O poeta e o seu tempo

O poeta e a poesia não pode ser comparado apenas com as pessoas normais, as suas possibilidades, exigências, precisões, necessidades e precariedades. A poesia como expressão tem de ser comparada com uma expressão que depende de uma possibilidade existencial absolutamente antagónica. Uma tal possibilidade extrema da vida poderia desfazer todos os seus mal entendidos e anular a ambiguidade de que a vida humana está imbuída.

“há pessoas a viver numa atmosfera que está alagada por um espaço infinito e frio como o gelo.” (es Menschen gibt, die zu leben vermögen in einer Luft, die von der Eiseskälte des unendlichen Raumes beleckt wird).”

Ao mesmo tempo, e isso é um enigma,

“há espíritos a conseguir viver continuamente submetidos à pressão monstruosa da totalidade das existências reunidas. Tal como acontece com os poetas (es Geister gibt, die unter dem ungeheueren Druck des ganzen angesammelten Daseins zu leben vermögen – wie ja die Dichter tun.)

Se ser poeta é estar submetido a esta possibilidade ele não deixa de estar no meio da vida.

“A ciência tomada no seu sentido mais puro como exacta, mais do que rigorosa, a existência no horizonte frio como o gelo do rigor da exactidão científicos não reconduzem à vida. (“aus der Wissenschaft, in ihrem reinen, strengen Sinn genommen, führt kein Weg ins Leben zurück. ”)”

Nem nunca o poderiam fazer.

“Mas, então, se a palavra poeta, se a manifestação do poeta, têm ainda algum relevo na atmosfera do nosso tempo, não é de modo algum agradável. (“Wofern das Wort Dichter, die Erscheinung des Dichters in der Atmosphäre unserer Zeit irgendein Relief nimmt, so ist es kein angenehmes.”)

A que corresponde o ponto de vista do poeta nesta atmosfera do nosso tempo sem cotovelo? Hugo von Hofmannsthal diz que o poeta está onde aparentemente não aparece e de resto encontra-se sempre num sítio diferente de onde ele julga estar.

“O poeta habita estranhamente a morada do tempo, a morada do tempo encontra-se no vão de escadas da existência por onde toda a gente passa mas ninguém dá conta dele. (So ist der Dichter da, wo er nicht da zu sein scheint, und ist immer an einer anderen Stelle, als er vermeint wird. Seltsam wohnt er im Haus der Zeit, unter der Stiege, wo alle an ihm vorüber müssen und keiner ihn achtet.)”

Mas não são apenas as pessoas desconhecidas que passam por ele, por cima dele, ao subirem e descerem as escadas do edifício da vida, ao passarem por ele na rua, nas esplanadas, nas casas de espectáculo, na praia e no campo, nos sítios públicos, mas também nos recessos privados.

Os outros que passam por ele não são os desconhecidos, o mar de toda a gente que é toda a gente e ninguém.

Quem passa por ele são os seus, aqueles a quem está ligado por laços indissociáveis mas aparentemente metamorfoseados.

“Onde mora o poeta ele ouve e vê a sua mulher, os seus irmãos, os seus filhos: ele ouve e vê como eles sobem e descem, e ouve como falam dele como se falassem de alguém num paradeiro desconhecido, desaparecido, na verdade falam dele como se fosse um defunto e choram-no como se tivesse morrido. (“Dort haust er und hört und sieht seine Frau und seine Brüder und seine Kinder, wie sie die Treppe auf und nieder steigen, wie sie von ihm als einem Verschwundenen, wohl gar einem Toten sprechen und um ihn trauern.”)

“E contudo é assim que as coisas são e é assim por isso que ele não se dá a conhecer nem a reconhecer e vive como um desconhecido no vão das escadas da sua própria casa” (“Aber ihm ist auferlegt, sich nicht zu erkennen zu geben, und so wohnt er unerkannt unter der Stiege seines eigenen Hauses.”)”

É no vão das escadas do tempo por onde as vidas dos outros passam nas suas vidas. Cada ser humano com as suas próprias atmosferas. E acham que tudo e todos e o próprio existem a céu aberto, às claras, como se o mundo e a vida fossem sempre o mesmo para toda a gente. Apenas o inquilino do vão de escadas do tempo é o portador do abismo dos tempos e do abismo sem apoio nem fundamento nem sequer medida da existência. Só ele se apercebe que cada pessoa é um mundo com uma vida e uma verdade.

O poeta é um desaparecido que olha a partir do ponto de vista de nenhures, impermeável à vida dos outros que por ele passam como rios para o mar. O poeta é esse alguém que é referido como desaparecido, de quem ninguém sabe como é nem onde está. O horizonte da poesia está tão completamente metamorfoseado que é como se tivesse já percorrido toda a vida e a antecipasse do ponto de vista da chegada, do esgotamento do tempo, da asfixia do sentido.

Mas não se trata apenas do pensamento de ninguém que pensa o outro nas suas vidas impermeáveis a si e que reconhece nos outros alguém que dá conta da sua própria perspectiva. A abominação do seu desolamento é o reconhecimento da abominação do desolamento dos outros que não são outros apenas: da mulher, dos pais, dos irmãos, dos filhos, dos amigos, tal como de todos os outros, de cada um dos outros, nas suas atmosferas e no transcurso mudo ou silencioso das suas vidas.

Mas não apenas isto. E esta é a característica mais paradoxal do ser poeta: Também o poeta se assiste a si como um outro. É ele que passa sobre si, sobre o seu si que está no vão de escadas. É o poeta que se assiste a si a descer e a subir escadas, como um outro, não único, mas como todos os outros e ninguém. Sem apego a si, na incompreensão da tarefa de se amar a si próprio como pode amar outro. Os outros que são toda a gente e ninguém sobem as escadas e descem as escadas. Mas o próprio é outro para si, incompreensível, alheio, estranho, estrangeiro, alienado da sua própria existência no horizonte específico em que se metamorfoseia a poesia.

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