Sonhos de Luxo Nas Montanhas Azuladas de Yang Sheng

Li Longji (685-762) não estava destinado a ser como foi o imperador Xuanzong (r.712-756) que pela sua sábia capacidade de discernimento foi capaz de aproveitar e ainda mais impulsionar o extraordinário e florescente tempo da dinastia Tang, mas de modo igualmente surpreendente também foi ele que moveu as peças que levariam à impiedosa e abrupta queda do seu reinado.

Sendo o terceiro filho do imperador Ruizong e da sua concubina, a consorte Dou, uma série de maquinações orquestradas pela implacável imperatriz Wu Zetian (624-705), que dirigia de facto o império quando ele nasceu, e condições naturais do seu carácter acabariam de o levar a ocupar o trono do dragão. Um período que de forma ousada ao assumir o poder designou Kaiyuan, a «origem de uma nova era» a que as gerações posteriores acrescentariam dois caracteres shengshi, a «geração próspera, abundante».

A memória do governante, que viveu rodeado pelo luxo, perduraria na imaginação de cultores das artes, que no seu tempo ele muito protegeu e animou. Um elucidativo exemplo é o rolo horizontal do pintor Ren Renfa (1255-1327) onde figuram Cinco príncipes ébrios regressando a casa, um dos quais é Li Longji (tinta e cor sobre papel, 35,5 x 212,5 cm, no Museu Long de Xangai) em que a riqueza se vê na opulência dos cavalos. O pintor literato Zhang Ning (1426-1496) escreveria: «Pretos, amarelos, vermelhos, brancos e mosqueados: cada cavalo tem o valor de mil taels (liang) de ouro». Debruçados sobre as montadas não se distinguiriam as feições do futuro imperador e outros retratos coevos não chegariam até hoje mas há registos de um, elogiado pela semelhança feito por um pintor hodierno.

Chamava-se Yang Sheng, de actividade conhecida entre 714 e 749, e a ele estão associadas figurações de montanhas de sonhos que mais acrescentam à sensação do luxo vivido na era de Xuanzong.

Yang Sheng seria lembrado em duas expressões da pintura shanshui: o estilo mogu, «sem ossos» em que a tinta é aplicada antes dos contornos da forma, e a paisagem qinglu, «verde azulada», em que os minerais utilizados a azurite e a malaquite por serem raros e usados em alquimia, remetem o observador para a possibilidade espiritual e a imaginação poética.

Pintores posteriores ao usarem o nostálgico método juntaram-lhe muitas vezes o nome do pintor da corte do imperador que elegeu o general que o iria trair. O poeta Du Mu (803-852) que viveu ainda na dinastia dos Tang, reflectiu em muitos poemas sobre as inopinadas acções finais do reino do imperador Xuanzong que levariam ao impensável fim. Um dos que escreveu num templo, designado por decreto imperial de 738, Kaiyuan, para que em todo o império fossem feitas orações pelo seu bom governo, expressa a tristeza desse entardecer, «Tonto pelo vinho gasto o meu tempo escutando o som do vento e da chuva batendo na janela.»

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado