Das coisas começadas

A matéria de que somos feitos é um defeito.
A matéria é um animal que mal sustenta os seus cascos.
Poder do Demo quando bem empregue, bom, ao lado das coisas que são sombras.

Quando a torturamos mais do que pode suportar somos possuídos por trevas sem fim.
O Demo em nós é por vezes o único amigo quando bem compreendido.
Tenhamos também por ele compaixão, é que neste chão um secreto amor lhe foi também preciso.
O nada disto entender é ser esquecido.

Pois que Demo e esta matéria já não são os mesmos, somos então um novo crescendo.
A anima que aguenta e levanta a forma pesada, também muda, e volta sem nada.
Há simulacros ditando os nortes vários mas a vitória é virá-los.
Não são demónios, são anjos, caídos na robustez, nós vemo-los por vezes passar sem lhes descobrirmos a tez.

Podem ser belos também – Lúcifer em vaga e lava- e podem ser feros sem ver onde projectam a alma.
Nós já fomos os vulcanos das terras de todos os amos, e tentamos, tentamos, esconjurar esses danos.
Toda a matéria flutua no vazo híbrido das coisas, e coisa sem forma é sentida como o marulhar dos tormentos.

Se com eles se fizerem os assentos, e com os marulhares os incêndios, perderemos de vez o entendimento de quem nos fere no tempo.
Deus emigrou e está no alto do planisfério, por vezes sentimos que dorme do lado de lá do Universo, e que em poema nos dá o luto para cobrirmos as lendas.
Mata um samurai, e sai. Depois vem peregrino, e Demo e Deus vão sozinhos na construção dos acasos.

Redobram de forças quando as nossas já falecem, e se lhe sentirmos as sebes transportamos nós as vestes, que ventos, degelos, e fogo, terão um dia o encontro dos encantos que nos despem.
Lúcifer, o que fere e cura, que luz e fera em si mesmo se procura; vem!
Hoje de negro cobalto, negros de luz e olfacto, vem a este teu Fado.

Somos o vaguear de uma coluna de fogo, somos milhões e não parece haver de novo o novo que será
o seu maior evento. Cobrindo então de cinzento a Terra inteira vestido de vento, vem do lado de todo o firmamento.
Que se perde na noite longa da Fogueira.
Depois disto tudo que vislumbrámos nas acácias do Verão, os solos viram-se então…

Já são tectos glaciares e vozes vêm dos mares- náufragos da terra perdida- pois vós ireis avançar:
Quem nos segue está escondido!
Manchas e sulfatos de cobre despem as ilhas do meio, e sem medo marinheiro,
rema para lá.

Os dias vão ficar na nuvem e só haverá sol para além da bruma…
Dias sem sol e sons de fora fazem no painel da Hora um recanto de silêncio.
A bolha de cristal de fios de tule e vagas imperiosas vagueia entre todas as terras povoadas.
Com receios de auroras e já sem Demo nem Deus, encobertos p´la. fuligem, as nossas vidas
que passam são a suspeita de que ficámos sós na parte sagrada que não nos dirá mais nada.
Vamos percorrer esta estrada, para quem nos encontrar seremos um quase nada, materializados nas

Sombras que se arquearam em dobras… O nosso tempo vai-se embora!
O tempo já não está. Feridos de tempo e sem Deus, a vida prosseguirá, não encontrando seu Demo que nos fizera companhia nos tempos da longa vigília.
Derrete Inferno de esmalte, contorce-te em tua sina de fera gleba sem guia, e senta-te a contar as estrelas.

Não haverá grutas, nem saudades de fazê-las. Há lilases, flores que irás refloresce-las para os olhos nascerem nas órbitas do velho iceberg que no olho da cratera será o ciclope que te vela.
Teremos saudades de ti, um dia que a saudade venha, mas de ti não quero que tenhas a vida que aqui nasceu. Voamos, somos mais anjos, soltos somos melhorados, e todos seremos enfim, o maior acto sonhado de quem ainda segue e ri na vaga definição deste ocaso.
São satélites de vida todos guardados nesses dias, podem cair, desdobrar-se, tudo a sonda sondará, e quem já foi encontrado pode sair por esse lado de lá. Quem não for encontrado é porque não estava marcado, marcas que o Demo nos dá. Corre outra essência, rios mais fundos, pois que vai e reencontra, são estes os desígnios dos mundos.

Está prostrada a matéria e as fomes foram vencidas, e há alimento que sobra desses manjares da antiga vida. Comem-se os elementos brandamente numa outra Era- Estação… quando o tempo voltar e a voz recomeçar, talvez a mesma do Verbo Inaugural, que carne e verbo foram semente de todas as formas do mal.

Quando estivermos distantes mesmo assim teremos lembranças, das núpcias que fizeram as belas alianças e alcançaram o dom da forma perfeita, que um Homem, mesmo derrotado, é saudade que nunca será desfeita.

Está vento, calor, derretimento, fogo, e muito lento o vapor. Está um sabre junto a esta encruzilhada que guia os passos proscritos e todas as naturezas mortas das mesas dos aflitos. O necrófilo emanado do seu estado vegetativo engoliu as coisas, está exangue.

É tempo de partir de forma conseguida, que a fome não se sente, e o quebrar das coisas enfeita os graus da consciência. A eternidade não pode mais com o ciclo que sucumbe e tenta virar a noção do espaço que ocupa, nós já não somos iguais, e onde não há igualdade são duros os sinais.

Acabo aqui. Vim para ficar e desobedeci. Também aqui, não quero estar.
Duro trabalho foi este do retorno ao lar.
E um Ámen se escutou na Galáxia muito para além dos sois e seus planetas habitados.
Tudo se transfigurou. E na senda, fomos mudados.

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