Victor Ângelo, ex-representante do Secretário-Geral da ONU: “Em 2049 a China será o maior poder económico do mundo”

Um mundo em reconfiguração em termos de poder das grandes potências e com instituições internacionais em crise foram temas de conversa com Victor Ângelo. O ex-representante do Secretário-Geral das Nações Unidas está em Macau para participar numa palestra hoje na Universidade de Macau sobre as relações entre a China e a Europa. Amanhã estará na Fundação Rui Cunha para falar de populismo

 

Com a ascensão do nacionalismo e isolacionismo, onde acha que as instituições internacionais, como a ONU e a União Europeia, falharam e qual o caminho para sobreviverem?

O falhanço é muitas vezes dos Estados-membros. Esquecemo-nos que estas organizações são conjuntos de Estados. Se houver um aumento muito marcante de ideias nacionalistas, ou extremistas nos estados é evidente que isso tem impacto na maneira como eles tratam as instituições internacionais e na maneira como aceitam, ou deixam de aceitar, as decisões tomadas nos círculos internacionais. Isto reflecte o que se está a passar nalguns Estados-membros mais importantes, nomeadamente o grande nacionalismo que surgiu com a chegada de Putin ao Governo no começo dos anos 2000. Depois com os movimentos nacionalistas na Europa e agora, evidentemente, com a presença de Donald Trump na Casa Branca, que foi uma espécie de ponto final num processo que tinha sido iniciado já há alguns anos atrás.

Objectivamente, quais foram as falhas dos Estados-membros que abriram brechas que permitiram esta infiltração?

A grande brecha que permitiu a ascensão do nacionalismo foi a crise económica de 2008 e o facto de que os países tiveram de encontrar soluções próprias. As instituições internacionais passaram a ser vistas como impondo soluções que aumentavam ainda mais a austeridade, portanto, soluções que não poderiam ser aceites. A partir daí, foi um pouco o salve-se quem puder, ou seja, cada um procurou encontrar a sua resposta às questões. Nomeadamente, respostas ao desemprego em massa, em particular o desemprego das pessoas mais jovens. Isso, evidentemente, cria um estado de espírito de “primeiros os nossos”, ou seja, vamos trabalhar para que a economia ofereça emprego aos nossos filhos, aos nossos habitantes. A partir daí, surge a ideia do nacionalismo e também a ideia de que se fronteiras nacionais não forem reinstituídas não estamos protegidos. Perdeu-se um bocado a noção de que as instituições internacionais, e em particular, por exemplo, a União Europeia, foram criadas para proteger as pessoas. As pessoas passaram a ter medo dessas instituições, em vez de sentirem que elas as protegiam e surge a ideia do nacionalismo, a velha ideia de que eu me protejo dos outros e cada um trata de si.

Como se resolve um problema destes? Como se restaura o sentido de unidade?

Acho que é fundamental voltar a falar de solidariedade. Nós esquecemo-nos que estamos num planeta que é cada vez mais pequeno, em que a comunicação é cada vez mais fácil e em que os problemas se transferem rapidamente de um país para outro. Aquilo que é hoje um problema no país A pode amanhã ser no país B ou no país C. Se estamos no país B ou C deveríamos ter todo o interesse em ajudar o país A a resolver os seus problemas porque esses podem tornar-se os futuros desafios que a chegar à nossa casa. O exemplo mais flagrante disso é a questão das migrações. A migração é, pura a simplesmente, a transferência dos grandes desafios de pobreza que existem em várias partes do mundo, nomeadamente em África, para as regiões mais desenvolvidas, em particular para a Europa. Nós não conseguimos, ao fim de várias décadas de ajuda ao desenvolvimento, resolver os problemas do desenvolvimento em África e esses problemas agora vêm à nossa procura.

Numa era de ressurgimento do populismo, os partidos mais tradicionais de centro perdem terreno, credibilidade, esvaziam-se de poder, inclusive com múltiplos escândalos de corrupção. Acha que é possível recuperar a credibilidade do centro?

É verdade que os partidos do centro direita e, sobretudo, do centro esquerda, perderam votantes e apoio eleitoral e perderam, em grande medida, credibilidade. Isso nota-se em várias partes da Europa, nomeadamente com os partidos socialistas e os partidos sociais-democratas. Mas não só, partidos do centro direita, como o partido que apoiava o ex-Presidente francês Sarkozy, é um partido que praticamente desapareceu da cena política e representa um máximo de 15 por cento da população francesa. Um partido que teve durante dezenas de anos uma força enorme no sistema de poder francês. Na própria Alemanha notamos uma erosão do poder do partido de Angela Merkel, não é apenas o Partido Social Democrata alemão que está em crise, é também, em certa medida, o partido cristão democrata de Merkel. Verificamos que quem tradicionalmente votava ao centro, esquerda ou direita, passa a votar nos extremos, sobretudos nos extremos mais nacionalistas, mais identitários, mais à direita. Precisamos voltar a ter ao nível do centro um outro tipo de liderança e uma outra maneira de comunicar com as pessoas, numa altura em que a comunicação é fundamental. A vantagem dos extremistas é que têm mensagens muito simples, fáceis de entender, reduzem todos os problemas a uma só linha, a uma só solução, é a história do muro de Donald Trump. Resolve-se o problema da imigração construindo um muro, resolve-se o problema do desemprego expulsando os imigrantes, resolve-se o problema da insegurança expulsando os islâmicos. Este tipo de discurso, extremamente simplista, passa junto de algumas camadas da população. Felizmente, ainda não passa junto da maioria. Mas a verdade é que partidos que tradicionalmente não tinham apoio eleitoral, partidos extremistas, nomeadamente de direita, têm hoje 20 ou mais por cento dos eleitores a votar neles.

Acha que o surgimento da terceira via e a colagem ideológica do centro direita e centro esquerda pode ter tido um papel? Como é que isto aconteceu?

Há aqui vários factores. Por um lado, o centro direita e o centro esquerda, a partir de determinada altura, passam a fazer discursos políticos praticamente idênticos. Ou seja, tanto fazia ouvir-se um lado como o outro. Na realidade, para o eleitor e cidadão comum, era a mesma conversa. Esse foi um factor. Perdeu-se a noção de que era preciso fazer a diferença entre uma solução de direita, mais conservadora, e uma solução de esquerda mais progressista. Por outro lado, perdeu-se também um bocado a noção de que é preciso haver uma renovação das classes políticas, ou seja, ambos os centros apresentavam sempre os mesmo tipo de líderes e pessoas. Muitas vezes, as mesma pessoas repetiam-se de eleição para eleição. O que se verifica actualmente é que tudo é muito dinâmico e as pessoas querem ver novas caras, novas lideranças e é por isso que vão para os extremos. O Podemos, em Espanha, aparece e ganha votos porque eram caras novas, novas na política e jovens. Não eram os velhos políticos que toda a vida fizeram política, não eram membros do establishment. Os eleitores começaram a votar em candidatos com outro tipo de discurso, mais perto do dia-a-dia das pessoas, dos problemas concretos como habitação, saúde, emprego. Longe dos grandes e tradicionais discursos teóricos. Há uma renovação de elites que é preciso também ter em linha de conta.

Depois do perigoso equilíbrio geoestratégico entre os blocos russo e norte-americano, um pouco por todo o lado deflagraram guerras por procuração, com grandes potências nos bastidores. Como pode a ONU intervir em conflitos destes, como a guerra no Iémen?

Há aí várias questões. Uma delas é que há, de facto, uma marginalização da ONU e das instituições internacionais. Embora a ONU tenha nomeado representantes especiais para acompanhar conflitos, a verdade é que estes representantes especiais são mantidos nas margens das grandes reuniões e discussões e não participam das decisões tomadas pelas grandes potências. Há que voltar a falar das Nações Unidas e frisar que as Nações Unidas não podem, de modo algum, ser marginalizadas neste tipo de conflito. A ONU não devia servir apenas para resolver conflitos onde os interesses estratégicos das grandes potências pesam pouco ou nada. Não pode ser. Tem de resolver todos os tipos de conflitos, incluindo o Iémen onde não só há uma rivalidade regional muito grande entre a Arábia Saudita e o Irão, mas também o facto do Iémen controlar uma das vias de comunicação fundamentais para o abastecimento da Europa em matérias-primas estratégicas, nomeadamente o petróleo. Esta questão de marginalização das Nações Unidas é fundamental. A questão destes conflitos em pontos estratégicos também precisa ser resolvida rapidamente e nós não podemos, de maneira alguma, apostar no país A contra o país B. Temos de tratar a Arábia Saudita e o Irão no mesmo pé e ambos têm culpas no cartório e têm de encontrar uma solução para trazer a paz ao Iémen.

Estamos a falar de uma profunda necessidade de reforma das instituições. Antevê que este panorama possa degenerar numa guerra mundial?

Penso que não, porque hoje em dia uma guerra mundial não tem os protagonistas que seriam necessários. Em termos de poder militar não há ainda nenhum poder militar que possa ser equiparado ao poder militar americano. Mesmo novas potências militares ficam muito aquém. Falar de uma guerra mundial, neste momento, seria despropositado e pouco realista. Não há da parte dos rivais dos Estados Unidos qualquer tipo de apetite em entrar num conflito aberto com os Estados Unidos. Não sei se isso não acontecerá dentro de 20 ou 30 anos. Mas nos próximos anos não vai acontecer. Mas estão em cima da mesa conflitos importantes. Um deles é o Iémen, outro que continua por resolver é o Afeganistão e a Síria. No norte de África temos a Líbia, que está num caos completo e sem resolução. E provavelmente iremos ter outros conflitos em volta dos países do Sahel em África. Vamos continuar a assistir a conflitos localizados, ao nível das regiões, mas provavelmente as coisas não irão além disso. Esses conflitos vão continuar a ter protagonistas ao nível das grandes potências. As Nações Unidas têm estado excluídas da parte central da resolução destes conflitos. Provavelmente, vamos assistir ao aparecimento de organizações regionais que vão desempenhar um papel que as Nações Unidas não têm podido desempenhar. Vamos ter uma União Africana mais forte e mais capaz. Na Ásia, vamos assistir ao desenvolvimento de estruturas regionais como o ASEAN. No Médio Oriente, a Liga Árabe. Provavelmente, iremos nesse sentido de criação de coligações de países, como na Síria onde temos uma coligação que seria impensável mas que está a tratar de arranjar uma solução (Rússia, Turquia e Irão). Coligações pontuais que poderão desempenhar o papel que deveria ser das Nações Unidas, em particular pelo Conselho de Segurança da ONU. Depois de 2011, e da crise da Líbia, o Conselho de Segurança está praticamente paralisado no que diz respeito à resolução dos grandes conflitos internacionais.

Como fica o equilíbrio geoestratégico com a entrada em cena da China?

Nós estamos a avançar rapidamente para uma redefinição do equilíbrio de poderes, não há qualquer tipo de dúvida em relação a isso. Esse equilíbrio de poderes vai continuar a ter os Estados Unidos. A China vai também ter um papel fundamental e muito provavelmente a Índia também vai ser um poder importante. A Rússia penso que terá alguma influência regional, mas será um poder relativamente limitado e mais interessado na periferia estratégica à volta da Rússia. A Europa poderia também ser um poder geoestratégico, não sei se o vai conseguir. Ou seja, vamos ter novos centros de equilíbrio, novos poderes e novas relações de força. A grande questão é saber se estes novos actores internacionais querem ter um papel mundial, ou regional. Se quiserem ter um papel mundial entram em conflito com os Estados Unidos. O meu grande receio é que um conflito ao início pacífico pode rapidamente transformar-se num conflito aberto. Esse é o meu grande receio nos próximos 20 ou 30 anos. No ano 2049, quando a China fizer 100 anos da revolução, será o maior poder económico do mundo, que gerará o maior PIB e será, certamente, um grande poder político e militar. Até que ponto, esse poder militar se vai limitar a sua esfera de intervenção na região asiática, mesmo no sentido amplo, mesmo se for só isso já está em rivalidade com os Estados Unidos. Mas for mais além, irá certamente haver uma rivalidade aberta, aliás, que é cada vez mais evidente. Na cimeira da cooperação económica entre a Ásia e Pacífico, que teve lugar este fim-de-semana, foi bem clara a tensão existente entre os Estados Unidos e a China. Tensão aberta, de crítica aberta sobretudo dos americanos em relação aos chineses, de tal maneira que pela primeira vez na história destas cimeiras dos países da Ásia e do Pacífico não se conseguiu aprovar um comunicado conjunto. Isso é um sinal muito evidente de que as divergências e o fosso são cada vez maiores. A vantagem dos Estados Unidos continua a ser, para já, que grande parte da população asiática prefere ter o guarda-chuva americano do que o chinês. Essa é a grande vantagem dos Estados Unidos. Um país como a China, apesar de próximo cultural e geograficamente, é ainda assim um país que pela sua dimensão amedronta os países vizinhos mais pequenos.

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