Grande PlanoHistória | Catálogo revela documentos e objectos das relações luso-chinesas Andreia Sofia Silva - 6 Mai 20266 Mai 2026 “Papéis e peças entre a China e Portugal – Testemunhos passados de uma relação com presente e futuro” é um catálogo bilingue que revela pedaços da história das relações comerciais entre Portugal e China, com registos, documentos e imagens de objectos. Macau também assume papel de destaque na obra lançada na segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau Um prato com músicos chineses em trajes europeus, um excerto de uma carta sobre a oficina mecânica em Pequim do jesuíta Tomás Pereira, ou um inventário da sacristia de São Roque com peças chinesas. Estes são alguns dos documentos ou objectos que ajudam a contar a história comercial entre a China e Portugal estabelecida a partir de meados do século XVI, quando os portugueses desembarcaram na China, e, sobretudo, quando os missionários lá chegaram no final do mesmo século. Tudo isto consta no catálogo “Papéis e peças entre a China e Portugal – Testemunhos passados de uma relação com presente e futuro”, lançado na segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e editado pela Húmus. Não faltam ainda, no catálogo, o Dicionário romano-sínico ou uma carta de Álvaro Semedo, jesuíta, “dando novas da China”. Este é o resultado de um trabalho conjunto de muitas instituições do ensino superior portuguesas e chinesas, como o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa (UL), o Centro de Estudos Clássicos da UL, a Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin. O trabalho foi desenvolvido por uma vasta equipa, onde constam nomes como Wang Jincheng na autoria, ao lado de Arnaldo do Espírito Santo; ou Isabel Murta Pina, do CCCM, e Cristina Costa Gomes na coordenação científica, entre outros. O catálogo tem ainda ligação ao projecto “Res Sinicae – Base digital de fontes documentais em latim e em português sobre a China (séculos XVI – XVIII)”. O catálogo está dividido em quatro áreas onde se podem descobrir mais detalhes sobre estes objectos ou documentos, nomeadamente “Língua e Cultura”, “Ciência, Tecnologia e Arte”, “Comércio” e “Diplomacia”. Alexandra Curvelo, professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa e especialista na área da História da Arte, responsável pela apresentação da obra, descreveu-a como um “livro-catálogo”. A obra “apresenta testemunhos dos intercâmbios chineses e portugueses durante os períodos das dinastias Ming e Qing, alguns deles revelados pela primeira vez”. O leitor tem, assim, acesso “a documentação de tipologia muito variada”, que pretende “sublinhar as interacções passadas, que se mantém no presente e que já se projectam no futuro”. Alguns dos documentos e objectos presentes no catálogo “pertencem ao acervo de arquivos, bibliotecas e museus portugueses de vários países europeus, bem como do Brasil”. A edição em chinês e português dará a conhecer “também ao público chinês um corpo histórico de enorme relevância”, afirma Alexandra Curvelo. Pretende-se ainda que o livro “tenha uma divulgação alargada, não sendo apenas circunscrita, ou dirigida, a um público restrito ou especialista”. Aprendizes de chinês Alexandra Curvelo destacou também o capítulo dedicado à língua e cultura, que remete para o “início da chegada dos missionários jesuítas à China e do estabelecimento de uma missão, logo em 1582, tendo começado por aprender o chinês regularmente, ou mais correctamente o Guanhua, o mandarim, língua franca num império marcado pela riqueza e pela diversidade linguística”. Era um idioma que, neste tempo, “os europeus cedo associaram ao latim, a língua internacional das elites intelectuais europeias”. Depressa os jesuítas começaram a desenvolver “inúmeros instrumentos linguísticos para organizar a aprendizagem da língua”, ou seja, o chinês, nomeadamente dicionários. Alexandra Curvelo destacou que o “mais antigo dicionário português-chinês sobrevivente remonta à década de 1580”. Houve ainda, “no campo da matemática, astronomia, geografia, mecânica, relojoaria, hidráulica e artilharia”, uma “verdadeira interacção entre duas culturas científicas, pautadas pela curiosidade, novidade e adaptação”. Alexandra Curvelo destacou o nome de Matteo Ricci entre tantos outros missionários que “fazem parte de uma constelação extraordinária de jesuítas que disseminaram a ciência, tecnologia e arte europeias na China”, dado que “alguns instrumentos começaram a ser produzidos na China, como foi o caso dos relógios mecânicos, com uma dimensão estética também associada”. A professora catedrática em História de Arte destacou, do catálogo, “Excerto da Carta sobre Relógios”, um documento da autoria de Gabriel de Magalhães e que data de 1667, escrito em Pequim. O autor trabalhou no fabrico de relógios mecânicos, entre outras peças, e Alexandra Curvelo considera “curioso” o facto de “se ter designado a si próprio como serralheiro”. “Este mestre de mecânica, que estava à frente da oficina da residência jesuíta, designa-se a si próprio como serralheiro. Esta oficina viria a ser herdada por outro nome maior da presença jesuíta na China, Tomás Pereira, que projectou e construiu um impressionante conjunto de instrumentos musicais e que, por sua vez, se autodenominava de artífice. Ou seja, não se classificavam a si próprios como artistas, o que é um dado muito interessante.” Tratava-se tão somente de fazerem “a valorização da técnica e da mão”, sendo esta a dimensão [do saber técnico], para Alexandra Curvelo, “que está presente também na missão [jesuíta] para o Japão”. O lugar de Macau No terceiro capítulo do livro espelham-se peças e papéis que revelam a intensa ligação entre Portugal e a China na área do comércio, onde Macau não poderia deixar de ter um lugar de destaque. Aqui importa referir o documento sem data, mas que se acredita ter sido escrito no século XVIII por Jorge da Silva, e que consta na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Intitula-se “Relação da importância de Macau no comércio asiático” e, segundo a autora da análise a este documento, Cristina Costa Gomes, “não se conhecem dados em concreto” sobre Jorge da Silva. Porém, trata-se de um papel “que assume particular relevância porque atesta a importância da cidade portuária de Macau no comércio asiático durante o século XVII, que facilmente se explica pela sua localização geográfica estratégica”. Alexandra Curvelo acrescentou também a importância do comércio de cerâmica nestes anos. “Num mundo conectado por intensas trocas comerciais, como era o mundo asiático, onde os mercadores chineses participavam activamente, estabeleceram-se contactos com os portugueses por via também das comunidades mercantes chinesas espalhadas pela Ásia e sobretudo nos portos do Sudeste Asiático. A porcelana chinesa cedo se torna uma das principais mercadorias exportadas para o continente europeu e com um impacto duradouro.” Além disso, deu-se, a partir de 1557, e já com a presença crescente dos portugueses em Macau, o “acesso directo a uma série de mercadorias, como a porcelana, mas também os têxteis, que têm um papel determinante, objectos lacados”, o que coloca os portugueses “numa posição favorável, seja em termos do mercado interno chinês, seja na entrada noutras rotas, designadamente com o Japão e rotas que ligavam este território ao Sudeste Asiático”. Alexandra Curvelo apontou também a “resiliência de Macau frente a uma série de conjunturas desvaloráveis, que lhe permitiu manter-se como plataforma essencial do comércio marítimo intercontinental do mundo moderno”. O comércio com a China de “mercadorias antigas e mais recentes, pôs-se no gosto e consumo das elites europeias, dando origem a novos hábitos de sociabilidade na Europa e processos interessantes de transferência cultural”, como a criação da “primeira sociedade de consumo na Europa”. Porém, “a China já a tinha há bastante mais tempo”, frisou Alexandra Curvelo. Em “Papéis e peças entre a China e Portugal” não faltam ainda documentos como “listas de cargas de navios que dão eco a negociações e transacções, lembrando que o comércio pressupõe sempre o estabelecimento de relações e redes, tanto formais como informais”. Arnaldo do Espírito Santo, co-autor do livro, vincou que a obra “é mais um fruto do passado e presente com futuro, com bons auspícios de outras colaborações”.