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Parque das Nações, Lisboa, 9 Junho

Nem sempre os dias coincidem com as datas. Desmentindo Junho, o dia amanheceu cinza e chuvoso. Nem por isso impediu que se cumprisse a anunciada abertura de exposição que acaba sendo sobre um fecho. Raramente me encontro nas horas, aliás, assim sendo, faça-se fotografia: daquelas onde estamos sem fazer nada, apenas sendo. «Você (Não) Está Aqui» aproveita as fotografias do Bruno [Portela] para mostrar restos de não-lugar algures na encruzilhada entre o industrial lento, o rural perene, e o nada, simplesmente. Em sete sítios, estrategicamente colocados ao longo do que acabou sendo, há vinte anos, a zona de intervenção da Expo ‘98, os velhos slides iluminam-se para abrir cortes no tempo. O fotógrafo capturou o espírito, sobretudo com expediente de alto poder simbólico: ao compor as imagens usa amiúde dois planos, um próximo, e outro mais afastado, desfocando até um ou outro. O tempo capta-se melhor assim, suscita contraste entre o aqui e o longe, o parado e o movimento, coloca-nos em perspectiva. Pede-nos para avançar, para ganhar horizonte. Em qualquer direcção. A zona oriental de Lisboa, com e sem intervenção, ser-me-á continuadamente íntima.

Até Setembro ainda terei tempo de lá voltar para afiançar do impacto em advérbio das imagens, mas desta não consegui aproximar-me do Trancão que tanto atravessei, atravesso. Força maior colocava-me no hospital de S. José a cruzar, de autocolante no peito, a azáfama de desgraças confirmadas em voz alta, impudores expostos, macas desprezadas aguardando corpos de ocasião, despedidas chorosas, pensos de branco a brilhar nas partes dos corpos indefesos, gritos tesos e mudos, risos e ternuras, actos clínicos de passagem e olhos fechados a mentir descanso, mãos tocando-se como piano. Até chegar ao meu velho pai irritado por não lhe deixarem fazer a barba e, pior, lhe terem tirado o relógio com que governa o seu dia. No hospital estamos sempre sós, por mais companhia que tenhamos. E temos as horas todas e em peso.

Não se erguem os dias sem a argamassa da coincidência. Acabo de conhecer, pelas boas razões do encontro, o gentil Jean-François Revah, autor de curioso estudo dedicado aos condutores dos transportes colectivos, ainda para mais estabelecendo nexos com o meu estimado «Discurso Sobre a Servidão Voluntária», de Etienne de La Boétie: «Le discours de la solitude volontaire – lien social et conflictualité dans les metiers de conduite du transport collectif». Inúmeras são as questões abordadas a partir da identidade e da aprendizagem, da importância da profissão na construção de um sujeito activo, na relação deste com os que rodeiam, profissionais ou não do mesmo ofício, com o autor a tentar perceber o essencial das angústias de quem transporta a responsabilidade de transportar outros. Fiquei-me pelo belo início da viagem, que continua depois para lugares mais específicos e úteis. «Independentemente da situação objetiva de ser privado de companhia, o sentimento de solidão interior desperta ansiedades arcaicas relacionadas com a mais completa de todas as experiências vividas: ser entendido. A nostalgia de ser entendido deriva, então, do sentimento depressivo de ter sofrido a perda irreparável de uma situação outrora gratificante na qual a comunicação e a segurança eram obtidas sem o uso da palavra.» Escusado será escrever que o meu pai foi, entre outras identidades, condutor. De eléctricos que desciam as colinas em velocidades líquidas. De autocarros de dois pisos que ainda percorrem as minhas zonas orientais.

Liga dos Combatentes, Lisboa, 9 Junho

Lisboa possui ainda destas rarezas: na exacta curva da rua, a porta abre para encenação de memórias, uma travagem brusca na fluidez do tempo, na sala os ecos dos combates, a janela atira vistas para O Século, desaguando o conjunto, como de costume, no rio pessoano. Antes, enquanto fumávamos a espera com o mano mestre do tempo, el António [de Castro Caeiro], pássaros indistintos atiravam-se suicidas contra o muro da colina abaixo do Conservatório penetrando o concreto cinzento de Juan Gris. Estamos como se vivêssemos em uma das colagens do Felipe Benítez Reys, pedaços contra o cenário de autor, e vemo-nos, de súbito, no lugar exacto para ouvir as suas incursões pessoanas recolhidas à chuva em «Privilégio de Penumbra», que o Vasco [Gato] soube tornar transparentes. «Estou cansado de sentir./ De sentir até esses sentimentos/ que deixei há algum tempo de sentir/ e que regressam do passado como um eco/ para que eu os sinta sem os sentir.» Como uma nuvem cubista de Almada navegando a fingir pensamentos, nestes dias, não larguei a singela plaquete, que, apesar de um ou outro sublinhado de imperfeição (as colagens deveriam ter sido noutro papel, uma deles escureceu como tarde de Inverno, a gralha grasnou), me agrada sobremaneira. Ou não fora Lisboa um dos mares que navega. Um dos poemas pertence ao mais recente, «Ya la sombra», que o Felipe generosamente acaba de me oferecer (batota com sentido) fazendo-o matéria dos dias adiante (mais batota que o tempo desmentirá) e prendendo-me mais ainda nas volutas melancólicas da sua espiral, da sua minuciosa investigação em feiras da ladra da memória perseguindo as rodas dentadas do mecanismos do tempo. E portanto da morte, esse sombra a fingir-se lugar. «Que trace la noche el mapa/ del sitio em el que no estoy./ Que vengo de donde no estuve./ Que soy tan sólo el huido./ Y yo no tengo un lugar.» O meu lugar são versos. Será a noite verso teu, Felipe?

Galeria do 11, Setúbal, 9 Junho

Não consigo correr a tempo de outra exposição da Festa, cujo título se me fez programa: «A vida é engraçada, mas eu levo-a muito a sério», dedicada a Tóssan. Nos últimos meses, fui testemunha do maravilhamento crescente do Jorge [Silva], ignorando até o princípio da realidade que nos escraviza, com a investigação em torno desta figura sui generis. António Fernando dos Santos (1918-1991) continua a fazer sorrir, percebemos nós. Quem com ele contactou continua a celebrar uma disposição e abertura à vida que se revela plenamente nas suas línguas: escrita, desenho, design. Sei que perderei festa emocionante, na qual se celebrará, sobretudo, a amizade e a alegria de viver. E a memória. Apesar das sombras. Tenho na mão o livro-nuvem que prolongará o essencial. Com formato generoso de álbum, evitámos a capa dura e experimentámos, até na gramagem do papel, algo mais ligeiro, sem a transparência perturbasse a fruição. Resultou mais lúdico, afastando-o da praga dos coffe table books. Em modelo que andamos a apurar há algum tempo, oferece-se mormente imagens, com pequenos textos de enquadramento, muito saborosos, como o Jorge diz não saber fazer mas desmente a cada passo, e que se revelem transparentes na simpatia pelo seu tema. Recolhem-se nestas páginas algumas delícias, muita informação e um sem número de inéditos. Podia ater-me ao desenho de miúdos, perdoe-se a pedofilia, a série Cão Pêndio, certa capa expressionista, a coluna Lógica Zoológica, que misturava texto e desenho, magníficos ambos, e de que me recordo de o bisnau, ou as aventuras do detective Pararraios. Fico-me, às tantas, por ilustração de 1959, algures na página, que levava por título «Solidão ai dão, ai dão». E um dos poemas (inéditos), que o Jorge escondeu (com ponto de fora) nas badanas: «O escritor/escreve um livro/ de tantas páginas./ A páginas tantas,/ essas páginas/ são editadas pelo editor./ Mas do livro,/ não se vende uma página!/ A páginas tantas/ morre o Escritor./ Esgota-se o livro./ E com a indigestão/ de tantas páginas,/ a páginas tantas/ morre o Leitor./ E o Editor/ Como já não tem páginas/ morre às tantas.»

10 Junho

Termina a Feira do Livro de Lisboa em enorme bocejo, que só me consome caracteres. Panorâmica de done sobre filas e filas: para o autógrafo dos da televisão, para o bolo de caco e o sumo biológico, para as selfies com o Presidente da República. Nem vou ali, nem venho já.

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