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Carregávamos o carro de noite. A mãe arrumava o quotidiano da casa num carro pequeno: roupa, tachos, farmácia, livros. Descíamos vezes sem conta as escadas. O carro ficava cheio de véspera. Nem conseguíamos dormir. A carga da nossa vida estava lá toda. E acordava-se cedo. Um café era engolido. Os últimos sacos, levados para baixo. Partíamos às 7h00 da manhã. Aparecia a Avenida da Índia em direcção a Alcântara. Atravessava-se a Ponte Sobre o Tejo.

As pernas eram esticadas ainda em Palmela. Depois, era rumo a sul. A viagem não era apenas a deslocação a sul. Não era para ir e vir. Não se ia tratar de um assunto rápido, para seguir com a vida. Era uma viagem. De Kilómetro a Kilómetro, tudo muda. A paisagem deixa a cidade atrás de si, sem ser vista. Mergulha-se numa dimensão rural, interior. O olhar está no Mira ou no Atlântico, mas não se avistam, verdadeiramente. Parávamos para almoçar. Na altura, ainda havia a avó com pastéis de bacalhau e arroz e vinho. Partíamos às 7h00 mas íamos a 60 km hora, a velocidade do pai. Passávamos Alcácer do Sal já à hora do almoço. Víamos viandantes que comiam connosco ou bebiam um copo de vinho. Recolhia-se a parafernália do farnel. Lá íamos nós.

Aproxima-se Cercal do Alentejo, já com outros odores e cores. A cidade de pé tinha ficado para trás há algumas horas. Era como um sonho inteiro de ano lectivo. Lá tinha ficado o Natal, a Páscoa, o fim do ano lectivo. Agora, era outra coisa. Demorei muito tempo a perceber o que era. Conduz-se. A mãe acende o cigarro ao pai, não sem o molhar. O pai refila. Mas mete o cigarro à boca que aspira. Vou no lugar da frente. Olho pela janela e vejo só o céu. Embora lá em cima, é como se fosse uma astronauta. O carro pouco veloz, leva-me nas horas. “Hás-de lembrar-te deste tempo”, dizia o Beta. Chegamos ao Cercal do Alentejo. Pára-se para um café. Falta pouco tempo. Mas não será de seguida. Paramos ainda para beber água da fonte.

O pai bebia com a mão a fazer concha. Bebia como tinha bebido na sua infância pobre de dinheiro mas rica de tudo o que a Terra dá. Enchem-se garrafões. Metem-se no carro. Aconchegamo-nos no carro mas só para o último troço. Sente-se o horizonte. Pressente-se a orla marítima. A infância tinha ficado umas temporadas antes, mas ainda fazia-se sentir. A juventude estava já quase aí. Terá sido assim? Chegamos a Milfontes. A terra dizia-se das três mentiras. Na altura: Vila Nova de Milfontes. Não era vila. Não era nova. Não tinha Milfontes. Anos mais tarde, descobri que seria Melis Fons ou Fontes: a fonte ou as fontes do mel. Os piratas subiam o mira para roubar o mel aos apicultores. A chegada não era agradável. Descobria-se uma casa vaga. Faziam-se as camas. A roupa ia para os armários. Os tachos iam para a cozinha. A farmácia para a casa de banho. Havia o primeiro reconhecimento. Íamos a pé até ao café da Dona Maria ou do Artur.

Chegávamos ao fim da Barbacã, com a fortaleza do lado direito. Lá estava ele: o Mira a olhar para o Atlântico, como o meu Tejo. Esta, contudo, não era a chegada absoluta. Havia a noite. Íamos encontrar aos poucos como peças de um puzzle complexo os amigos do verão passado. Entretanto, tinham ficado amigos em Lisboa. Outros tinham a sua inauguração àquela terra mágica de pais e avós, tios, primos, irmãos e amigos. A noite era invariavelmente um reconhecimento. O que se tinha passado entretanto? Quem tinha 16 anos tinha agora 17. Como estávamos. Antecipávamos Setembro no fim e ainda era Julho ao princípio. Descemos lentamente ao Malhão. Só a partir de uma dada altura, percebemos o Atlântico. Arruma-se o carro. Desce-se desfiladeiro abaixo. Despimo-nos até aos calões. Corremos até à beira-mar. E o mergulho é o baptismo de renovação que sufoca.

Oxalá houvesse sempre esse mergulho.

2 COMENTÁRIOS

  1. Mudança de estilo! Viva o verão mesmo com mudanças climaticas! Agora não havia um único saco que dissesse north face… é um placement pago de publicidade? Ou uma sugestão de repetição actual do ritual…Fizeste me lembrar: lá íamos – eram muitos menos Km. Só 15. Mudávamos de casa por 1 mês. Podíamos ficar na rua até à meia noite, uma da manha. Íamos descalços da praia para casa . Fazíamos picnics de farnel no Camarido, com alguidares de arroz de cabrito embrulhados em jornais, vindos da quintinha da avo na raia, que para lá chegar eram 100 curvas nos ultimos 18 km..Explorávamos tudo: os rochedos eram barcos ou aviões e as caramujas e cou de poins eram mato e faziam passar uma manha em cima das rochas, a deambular, num ápice! Os banhos continham o respeito pelo mar, embora nos aventurássemos sempre “sem pé” a passar a rebentação para ficarmos em paz. Isto quando não estava indomável nas marés vivas! Nos dias de nevoeiro tomavam-se banhos com a agua mais quente por causa do “capacete”. E nos de calor, aquela miragem quando ficávamos na praia sem ninguém, por ao contrario da maioria, o almoço ser tardio, na família. A detestável pretensa sesta. Depois, na adolescência: passeios de bicicleta e saltar as janelas, para dentro das casas dos amigos de noite, à sucapa: gravadores de cassetes a tocar Leonard ou Young.. o contacto com os francius da mesma idade e o twister, os primeiros copos e cigarros e as leituras mais sérias do que antes os cinco e os sete. As conversas sobre filosofia e as intimidades que perduram em algumas, ainda hoje,
    amizades. Meu Deus – fizeste me lembrar o meu código genético e a minha construção! Muito mar! Mas este ano anseio mesmo, pela primeira vez, por uma água morna, por uns dias ao menos, a deixar me lá estar, sem sequer ter que me aventurar para alem da rebentação…

  2. Mudança de estilo! Fizeste me lembrar meu Deus! Metíamos no carro as trouxas. Por muitos menos Km. Só 15. Mudávamos de casa por um mês, para a da avó viúva, que só lá passava o verão connosco. Íamos descalços de casa para a praia. Ficávamos cá fora no paredão até à meia noite, uma da manha com os amigos a fazer tonterias. Os rochedos era barcos ou aviões e as caramujas e os cous de poins faziam passar uma manha nas rochas , adeambular, num ápice! Os banhos continham o respeito pelo mar, onde mesmo assim nos aventurávamos ao apito do banheiro para passar a rebentação e ficarmos em paz por 20 minutos, no máximo, depois de passadas as grandes ondas. Nos dias de nevoeiro a água era mais calma e quente por causa do “capacete”. E nos de calor, aquela miragem na praia, vazia à hora do almoço, que na família era mais tardio do que para a dos outros. A pretensa sesta detestável. Os picnics no pinhal do Camarido com alguidar de arroz de cabrito embrulhado em jornais e cobertor da serra e garrafão, vindos da quintinha da outra avo, na raia, por uma estrada cujos últimos 18 km tinham 100 curvas, até chegar ao meu outro lugar de constituição. Os passeios ao rio de bicicleta, saltar as janelas das casas dos amigos à noite, à sucapa, onde um gravador de cassetes tocava Leonard ou Young misturados com o barulho das ondas nas marés vivas, que não nos atrevíamos a desafiar…os primeiros copos e cigarros e o contacto com os francius e o twister. As primeiras leituras “sérias” depois dos Cinco e dos Sete, da colecção Vampiro inteira e da Colete. As discussões filosóficas e as intimidades que ainda perduram, num caso ou outro de amizades restantes. Meu Deus fizeste me lembrar o meu código genético e ter tanto mar! Mas este ano anseio por, pelo menos uns dias de água mais quente, onde possa entrar sem sequer me aventurar a passar a rebentação…noutro destino. Este tornou-se doloroso, embora ainda muito amado…

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