Doença mental

Da profusão da catalogação da doença mental no virar do século XIX para o século XX, há duas tipificações importantes que Emil Kraeplin esboça: a doença maníaco-depressiva (doença bipolar) e demência precoce (esquizofrenia). A psicopatologia geral acentua o anómalo e o anormal relativamente ao estado normal mais ou menos controlável não doentio em que a pessoa consegue funcionar. Há assim limites aquém e além da funcionalidade.

Embora o núcleo do diagnóstico seja a mente, há um envolvimento somático: fisiológico, morfológico, biológico do indivíduo, mas também ambiental e social, sincrónico e diacrónico. O diagnóstico é holístico de tal forma que os sintomas não se limitam a estudar uma interioridade do mundo próprio pessoal com a psicologia do indivíduo mas a totalidade da vida com todas as suas consequências que a vida mental ou psíquica tem para a existência. A causa e consequência é a vida no seu todo. “Anómalo” quer dizer em grego irregular, superfície acidentada, carácter inconsistente. É diferente do “anormal” que sai para fora da regra, da norma estatística do primariamente e o mais das vezes.

O modelo de Kraepelin consolidou a maioria dos principais transtornos afectivos numa única categoria, devido à semelhança dos sintomas nucleares, o histórico familiar de doença e, principalmente, o padrão de recorrência ao longo da vida dos pacientes, com períodos de remissão e exacerbação e um resultado comparativamente benigno, sem deterioração significativa.

Mas fundamentalmente considerou a mania (hipomania e euforia) como uma manifestação da depressão, não como um sinal distintivo de um transtorno bipolar separado, como o é na prática de diagnóstico norte americano de hoje.

A leitura do sintoma maníaco, hipomania e euforia, é historicamente decisiva. Nos hipocráticos ainda a melancolia e a euforia ou mania são sintomas diferentes de doenças diferentes. Lemos ainda no Fedro de Platão a quadrupla raiz da loucura como mania: Transe divinatório, transe de consolação, transe poético, transe erótico. A melancolia é um estado de dysthymia ou depressão sentido no quotidiano que pode alterar o estado da consciência como o vinho. Tem consequências positivas também porque permite a manifestação do génio em alguns homens extraordinários na acção e na teoria. A ligação entre estes dois estados diferentes do ânimo, como manifestações de uma mesma doença, em etapas ou épocas diferentes, é uma descoberta ulterior e implica claramente um diagnóstico lento feito diacronicamente, longitudinalmente. A integração de episódios heterogéneos com sintomas diferentes numa mesma etologia e terapêuticas idênticas implica uma revolução na hermenêutica do diagnóstico e consequente prognóstico. O diagnóstico diferenciado, a sua integração no meio familiar, história clínica de pais e parentes próximos antepassados e descendentes, interacções com amigos e colegas, relação com o meio social: profissional, classe, alargamento holístico é já uma consequência de uma interpretação da doença que tem como plano de fundo uma ontologia desenvolvida ao longo de séculos. A própria concepção da filosofia como terapêutica, homeopatia, relação íntima de uma doença para a morte, etc., etc., resulta do convívio existencial ôntico senão teórico e ontológico com a doença estudada pela medicina. A interpretação do ser da doença e da sua relação com a saúde, a interpretação do elemento saudável, do poder, afirmação, da vida resulta de uma cosmovisão filosófica da existência. A presença avassaladora nas nossas vidas de Healthclubs, SPAs, a indústria omnipresente do bem estar, SNSs, até a doença mental como doença do século, etc., etc.. são “objectos”, manifestações, fenómenos a ser interpretados numa vida que se compreende assim doente, mortal, decadente, com riscos de remissão, recaída, regresso a velhos hábitos, à má vida?

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