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Horta Seca, Lisboa, 25 Julho

 

Não se ofendam já. O editor funciona como filtro. E os pequenos moldam-se a coadores mínimos, de natas esfriadas no bom leite. (E mais não puxo pelo elástico da metáfora.) De súbito, supostas amizades desfazem-se com estrondo pela razão de que a obra, certamente prima, não foi lida nos prazos impostos pela ansiedade do autor. Não era amizade, apenas pó. Muita desfeita e desgosto tenho causado, na maior parte das vezes sem querer. Ganhei projectos para o resto dos meus dias, de tanto exagerar no voluntarismo. Sofro, claro, de mania das grandezas, tenho pernas mais pequenas que o passo, cultivo alheamento crónico da realidade, de tal modo que nem ao correio dou vazão. Adio a resposta, para ser concreto, para dizer um pouco mais que a obrigação, mas as urgências sobrepõem-se e, às tantas, já se fez ferida. Haverá forma de inventar organização que me livre do que não pedi, do que não vale a pena, do desapropriado e do incómodo. Nem assim, creio, conseguiria sorver a torrente de propostas que me esmagam a cada dia. Sofro com isso, mas não se compara às incompreensões de quem poderia oferecer, ao menos, o benefício da dúvida. Aceite-se. Até que algumas mensagens despeitadas chegam tintadas de verve.

Horta Seca, Lisboa, 10 Agosto

Vivemos, afinal, na idade das trevas. The Nation, título norte-americano com pergaminhos na cultura aceita publicar poema, pueril, diria eu, de Anders Carlson-Wee: «If you got hiv, say aids. If you a girl, / say you’re pregnant––nobody gonna lower/ themselves to listen for the kick. People/ passing fast. Splay your legs, cock a knee/ funny. It’s the littlest shames they’re likely/ to comprehend. Don’t say homeless, they know/ you is. What they don’t know is what opens/ a wallet, what stops em from counting/ what they drop. If you’re young say younger./ Old say older. If you’re crippled don’t/ flaunt it. Let em think they’re good enough/ Christians to notice. Don’t say you pray,/ say you sin. It’s about who they believe/ they is. You hardly even there.» Logo se levantou costumeira tempestade por ser branco a fingir voz grossa e negra era causa de excruciante pena. Vieram logo de bombeiro as editoras «lamentar a dor que causámos às muitas comunidades afetadas por este poema». E até o poeta se desculpou (https://www.nytimes.com/2018/08/01/arts/poem-nation-apology.html?action=click&module=RelatedLinks&pgtype=Article). Em nenhum lugar percebi outro argumento além da cor da experiência, que impedisse o desgraçado de sussurrar na voz poética o jargão da negritude. Só posso concordar com a opinião de Grace Shulman, ex-editora da secção de poesia da mesma revista: The Nation Magazine Betrays a Poet — and Itself (https://www.nytimes.com/2018/08/06/opinion/nation-poem-anders-carlson-wee.html?smid=fb-nytimes&smtyp=cur), até por terem «lived by Thomas Jefferson’s assertion that “error of opinion may be tolerated where reason is left free to combat it.”». Os debates do género infantilizaram-nos ao ponto de despercebermos o fundamental do acto literário. Ninguém poderá, doravante, permitir que a sua voz abandone a experiência concreta sem ofender comunidades. Eu, sendo gordo, terei que me ofender e lançar indignação de cada vez que o magricelas Valério [Romão] se atreva a alargar personagens. Não, não é apenas ridículo, cresce o perigo desta nova cultura, como lhe chama o alegre mal disposto, Roger Scruton (https://blogs.spectator.co.uk/2018/08/the-art-of-taking-offence/): «I was brought up to believe that you should never give offence if you can avoid it; the new culture tells us that you should always take offence if you can. There are now experts in the art of taking offence, indeed whole academic subjects, such as ‘gender studies’, devoted to it. You may not know in advance what offence consists in – politely opening a door for a member of the opposite sex? Thinking of her sex as ‘opposite’? Thinking in terms of ‘sex’ rather than ‘gender’? Using the wrong pronoun? Who knows. We have encountered a new kind of predatory censorship, a desire to take offence that patrols the world for opportunities without knowing in advance what will best supply its venom. As with the puritans of the 17th century, the need to humiliate and to punish precedes any concrete sense of why.» Punir antes de perceber porquê, se isto não são trevas…

Horta Seca, Lisboa, 12 Agosto

Soterrado pela passagem dos dias, entrevi e salvei da pilha de papéis «O Espião Acácio», leitura interrompida ainda mal começada, há meses, quando o Júlio [Moreira] me ofereceu este seu velho projecto, posto finalmente em cuidado álbum (na Turbina), com a ajuda da Margarida [Mesquita]. O Acácio (algures na página) vem lá das paisagens da infância e confesso agora o receio de magoar vetustas e exaltadas recordações. Em fuga do vórtice, apliquei-me com ligeireza semelhante à que imagino ter sido a do Relvas naqueles idos de 1970, à razão de duas páginas por semana na revista Tintin. Como se fosse traço único a percorrer o papel, sem o largar nem para respirar, as aventuras do espião partem da Primeira Grande Guerra para delirar pelos grandes espaços da política mundial e da ficção científica. Tudo varia e vareia entre momentos de especial cuidado e outros da maior soltura, buscando ora o contraste das manchas ora a leveza da linha. Não se procure aqui sentido outro que não o puro prazer, um humor insurrecional e ofensivo, como deve ser, e a mais anarquista das ligeirezas. O Relvas não foi nunca de grandes narrativas, mas de explosivos momentos e extraordinárias personagens. As orelhas de Acácio, como bem celebram as guardas do álbum (à maneira dos álbuns de Tintin), são moldura de galeria única e disparate de figuras. Que poderiam ter ido onde nunca a mão do homem pôs o pé.

Horta Seca, Lisboa, 15 Agosto

Várias das virtudes do livro acabam tornando-se maldições. Esta de ser objecto ascensional, que se ergue acima da sua materialidade, no qual se investem valores, transcendências e saberes fê-lo perder o seu corpo, comercial por exemplo. Não exagero no número, que chega à centena, de exemplares que a tradição manda oferecer a meia hierarquia das redacções, aos críticos em «actividade» e em pausa sabática, aos fazedores de opinião, individualidades variegadas e amigos, nossos e de mais não sei quem. Esmolamos em nome da esperança, quase sempre vã, de singela referência nos céus da opinião, brilho fátuo que ajude o pobre título a existir. Muito pior, prática comum e bastante reveladora, reside na inimaginável quantidade de pedidos diários, sim, a cada dia, oriundos dos mais (im)suspeitos lugares: blogues, sites, clubes e outros leitores com vontade de partilhar leituras; grupos das mais expeditas acções sociais a quererem usar o livro para fazer o bem. E o grau de obscenidade vai aumentando: professores universitários, garantindo que palavra sua de endosso desmultiplicará tão pequeno investimento; organizadores de festivais, bem pagos para isso, que cravam o mísero exemplar para o moderador da mesa na qual participa o autor, ou a novidade de um leitorado de português, portanto dependente do estado, com o argumento supimpa de termos livros perdidos nos armazéns. Devíamos, portanto, aproveitar este feriado da Assunção de Maria e celebrar a promoção do livro a modesta necessidade. Se quem precisa não compra, quem trocará festivais e futebol pela transcendência de umas páginas?

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