Via do MeioO Pintor Yi Fujiu Que Foi ao Japão Vender Cavalos Paulo Maia e Carmo - 5 Out 2026 Ikeno no Taiga (1723-1776) que se tornaria um dos mais reconhecidos pintores literatos (bunjinga) em Edo (actual Tóquio) era filho de um trabalhador do campo. Quando o pai morre e a famíla se muda para a cidade ele, com apenas treze anos, abre uma pequena loja de venda de leques pintados onde no contacto com os clientes terá aproveitado para alargar a sua surpreendente vocação para a educação. Essa disponibilidade levá-lo-ia a descobrir com admiração as antigas artes do pincel que há séculos se praticavam na China e como reflexo imediato dessa afeição mudou o seu nome, seguindo a tendência chinesa dos nomes terem um só caracter, e passou a chamar-se Ike no Taiga. E cultivou essa afinidade através do conhecimento das obras de um igualmente improvável cultor da arte que viera de Ningbo para Nagasaki como comerciante de cavalos, chamado Yi Fujiu (1698-c.1747) que chegara pela primeira vez em 1720 num junco de noite à costa da Província de Satsuma, seguindo depois para Nagasaki com um livre-trânsito de comerciante emitido em nome de um irmão. A façanha era tanto mais temerária quanto se desenrolava num tempo de duas interdições. De um lado a proibição imposta pela corte Qing, que vigorava em Pequim desde 1644, de exportar cavalos para o estrangeiro; do outro a política sakoku, o «país algemado», do período Edo (1603-68) emitida pelos Tokugawa que só permitia o acesso a navios de comércio holandeses confinados na ilha artificial Dajima e de chineses, controlados no complexo fortificado Tojin Yashiki, junto ao porto de Nagasaki. Yi Fujiu de Wuxing (Zhejiang), não era de facto apenas o capitão de um junco de comércio de cavalos solicitados pelo shogun Tokugawa Yoshimune, com sete registos de entrada no Japão até 1747, mas transportava a carga intangível do conhecimento dos homens de artes e letras wenrenhua, que corresponde à palavra japonesa bunjinga, formatada e actualizada pelo influente teórico de Huating (actual Xangai), Dong Qichang (1555-1636). Yi Fujiu praticava nas suas pinturas um leque variado de estilos mas foi o modo sucinto e eloquente dos pintores da dinastia Yuan como Nizan ou Huang Gongwang que mais terá impressionado pintores locais como Ike no Taiga. Testemunho disso, em 1803, foi publicado um Manual de pintura só com paisagens dos dois pintores (I Fukio, Ike no Taiga sansui cafu, 2 volumes em xilogravuras a tinta sobre papel, 26,7 x 18,4 cm, exemplares no Metmuseum). Um rolo vertical de Ike no Taiga feito com economia caligráfica, ilustrando uma popular lenda medieval do Budismo Zen, revela o contínuo fascínio pela cultura que veio com a pintura. Em Tenjin viajando para a China (tinta sobre papel, 124,7 x 28,5 cm, no Metmuseum) vê-se a deificada figura deslocando-se na imaginação, séculos após a sua morte, para se encontrar com o mestre do Chan Wuzhun Shifan.