Brasil brasileiro

Tem causado estupefacção e não pouca ansiedade a nomeação de Ernesto Araújo para Ministro das Relações Exteriores do Governo de Bolsonaro do Brasil.

Ao longo dos anos Araújo não se coibiu de expedir pensamento sobre a ordem mundial contemporânea. Se é flagrante a coerência das suas opiniões, pode-se também dizer delas que parecem diminutas, crassas, formulaicas e mais apropriadas ao enredo de uma space ópera ou de uma banda desenhada da Marvel. Tragam-se à colação duas citações exemplares:

“Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão.”

Estriba-se tão magno desiderato no seguinte bosquejo histórico da globalização:

“Ao instalar-se a globalização dos anos 90, os programadores do sistema (não sei se eles existem enquanto indivíduos, ou se o sistema se autoprograma) refletiram e disseram: ‘Bom, já acabamos com a Nação. Será que precisamos ainda do Estado?’ Ali, a globalização econômica, que ansiava pelo fim de quaisquer barreiras, inclusive estatais, à livre alocação mundial de recursos, convergiu com o velho objetivo marxista de empurrar o mundo para o último estágio da ‘evolução’ da humanidade, o comunismo, definido como a sociedade sem Estado. Imagine there’s no countries: essa canção assombrosa de John Lennon tanto pode ser pode ser o hino da hiperglobalização econômica quanto o hino do marxismo em seu ‘sonho’ comunista.”

Deixando embasbacada boa parte dos analistas, há um aspecto nestas apreciações que não tem sido muito realçado e que talvez explique tamanha perplexidade: a lógica de Araújo é congenitamente brasileira, no sentido em que tão extravagantes argumentos só poderiam ter origem na extrema singularidade da economia e da mentalidade brasileira.

É possível contar o Brasil entre os países mais anti-liberais do planeta.

Em nome da independência e da protecção à economia nacional os cartéis oligárquicos que a conduzem sempre souberam proteger-se das turbulências do capitalismo internacional. À circulação fluida de capitais ou à atracção e captura de investimento externo, contrapuseram um sem número de barreiras alfandegárias e legislativas para que não fosse desacatada a repartição dos recursos nacionais entre os incumbentes nativos. O livre comércio, promotor da competição e consequentemente de disputa e alargamento do mercado interno, foi diligentemente refreado para bloquear o acesso à praça de novos concorrentes além dos que já a controlavam, todos concordando em verberar a influência deletéria do consumismo.

Entre conglomerados impolutamente nacionais e um vasto aparelho de empresas nacionalizadas, assim se reparte a produção de riqueza no Brasil a bem de um punhado de famílias extremamente milionárias e corruptoras e de uma corte de políticos corruptos. Este dispositivo remete mais para uma ordem feudal do que para a modernidade e perpetua-se porque decorre e reproduz um sentimento que no Brasil parece ser hegemónico: uma espécie de ultra-nacionalismo que talvez só tenha paralelo numa Arábia Saudita.

Na verdade uma explicação possível para a virulência da batalha entre Bolsonaro e o PT passa por verificar que não contrapuseram visões diferentes ou mesmo antagónicas do mundo (Trump=isolacionismo vs. Clinton=cosmopolitismo; Macron=UE vs. Le Pen=chauvinismo) mas ambos disputaram a primazia pela aversão ao globalismo, cada um prometendo que o seu Brasil seria mais impermeável a influxos externos do que o do outro. Se Bolsonaro jurou que acabaria com as nacionalizações para entregar o que falta à oligarquia, o PT deseja nacionalizar os monopólios tal como estão. De modo que conforme as inclinações tanto se acusa com orgulho patriótico o neo-colonialismo económico, como se combatem as teias do imperialismo capitalista – les beaux esprits se rencontrent…

Neste estrume ideológico nascem fantasias estranhas como as de Araújo. Se as suas lucubrações se nos afiguram esdrúxulas e baralhadas, no contexto brasileiro não serão de todo excêntricas. Ele não é lunático, apenas idiossincrático.

E tanto assim que se dá o caso de estarmos perante um insólito, e de certo modo burlesco, curto-circuito político, que é ver um nacionalista ultramontano a roubar e agitar a bandeira, até aqui ciosamente brandida pela esquerda altermundialista, do combate à globalização. Trata-se apenas de uma transferência da culpa pelas suas supostas. Afinal estas já não são obra da cupidez e da crueza dos desalmados banqueiros da Goldman Sachs mas das conspirações de pérfidos agentes do marxismo-leninismo mundial – quem sabe se não andarão conluiados…

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