João Paulo Cotrim

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João Paulo Cotrim é um jornalista, escritor e editor português. Fundou e dirige a editora Abysmo.

A Sul de nenhum Norte

Em habitual mastigação de projectos, atravesso o Alentejo com o Bruno [Portela], riscando o frio que mal se nota com um sol olímpico como só por aqui acontece, definindo o contorno de cada folha nos ramos, despertando a orquestra de cores, erguendo-se cenário para o fausto da terra

A morte é um insulto

Se determinada perspectiva aguenta a corrosão do riso, para mim, estará mais próxima de uma qualquer verdade. Entendo que alguém se possa sentir insultado com determinada representação, que até pode pisar o risco do estereótipo, mas diz-nos a História que se respira melhor quando, por exemplo, no humor desenhado, a liberdade chega à ofensa.

Peças soltas

Na composição da matéria desta peça, que aproveita fragmentos de trabalhos antigos, no trabalho de voz e corpo, nas figuras que compõem, na extrema generosidade.

Spleen punk

O António [de Castro Caeiro] tomou por tema de trabalho a melancolia. Escolheu-a, sou testemunha, antes de começar dieta e desconfio que não a largará tão cedo

Dias ampliados (com os dedos)

Os esboços, mais do que o acabado, aproximam-me do gesto criador, da fragilidade e da potência.

Agreste matéria

Somos poucos para dar vazão ao que se vai criando. Uma editora não se pode limitar a imprimir livros. Deve procurar incansavelmente leitores, que andam preguiçosos e assediados, sem tempo ou vontade.

Se assoprar posso acender de novo

Mesmo cuidadosamente envelopado, como só ele sabe, o mais recente volume da obra polimórfica do mano Tiago [Manuel], no caso atribuído à sueca Tilda Markström, tem uma mossa na capa e nos primeiros cadernos

Predador de sombras

A onda melosa do Natal cansa-me ao vómito. Tornou-se condenação inescapável, agravada pelo generalizado dever da alegria.

Ira em âmbar

Quem seria o leitor primeiro desta biblioteca com orelhas de e pernas de e cabeça de e olhos de, toda feita de papel ardente?

Fragmentos de políptico

Andam aos trabalhões em mim, feito caixa de bolos classic nouveau da Confeitaria Moderna, as palavras de Cesariny dirigidas, em 1958, «Aos Escritores Por Causa do Que Se Lê», ditas em toada Precipício para a nação friorenta

À queima-roupa

Ano volvido, a cadência da crónica não deixa de perturbar a agenda...

Buracos do mundo

Assisto deliciado ao Obra Aberta da semana (http://www.abysmo.pt/obra-aberta/), com páginas folheadas pelos nómadas Patrícia Portela e Mário Gomes. Ambos me pareceram tímidos, mas de modos distintos

Girar Sobre o Eixo

ó a propaganda soube aproveitar o pretexto para pintar aura de santo inoxidável no ditador. Tudo perante a passividade dos jornalistas e do arremedo da opinião pública.

Musas sem metafísica

Tenho andado com o meio século do Zé Luiz [Tavares] iluminado pela melancolia, que não falho de humor

Corpos celestes

Dia gordo, este, que acaba sob o signo da perturbação.

Desconcertos concertantes

Circula há um mês, mais coisa menos coisa, o N.º 4 de Cidade Nua – Revista de Poesia e Palavra que o Alex [Cortez] e o Nuno [Miguel Guedes] animam

Da sorte que o azar trás

Neste outonal Verão, acolhidos pela sombra expressionista do limoeiro, a que o Manel [San Payo] chama bonsai, montámos banca na EDIT, a Feira de Edições de Lisboa, erguida pela Filipa Valadares, da STET, pela terceira vez

Os dias cobram dívidas

Que obituário escreveria o coelho, personagem principal da crónica mais pequena da nação, tantas vezes surrealista em toda a potência e delícia do termo, para dizer da vida e obra do seu criador, Jorge Listopad?

Arrojado esforço

De súbito, a mensagem: chegou o Carlos Lopes. Dava jeito aqui que usasse relógio que escrever que o olhei, mas vivemos mergulhados nas horas, sendo impossível escapar-lhes

Jardim de sombras

Desenvolvi uma alergia a reuniões. São indispensáveis, bem sei, até para, aqui e ali, ganhar o tempo da organização, mas preciso de um intervalo, de parar a torrente

Feridas de combate

Não queria acreditar, apesar de todos os sinais: a «nossa» distribuidora anunciou a insolvência, ao fim de meio ano com atrasos nos pagamentos, entre outros disfuncionamentos

Dois efes a conversar

Não há luz mais intensa que a de um pensamento, nem nada mais brilhante que o gesto da escrita.

«É o xuá das ondas a se repetir»

Salto para «As Caravanas» com Chico a viajar pelos reflexos dos hojes. Melhor, vou para Chico, sítio que continua único

Recuos, mais que avanços

Com esforço (nada é sem ele agora), procuro experimentar o tempo de modo distinto para o travestir de férias, essa invenção pequeno-burguesa