agora Macau está muito bem. A nossa comunidade é considerada e temos recebidos muitas manifestações dessa consideração, quer pela nossa comunidade quer pelo mundo português. Esta foi a vitória da RAEM sobre mim. Respeitaram os meus direitos, respeitaram todas as minhas opções, entre elas a nacionalidade, ninguém me impôs nada e sou cidadão de Macau, isso é que é importante. Temos os mesmos direitos que os chineses, excepto em termos de exercer o poder. Aí teríamos de rejeitar uma nacionalidade para aceitar outra. Mas pude exercer a minha profissão, pude escrever, pude encontrar os amigos e isto (olha à volta da sala do Clube Militar onde nos encontramos), este ambiente. A resposta da RAEM convenceu-me.

Sentiu-se sempre respeitado?
Sempre!

O senhor também já conhecia muitas das pessoas que hoje ocupam altos cargos na RAEM?
Alguns sim, outros não. Ganhei a minha vida como advogado, mas nunca tive a clientela dos grandes. Não ganhei um real dos grandes. Os meus colegas tiveram mais sorte, tinham mais saber que eu…

Quer dizer que sempre lidou com outras classes sociais?
A minha clientela sempre foram pessoas de classe média ou baixa.

Isso ajudou-o na sua escrita?
Ajudou muito. Repare que as minhas heroínas são todas pobres. A minha vida… vou contar uma coisa um pouco aborrecida. Há muitos anos, quando ainda era muito novo, rejeitei uma moça por ela ser pobre, não ter muitos estudos, justamente por ela ser de uma outra condição…

…“A Trança Feiticeira” será o seu exorcismo dessa situação?
“A Trança Feiticeira” e outros escritos… ela mais tarde, muito mais tarde, ela deu-me uma grande bofetada. Encontrou-se comigo e mostrou-me que estava bem. Aproximou-se de mim e disse-me “vou comprar um livro teu”. Sabia francês, inglês; essa mulher que desprezei, surgia-me agora toda considerada e é ela que me dirige a palavra, com toda a subtileza e ternura, mostrando-se ainda muito simpática. Ela tinha tido uma grande paixão por mim e eu fui, simplesmente, um bandido.

Não acha que nós em Macau somos muitas vezes bandidos… sem culpa?
Explique-me melhor o que quer dizer com isso, com essa dos bandidos sem culpa…

É também devido à pequenez do meio em que vivemos, que não temos coragem para assumir determinadas atitudes mais nobres…
Essa é uma grande verdade. Por isso é bom ter 80 anos, não ter de disfarçar, não ter de dar satisfações a ninguém. Não tive a minha vida fácil…

Isso ficou-se a dever ao que foi acontecendo ao longo da história?
Sim. Valeu a minha tenacidade de querer vencer sempre.

Deixe-me falar do seu personagem Francisco Frontaria. Não o terá escrito como exemplo de um macaense que pode cair muito baixo mas depois acaba por voltar ao de cima, ajudado pelo elemento feminino?
É isso. Não gostei nada do filme “Amor e Dedinhos do Pé” exactamente porque a minha ideia foi a de uma redenção. Alguém que cai e se redime através de uma mulher que o próprio insultara. Isto é um bocado autobiográfico daquilo que fiz.

As suas heroínas são mulheres abnegadas?
Mulheres abnegadas mas com personalidade.

Voltando ao filme…
O Joaquim de Almeida não era o actor para aquele personagem. Ele é um bom actor, mas muito duro, não podia ser o Francisco Frontaria que era um personagem muito mais suave, mais borga, não tão distante. No meu livro há a redenção, no filme não há, ele continua o mesmo patife, só lhe dá três dias e depois vai-se embora. Com o dinheiro dela. Tudo muito forçado.

Esse tipo de mulher que descreve nos livros… é essa a sua ideia de mulher macaense? Como descreveria a mulher macaense?
A mulher macaense tem os seus defeitos… e muitos, mas, tal como a chinesa, pode ser a melhor mulher do mundo. Lembro-me da minha mãe, uma das senhoras mais bonitas de Macau, quando perdemos tudo acompanhou sempre o meu pai, em todos os seus transes, em toda a sua vida. A mulher macaense quando gosta… adapta-se facilmente, faz um homem feliz. Apesar de ser diferente nalgumas coisas, por causa da educação, é muito semelhante à mulher chinesa. Está-se bem!

Existe uma sensualidade própria da macaense?
É muito difícil explicar as nuances que só no momento uma pessoa compreende. Pode ser a melhor mulher, mas também a pior mulher, se não gosta do homem com quem está.

Num dos seus contos no livro “Nam Van”, passado com uma mulher num comboio na linha de Cascais, sente-se alguma decepção com a mulher ocidental. Tratou-se de um episódio ou de algo mais profundo?
De um episódio. Aquela rapariga era muito bonita. Foi uma desilusão enorme quando me pediu cem escudos. Naquela altura as mulheres eram muito recatadas, foi um choque para mim. Hoje é tudo muito diferente. No meu tempo viviam num ambiente muito fechado, muito católico, a Igreja tinha uma força muito grande. Os padres dominavam. Entre a Quaresma e a Páscoa não podia haver bailes, as raparigas vestiam de roxo. Lembro-me de uma muito atraente, vestida de roxo, com os cabelos acobreados.

Não era preciso exagerar tanto: a mulher deve ser alegre, decente, boa conversadora e boa companheira. Mas agora parece que até existe a moda das mulheres dizerem palavrões. Disso não gosto. Algum recato também tem um certo encanto.

No mesmo livro também descreve a Rua da Felicidade, nomeadamente através do personagem Maurício. Quer-me falar disso?
O Maurício é uma pessoa que não vou dizer quem é. Foi ele quem me apresentou a Rua da Felicidade. Na altura eu era um rapaz novo e pobretanas. Ao passar na rua viam-se as meninas. Mas havia uma diferença entre o rés-do-chão e o primeiro andar. Em cima ficavam as cantadeiras, as pei-pa-chais, em baixo ficavam as prostitutas, sentadas na porta a partir do fim da tarde, muito pintadas. Todas as ruas daquele bairro eram assim. A Rua do Gamboa, a Rua do Bocage, os hotéis, uma grande área. Quem descia a Almeida Ribeiro, à esquerda era para a elite, onde estavam as caras; do outro lado, na Rua das Estalagens e Rua Nova do Comércio, onde ainda hoje existe uma zona de prostituição, ficavam as mais baratas. Mas tudo era muito diferente do que se passa hoje.

Nos seus livros retrata a sociedade de Macau até aos anos sessenta. Porquê?
Os anos 30 e 40 é a minha época favorita porque era o apogeu de Macau, das famílias macaenses. Muitas delas, muito importantes, desapareceram. Foi a guerra que deu cabo de tudo, apesar de nos anos 50 se ter vivido bem. Havia festas, recebia-se bem. Em 1966, com o 1,2,3, a emigração enorme, uma grande sangria. Já tinha começado antes. No final dos anos 50, Hong Kong abriu as suas portas a Macau, para depois as fechar. Nessa altura mais de 600 rapazes e raparigas saíram de Macau. Foi muita gente para uma comunidade pequena como a nossa. A maior parte nunca voltou. Foram para outros sítios: para o Brasil, para a Austrália, para os Estados Unidos.

Neste momento o que faz continuar a escrever?
A necessidade de escrever e de lembrar certas situações de Macau que se desconhecem.

O seu novo livro passa-se em que época?
Nos anos 60, na transição do Macau antigo para o Macau da STDM. Hoje já é outro Macau.

O Macau da RAEM?
Este é mais difícil de descrever. A RAEM é muito nova, ainda não conseguimos ver as consequências, a mentalidade desta juventude.

O que diria a um escritor de Macau que esteja a começar?
Que não esquecesse o passado, mas que enfrentasse os factos presentes. Macau está a mudar muito. Não sabemos o que vai ser. O meu Macau está cada vez mais distante. Que mentalidade será esta que está para vir? Não sei, não faço ideia. Um escritor hoje deve agarrar isso, compreender. Eu já não posso fazer isso, já não sei falar do que se passa hoje. Não vejo o que se passa à noite, não frequento lugares nocturnos. Tem de se falar das novas relações que se estabelecem, entre chineses de cá e de lá, etc., etc.. Eu já não tenho tempo para isso. Esta época ultrapassou-me. Eu admito isso. Já não posso ter aquela visão…

E o que diria à comunidade macaense, à sua comunidade?
Quanto ao futuro estou um pouco apreensivo. A Escola Portuguesa tem de existir. Se nos quisermos salvar, tem de existir, tal como o D. José da Costa Nunes. Fui professor durante trinta anos, sei que a escola tem muita influência sobre a mentalidade de uma pessoa. Conheci irmãos chineses que frequentavam escolas diferentes, uns a portuguesa, outros a chinesa. As mentalidades divergiam. A escola é importante para marcar uma identidade própria e o macaense até hoje é muito cioso da sua identidade.

Então acha que não se pode deixar morrer a Escola Portuguesa?
Não pode morrer! Se a deixarem morrer são todos traidores! A existência da ideia do mundo português é muito importante em Macau. A própria China… é engraçado: os chineses daqui rejeitaram o português, mas Pequim exige o contrário. Isso é um perigo para os chineses locais, porque os do Norte sabem falar português. E falam bem! Quem é que vai dominar as duas línguas oficiais? É fácil de perceber. Quem é que vai mandar? Os chineses de Macau têm de esquecer essas questões do colonialismo.

Mas houve ou não aqui um colonialismo feroz?
Não houve nem podia haver. Se houve foi para os macaenses: nos anos 30, não podíamos passar de primeiro oficial, não podíamos chegar a lugares de chefia, não podíamos ir para o exército nem para a marinha. Os chineses não se ralavam. Os portugueses fizeram muitas asneiras. Alguns chineses que mais tarde aqui formaram uma elite, de boas famílias, aprenderam português. Mas não houve visão: o governo não os aproveitou. Eles diziam: qual é o incentivo, não confiam em nós.

Acha que o chinês de Macau é diferente do chinês da China?
Muito diferente. E mesmo do de Hong Kong, não há confusão, estes têm a mania que têm o mundo na mão e que são mais civilizados. Falam de Macau com um certo desdém que não se justifica. No fundo também é inveja porque não têm o património histórico, nem humano, que nós temos. O chinês de Macau é mais lento, é o ambiente português, latino, que o influenciou. Uma vez disse que era o mais latino da China. Não falam a língua portuguesa mas habituaram-se ao ritmo de Macau.

Hoje até existe talvez uma maior identidade. Dantes diziam apenas que eram chineses, mas hoje já referem que são de Macau.

Aos 80 anos, o que lhe deu mais alegrias?
Cometi muitos erros, mas atribuo-os à minha generosidade, que as pessoas confundiam com fraqueza e abusavam. Diminuíram-me e fui traído pelos amigos. Como foi possível que alguns amigos, a quem dei tanta alma e coração, me tenham traído? Fizessem coisas absolutamente ignóbeis. Deixemos isso.

O que me deu mais alegrias é ainda ter amigos, de toda a parte receber abraços. Não é consideração oficial mas espontânea. Nos últimos anos, recebi muitas demonstrações de amizade. Depois há a minha família, fui sempre o homem mais influente, estando presente em todas as crises.

Os meus alunos também me enchem de enlevo. É muito consolador, lembrarem-se das minhas lições e agradecerem-me ter-lhes aberto os olhos para muita coisa. É um privilégio.

Gostaria de remediar alguns erros do passado. Mas, ao fim e ao cabo, valeu a pena viver.

11 Out 2020

Rogério Miguel Puga estudou as referências culturais nos livros de Deolinda da Conceição e Henrique de Senna Fernandes

Na colectânea de contos “A Cabaia”, de Deolinda da Conceição, Rogério Miguel Puga encontrou a descrição da condição feminina da mulher chinesa. No romance “Amor e Dedinhos de Pé”, de Henrique de Senna Fernandes, descobriu uma caricatura da comunidade macaense. O académico da Universidade Nova de Lisboa apresentou ontem um estudo na Universidade de Macau sobre as referências culturais destas obras “intemporais” e defende que a literatura macaense deve ser mais estudada

Desenvolveu o estudo sobre a “Identidade, Género e Auto-estereótipos: Temas da Literatura Macaense na Obra de Deolinda da Conceição e Henrique de Senna Fernandes”. Porquê estes dois autores?
A única razão de ter estudado estes e não outros autores é por considerar que a literatura macaense é produzida por autores macaenses. No caso da Deolinda, temos esta antologia de contos em que ela fala, sobretudo, sobre a mulher chinesa e a sua condição. “A Cabaia” é uma metáfora para a condição feminina chinesa. Henrique de Senna Fernandes fala sobretudo da comunidade macaense, das questões de identidade, de religião. São dois autores macaenses a escrever sobre Macau e a comunidade macaense. Não é um português que chega a Macau e escreve sobre o macaense, são dois macaenses a escreverem sobre si próprios. É curioso ver que estereótipos os próprios macaenses utilizam para se definir, como a Igreja Católica ou as afirmações que eles próprios fazem sobre os chineses, às vezes negativas. É, sobretudo, esse interesse: o de uma visão interna da comunidade macaense que se representa textualmente a si própria, de uma forma realista.

O estudo que elaborou procurou detalhes culturais nas obras dos dois autores. Quais são as grandes referências culturais que pode apontar?
Na obra de Deolinda da Conceição é sobretudo a condição feminina. Ela foi uma mulher macaense com uma biografia muito interessante, pois ousou viver numa comunidade muito tradicional. Os romances de Senna Fernandes representam-na assim, como sendo uma sociedade muito conservadora. A protagonista de “Amor e Dedinhos de Pé” sofre esse peso da sociedade conservadora e, ao mesmo tempo, o livro carnavaliza essa sociedade, critica, para que o “vira pau osso”, a personagem, possa vencer no final. Ela vai contra essa sociedade. Aos olhos da sociedade macaense, altamente conservadora e religiosa, onde as mulheres são muito frustradas e castradas, é ela que, no fundo, vai dar a mão ao estroina que cai em miséria e que é renegado para as sombras do bairro chinês. Tudo isso se passa numa sociedade de bons costumes, e é este desnudar de uma sociedade de fachada e hipocrisia que acho muito interessante, e é algo que o Henrique de Senna Fernandes faz com muita subtileza. Os romances e os contos são também interesses como memória. No caso da Deolinda da Conceição, são contos que falam da condição feminina e do seu fardo.

FOTO: HM

É um pouco a condição dela, foi uma mulher que ousou ser jornalista e ter uma vida pessoal.
Ousou amar. Isso faz de Deolinda da Conceição uma figura ímpar na comunidade macaense e até no universo cultural macaense. Sobretudo numa altura em que era difícil fazê-lo, hoje é mais fácil. Só por isso é uma figura por quem eu tive sempre um grande carinho e que gosto sempre de reler, porque há uma enorme sensibilidade pela vida humana e, sobretudo, pela condição feminina da mulher chinesa, que sofria, trabalhava, cuidava dos filhos e muitas vezes era obrigada a isso. Isso torna os contos da Deolinda muito interessantes. Há também os contos e poemas do Adé, ou da Maria Pacheco Borges, que tem uma colectânea de contos. Mas optei por estes autores porque os acho mais representativos e porque a qualidade literária é maior. São contos e romances com um cunho regional, no sentido em que descrevem o quotidiano de Macau no início do século XX. São também documentários, apesar de ficcionais. São narrativas literárias realistas, mas nunca os poderemos tomar como fontes primárias históricas. São repositórios de vivências. Macau, na altura, era um espaço de tolerância, sobretudo porque os portugueses não falavam chinês e a maioria dos chineses não falava português, havia a religião, várias barreiras. Prefiro olhar para Macau como um espaço de tolerância social e cultural.

O que o surpreendeu mais neste processo de estudar obras de macaenses que escrevem sobre si próprios?
É a construção e a desconstrução. No caso do Henrique de Senna Fernandes é algo inconsciente, pois há a construção de uma identidade local e depois há a desconstrução dessa identidade na mesma obra. É possível, sobretudo com a imagem do carnaval e o comportamento do Francisco, o protagonista. O facto de ele maldizer toda a gente, subverter a norma, há um processo de desconstrução dessa ordem que ele transforma em caos, e depois no fim a ordem é restabelecida fora do tecido urbano de Macau. Não é por acaso que [a personagem] se regenera fora da sociedade macaense cruel. Ele é o rei do carnaval que maltrata toda a gente e depois chega a páscoa, o tempo da mortificação, em que ele é destronado, e depois bate no fundo e tem de se reerguer. É um romance de formação também, pois acompanhamos a formação da personalidade de ambos os personagens, masculina e feminina.

Este estudo é o ponto de partida para um trabalho mais aprofundado sobre a literatura macaense?
Sim. Gostava de vir a estudar o corpus da literatura macaense, a forma e o conteúdo. Sobretudo em termos de estudos culturais, o que é que há na literatura macaense, o que ela tem de específico. Basta irmos ao índice de “A Cabaia” para vemos palavras como “calvário de ling fong”, “esmola”, “arroz e lágrimas”. Quer os substantivos, quer os adjectivos, são representativos de uma imagem da condição feminina que a Deolinda da Conceição também achou que representava a tal cabaia. Há termos simbólicos muito pesados, os diminutivos.

Apesar de serem obras escritas em português, não os podemos considerar literatura portuguesa?
Também são.

Podem enquadrar-se em algum movimento literário português?
Designaria ambas como obras de cariz realista. São contos e romances realistas que representam muito próximo da realidade o que era a condição feminina e o quotidiano de Macau no início do século XX. No caso da Deolinda da Conceição, são usados termos muito específicos que revelam um jogo de espelhos, da mulher macaense que escreve sobre a mulher chinesa, algo que acho muito interessante.

É um jogo de espelhos por considerar que a mulher macaense também tem um pouco de mulher chinesa?
Sim. O narrador desta obra tem um ponto de vista muito ocidental. Este livro é escrito por uma mulher macaense para ser lido por portugueses. Há uma preocupação com o futuro leitor, que está implícito na obra. Estes autores acabam também por funcionar como tradutores culturais e linguísticos quando utilizam palavras específicas, por exemplo do patuá. Há um glossário. Outro estudo interessante são os elementos paratextuais, as capas, as várias edições, o que muda, as introduções que são ensinadas pelos editores.

Há muitas obras dispersas que não estão contextualizadas em períodos históricos ou correntes literárias. Considera que faz falta um levantamento da literatura macaense?
Penso que não, porque a literatura macaense surge, sobretudo, no século XX e tem poucos autores, a Deolinda, o Henrique, Adé, Maria Pacheco Borges, e pouco mais. O que há são autores portugueses, chineses e ingleses a escrever sobre Macau. Falta, sobretudo, divulgar a literatura produzida por macaenses, e estudá-la. Inseri-la na literatura mundo, dar-lhe alguma visibilidade. Poder-se-á publicar muita coisa que está perdida na imprensa do século XX de Macau, contos literários, crónicas. Seria interessante formar uma equipa multidisciplinar e publicar tudo de novo em formato de antologia. Isso foi feito com os textos de Luís Gonzaga Gomes, mas há outros autores. Nessas crónicas descreviam a realidade e depois ficcionavam-na nos seus romances, e o que me interessa muito é esta dimensão antropológica da literatura, porque [os livros] não são só figuras de estilo. É preciso estudar e questionar esta dimensão. Há várias leituras que se podem fazer do livro “Amor e Dedinhos de Pé”. Pode ser vista como uma obra realista da realidade macaense, mas também pode ser um artificio irónico de desconstrução da comunidade, de análise.

O que é que este estudo e a leitura das obras lhe trouxe de novo?
Sobretudo o conhecimento da comunidade chinesa e macaense, os hábitos e costumes. Tive de ir pesquisar sobre determinados rituais e costumes especificamente chineses. E foi esta sensibilização para a condição feminina intemporal e para a condição humana no fundo. A condição humana não muda, os nossos fantasmas não mudam. Continua a ser a cabaia. As mulheres já não vestem cabaias, mas elas constituem uma metáfora, continuam a existir. “A Cabaia” recorda-nos que o feminismo continua a ser muito necessário. Livros como “A Cabaia” recorda-nos isso e que a condição feminina não é assim tão livre quanto isso. As obras do Henrique de Senna Fernandes ensinam-nos muito sobre a tolerância a partir da intolerância, e a sua importância, pois perdemos cada vez mais a empatia social. São obras intemporais.

24 Jan 2019