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O natal, na minha família, envelhece mal. Quando era criança e durante o tempo que estive em França, os únicos natais felizes eram aqueles em que a minha família (irmãs, cunhados e sobrinhos) chegava de Portugal para passar o Natal connosco. Os meus avós moravam no interior algarvio e pouco ou nada viajavam dentro de Portugal, quanto mais para fora. A vida do campo era duríssima e o tempo, embora desabitado do stress contemporâneo, não abundava. Os natais com avozinhos a contar histórias e crianças aos pulos na excitação das prendas, só os conheço da televisão.

Com o tempo e como é natural, as pessoas vão morrendo e as famílias reorganizam-se em redor dos que nascem. No caso da minha família, os nascimentos são pouquíssimos. Temos tendência para a monocultura (rapazes) e para fechar a loja à primeira venda (um filho por casal). Como os casamentos e demais ajuntamentos não têm durado, a presença de cônjuges é pouco frequente. Ainda assim, o meu cunhado insiste em cozinhar como se fôssemos uma corporação de bombeiros a sair do ramadão. São semanas a comer sobras.

A medida que os anos passam, a coisa torna-se cada vez mais deprimente. As pessoas chegam cansadas ou enfadadas à mesa – e, às vezes, ambas – e olham para o repasto com o fastio de quem se está a ver a comer a mesma coisa durante um mês. No tempo em que dávamos guarida a dois ou três convidados com famílias ainda mais depauperadas do que a nossa, esforçávamo-nos para disfarçar o enfado. Agora, o natal é só um jantar em jeito de exagero.

A mãe queixa-se de não ter conseguido acabar de ver o telejornal, o sobrinho e cunhado disputam o comando da televisão da cozinha, a mana diz que detesta canja de cabeça de javali e come, enjoadinha, uma gamba “com demasiado sal”. Quem não bebe, nessa noite concede uma excepção. Quem bebe, bebe mais e mais depressa. O objectivo é a obnubilação rápida da consciência. Com a parca educação restante, dá-se os parabéns ao cozinheiro: “muito bom, acho que é o teu melhor borrego de sempre”. A coisa decorre com a alegria de um funeral até ao estertor final, sinalizado normalmente pelo início de um dos Sozinho em casa. As pessoas continuam a disputa pelo comando no sofá e o meu cunhado, infelicíssimo, fica a contemplar a quantidade de comida na mesa como se esta se houvesse transformado em dinheiro em chamas.

Como estamos todos progressivamente mais pobres, não há prendas. Nem simbólicas. Tendo em conta de que não temos convidados, já não nos damos ao trabalho de fingir que comprámos qualquer coisa a pensar em alguém. Tapamo-nos com umas mantas à frente da televisão e deixamos o cérebro esbracejar sem grande vontade no lago de vinho em que o afogámos. Na televisão, sucedem-se os “filmes de família” – a expressão pela qual cunharam o amontoado de lixo que Hollywood tem vindo a produzir com abastança e regularidade.

Daqui a vinte anos, com mais mortes e o mesmo número nulo de nascimentos, talvez possamos deixar de fazer de conta que no natal temos de fazer de conta e passamos, sem vergonhas, a dizer não à ceia natalícia. Seremos poucos, é certo, mais isso é somente uma razão mais para dizer não. Não à ceia, não à comemoração daquela coisa nenhuma, não a qualquer tipo de promoção da quadra. Como defesa, poderemos sempre dizer que as épocas festivas deveriam servir para nos sentirmos melhores e, por pouco tempo que fosse, especiais. Se nem para isso servem, de que servem então?

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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