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Há certas pessoas a quem, por algum dom natural ou por mérito próprio, os demais têm dificuldade em dizer não. Sendo objectivo, devo afirmar que há muito me apercebi de que faço parte desse número.

Quando tinha 15 anos, fascinado por um par de cachimbos por estrear que havia lá em casa e motivado, certamente, por uma imagética retirada ao cinema, resolvi que queria fumar cachimbo, e disse-o aos meus pais.

Faltavam poucos dias para, pela primeira vez, sair de Portugal sem a família. Iria uma semana a Londres, com um colega de Liceu.

No dia seguinte à minha declaração, minha mãe acompanhou-me a um depósito de tabacos que havia na Rua de São José e, aí, adquirimos uma calcadeira, escovilhões e, recordo-me, uma onça de Skandinavic Aromatic.

E lá fui eu para Londres, orgulhoso e deliciado, com o meu cachimbo entre os dentes.

No “Moby Dick”, a dado passo, Ahab afirma: “Oh, cachimbo meu, as coisas correm-me mal se os teus encantos se perderam!”. E assim é, de facto! – o cachimbo é bom companheiro em quase todas as ocasiões.

Na Ilha da Madeira, contudo, onde já estive perto de dez vezes, sabe Deus por que sortilégios (a humidade do ar?, o fantasma de Winston Churchill pairando sobre Câmara de Lobos?), apetece-me sempre fumar charutos. Gosto de caminhar pela cidade do Funchal, contemplando-lhe a flora e a arquitectura, enquanto aspiro o odor do charuto. Gosto de ir do Museu de Fotografia “Vicentes” ao Museu da Quinta das Cruzes, da Casa-Museu Frederico de Freitas ao Aquário Municipal, do Mercado dos Lavradores ao Museu Henrique e Francisco Franco, aspirando sempre aqueles aromas vindos do Brasil, das Caraíbas, das Filipinas ou de outras paragens do mar, remotas e tropicais.

Mais uma vez, ao gosto que tenho pela Madeira não serão, certamente, alheios os muitos traços da presença inglesa na ilha, traços esses, regra geral, bem conservados e postos em evidência, pelas autoridades locais ou pelos próprios britânicos.

Ora, isto faz-me pensar em cemitérios, outro tipo de locais que tendo a apreciar, e, nomeadamente, em cemitérios britânicos espalhados pelo mundo, que tive oportunidade de visitar: um no Lumbo, defronte da Ilha de Moçambique, datando da Primeira Guerra Mundial, em que repousam setenta e cinco almas e que, no meio de muita desolação, é mantido em impecável estado de conservação por um guarda para isso remunerado; o de Lisboa, onde, entre muita gente, prestigiada ou anónima, jaz o romancista Henry Fielding, o bem-humorado autor de “Tom Jones”; e o de Elvas, pequeníssimo talhão contendo, apenas, cinco sepulturas, datando de entre 1811 e 1863.

Contudo, os mais interessantes que conheço encontram-se, naturalmente, em solo britânico: são o Trafalgar Cemetery, em Gibraltar, e, sobretudo, o de St. Ives, na Cornualha, implantado numa colina verdejante, a beleza de cuja vista sobre o mar nos convida a demorarmo-nos.

No primeiro, uma placa presa ao gradeamento explica-nos: “Trafalgar Cemetery — Here Lie The Remains Of Some Who Died Of Wounds At Gibraltar After Nelson’s Great Victory In October, 1805, Those Killed During The Battle Having Been Buried At Sea. Other Graves Date From 1798.”

Falando de cruzes: Antoni Tàpies, o meu pintor preferido, em cujos quadros a cruz, sob diversas formas, está presente, diz, numa entrevista datada de 1987: “Uso símbolos espontânea e intuitivamente, o que me dá uma grande dose de prazer imediato. Isto parece terrivelmente simples e, hoje em dia, está talvez um pouco fora de moda falar da diversão como uma razão para produzir arte. Mas quando estou a trabalhar não analiso as razões porque escolho esta ou aquela forma, embora o pudesse fazer à posteriori. Durante muitos anos, trabalhei de um modo quase automático, inconsciente. Só quando os críticos começaram a questionar-me, como está a fazer agora, é que fiz um esforço para compreender o meu próprio trabalho em termos intelectuais, para entender por que é que tinha usado uma forma ou uma cor particulares num quadro. Quando ponho um símbolo num quadro, um x ou uma cruz ou uma espiral, sinto um certo tipo de prazer. Vejo que o símbolo dá ao quadro um poder particular, e não tento explicar por que é que isto acontece.”

Do mesmo modo, diria eu, não é preciso ser cristão ou fatalista para estabelecer uma empatia forte ou, até, muito forte com as cruzes dos cemitérios. Não é preciso pensar.

“Não pensar é o impulso mais íntimo do poeta”, afirmou o muito poeta António Maria Lisboa.

Creio que não escrever seria outro dos desejos desses homens e mulheres tão intimamente magoados pela realidade. Sendo-lhes ambas essas coisas impossíveis, escrever pouco, ou escrever com pouco, são, muitas vezes, as opções que lhes restam. Para proveito de todos nós.

O mesmo acontece com alguns dos actores que mais aprecio, praticantes do underacting, da economia expressiva: Robert Mitchum ou Lino Ventura, por exemplo, ou, no actual cinema norte-americano, Gene Hackman e Tommy Lee Jones.

Já quanto ao overacting a minha posição varia muito, consoante a sua qualidade e a adequação, ou não, ao propósito em causa. Peter O’Toole ou Peter Lorre, sempre. Marlon Brando ou Mário Viegas, às vezes. James Dean? Que irritação que aquilo tudo, invariavelmente, me causa!

Há uns anos, aprendi, com um especialista, a avaliar a lisura de uma tela com as costas da mão. Lisura desejável quando a textura não seja voluntária. Creio que, com a representação, é o mesmo: que seja lisa, a não ser que haja bons motivos para texturá-la.

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