Grande PlanoCinema | Ivo M. Ferreira espera que filme inspirado nas FP-25 provoque diálogo Hoje Macau - 19 Abr 2026 O realizador Ivo M. Ferreira considera que os portugueses olham “com grande pudor” para a História e “os seus traumas” e, por isso, espera que o mais recente filme, inspirado no grupo armado FP-25, provoque algum diálogo. “Projecto Global”, que se estreia na quinta-feira, em Portugal, recua aos anos 1980, a uma altura em que o país “atravessa tempos conturbados: fábricas fecham, trabalhadores erguem barricadas e a política domina cada esquina”, como resume a produtora O Som e a Fúria no dossier de imprensa. O filme recria esse tempo polarizado, numa democracia recente e em construção, em que um grupo armado – Forças Populares 25 de Abril (FP-25) –, descontente com o rumo do país, organizou dezenas de assaltos violentos, atentados e ações consideradas terroristas, que causaram 17 mortes. Em entrevista à agência Lusa, o realizador Ivo M. Ferreira explicou que tem “muita dificuldade em compreender a violência num contexto democrático”, mas, ainda assim, interessou-lhe olhar para “zonas cinzentas, pantanosas, páginas omissas dos livros de História da escola” e para temas como este, da luta armada no pós-revolução de Abril de 1974. Em 1984, uma operação conjunta das forças policiais para desmantelar as FP-25 conduziu a um mediático julgamento que condenou alguns dos seus elementos, entre os quais Otelo Saraiva de Carvalho, um dos militares centrais da Revolução de Abril. Nesse tempo, Ivo M. Ferreira (nascido em Lisboa, em 1975) era ainda criança, filho de uma família ligada ao teatro e politicamente engajada: “Eu vivia praticamente na Comuna [companhia teatral], que era muito mais do que o teatro em si. Era também um ‘hub’ de encontros, de pessoas, de outros grupos de teatro que visitavam, grupos de espetáculo e, evidentemente, de discussão política”. E houve, por isso, uma confluência de razões para fazer este filme, pela memória da infância, pelo interesse sobre o que fica por contar na História do país, e pela construção de personagens que perdem “uma bússola moral”. O filme, em jeito de policial, explora a dúvida moral dos elementos do grupo armado, em particular Rosa, que tem uma dupla vida como atriz e operacional e que se envolve com um dos policiais que investiga o grupo. “Projecto Global”, coproduzido por Portugal e Luxemburgo e que dará origem também a uma série para a RTP, é protagonizado pela atriz portuguesa Jani Zhao, ao lado de um extenso elenco, nomeadamente Rodrigo Tomás, José Pimentão, Isaac Graça, Gonçalo Waddington, Ivo Canelas, João Catarré, Hugo Bentes e Isabél Zuaa. O projeto resultou ainda de um longo trabalho “muito sério” de investigação do historiador Francisco Bairrão Ruivo, de procura de fontes documentais e testemunhos de operacionais e agentes policiais. O trabalho de investigação de Francisco Bairrão Ruivo foi vertido para um livro intitulado “As FP-25 e o pós-revolução: Normalização e Violência Política”, a editar este mês pela Tinta-da-China. “Depois, até por respeito às vítimas da organização, e porque eu acho que se a pulsão do cinema, independentemente do seu tema, tem de ser de liberdade, eu tive de me libertar claramente de tudo isso”, explicou Ivo M. Ferreira sobre o filme. Ivo M. Ferreira descarta qualquer ideia de colagem entre o tempo histórico do filme e a polarização política da atualidade; porém, acredita que a longa-metragem “pode alertar um pouco para isso, que este tipo de extremismos que podem não nos conduzir a nada de bom”. “O meu maior sonho é que o filme coloque dúvidas, questões, diálogo. […] Eu percebo que haja algum pudor em abordar ainda esses temas como é o tema deste filme. Mas eu acredito que o cinema, quando trata de feridas, também as pode ajudar a cicatrizar”, disse. Ivo M. Ferreira, que tem entre os projetos mais recentes as séries “O Americano” (2024), “Sul” (2019) e os filmes “Hotel Império” (2018) e “Cartas da Guerra” (2016), conta filmar em 2027 a história de um casal de saltimbancos presos e torturados “numa fase muito tardia do fascismo” em Portugal. O realizador está igualmente a desenvolver um outro projeto cinematográfico, com a colaboração da jornalista Maria José Oliveira, com base numa investigação dela — publicada no jornal Público e este mês em livro — a partir de provas documentais, descobertas em 2024, sobre a violência exercida pela polícia política PIDE em Moçambique durante o Estado Novo.