Uma erótica da arte?

A três dias de dar uma palestra sobre o Belo e as suas categorias, e a desvalorização ou a pertinência destas como elementos-chave na educação, sobretudo no enquadramento duma cidade cariada e necessitada de sacudir a orfandade de parâmetros estéticos e de valores urbanísticos, como Maputo, permaneço, como de resto sempre, indeciso.

Por um lado, acho pobres (muito pobres) e confusos os argumentos de Arthur Danto contra a beleza, à qual prefere a semântica, e creio que com demasiada facilidade se resvala para os domínios do Kitsch ou do Camp quando se pretende denigrir a beleza.

Depois não deixam de me atrair estas duas ilusões:

Camus em “O homem rebelde”, sustentava que “a beleza não faz revoluções, mas chegará o dia em que as revoluções necessitarão da beleza”; para ele a beleza prepara o caminho da dignidade do homem e do mundo em que vive.

Também o insuspeito Wittgenstein assume uma conexão entre beleza e felicidade, referindo-a expressamente à arte: “Porque há algo certamente na concepção de que o fim da arte seja o belo. E o belo é o que nos faz felizes”.

Qualquer destas posições me parecem ingénuas mas argutas, ou antes: consoladoras (contra o grande cetáceo que é a morte, e não concebo a arte alheada desse nó), embora a posição que mais me agrade seja a de Susan Sontag, no seu célebre ensaio, Contra a Interpretação, onde é defendido que em lugar de uma hermenêutica necessitamos de voltar a uma “erótica da arte”, recuperando por uma vez o fio dos sentidos, esgarçados.

A arte serviria então para recuperar os sentidos, ver mais, ouvir mais, sentir mais, vendo como é o que é e não tanto o que significa.

O esteta e músico Sixto J. Castro, numa comunicação em que enumera as diferentes perspectivas face ao desiderato, avança com uma tímida sugestão que não me parece despicienda:

«A neurologia contribuiu para assentar neste particular: os juízos estéticos de beleza provocam a activação de uma rede neuronal que de comum subjaz aos julgamentos avaliativos, de modo que sempre se combina um Substrato Neural nos julgamentos sociais e morais.

E sendo a beleza uma âncora a que a arte se encostou ao longo de sua história, como um dos factores que lhe permitiram desempenhar o importante papel que protagonizou nas nossas sociedades, não será isso um motivo suficiente para resgatar a beleza na teoria da arte?»

Talvez não, talvez sim. Mas, enquanto aguardo por uma pontada de discernimento, contra a perda de “aura” do Walter Benjamin – com certeza, um dinamitador da unicidade que cunhava a beleza – elaborei este argumento: se uma obra de arte pertence ao passado, na medida em que foi executada num tempo histórico x, a sua “beleza” será avaliada no momento presente do juízo do seu observador; ora, embora a sua recepção artística seja dependente da ulterior definição e evolução da arte, há casos em que nem isso a abala: é o que se constata com Venere degli stracci, de Michelangelo Pistoletto, que podemos descrever como uma cópia de mármore de uma estátua de Vénus semi-oculta por uma montanha de trapos. A intenção da peça é política e, sendo ao mesmo tempo um libelo contra a sociedade de consumo/do lixo, coloca no devido lugar a irrelevância em que as categorias antigas da arte (como o Belo) estacionaram, sinalizando mesmo a própria figura da “perda de aura”. Mas não deixa de ser irónico que a peça para operar o seu inteiro sentido necessite do contraste de algo que afinal não viu diluída a sua irradiação como memória de coisa bela. Se em lugar de fazer uso de um ícone grego, se Pistoletto utilizasse por exemplo o R-2-D-2, o pequeno robot e um dos principais ícones da saga Star Wars, esse pequeno droide astro-mecânico não se distinguiria do resto do lixo; a Vénus, apesar de ser uma cópia, na razão relacional que compõe a obra, dá-lhe a distancia que torna visível a intencionalidade: é o seu verdadeiro elemento de força, o que lhe dá um carácter.

Suspeito que a “felicidade” desta obra ilustra o que Baudelaire defendia: uma obra-de-arte deve comportar uma metade de novo e outra de eternidade, ao que acrescento, essa dosagem deve revelar-se indivisível. Ao ver e sentir a beleza estamos vendo e sendo um com ela, i. é, imputamos beleza às obras em que identificamos uma correspondência entre o tema e a expressão, entre o conteúdo e a forma, àquelas formas que revelam as relações internas das coisas ou, como dizia Hsieh Ho, que “revelam o ritmo do espírito nos gestos das coisas vivas”. Neste sentido, esclarece-nos o ceilonês Coomaraswamy, a beleza será mais um estado de percepção que nos apanha de golpe (e para alguns seria preciso estar em auto-abandono) do que uma categoria filosófica com mais ou menos oportunidade e vigência.

Seja como for, lembraria o velho Kant: «ante a arte somos responsáveis» – a arte demanda que nos tornemos responsáveis e activos.

De ideia semelhante comungava Marcuse, de quem se cumpriram em Julho último os cem anos do nascimento, e para quem nós éramos responsáveis pelo volume de fantasia que entregamos ao mundo. A fantasia é «a tendência contrária ao princípio da realidade, sem por isso circunscrever-se no sub-consciente nem ser tão-pouco um resíduo do arcaico», posto que a fantasia, continua Marcuse, «surge da conexão de capas do subconsciente e das mais altas produções da consciência… abrindo entre o devaneio e a realidade as maiores perspectivas de liberdade». E quem opera para que tal aconteça? Não exactamente nós, mas o descondicionamento de Eros em nós. Eis-nos remetidos para a tal “erótica da arte” que se propunha a Sontag e que, evidentemente, está nos antípodas do espírito da pornografia que instalou (- livremos, entretanto, a Linda Lovelace de acusações soezes, impoluta ainda que esplendidamente desinocente).

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