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Facebook, 1 Abril

Ainda não fiz as contas do que devo à televisão. Não conto pagá-las, apenas dar de beber à curiosidade. Na lista teria de incluir Steven Bocho (1943-2018), muito por causa dos policiais onde os polícias eram humanos, nada óbvio em tempos de juvenil exaltação. Hill Street Blues tinha qualquer coisa de reportagem entretecida nos fios da narrativa. Vieram depois outras séries, talvez mais apuradas e sempre tendo em fundo o melancólico azul, como NYPD Blue, mas as primeiras vezes não perdem aquele sabor a infância. Os detectives que Dennis Franz interpretou em ambas conversam amiúde comigo. Saravah, Steven da minha criação.

Facebook, 13 Abril

Muitas imagens despontam no acanhado quintal da memória. E queria partir agora mesmo em direcção a Goya, companheiro maior na peregrinação das sombras. Gosto de imaginar o circunflexo invertido pássaro a pousar no nome de Miloš Forman (1932-2018), bombeiro dançarino para quem a loucura normal pode ser um nó na garganta dos dias. Chorei Voando Sobre Um Ninho de Cucos, gigante cartaz anunciando a liberdade, o poder do afecto e da ternura, os actores que se tornam árvores do humano, desde que deviamente regadas. Saravah, Miloš da criação.

Horta Seca, Lisboa, 9 Abril

Como voltar a dizer o mesmo vezes sem conta? Por milhentas circunstâncias, migalhas e missangas, escolhos e encolhos, fui praticando o desporto de preguiçosas perícias, a procrastinação, e vi-me com a bomba nas mãos. Pior: a minha costela maternal afeiçoou-se e dou por mim a gostar do atraso, a beijá-lo com mil ainda que urgentes cuidados. Algo se perderá nesta terra húmida, potenciando o nascimento da flor do erro, mas na minha horta amanha-se assim o sol, sendo agora tarde para mudar de manhã. Andei doido a terminar projecto de anos. Bartoon, a coluna deitada do mano Luís [Afonso] ergue-se há 25 anos no Público e queríamos celebrar a data soprando alma. Pedimos a outras tantas figuras, amigas, cultas, ridentes, que nos escolhessem exemplos do bom humor, da lógica extrema, da aguda crítica, da amarga tirada para depois a colou em andamento de páginas regido pelo Jorge [Silva]. Cruzei caminhos com o Luís há tantos caminhos e sóis que não sei se somos índios da mesma tribo ou cobóis em duelo de fim de contas.

Confirmo apenas, como escrevi a primeira vez que o expusemos aqui em tratos de abertura da galeria e a contar já com este livro, que «o seu pequeno mundo mantém um capital explosivo que nem sempre é fácil de explicar. A simplicidade é, talvez, o principal dos componentes. Não procurou o autor o esplendor gráfico, apenas uma cadência minimal repetitiva que serve de baixo contínuo para as inúmeras e pirotécnicas variações da palavra escrita. Nada nos perturba nos minutos, se tanto, que demora o despertar da gargalhada. Com extremo cuidado ético, quase sempre levando ao máximo as consequências do que é dito na esfera mediática, acentuando de modo único o absurdo dito sobretudo pela política, afinal o satélite mais querido da tal esfera. Mas aquela simplicidade deixa esconder um jogo, de linguagem claro, mas que usa um sem número de personagens, orquestrada pelo barman, que estimula, provoca e comenta (também com corpo mínimo).

Desenho e língua, tudo neste palco de papel se ajusta em mecanismo de relojoeiro para nos atirar do material mais explosivo que a criação possui: uma ideia.» Nisto, aconteceu turbilhão de noites sem dormir e viçosas ânsias que durou até ao último e adiado ao máximo instante, para desespero de quem sofre os polés da produção. Não estão a bem ver. Por razões que nem sei explicar, ainda que a culpa me pertença, laborámos até à última hora em formato que não era o combinado, desesperei por respostas por chegar, desencontrei-me das que tinha há anos, ia-me esquecendo de recolher os frutos de outras sementeiras. No rol dos milagres, acrescentei mais um.

Por saboroso acaso, no meio disto e por com ele ter enchido as madrugadas, entrei na carne do novo álbum do Sérgio [Godinho], Nação Valente. Embirro com o título, por desgosto com a noção de nação e desprezo pelas valentias de capoeira, mas desponta ironia que me escapava. De igual modo, não me soava bem o nome da brutal canção de abertura, Grão da mesma mó, descobrindo-lhe ruralismo serôdio de quem vive na cidade moendo fascínios pelo campo. Ouvi melhor o que começa apenas dizendo e depois corre a cantar antes de regressar ao dizer caminhando. Canta alto o tempo, este que mói, fala de porções da vida, dos dias em que nada acontece, fazeres e afazeres. Desfazeres. «Vê lá o que fazes, há/ tanto a fazer/ Fazes que fazes/Ou pões sementes a crescer?», diz o coro grego antes do remate: «E as palavras tornam-se esparsas/ Assumes/ fazes que disfarças/ Escolhes paixões, ciúmes/ Tragédias e farsas/ E faças o que faças/ Por vales e cumes/ Encontras-te a sós, só/ Grão a grão acompanhado e só/ Grão da mesma mó/ Grão da mesma mó». E se o grão não for de trigo, cevada ou centeio, mas fragmento de pedra, minuto de granito ou segundo de quartzo? O barman tem semeado restos de cotão, talvez mais, nos bolsos dos que caminham. Por querer mais que a vida. Todos os dias.

Cruzes, Caldas da Rainha, 13 Abril

O plano muda e estamos no meio de um arremedo de serra, certamente a recuperar de fogos antigos, a digerir aquelas mesmas palavras do Sérgio. Estamos – a [Maria do] Céu [Santos] e o Carlos [Querido] mais o António [de Castro Caeiro] – e a digerir ainda faustoso almoço, um festival de carnes como só a Tabena do Manelvina por ali é capaz de fornecer. Acontecia a Abysmo a (des)organizar o seu exorcismo de Inverno, na boa definição do mano [José] Anjos. Explico-me. Na sequência do convívio com o Jacinto [Gameiro] e a Cecília, do Casal da Eira Branca, projecto que converte turismo rural em arte de bem acolher, resolvemos alargar os vários encontros que o modesto Oeste nos tem proporcionado aos mais díspares lugares, museus e colectividades, capelas e antigas prisões, gráficas e bibliotecas, escolas e lojas.

Começámos por convocar alguns dos autores da casa, mais ou menos conhecidos, da ficção como do ensaio, da poesia como da ilustração e da fotografia, mas em busca de interacção com a cultura e os seus actores locais, propondo-nos ainda ir ao encontro de faixas da população alheadas, de costume, destas iniciativas.

Abysmo nos arredores de Imaginário, que assim se chamou para homenagear fantástico nome de terra, gastou três dias com feira do livro (com alguns pouco vistos), debates, sessões de poesia dita e musicada, concertos, lançamentos exclusivos (alguns de autores da região), performances e o mais que a imaginação alcançou. (A ilustração desta página saltou do cartaz e assina-se Mantraste, também ele autóctone, e que diz de raízes nas plumas, pés nas plumas e fragmentos que se articulam para apontar e dizer).

Resultado: a) o António [Caeiro] mudou vocações em sessão a partir do verso de Píndaro que diz sermos sonho de uma sombra em auditório cheio com centenas de jovens interessados e interessantes; b) não existe a viagem mas sem número de mameiras de a fazer em busca do nosso lugar, pessoal e intransmissível; c) atirar o barro à parede de museu de modo a capturar moscas de cerâmica e falhar resulta em aforismo: há cerâmica viva; d) ele há artistas capaz de explicar sorrindo as paisagens fazendo do castelo o espelho do poço; e) há quem faça centenas de quilómetros por amizade para dizer que as cores podem ser escritas; f) a máquina de fumos cria excelentes ambientes de cultivo mais ainda se a banda vocifera metal rural; g) a chuva intensa não perturba ou molha os maduros que na alta madrugada discutem a morte; h) o palco de uma biblioteca pode vorazmente acolher quem suba degraus para dizer; i) os encontros multiplicam-se em luxúria de sedas e cores e fazendas e generosidades se nos dermos a isso. O resto foram livros.

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