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Voltar para o limbo das coisas transfiguradas, não misturar as fontes com as formas nessa incessante busca de afastamento face aquilo que no sensível se mantém, mergulhando assim no dom inalterável. Descarnar, não querer efeitos, retirar o excesso de humano, vencê-lo, secar o pântano acre-doce do instinto que alimenta espectros – movimento extinto – (…) tempo, suspende o teu voo (…) Ficar puro como a ideia, vigiar, estar preparado para o défice de compreensão dos transferidos para as zonas dos impactos, não mais nos alimentarmos de presas vencidas cuja deglutinação ajudou a subjugar os que servem de repasto- herdeiros dos medos- testar em cada um a superação humana por um processo alquímico muito próprio, não alinhar na corrente transacta de um corcel de Fados e de prantos, não ver a arena por onde as festas anunciam o banquete pois se tangerdes uma lira as próprias feras lerão na superfície das provas uma outra mensagem. Instar, inibir qualquer gesto de traição, colar a nós os sacrifícios como forma de deposição das armas.

É a sombra que salva a voz do assombro e no negro alvíssimo que transluz, devemos nós, os que temem as côres, resignar-se a tecer o tempo como um círculo de frágeis fios, pois que, sem a tenaz noite que de tão escura é sempre nova a voz poderá sair um ronco carregada de poeiras que são os pensamentos e o grande arco trazer somente a ilusão colorística que um deus maligno compôs para seu disfarce. Sangra, sangra, mas não te queiras na gleba. Lá, bem dentro do seu labirinto, está o Minotauro e se te apressas na marcha forças com leis te virão buscar carregadas de aflições, criaturas bestializadas ao serviço do centro: enquanto tardas, guarda a fonte. — Relembrando títulos de livros de autores de alma timbrada e tão longínquos — . António Quadros e ao pensar que ao existirem me servem hoje de uma gratificante brisa! Estamos no meio das experiências da côr, no auge da dobra fractal de similitudes alteradas onde se fez de quase tudo um amontoado de sujeições : o mundo grito, o mundo claque, o mundo clube, o mundo cor, que de cor, só o coração.

Tempo haverá em que o elemento humano estará quase ausente e se dele não restar a qualidade da sua brisa que é o único dom da sensibilidade criativa, saibamos que nada o desgastou mais do que esta felicidade sem esperança, mais, muito mais do que a dos seus tempos felizes na miséria. Neste labor de reter o melhor que foi Homem chegar-se-á a um ponto em que o conteúdo humano da obra seja tão escassa que quase não se veja, a Humanidade será lembrada pela sua secreta perfeição, de tal ordem que se pensará que fôramos uma tribo tão pequena quanto aquele povo inventado, nas horas mortas todos morremos sem que seja necessário outro entretenimento. Então, só depois a nossa consciência “sentou-se na sombra profunda quando por sobre a cabeça o ulmeiro murmura… e canta, quando a água santa e sóbria assaz bebeu, escutando ao longe no silêncio o canto da alma”… Horderlin .

É esta a Asa, a sombra profunda que salva a palavra da claridade do raio. A frescura e a sombra correspondem ao Sagrado e a palavra funda o seu advento.

Já não há rebelião, outrora até os anjos a tinham e das suas centelhas se fizeram fogueiras, mas o enxofre gerado tinha ainda a molécula do bom cheiro a Bode e frases mágicas que produziam efeitos mais fecundos que alucinogénios, havia na sombra, sombrias formas que criavam cismas tão divinos como quaisquer santos, havia uma dor de fundos imprevistos e talvez o cérebro estivesse em outros momentos da sua liturgia, havia isso tudo que criou indómitos espectros, que hoje, quase os visitamos sem supor do cativeiro a que estiveram sujeitos e olhamo-los sem malícia, esse artefacto não tinha, nem sabia, o que poderia ser ainda o coro de uma tragédia, hoje, mergulhados nela, achamo-nos paradoxalmente os mais felizes dos Homens.

Que as sombras partiram e a frescura é menor, que tudo se transforma sem que nos transformemos à velocidade dos ventos, que aqui retidos entre domínios imponderáveis se nos esgota o oxigénio e o escuro apagão é tido como o fim dos nossos quotidianos. Não brilha mais para nós o azeviche que precede a luz, a nossa natureza gosta da noite do néon mas não quer ver o efeito das sombras que produz, que sombras, são benignas, as dos ulmeiros quando murmuram… e sem eles, não há ao longe canto. Se dizem estas Asas no fim que a finalidade é libertarmo-nos libertando os outros, todos somos uma proposta ampla de Liberdade que será necessário aguardar com o sentimento do dever realizado. Pela noite entram os amantes, sempre caminhando para ela, pare então tempo o movimento triste que alimentou um brilho insuportável. Nós, os cegos, somos uma visão madura de Deus, usamo-lo nas vestes ainda tingidas de preto total , não ousamos, contudo, não somos encarnados, quase, brancas Aves, pois que todos os fantasmas o são.

Tingidos neste suporte toda a sensação não sentida como desejo é enfim glorificada num imenso adeus às armas pois que não nos fizeram vorazes e nos manteve na rota certa para a dádiva e não para criar raízes no próprio esquecimento. Para não nos tragarem, escondemos os dons, e para continuar, oferecemos os serviços, nenhum gratidão é suficiente para agradecer tamanhas coisas.

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