Comércio | Martins da Cruz acha que Espanha condiciona “exclusividade de Portugal”

O antigo embaixador e ministro António Martins da Cruz considera que a “Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade que Portugal desfrutava em Macau”, alertando para a necessidade de as autoridades portuguesas terem mais presença na RAEM

Foi na palestra “Oriente e Ocidente – o Mundo em 2026”, que decorreu na sexta-feira em Lisboa, que o antigo embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz deixou um alerta para o crescente peso que a Espanha está a ganhar no relacionamento com a China e, consequentemente, com Macau.

“Em Macau e na ilha de Hengqin todas as associações e institutos que conheço tinham como objecto o comércio e relações económicas entre a China e países de língua portuguesa, e agora em todos foi acrescentado Espanha, ou países de língua espanhola”, referiu no evento promovido pela Associação dos Novos Amigos da Rota da Seda (ANRS).

“Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade de que Portugal desfrutava em Macau”, acrescentou António Martins da Cruz, falando da mais recente visita oficial de Sam Hou Fai, Chefe do Executivo da RAEM, a Portugal e Espanha.

“Desde Dezembro de 1999 que há uma tradição do Chefe do Executivo de Macau vir a Lisboa na primeira viagem que faz, mas, pela primeira vez, depois de Lisboa, foi a Madrid, onde até ficou mais umas horas do que tinha estado em Lisboa.”

À margem destas declarações, António Martins da Cruz disse ao HM que não acredita, porém, que haja uma grande mudança ou transição a curto prazo no relacionamento entre Macau e Portugal, com Espanha pelo meio. Mas o que é certo é que o país “passou a estar ao mesmo nível de Portugal sem nunca ter estado em Macau”, defendeu, referindo-se ao papel na administração do território e histórico que Portugal detém.

“Portanto, é uma coisa que pode afectar as empresas portuguesas”, frisou o responsável, que acredita que as autoridades de Macau, com este novo cenário, “estão contentíssimas, porque é mais um interlocutor”. No caso de Portugal, o que deve fazer para contornar esta questão é “intensificar as relações e aproveitar melhor Macau como plataforma, dando mais importância a Macau, e levando lá mais membros do Governo”.

António Martins da Cruz, que preside ao conselho de administração da OVIA – Oeiras Valley Investment Agency, tem sido, ele próprio, presença frequente na RAEM, declarando que vai novamente a Macau em Junho “com o secretário de Estado da Economia da Madeira”. “A Madeira interessa-se por Macau. Vou na qualidade de presidente da assembleia-geral da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira”, explicou.

Aproveitar a Grande Baía

António Martins da Cruz entende que “as empresas portuguesas devem aproveitar melhor a plataforma de Macau para o mercado da Grande Baía, que tem cerca de 80 milhões de habitantes e mais de 25 por cento do PIB [Produto Interno Bruto] chinês”, sendo “a zona mais rica da China”.

Porém, não deixou de destacar limitações no mercado interno de Macau. “Infelizmente, chegamos a Macau e nem há distribuidores de vinho e cerveja. E não há por uma razão: há 20 anos, os macaenses faziam isso e é preciso encontrar chineses que façam isso agora. Chegamos a Macau, e além do Banco Nacional Ultramarino e de dois ou três bancos, o que há? Três ou quatro empresas só. E temos de encontrar as nossas empresas e saber aproveitar as coisas, e daí partirmos para a Grande Baía.”

Não ouvir Bruxelas

Na sessão de sexta-feira não faltaram algumas farpas ao posicionamento que a União Europeia (UE) tem tido no relacionamento com a China, incluindo Portugal. “Esperemos que a UE ouça mais vezes as vozes do entendimento necessário e útil com a China ao invés de alguns que chegam, às vezes, de instituições de Bruxelas, para não dizer o nome do Parlamento Europeu, que por vezes dificultam o diálogo e acordos.”

António Martins da Cruz destacou que a “Europa tem, neste momento, outras preocupações e, sobretudo, uma indefinição total” em matéria de política externa. “A aproximação com a China passa por uma definição de políticas externas, mas não nos podemos esquecer do seguinte: temos 27 países na UE e, provavelmente, há seis ou sete que têm políticas externas. Os restantes têm políticas regionais”, destacou.

Martins da Cruz destacou “hesitações da Europa nas relações com a China”, relatando o exemplo de 2019, quando a UE, “por proposta da Comissão Europeia, aprovou uma posição estratégica, definido a China de três maneiras: um parceiro para a cooperação económica e negociação, um competidor económico e um rival sistémico”. “Ou seja, cabe quase tudo nesta indefinição propositada”, frisou, considerando que “continuaram as hesitações” em relação à China, sem se terem definido nunca “os riscos concretos” do relacionamento com o país.

Tal permite, na visão do antigo embaixador e ministro, “que cada um dos 27 Estados-membros definam, eles próprios, qual o conceito e critério de risco” neste relacionamento.

António Martins da Cruz entende que o caso da Huawei e da rede 5G, e o facto de ter merecido “diferente tratamento de diferentes países europeus é exemplo de que a Europa tem concepções diferentes de risco com a China”. “Até pensamos que algumas instituições em Bruxelas se esquecem que o comércio entre a UE e a China representa 29,6 por cento do comércio global e que a Europa importa da China 500 milhões de mercadorias por ano. Para termos uma ideia, o comércio entre a Europa e a China são 2 milhões por minuto. Se estivermos duas horas fechados nesta sala, o comércio entre a Europa e a China é de 240 milhões de euros. E há muitas capitais da Europa que têm tendência a esquecer isto.”

No contexto dos 27 países que fazem parte da UE, “Portugal tem todas as condições para ser o criador de dinâmicas positivas e aproveitando melhor a plataforma de Macau”, além de “facilitar investimentos chineses e reforçar as nossas linhas de comércio e de exportações para a China”.

O antigo embaixador lembrou ainda o facto de Portugal ter sido “um dos poucos países da UE que assinou com a China, na última visita do Presidente Xi Jinping, um memorando sobre a participação de Portugal na Nova Rota da Seda”.

Martins da Cruz realça estratégias de longo-prazo de Pequim

A conferência protagonizada por António Martins da Cruz aconteceu no mesmo dia em que terminou a visita à China do presidente norte-americano Donald Trump. O antigo embaixador defendeu que serão necessários “alguns dias ou semanas para ler os sinais dos resultados dessa visita”, devendo o relacionamento entre os Estados Unidos da América (EUA) e China ser analisado “sob os prismas estratégico, político e económico”.

“São duas das maiores superpotências que tentam, cada uma, ter uma zona de influência e de espaço na construção de forças armadas que sejam globais nos chamados países do Sul e nos BRICS, tendo uma influência em África, Médio Oriente e América Latina.”

“É no domínio das relações económicas, sobretudo no comércio e investimento, o resultado mais positivo e visível desta cimeira em Pequim”, declarou. “Os 30 empresários americanos que foram na comitiva do Presidente e que representam as maiores empresas dos EUA e do mundo, não irão, certamente, regressar de mãos vazias”, acrescentou.

Nada é novo

Para Martins da Cruz, “não houve, nem em 2026 nem nos anos anteriores, nenhuma súbita crise que fosse inédita”, referindo que, no caso do conflito do Médio Oriente, “a China defende o petróleo do Irão, que representa 13 por cento do total das importações chinesas, mas tenta preservar a sua disponibilidade diplomática e as boas relações que tem com a Arábia Saudita, com os Emirados [Árabes Unidos]”.

Sobre a crise no Médio Oriente ou até a posição face a Taiwan, Martins da Cruz acredita que “a China não vai, seguramente, alterar as suas posições conhecidas, porque a diplomacia chinesa tem tempo, ao contrário da generalidade das diplomacias ocidentais, que têm os quatro anos entre cada eleição”.

“O caso de Taiwan que foi sublinhado por Xi Jinping só para recordar aos EUA que Taiwan está incluído no conceito de uma só China que os EUA, tal como a UE e Portugal, aceitam. É curioso, porque nós aceitamos [Portugal] o conceito de uma só China, mas depois recusamos aceitar que Taiwan faça parte da China. Sabemos muito bem que, em 1986, quando a China começou a negociar connosco a transferência de Macau, foi-nos dito claramente que a transferência de Hong Kong e de Macau era para dar um exemplo a Taiwan.”

Há, no seu entender, “uma ambiguidade estratégica de Washington” dado que “pode fornecer armas a Taiwan, mas se houver um ataque, não pode ir defendê-la”. “Isto é que é ambiguidade estratégica, e parece que as pessoas têm medo de dizer isto”, rematou.

Ainda em relação a Taiwan, Martins da Cruz adiantou que “até 2049 a China vai integrar” o território por se tratar “do centésimo aniversário da revolução que criou a República Popular da China”.

18 Mai 2026

História | Catálogo revela documentos e objectos das relações luso-chinesas

“Papéis e peças entre a China e Portugal – Testemunhos passados de uma relação com presente e futuro” é um catálogo bilingue que revela pedaços da história das relações comerciais entre Portugal e China, com registos, documentos e imagens de objectos. Macau também assume papel de destaque na obra lançada na segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau

Um prato com músicos chineses em trajes europeus, um excerto de uma carta sobre a oficina mecânica em Pequim do jesuíta Tomás Pereira, ou um inventário da sacristia de São Roque com peças chinesas. Estes são alguns dos documentos ou objectos que ajudam a contar a história comercial entre a China e Portugal estabelecida a partir de meados do século XVI, quando os portugueses desembarcaram na China, e, sobretudo, quando os missionários lá chegaram no final do mesmo século.

Tudo isto consta no catálogo “Papéis e peças entre a China e Portugal – Testemunhos passados de uma relação com presente e futuro”, lançado na segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e editado pela Húmus. Não faltam ainda, no catálogo, o Dicionário romano-sínico ou uma carta de Álvaro Semedo, jesuíta, “dando novas da China”.

Este é o resultado de um trabalho conjunto de muitas instituições do ensino superior portuguesas e chinesas, como o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa (UL), o Centro de Estudos Clássicos da UL, a Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin. O trabalho foi desenvolvido por uma vasta equipa, onde constam nomes como Wang Jincheng na autoria, ao lado de Arnaldo do Espírito Santo; ou Isabel Murta Pina, do CCCM, e Cristina Costa Gomes na coordenação científica, entre outros. O catálogo tem ainda ligação ao projecto “Res Sinicae – Base digital de fontes documentais em latim e em português sobre a China (séculos XVI – XVIII)”.

​O catálogo está dividido em quatro áreas onde se podem descobrir mais detalhes sobre estes objectos ou documentos, nomeadamente “Língua e Cultura”, “Ciência, Tecnologia e Arte”, “Comércio” e “Diplomacia”. Alexandra Curvelo, professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa e especialista na área da História da Arte, responsável pela apresentação da obra, descreveu-a como um “livro-catálogo”.

A obra “apresenta testemunhos dos intercâmbios chineses e portugueses durante os períodos das dinastias Ming e Qing, alguns deles revelados pela primeira vez”. O leitor tem, assim, acesso “a documentação de tipologia muito variada”, que pretende “sublinhar as interacções passadas, que se mantém no presente e que já se projectam no futuro”.

Alguns dos documentos e objectos presentes no catálogo “pertencem ao acervo de arquivos, bibliotecas e museus portugueses de vários países europeus, bem como do Brasil”. A edição em chinês e português dará a conhecer “também ao público chinês um corpo histórico de enorme relevância”, afirma Alexandra Curvelo. Pretende-se ainda que o livro “tenha uma divulgação alargada, não sendo apenas circunscrita, ou dirigida, a um público restrito ou especialista”.

Aprendizes de chinês

Alexandra Curvelo destacou também o capítulo dedicado à língua e cultura, que remete para o “início da chegada dos missionários jesuítas à China e do estabelecimento de uma missão, logo em 1582, tendo começado por aprender o chinês regularmente, ou mais correctamente o Guanhua, o mandarim, língua franca num império marcado pela riqueza e pela diversidade linguística”. Era um idioma que, neste tempo, “os europeus cedo associaram ao latim, a língua internacional das elites intelectuais europeias”. Depressa os jesuítas começaram a desenvolver “inúmeros instrumentos linguísticos para organizar a aprendizagem da língua”, ou seja, o chinês, nomeadamente dicionários. Alexandra Curvelo destacou que o “mais antigo dicionário português-chinês sobrevivente remonta à década de 1580”.

Houve ainda, “no campo da matemática, astronomia, geografia, mecânica, relojoaria, hidráulica e artilharia”, uma “verdadeira interacção entre duas culturas científicas, pautadas pela curiosidade, novidade e adaptação”. Alexandra Curvelo destacou o nome de Matteo Ricci entre tantos outros missionários que “fazem parte de uma constelação extraordinária de jesuítas que disseminaram a ciência, tecnologia e arte europeias na China”, dado que “alguns instrumentos começaram a ser produzidos na China, como foi o caso dos relógios mecânicos, com uma dimensão estética também associada”.

A professora catedrática em História de Arte destacou, do catálogo, “Excerto da Carta sobre Relógios”, um documento da autoria de Gabriel de Magalhães e que data de 1667, escrito em Pequim. O autor trabalhou no fabrico de relógios mecânicos, entre outras peças, e Alexandra Curvelo considera “curioso” o facto de “se ter designado a si próprio como serralheiro”. “Este mestre de mecânica, que estava à frente da oficina da residência jesuíta, designa-se a si próprio como serralheiro. Esta oficina viria a ser herdada por outro nome maior da presença jesuíta na China, Tomás Pereira, que projectou e construiu um impressionante conjunto de instrumentos musicais e que, por sua vez, se autodenominava de artífice. Ou seja, não se classificavam a si próprios como artistas, o que é um dado muito interessante.”

Tratava-se tão somente de fazerem “a valorização da técnica e da mão”, sendo esta a dimensão [do saber técnico], para Alexandra Curvelo, “que está presente também na missão [jesuíta] para o Japão”.

O lugar de Macau

No terceiro capítulo do livro espelham-se peças e papéis que revelam a intensa ligação entre Portugal e a China na área do comércio, onde Macau não poderia deixar de ter um lugar de destaque.

Aqui importa referir o documento sem data, mas que se acredita ter sido escrito no século XVIII por Jorge da Silva, e que consta na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Intitula-se “Relação da importância de Macau no comércio asiático” e, segundo a autora da análise a este documento, Cristina Costa Gomes, “não se conhecem dados em concreto” sobre Jorge da Silva.

Porém, trata-se de um papel “que assume particular relevância porque atesta a importância da cidade portuária de Macau no comércio asiático durante o século XVII, que facilmente se explica pela sua localização geográfica estratégica”.

Alexandra Curvelo acrescentou também a importância do comércio de cerâmica nestes anos. “Num mundo conectado por intensas trocas comerciais, como era o mundo asiático, onde os mercadores chineses participavam activamente, estabeleceram-se contactos com os portugueses por via também das comunidades mercantes chinesas espalhadas pela Ásia e sobretudo nos portos do Sudeste Asiático. A porcelana chinesa cedo se torna uma das principais mercadorias exportadas para o continente europeu e com um impacto duradouro.”

Além disso, deu-se, a partir de 1557, e já com a presença crescente dos portugueses em Macau, o “acesso directo a uma série de mercadorias, como a porcelana, mas também os têxteis, que têm um papel determinante, objectos lacados”, o que coloca os portugueses “numa posição favorável, seja em termos do mercado interno chinês, seja na entrada noutras rotas, designadamente com o Japão e rotas que ligavam este território ao Sudeste Asiático”.

Alexandra Curvelo apontou também a “resiliência de Macau frente a uma série de conjunturas desvaloráveis, que lhe permitiu manter-se como plataforma essencial do comércio marítimo intercontinental do mundo moderno”.

O comércio com a China de “mercadorias antigas e mais recentes, pôs-se no gosto e consumo das elites europeias, dando origem a novos hábitos de sociabilidade na Europa e processos interessantes de transferência cultural”, como a criação da “primeira sociedade de consumo na Europa”. Porém, “a China já a tinha há bastante mais tempo”, frisou Alexandra Curvelo.

Em “Papéis e peças entre a China e Portugal” não faltam ainda documentos como “listas de cargas de navios que dão eco a negociações e transacções, lembrando que o comércio pressupõe sempre o estabelecimento de relações e redes, tanto formais como informais”.

Arnaldo do Espírito Santo, co-autor do livro, vincou que a obra “é mais um fruto do passado e presente com futuro, com bons auspícios de outras colaborações”.

6 Mai 2026

Residentes de Hong Kong equacionam viver em Portugal para fugir à erosão da liberdade, escreve SCMP

[dropcap]P[/dropcap]ortugal é visto cada vez mais como porta de entrada na Europa para residentes de Hong Kong que pensam em emigrar, preocupados com a erosão de liberdades, noticiou hoje o jornal South China Morning Post (SCMP).

Na reportagem, alguns residentes da ex-colónia britânica, agora administrada pela China, afirmam estar a pensar em obter a nacionalidade portuguesa, via ligações familiares em Macau ou através da concretização de investimentos.

Alguns estiveram entre as 50 pessoas que marcaram presença numa sessão que se realizou este mês em Hong Kong na qual se deu informação sobre como migrar para Portugal por meio da realização de investimentos, organizada por uma agência de consultadoria na área de migração.

“Alguns foram tentados pelo programa ‘Vistos Gold’, que oferece àqueles que fazem investimento autorizações de residência, que podem levar à obtenção de cidadania após cinco anos – abrindo a aporta a um total de 28 nações europeias”, pode ler-se no SCMP.

Em resposta ao jornal, um porta-voz do Consulado geral de Portugal em Macau e Hong Kong limitou-se a dizer era habitual receberem cerca de 120 pedidos mensais de nacionalidade, sem indicar quantos deles eram de residentes de Hong Kong.

A maioria das pessoas explicou que uma das justificações para procurar a emigração tem a ver com a crescente perda de liberdades no território que, há mais de um mês é marcado por manifestações maciças contra emendas a uma lei que permitiria extraditar suspeitos de crimes para o interior da China.

21 Jul 2019

Capital Airlines quer voos directos entre Xi’an e Lisboa

[dropcap style≠’circle’]A[/dropcap] companhia aérea chinesa Capital Airlines pediu autorização às autoridades chinesas para iniciar um voo directo entre Xi’an, noroeste da China, e Lisboa, depois de ter suspendido, este mês, a ligação a partir de Pequim.

Segundo um comunicado da Administração da Aviação Civil da China, a que a agência Lusa teve acesso, a empresa quer arrancar com o novo voo em Dezembro deste ano.

A informação detalha que o voo terá duas frequências por semana e ficará a cargo dos aviões Airbus A330, com capacidade máxima para 440 passageiros.

Com cerca de 12 milhões de habitantes, Xi’an é a capital da província de Shaanxi, a cerca de mil quilómetros de Pequim.

Trata-se de uma das mais importantes cidades da China Antiga, servindo de capital ao longo de dez dinastias, incluindo os Qin (255 a 206 a.C.), Han (206 a.C. a 220 d.C.) e Tang (618 d.C. a 907 d.C.), e acolhe o ‘Exército de Terracota’, uma das principais atracções turísticas do país.

O pedido da Capital Airlines surge no mesmo mês em que suspendeu o voo direto, entre Hangzhou, na costa leste da China, e Lisboa, com paragem em Pequim, lançado a 26 de julho de 2017, com três frequências por semana.

Contactada pela Lusa na altura em que anunciou a suspensão do voo, a empresa recusou detalhar os motivos, referindo apenas “razões operacionais”.

No primeiro ano que voou para Portugal, a Capital Airlines transportou mais de 80 mil passageiros, segundo dados divulgados por altura do aniversário. A taxa média de ocupação do voo fixou-se nos 80%, nos meses mais fracos, enquanto na época alta superou os 95%.

Em dívida

A Capital Airlines é uma das subsidiárias do grupo chinês HNA, que enfrenta uma grave crise de liquidez, depois de ter fechado o ano passado com uma dívida de 598 mil milhões de yuan, de acordo com os dados divulgados na apresentação dos resultados anuais da empresa.

A escalada nos custos de financiamento desencadeou uma onda de venda de activos do grupo, que tem sido um dos principais visados das advertências das autoridades chinesas sobre “investimentos irracionais” no estrangeiro, que podem “acarretar riscos” para o sistema financeiro chinês.

No lançamento da ligação aérea, o primeiro-ministro português, António Costa, disse esperar que os voos directos Lisboa-Pequim fossem um reforço de Portugal como “grande ‘hub’ intercontinental” (centro de operações).

A afirmação de António Costa foi feita a 11 de julho de 2017 durante a cerimónia de inauguração dos voos directos Lisboa-Pequim, com a presença do presidente do parlamento da China, Zhang Dejiang, em visita a Portugal. Para António Costa, a abertura da rota Lisboa-Pequim tem um “enorme simbolismo” e “é a nova rota da seda do século XXI”.

12 Out 2018