O génio de Clara Schumann

No dia 13 de Setembro assinalam-se 200 anos do nascimento, em Leipzig, de Clara Josephine Wieck, pianista e compositora romântica alemã, mulher do igualmente compositor e pianista Robert Schumann e considerada uma das mais distintas da era romântica.

Clara começou a aprender piano com o seu pai, Friedrich Wieck, aos 5 anos de idade, após o divórcio dos seus pais em 1824. A sua mãe, Marianne Tromlitz, era uma excelente cantora lírica, dando concertos semanalmente no Gewandhaus em Leipzig. Ficando à guarda do seu pai, este impôs-lhe uma disciplina severa e, a partir dos 11 anos, Clara iniciou uma carreira pianística brilhante, apresentando-se em vários palcos pela Europa. Destacou-se não só por isso, mas também pela execução de obras de compositores românticos da época, como Chopin, Beethoven e Carl Maria Von Weber, mas também por ser uma das poucas compositoras da época. No âmbito de um ciclo de recitais dados em Viena entre Dezembro de 1837 e Abril de 1838, recebeu a maior distinção musical austríaca: Königliche und Kaiserliche Kammervirtuosin.

Na adolescência iniciou um romance com Robert Schumann, que na época era aluno do seu pai e vivia em sua casa, relação que este proibiu. A consequência foi uma longa batalha judicial, que, após um ano de litígio, fez com que Robert conseguisse permissão para desposar Clara, após esta completar 21 anos, o que aconteceu no dia 12 de Setembro de 1840, véspera do 21º aniversário de Clara.

Após o casamento, Clara e Robert iniciaram uma longa colaboração, ele compondo e ela interpretando e divulgando as suas composições. O casal travou conhecimento com o célebre violinista húngaro Joseph Joachim em Novembro de 1844, quando este tinha apenas 14 anos, desenvolvendo com o músico uma amizade que durou mais de 40 anos, ao longo dos quais Clara deu mais de 200 recitais com Joachim na Alemanha e no Reino Unido, mais do que com qualquer outro artista, sendo o duo particularmente apreciado pela sua interpretação das sonatas para violino e piano de Beethoven. Clara continuou a compor, mas foi forçada a interromper a sua carreira diversas vezes, devido às suas oito gestações e, apesar de Schumann aparentemente encorajar a sua criação musical, abdicou muitas vezes da sua carreira como compositora para promover a do marido. A situação era agravada por várias diferenças entre o casal: Clara adorava digressões, e Robert odiava-as. Outro problema eram as constantes crises nervosas do marido, que fizeram Clara assumir as responsabilidades familiares sozinha. A pior crise aconteceu quando Schumann entrou em depressão crónica, tentando suicidar-se, o que obrigou a família a interná-lo num asilo, onde ficou dois anos, até à sua morte em 1856.

Após 14 anos de casamento, Clara ficou sozinha com os filhos, tendo que dar aulas e concertos para sustentar a família, mas ficou livre para compor e dar concertos, e a sua carreira finalmente desenvolveu-se. A sua amizade com o compositor e pianista Johannes Brahms, que conheceu através de Joachim, foi o seu principal sustentáculo nesse período, o que deu mesmo origem ao rumor de que os dois teriam um romance. Foram anos de colaboração mútua, já que os dois artistas eram defensores ferrenhos da estética romântica ligada a um padrão mais formal, e opositores de Wagner e Liszt. Realizaram várias digressões juntos e com outros músicos da época, na Alemanha, Reino Unido, e noutros países, tendo mesmo o dramaturgo e crítico musical George Bernard Shaw escrito que os seus concertos contribuíram grandemente para a divulgação e apuramento do gosto musical em Inglaterra, além de Clara ter sido também responsável pela alteração do formato e do repertório do recital de piano. Esta amizade durou até ao final da vida de Clara. Ao mesmo tempo, trabalhou intensamente na divulgação da obra do marido, e toda a vez que se apresentava, fazia-o vestida de preto, por ser viúva. Os últimos anos da sua longa carreira de 61 anos foram marcados por um brilhante desempenho como pedagoga e concertista.

Os Três Romances para Violino e Piano, Op. 22 de Clara Schumann, considerada uma das obras mais brilhantes da compositora, foram escritos em 1853, em Düsseldorf, e publicados pela primeira vez em 1855. Dedicados ao seu amigo e lendário violinista Joseph Joachim, foram apresentados em digressão pelos dois músicos mesmo perante o Rei Jorge V de Hanôver, que ficou maravilhado ao ouvi-los. Um crítico do Neue Berliner Musikzeitung elogiou-os, declarando: “Todas as três peças exibem um carácter individual concebido de maneira verdadeiramente sincera e escrito de forma delicada e perfumada”. Stephen Pettitt, do The Times, escreveu: “Exuberantes e comoventes, fazem-nos lamentar que a carreira de Clara como compositora se tenha tornado subordinada à do seu marido”.

Cada um dos três andamentos é uma demonstração da voz original da compositora: a languidez doce do Andante molto, com o seu sentimento de urgência subjacente, está em desacordo com o Allegretto, cujos arpejos enérgicos são plenos de carácter. A maturidade de Clara é alcançada na complexidade do andamento final, Leidenschaftlich schnell, com os seus estilos musicais contrastantes e charme lírico eloquente.

O primeiro romance começa com sugestões de pathos ciganos, antes de um breve tema central de arpejos enérgicos, que é então desenvolvido e embelezado, tornando o andamento incrivelmente arrebatador e o diálogo entre piano e violino extremamente eficaz. A secção final é semelhante à primeira, na qual Clara Schumann se refere, encantadoramente, ao tema principal da primeira sonata para violino do seu marido Robert Schumann. O segundo romance, mais melancólico e com muitos enfeites, é supostamente representativo de todos os três andamentos, começando com um aperitivo melancólico pelos seus saltos e arpejos enérgicos e extrovertidos, seguido por uma secção mais desenvolvida com o primeiro tema presente antes de se resolver com uma declaração encantadora em pizzicato. O último andamento, o mais longo dos três, embora muito parecido com o primeiro, apresenta melodias de membros longos com um acompanhamento de piano borbulhante e rápido. A longa melodia tocada no violino é muito simples mas combina muito bem com o muito agitado acompanhamento com motivos arpegiados e constantes partes em movimento. O final da obra é muito belo, quebrando-se o ritmo e resolvendo-se lenta e magnificamente com o registo mais grave do violino e alguns ricos acordes tónicos do piano.

Sugestão de audição da obra:
Clara Schumann:3 Romances for Violin and Piano, Op. 22
Angela Hewitt (piano), Yosuke Kawasaki (violin) – Analekta, 2019

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