Pintura | Os regressos e reflexões de Anabela Canas em exposição em Lisboa

“São Rosas e Dias Líquidos – Arquivo e Redundância” é a nova exposição de Anabela Canas, pintora, docente e ex-residente de Macau, patente até Julho na Universidade Nova de Lisboa. Nesta mostra, Anabela Canas conjuga obras antigas e novas, procurando encontrar um ponto de reflexão sobre o presente

Anabela Canas, antiga docente de Artes em Macau, actualmente a dar aulas na escola António Arroio, em Lisboa, e pintora, está de regresso às exposições com a mostra “São Rosas e Dias Líquidos – Arquivo e Redundância”, patente até ao dia 23 de Julho na Sala de Exposições da Biblioteca da NOVA FCT, Universidade Nova de Lisboa.

A artista faz um exercício retrospectivo que é, em simultâneo, uma reflexão sobre o tempo presente, colocando quadros mais antigos, nomeadamente de 2018, em conjugação com novas pinturas. Há muita água nestes quadros, bem como representações da natureza e figuras, mas o convite à reflexão sobre os tais dias líquidos vai muito além do que pode ver a olho nu. “Esta exposição tem dois conjuntos de trabalhos, embora façam parte da mesma série, sendo que o primeiro, mais antigo, é de 2018, de uma exposição que fiz, e retomei acrescentando trabalhos mais recentes”, conta a pintora ao HM.

Esta mostra anterior também se chamava “São Rosas e Dias Líquidos” e, segundo a artista, tinha a ver “com a questão da impermanência”, tal como a nova exposição. “Na altura, havia um diálogo entre um conjunto de telas que são paisagens, mais ou menos abastractas, mas que têm referências muito óbvias à água, céu, nuvens, portanto, a parte etérea da paisagem.”

Estas imagens entram “em diálogo com outra série [de trabalhos], mais figurativa, e que tinha a ver com temáticas clássicas de museu, digamos assim. Tem sempre a ver com esse diálogo e a nossa reacção à impermanência, aquela noção já tão explorada pela filosofia de que tudo passa e tudo volta, até os ritmos da natureza que nunca são iguais exactamente”.

Anabela Canas foi buscar referências à filosofia, nomeadamente ao filósofo e sociólogo polaco Zygmunt Bauman, quanto à ideia de modernidade líquida. A artista destaca “a época de maior virtualidade, a todos os níveis”, em que vivemos, e como as coisas se modificam, inclusivamente “os ritmos da natureza”. “Tudo volta e nunca é exactamente igual”, referiu.

“Bauman falou da modernidade líquida e foi uma coincidência, pois quando comecei a estudar este tema encontrei uma referência a ele e li sobre isso. De facto, diz-me muito esta sensação de que tudo nos ultrapassa porque nada se consegue agarrar. Hoje em dia vivemos muito mais esta noção de que tudo é mais virtual”, explicou.

Regressos e realidades

Anabela Canas voltou a 2018 tal como voltaria a um outro tempo, a outros quadros, algo comum no seu processo criativo. “Muitas vezes retomo temas que explorei noutras alturas, e não o faço com a intenção de voltar a fazer um projecto com eles, mas porque tenho essa vontade de revisitar. É como revisitar lugares que gostamos, e isso acontece pelo puro prazer de voltar a mergulhar naquele imaginário.”

É aqui que vem ao de cima a ideia de redundância, do regresso a uma mesma realidade ou temática, com a certeza de que “as coisas nunca saem iguais obviamente, mas são um bocadinho como os dias e as noites: podem ser muito parecidos, mas nunca são iguais”.

“Quando voltamos a um lugar conhecido que gostamos, ou não, e sobretudo lugares afectivos, também vemos sempre coisas diferentes, e é a isso que chamo de redundância. Muitas vezes ponho-me a trabalhar só porque sim, pelo puro prazer e vontade de fazer as coisas e o prazer de voltar àqueles lugares. As coisas nunca saem iguais e há sempre uma evolução qualquer”, explicou ainda sobre a criação em torno desta mostra.

Há, portanto, nesta exposição de Anabela Canas um regresso a algumas temáticas, neste caso “espaços, paisagens bastante etéreas, com elementos mais volantes como o ar, nuvens e a água que está sempre a passar”. Neste processo de regressos, Anabela Canas confessa que o seu trabalho como artista “inclui, às vezes, a descoberta, a tentativa e o erro, o acaso, a exploração do aleatório”, existindo “sempre surpresas e novas coisas que vão surgindo”.

Relativamente à ideia de “Rosas” presente no título, diz respeito a um quadro presente na mostra, com papoilas, mas também à tradicional história do “Milagre das Rosas”, quando a Rainha Santa Isabel, ou Isabel de Aragão, respondeu ao esposo, o Rei D. Dinis: “São Rosas, senhor!”, quando, na verdade, distribuía pão aos mais desfavorecidos.

“O D. Dinis dizia que não podia dar pães aos pobres, e ela disse ‘São rosas, senhor!’, e afinal não eram rosas, tinham sido pães antes. Isto [a referência à palavra ‘Rosas’ no título] é uma brincadeira sobre as papoilas [do quadro na exposição], porque a realidade nunca é exactamente como é.”

Por outro lado, os dias líquidos, também presentes na exposição, são uma alusão ao quotidiano que “não se pode prender com as mãos”, ou seja, a realidade que está além do alcance e controlo e vai mudando. “Uma pessoa põe a mão, tenta apanhar a água e apenas por um instante consegue retê-la, porque ela foge”, disse Anabela Canas.

Citado pelo catálogo da exposição, José Moura, comissário para as actividades culturais do campus da NOVA FCT, referiu que “a obra de Anabela Canas abre-se como um espaço de sensibilidade, onde a matéria inserida em paisagens, recriadas, está em constante transformação”.

“Nesta exposição, cada obra transmite tensão entre gesto e intenção, presença e memória, como se cada forma guardasse vestígios de outras anteriores. Por isso, o seu trabalho aproxima-se da ideia de arquivo: um lugar onde a memória surge em camadas, feita de repetições, desvios e reaparições (… benvindas as redundâncias, que aqui não são desnecessárias)”, descreveu.

Desta forma, adiantou José Moura, “o olhar do espectador é conduzido por percursos onde a repetição revela diferença, e onde o mesmo nunca é exatamente igual”.

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