Mitos de Amor

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Neste artigo procura-se responder à seguinte questão: há mitos e lendas que nos relatem histórias de amor bem-sucedidas? E, sem querer abusar da paciência dos leitores, a uma outra: qual ou quais as condições para um amor que acabe bem?

Diz Luc Ferry (1951-), um dos filósofos contemporâneos que mais se tem dedicado ao tema do amor, em 7 Lições para ser feliz ou os paradoxos da felicidade, que entre as sete lições se encontra a de amar, porque como sabemos, desde que nos conhecemos enquanto humanidade, o amor produz verdadeiros milagres, enobrece o/a amante e o/a amado (a), quanto mais não seja aos olhos do/a amante. Pode até ser o/a maior estupor, mas nunca o é na relação amorosa, ou melhor, para o alvo dos seus amores. Deixe-se falar o autor: “enquanto o amor, o amor real ou mesmo somente possível, subsistir nesta vida, ela ainda vale a pena ser vivida” (Ferry 2017 107).

A principal questão é que quem preside a este sentimento amoroso parece ter-se esquecido das suas consequências na humanidade, seja Jesus Cristão, o Eros grego ou o Velhinho ao Luar (月老 Yuèlǎo) chinês. Jesus ensinou-nos a amar e morreu na cruz por amor à humanidade Eros, dada a sua natureza misturada: divino do lado do pai, Grandes Meios ou Astúcia (Poros), mas mortal do lado da mãe, a Miséria (Pénia), aspira constantemente à imortalidade e ao que lhe falta da sua natureza divina, só o Velhinho ao Luar parece mais tranquilo por estar solidamente ancorado na ideia de destino e sua consequência existencial, a predestinação que, como veremos adiante, garante um amor feliz aos casais unidos pelo invisível fio vermelho. Este segue o Livro dos Casamentos, no qual estão registados os nomes e endereços dos casais predestinados (Wang, Alves 2009, 113). Ainda assim, quer na China quer no Ocidente as histórias de amor infelizes sucedem-se a rápido ritmo sendo de resto as mais cantadas, talvez porque os amores bem-sucedidos não tenham história. Ou talvez não.

Quanto aos amores infelizes, quem não os conhece: Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Sansão e Dalila, os Amantes-Borboleta (梁山伯与祝英台), Afrodite (Vénus) e Ares (Marte), enfim todos eles aspiram a uma imortalidade que só conseguem vencida a morte ou ultrapassados obstáculos insuperáveis.

Na verdade, se apenas a imortalidade garante um amor feliz para sempre e, tal falta aos mortais, aos quais estará vedada a suprema felicidade, há ainda um outro obstáculo que estes têm de vencer para assegurar amores bem-sucedidos: ultrapassarem a inconstância da própria natureza humana. Esta mal tem o alvo dos seus amores, sacia-se e, como tal, o impulso erótico que conduz à procura de união com o outro vai esmorecendo, a menos que suceda um milagre, ou se sustente o amor em Deus e no casamento, como bem viu o flósofo Luc Ferrry, quando relata a história feliz de Eros e Psique, quando Zeus eleva Psique â esfera da imortalidade “para apaziguar Vénus que se queixava que o filho se casava com uma simples mortal.” (Ferry 2026, 263).

Ao casar Eros, o amor, com Psique, a alma, o amor “nunca mais será estragado pela morte” (Ferry 2026, 264). Eros está perdidamente apaixonado por uma alma bela. Mas não será isso que sucede igualmente na lógica cristã do Antigo Testamento com Jacob e Raquel agora com a mediação do tempo e do trabalho persistente para revelar as almas belas?

Atente-se na história (Gn, 29, 9-30). Jacob serviu sete anos graciosamente o seu tio Labão para poder casar com Raquel, bela pastora, que logo o encantara, mas o tio, que tinha duas filhas, sendo a mais velha Lia de belos olhos meigos, porém sem a graciosidade da mais nova, não atraía pretendentes. Quando terminado o prazo, Labão deu ao sobrinho Lia e não Raquel, porque sabia que teria dificuldade em casar a mais velha. No entanto, a esperteza de Labão afigurou-se uma bênção para a consolidação do amor de Jacob por Raquel, que teve de trabalhar mais sete anos por ela “Jacob uniu-se a Raquel, e amou Raquel mais do que a Lia. E serviu em casa do seu tio outros sete anos” (Gn, 29.30).

Deixe-se o quadro da bigamia, que pode levantar suspeitas, e veja-se que no interior de um casamento monogâmico sucede a mesma bênção amorosa aliada à persistência, cuja virtude necessita absolutamente do tempo para se revelar. Recorde-se o caso do casal estéril, Abraão e Sara, que apenas na velhice, após longo tempo, consegue conceber Isaac, quando ele nasceu já Abraão tinha 100 anos (Gn, 21, 1-7.)

Recorde-se aqui o belo soneto de Camões “Sete anos de pastor Jacob servia”:

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,

Passava, contentando-se com vê-la:

Porém o pai usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe dava a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,

começou de servir outros sete anos,

dizendo: Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.

  

(Camões, 1980,168)

Quanto aos heróis gregos, encontra-se também o tempo e a persistência favorecida por ele como condição essencial de um amor realizado e tão feliz quanto possível na esfera humana, já que os protagonistas são obrigados a atravessar muitos obstáculos para o alcançarem. Considere-se o amor de Ulisses/Odisseu e Penélope. Muito sofreram Ulisses e Penélope para alcançar uma vida alegre e harmoniosa, como diria Ferry (2026,44). Resumindo, Ulisses dedicou dez anos da sua vida à guerra de Troia, da qual, graças à artimanha do cavalo de Troia, os gregos saíram vencedores. Prestes a regressar a casa, voltando para o seu mundo e para os braços de sua rainha de Ítaca, Penélope, Ulisses desafia inadvertidamente o deus do mar, Poseidon, por arrancar um olho a um dos seus filhos, o ciclope Polifemo. É castigado com mais dez anos de andanças e obstáculos levantados pela divindade na sua viagem de regresso a casa. Enquanto isto, Penélope vai fiando para afastar os incómodos pretendentes. Ela estava sem alternativa, ou persistia no duro trabalho que se tinha proposto, ou teria de casar com um dos solícitos aspirantes à sua mão. Só casaria quando acabasse de tecer um sudário para o velho Laerte, pai de Odisseu (Johnston, 2025, 415). Foi esticando a tarefa até ao regresso do marido, entretanto o seu truque de desfazer à noite o que fazia de dia, para alargar o tempo, foi descoberto por uma escrava e ela deixou de conseguir protelar a escolha. Felizmente, o destino jogou a seu favor e, eis senão quando, o marido chegaria a tempo de a resgatar. Sobrepondo-se a todos os pretendentes em astúcia e excelência bélica, recuperava definitivamente a mão da mulher. E o resto já sabemos, terminaram as suas vidas bem e juntos.

À persistência, ao trabalho e ao tempo, acrescentam os chineses a predestinação, um fator fundamental para o verdadeiro amor na China. Aqui há um Livro dos Casamentos onde estão registados os nomes e endereços dos casais predestinados e há até uma história que ilustra o poder deste livro divino e dos cordéis vermelhos, invisíveis a olhos humanos com que o Velhinho ao Luar ata pés de noivo e noiva. Este, certa vez, foi abordado por um jovem de nome Wei Gu (韦固) que viveu no início do século IX durante a dinastia Tang. Ele perguntou ao Velhinho por que razão por mais que fizesse não se conseguia casar, ao que ele retorquiu que teria de esperar pois a noiva tinha apenas 3 anos. Disse-lhe ainda que havia de casar com ela passados 14 anos, quando ela fizesse 17 anos. O rapaz quis ainda ir espreitar a futura noiva, tendo sido informado que era filha de uma vendedora de hortaliças, a Velha Chen (陈婆). Achando mãe e filha muito feias, tentou interferir com o destino, enviando um lacaio para matar a menina com uma faca. Felizmente, este não teve coragem para o fazer, tendo apenas ferido a pequena entre as sobrancelhas. Entretanto, Wei Gu fugiu para outra terra com medo de que lhe descobrissem a tentativa de homicídio. Exatamente 14 anos depois foi nomeado conselheiro do governador de Xiangzhou, que muito apreciou o seu trabalho. Teve então como recompensa pelos bons serviços prestados a mão da filha, a menina Wang, extremamente bonita, embora andasse sempre com um adorno que lhe tapava o espaço entre as sobrancelhas. Ela não era filha, mas sobrinha adotada pelo governador como filha depois de ter ficado orfã. (Wang, Alves, 2009, 114). E como ninguém foge ao seu destino na China, o marido veio a descobrir que recebera a predestinada noiva, ditada em casamento pelo Velhinho ao Luar.

No caso de se aceitar a teoria da predestinação, parece ser mais fácil justificar os amores bem-sucedidos. Ainda assim, também é preciso tempo para que a ação divina se concretize. Há que esperar, mesmo sem consciência de que se está a fazê-lo, a fim de dar uma oportunidade ao destino chinês, à vontade dos deuses grega, ou à graça divina judaico-cristã para atuarem. É necessário persistir e mostrar belas almas, bondosas, esforçadas e pacientes, como as de Jacob e Raquel ou de Abraão e Sara, ou inteligentes, fortes e astutas, se pensarmos em Penélope e Ulisses, ou então trabalhadoras e leais ao seu senhor ao jeito chinês de Wei Gu.

Nada acontece por acaso no amor, nem mesmo fora do quadro da teoria da predestinação amorosa. O amor em Deus, justificado pela religião judaico-cristã, consumado através do casamento, o amor divino, sustentado pelo destino chinês, ou o amor, enquanto poder demiúrgico manifestado pelas divindades e heróis gregos é a grande força, virtude à maneira grega, que comanda o mundo. Portanto, podemos e devemos cantar os amores que acabam bem, dentro do quadro harmonioso e tensional humano, com a consciência, cultivada inclusive pela literatura, do quanto tiveram de penar para atingir o seu ponto de equilíbrio.

Referências Bibliográficas

Baidu.Baike (ed). 2026. “月下老人” (Velhinho ao Luar) Baidu.Baike. Disponivel em: https://baike.baidu.com/item/%E6%9C%88%E4%B8%8B%E8%80%81%E4%BA%BA/571658, acedido a 31 de maio de 2026.

Camões, Luís de. (1980). Lírica Completa II. Sonetos. Prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Edições Paulus (Ed) (1997).Bíblia Sagrada. Paulus.

Ferry Luc. (2026). A Mitologia Grega de A a Z. Guerra e Paz.

Ferry Luc. (2017). 7 Lições para ser feliz ou os paradoxos da felicidade. Temas e Debates e Círculo de Leitores.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. (2009). Mitos e Lendas da Terra do Dragão. Caminho.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

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