João Paulo Cotrim

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João Paulo Cotrim é um jornalista, escritor e editor português. Fundou e dirige a editora Abysmo.

Leitor de autores

Não devia dizê-lo tantas vezes em público, para manter aquele orvalho das primeiras madrugadas.

Sei de rios

Que sei eu? Talvez por isso afirme que o fado atingiu agora extrema maturidade, sabor e saber entre figo e pão saído do forno, entre o vigor da técnica e o perfume do espírito.

Desejos de mais luz

Perdido nas correrias, nem vi chegar a festa da carne. Não consegui a pausa, apenas o bálsamo de umas quantas páginas editadas por outros.

Subidas

Com tanta palavra atirada ao ar, o chão dos festivais literários muda com os dias consoante o lento desfiar dos oradores. Pode ser tapete, conforto baço que abafa o som dos passos, onde só o pó contém memória de vida.

Vencer a gravidade

Helder Macedo veio lançar o estimulante «Camões e Outros Contemporâneos» (Presença), mas ainda teve tempo de ir ao Obra Aberta e à Escola de Escritas do mano Luís Carmelo, onde dissertou sobre a demanda que fez dele ensaísta, ficcionista e poeta.

Formas de dizer

Trouxe lições desta riquíssima exposição, a primeira a cruzar olhares, obras e percursos, enfim, a amizade e os desencontros dos «monstros» Picasso e Giacometti.

Paisagem de mãos e rostos

Facebook, 23 Janeiro De Freitas, mano maneiro que maneja o post como farpa, assinou: «anda tudo muito preocupado com o Trump e o caraças mas...

Respiração das coisas

A nossa casa cresceu. Primeira consequência de quando um gato toma posse. Chão é apenas começo e a descoberta da novidade não se fica pelas traseiras do sofá.

Dias todos

Dia que começa com correio é dia maior; ano que começa assim, espero que expluda. O próprio livrinho vestiu-se envelope, foi trazido pelo e teve que se abrir com corta-papéis. «

Paisagens que não existem

O desgraçado que teve que absorver os meus atrasos de vida foi o Rui Rasquinho, que se desenrascou de modo notável, com ligeireza e elegância. Fomos ver do avesso das cidades, tocando-as com as mãos, até descobrirmos um velho marinheiro que fala de palavras e do modo como se tornam navalhas de rasgar impossibilidades.

Saltar aos olhos

Por causa da Inês Fonseca Santos e do seu micro-gigante programa da RTP3, Os Livros, regressei a uma das minhas paixões: Nuno Bragança.

Língua suja

Nos terrenos da minha infância cresciam unas ervas esguias com tons de primavera e sabores invernosos. Depois das corridas e outras ocupações suadas, espremíamos o seu suco entre dentes. A sabedoria científica do bairro chamava-lhe azedas, mas a palavra não contém o arco-íris de sabores agridoces.

Língua suja

O domingo havia já amarelecido antes do e-mail do Helder Macedo trazer comentário à morte de Ferreira Gullar, construtor desse alto lugar nesta nossa língua chamado «Poema Sujo» (Ulisseia). Brota tanta vida pelos poros dos versos que custa invocá-los a propósito da morte.

Irmãos esquecidos

Este exercício de andar à gandaia de sobras dos dias para compor em colagem nem sei bem o quê tem algo de perturbador.

O leitor cheira a tinta

Momentos há em que temos de suspender a incredulidade, que o mesmo é dizer, acreditar. Parece ficção, uma sala de cinema com 242 pessoas em fim de tarde chuvoso para ouvir António Mega Ferreira em belíssima dissertação, de quase duas horas, em torno de Cervantes e do seu Quixote.

A pele de um independente

Mão amiga traz-me de S. Tomé e Príncipe umas barras de chocolate assinadas por Claudio Corallo. Não acho mesmo graça nenhuma à cada vez mais totalitária gourmetização das nossas vidas, mas o rolo compressor deixa despontar aqui e ali uma erva daninha.

A pele de um independente

Sempre em dúvida, sempre em dívida. Podia tatuá-lo no braço só para me poupar ao trabalho de responder à quotidiana pergunta: como vais? Ou nos cada vez mais frequentes debates sobre edição: defina lá o trabalho do editor independente, se faz favor.