João Paulo Cotrim

76 ARTIGOS 0 COMENTÁRIOS
João Paulo Cotrim é um jornalista, escritor e editor português. Fundou e dirige a editora Abysmo.

Eu (não) estou aqui

Por estes dias, andei meio perdido na adolescência. Um dos meus liceus, agora vítima de curiosa vingança que o atirou para abandono semelhante ao do Cabo Ruivo de então, capitaneava margens esquecidas.

«As recordações ajudam a esquecer»

Esqueço com demasiada facilidade. Se a poeira pouco importa, algumas migalhas dos dias mereciam repousar na conserva da memória. Para digerir mais tarde. Foi um dia forrado a urgências e agitação, que não lembro, embora me tenham até impedido este exercício diarístico.

Tempo nenhum

Hesito e já mudei umas vezes este princípio. Deve ou não convidar-se a morte para a mesa, para as nossas mesas? O flamenco parece-me resolvê-lo melhor que o fado, mas vou em busca de confirmação

Quando a capa se faz lugar

A tarde abriu enorme e coube ainda assim aconchegada pela conversa no edifício, primeiro pensado de raiz entre nós para ser museu, não-lugar do novo sagrado destinado a acolher paisagens e figuras de um espaço e um tempo que parecem já só existir aqui.

Amor e atitude

Avancemos pelo resto, ainda nos arredores de Imaginário. Os encontros que perturbaram a tepidez caldense tiveram os livros por mesa e cadeira, circunstância e pretexto. As nuvens na manhã de sábado não cumpriram a ameaça, permitindo-nos trocar a bela mas exígua capela de S. Sebastião pelo átrio do posto de turismo

Exorcismos de Inverno

Ainda não fiz as contas do que devo à televisão. Não conto pagá-las, apenas dar de beber à curiosidade. Na lista teria de incluir Steven Bocho (1943-2018), muito por causa dos policiais onde os polícias eram humanos, nada óbvio em tempos de juvenil exaltação

Pontapés na bicicleta

Morreu o Manel [Reis] (1947-2018), inventor sem registo de patente, senhor da liberdade. Vem dali vento, voo, escorre dali maré, descubro. Noite rimará doravante com cidade, conta sílabas e descobre o gosto, o gesto.

Paisagem e desequilíbrio

Uma sala cheia acolhe o Valério [Romão], cheia não apenas de gente, mas de interesse, com leituras feitas e opiniões por partilhar

Regras e pedras

Talvez a metáfora se ajuste, mas custa-me a crer que seja o dos carros o movimento que vivifica Lisboa. Por um dia que seja a circulação de versos, muito para além deste concreto noticioso do lançamento dos Poetas Portugueses de Agora, versão dita e musicada pela Lisbon Poetry Orchestra

Geometrias variáveis

O uso das fotos de perfil no livro das caras merecia umas horas de reflexão mais ou menos divertida. A mim interessa-me o gozo de compor suposta identidade da forma mais disparatada, comentando, representando, homenageando, espelhando, jogando, revelando, escondendo.

Papéis no parapeito

Não me rendo e por isso continuarei a contar a anedota da diferença entre o optimista e o pessimista.

As mãos que tocam a luz

À minha volta, cada papel diz afazer, resposta por dar, ansiedades em ferida, atrasos gritantes, resolutas irresoluções. A magia da procrastinação acontece em todo o seu esplendor de derivas

Aparelhado para gostar de passarinhos

Ouvir o Valério contar de encontro «verdadeiro» com personagem sua, alguém que pressentia na esquizofrenia um acto de Deus e que capturou com a pele o insuportável escaravelho da existência

O assentar dos tijolos

O jeito que me dava acabar assim, na entrada anterior. Contudo, experimentei em palco a Isabel [Abreu] no palco da Oresteia a fazer-se o mais carnal dos insectos

A Sul de nenhum Norte

Em habitual mastigação de projectos, atravesso o Alentejo com o Bruno [Portela], riscando o frio que mal se nota com um sol olímpico como só por aqui acontece, definindo o contorno de cada folha nos ramos, despertando a orquestra de cores, erguendo-se cenário para o fausto da terra

A morte é um insulto

Se determinada perspectiva aguenta a corrosão do riso, para mim, estará mais próxima de uma qualquer verdade. Entendo que alguém se possa sentir insultado com determinada representação, que até pode pisar o risco do estereótipo, mas diz-nos a História que se respira melhor quando, por exemplo, no humor desenhado, a liberdade chega à ofensa.

Peças soltas

Na composição da matéria desta peça, que aproveita fragmentos de trabalhos antigos, no trabalho de voz e corpo, nas figuras que compõem, na extrema generosidade.

Spleen punk

O António [de Castro Caeiro] tomou por tema de trabalho a melancolia. Escolheu-a, sou testemunha, antes de começar dieta e desconfio que não a largará tão cedo

Dias ampliados (com os dedos)

Os esboços, mais do que o acabado, aproximam-me do gesto criador, da fragilidade e da potência.

Agreste matéria

Somos poucos para dar vazão ao que se vai criando. Uma editora não se pode limitar a imprimir livros. Deve procurar incansavelmente leitores, que andam preguiçosos e assediados, sem tempo ou vontade.

Se assoprar posso acender de novo

Mesmo cuidadosamente envelopado, como só ele sabe, o mais recente volume da obra polimórfica do mano Tiago [Manuel], no caso atribuído à sueca Tilda Markström, tem uma mossa na capa e nos primeiros cadernos

Predador de sombras

A onda melosa do Natal cansa-me ao vómito. Tornou-se condenação inescapável, agravada pelo generalizado dever da alegria.

Ira em âmbar

Quem seria o leitor primeiro desta biblioteca com orelhas de e pernas de e cabeça de e olhos de, toda feita de papel ardente?

Fragmentos de políptico

Andam aos trabalhões em mim, feito caixa de bolos classic nouveau da Confeitaria Moderna, as palavras de Cesariny dirigidas, em 1958, «Aos Escritores Por Causa do Que Se Lê», ditas em toada Precipício para a nação friorenta