Cerejas

Refiro-me à «Antologia de Autores Portugueses Contemporâneos», uma bela obra com prefácio de Eduardo Lourenço e posfácio de António Ramos Rosa da «Editora Tágide» Junho de 2004, abrindo assim o fruto do tempo onde cada poema é acompanhado com um desenho. Percorre-se assim o medieval “ciclo da flor” dos frutos, fazendo lembrar sempre Eugénio de Andrade: poetas-comensais exercitando o banquete mais bonito, cantando o fruto, tecendo o suco, vestidos de púrpura, polpa dura, verso tenso, inebriante, intenso. É um passar de folhas delicioso! Esta Antologia é dirigida por Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes com capa de José de Guimarães, o mérito, esse, encontra-se defendido da praga das multidões.
Vazamos cestas delas em cada alvorada de poema, e, é tanta a metáfora, o conceito, a curva, a cor… depois, o conjunto fica inexplicavelmente e sem dúvida sempre mais bonito. A temática faz crescer o fruto, ampliamos a sua fórmula e de tanto o descrever vem-nos um perfume quase cheiramos a página. É todo um universo que deixa melhor o outro vasto mundo, mesmo que não seja por ele visto, pois que há muitas coisas deixam melhoradas outras sem contudo se anunciarem. Foi o Fundão que apoiou esta edição, tão funda é esta Beira; certeza de saber que um chão que dá tais maravilhas é sem dúvida um solo abençoado. Quando entregámos a terra aos algozes ela deixou de produzir maravilhas, e, nunca me esquecerei que no litoral havia umas cerejeiras tristes que davam cerejas solitárias, a mesma faixa de chão que foi assassina do seu “verde pino” e não pode agora ser solo de boas coisas.
É bom voltar à Beira no mês de Junho, a essa terra da Amália que dizia orgulhosa – nasci no tempo das Cerejas.- Lembrar um velho gato que as adorava, retirando com as patas dezenas delas numa esfuziante manobra de cor e movimento, vê-las nos rostos das raparigas, rodar a sua circular forma na boca até produzir o líquido rosa das delícias. É bom saber deste momento. As Cerejas são autênticas declarações de amor. Portugal é o país com as melhores cerejas do mundo, e não há nos seus campos a maldição dos incêndios, todo o reduto de um paraíso tem os seus dragões à porta… aquela gente tem outros carreiros pois que fizeram um estranho pacto com o solo, e a pedra é dura, e a vida não menos dura, e nestes locais encontram-se as maravilhas.
Creio ter sido uma Antologia temática bastante simples de elaborar, pois sem que reparemos, todos já tínhamos escrito sobre elas, e foi só ir àquela «Árvore da Vida» que é a dos versos, buscá-las para outro canteiro. Que ele há muito de metafórico no tema, e mais se lembra parábola do fruto da figueira, seja como for, o que aqui se deu foi demasiado bonito para esquecer. «Le temps des cerises» Comuna de Paris e seu advento socialista, transformámos a rosa em cereja e em todas as Primaveras ela se renova na memória de uma história comum “quand nous chanterons le temps des cerises et gai roussignot et merle moqueur seront tous en fête/mais il est bien court le temps des cerises/ c´est de ce temp lá que je garde au couer une plaie ouverture”. Destas saudades mantemos o desejo de um mundo renovado, pois que se saiba também não há revoluções fora do tempo primevo, e mesmo que os solos se tinjam de negro e calcinem as fontes e tudo fique sem nascentes, haverá cerejas e guardiões às portas dos seus campos como se fossem os últimos jardins. Cada uma é uma oferenda para pássaros e homens, para orelhas e grinaldas, para leitos enamorados, para esponsais em festa. Há quem faça curas de cerejas pois que se diz que limpa o sangue e o torna mais forte, temos no sangue a seiva da cereja. Tal como as manchas de sangue, a da cereja, são difíceis de sair, ninguém comete crimes sem a denúncia do seu rasto e ninguém as saboreia sem que o saibamos. Ficam timbradas em nós.
A metamorfose da flor é um encantamento tão grande que todos os versos são apenas flor pois se cada poema se comesse, uma deriva de súbita transformação nos mudaria o plano. Há quem tivesse na poesia portuguesa sugerido isso, e biblicamente há também a sugestão imposta pelo anjo «come o livro!» mas ficamos aquém do poema da vida. Talvez nos crescesse a Árvore nas veias e fôssemos grandes e arbóreos como nas histórias antigas onde havia comedores de pedras. Tinha escrito este simples poema quase juvenil e não hesitei em colocá-lo aqui que me parece algures desses míticos tempos :” quando andavas nos umbrais do tempo/ sabias a sal e a luar/ agora nem as cerejeiras consegues fazer florir com o sol do teu olhar.” Depois, alguém em outra página escreveu-me cereja ” Totalmente herética absolutamente hermética és a corrente eléctrica que subverte a métrica” e assim uma imensa alegria transforma os dias e a nossa natureza, unidos numa Cereja. Única. Absolutamente luzidia.
Os Samurais de Henriques Manuel Bento Fialho: os samurais subiam às cerejeiras/ penduravam-se nos ramos até darem flor/ esmagavam as cerejas como quem quebra nozes/ no dorso da mão/ e besuntavam o corpo com o suco da polpa/ para ficarem mais perto do sangue.
E quem te pôs na orelha essas cerejas, pastor? (José Gomes Ferreira)
Agora é quase Verão, e para todos, as nossas Cerejas

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