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Manuel Molarinho também é “O Manipulador”. O “one man band” português está em Macau para um concerto no próximo sábado na Live Music Association. O artista falou ao HM do seu percurso e das motivações que o levaram a criar o “Um ao Molhe”, festival itinerante de Inverno, dedicado aos colegas que tocam sozinhos em palco

 

Como é que começou o seu trajecto na música?

O início foi por gosto. Comecei por aprender umas coisas básicas de guitarra com um amigo e depois tive conhecimento de uma banda que estava à procura de um baixista. Nunca tinha pegado naquele instrumento, mas avancei. Acabei por ganhar um gosto muito especial por tocar. Foi no início dos anos 90 e desde aí que nunca mais parei.

O formato “one man band” acabou por ser a sua opção? Porquê?

Até 2010, fui tendo uma série de bandas dedicadas, principalmente, ao rock alternativo. No entanto, com o tempo, as bandas iam acabando. Quando achava que estávamos numa fase interessante, num momento em que já tínhamos alcançado um processo de maturação e em que podíamos continuar a evoluir para coisas engraçadas, chegávamos ao fim. Até que me fartei dessa situação. Continuo a criar bandas novas e gosto de começar novos projectos, mas desinteressa-me ter só isso. Queria ter um projecto em que pudesse crescer e maturar. Com um projecto a solo, poderia fazê-lo. A partir daí, fui explorando sons que me interessavam para esta ideia. O único instrumento que realmente toco continua a ser o baixo e utilizo a voz com uma série de pedais e uma loop station. Tenho utilizado o baixo como o instrumento total, ou seja, simultaneamente um instrumento de percussão, mas também um meio que me permite criar ambientes e texturas. Por outro lado, o baixo permite fazer sons parecidos ao da guitarra. Com isso faço as minhas composições.

É “O Manipulador” e está pela primeira vez na Ásia. Como é que está a sentir este lado do mundo?

A experiência está a ser óptima. No entanto, ainda está a meio e normalmente gosto de tirar conclusões e fazer reflexões no final das viagens. Mas já tenho algumas referências. Tenho estado em duas cidades muito movimentadas, Macau e Hong Kong. Uma coisa que me surpreende é a forma como se lida com o caos que, aparentemente, é muito mais tranquila do que aquilo a que estou habituado. Se calhar é por não conhecer, por não falar a língua e não perceber o que se diz. Mas aqui há uma relação mais casual com o caos. O facto de serem duas cidades com arquitectura em altura também me impressionou muito. Acabei por gostar mais do que inicialmente acharia. É muito imponente. Em Macau, por exemplo, o que mais me impressiona nem é a parte espampanante associada aos casinos, apesar de não ser indiferente ao fenómeno. Por outro lado, há a língua que não entendo mas que, foneticamente, é muito diferente da nossa e muito inspiradora. Acabo por ir buscar inspiração a este ritmo, às melodias das conversas, à forma como as pessoas falam e que acaba por ser estranhamente melodiosa. Muitas vezes apanho autocarros aleatoriamente para ver a paisagem, para tentar conhecer uma realidade mais comum e também para ouvir as pessoas a falar.

Vai levar daqui material para trabalhar?

Com certeza. Mesmo que não quisesse, isso acabaria por acontecer. Quando estou a fazer música tento despir-me o mais que posso, e trazer aquilo que acaba por ser o fruto da minha vida e das minhas experiências. Esta passagem pelo Oriente vai entrar, com certeza.

Como é que correu o concerto em Hong Kong na semana passada? Que diferenças encontrou neste público?

Foi um concerto muito diferente daquele que vou fazer aqui em Macau. À Live Music Association vou trazer uma coisa minha e que está muito preparada. É um concerto de “O Manipulador”. Em Hong Kong integrei uma tarde em que participavam várias bandas. Ia ter apenas meia hora para tocar e o concerto não foi tão preparado. No fundo, já que cá estou, queria também tocar na região vizinha e arrisquei mesmo sem preparação. Foi bom. Não estava muita gente, até porque era um domingo à tarde, mas senti que as pessoas gostaram. Era também uma experiência que queria muito ter e gostei, mas não se pode dizer que tenha tirado uma conclusão muito absoluta do que terá sido uma reacção. Foi interessante estar num bar em que não percebia quase nada do que o público estava a dizer e para quem eu era totalmente desconhecido. Permitiu-me também conhecer aquela zona de Hong Kong que não é tão rica, mas em que se vê um pouco mais da vida das pessoas.

O que vamos ver em Macau?

Não defino listas de temas para os concertos. Sei sempre que vou tocar coisas do meu segundo e terceiro álbuns. Vou também trazer músicas do disco que ainda está para vir. Não tem nome, mas poderá sair no início do próximo ano e, quem sabe, trago um pouco de improviso. Gosto de sentir o público e a forma como isso acontece acaba por determinar para que lado tendo a tocar, se vou para uma coisa mais ritmada, mais introspectiva ou mais experimental. Será sempre dentro daquilo que toco, ou seja, entre o alternativo e o experimental. Quero mostrar um pouco do que está para trás, um pouco do que está para a frente, e improvisar um pouco.  

O seu último álbum é em cassete. Porquê este formato?

A primeira banda em que toquei era uma banda punk. Ia muito a concertos e usava-se muito este formato. Depois tem a questão analógica da fita, do seu som e das interferências. Claro que o vinil é melhor nesse aspecto, mas também é muito mais caro de se fazer e, quando se pretendem produzir cerca de 100 cópias, acaba por fazer mais sentido a cassete. A cassete tem ainda uma particularidade de que gosto muito: penso num disco como um todo, e não música a música. De certa forma, este formato obriga o ouvinte a ouvir do início ao fim ou, pelo menos, dá mais trabalho se quiser andar à procura de temas. Do ponto de vista estético, e tal como o vinil, é um objecto que fica sempre bem na prateleira. Fica sempre melhor do que o CD. Claro que a qualidade de som da cassete não é tão boa como a dos outros suportes, mas penso que em certas coisas funciona bastante bem.  

Está à frente do projecto “Um ao Molhe”, um festival de Inverno que tem um cartaz composto unicamente por “one man band”. Como é que apareceu esta ideia?

Foi bastante simples. Na altura, fundei o festival com o também músico Pedro Pestana. Percebemos que já tínhamos os dois a mesma ideia, ou seja, gostamos muito de tocar e também gostamos muito de tocar sozinhos em palco, mas só em palco. A parte das viagens, dos “sound checks”, de estarmos sozinhos fora do concerto entediava-nos um bocadinho. Gostávamos de partilhar. Foi assim que surgiu a ideia de criar um festival itinerante de “one man bands”, com a ideia romântica de ter cinco músicos num carro que vão para um sítio, saem dois, entram outros dois e seguem para outro destino e por aí fora. É uma espécie de festival ambulante que anda a saltar de cidade em cidade, em que o lema é “sozinhos só em palco”. Tem corrido muito bem. Acabámos agora a terceira edição. No primeiro ano decorreu durante quatro meses, mas agora estamos nos três meses de duração e que ocupam o Inverno. Por outro lado, também coincide com as datas em que temos menos concertos agendados. Já organizámos mais de 500 concertos e trabalhámos com mais de 100 músicos. Fomos a Espanha, França e à Madeira. Tem corrido muito melhor do que estávamos à espera. É ainda bom para mim porque me abre portas para os meus concertos. Mas o mais importante é o “Um ao Molhe” ser a minha contribuição para os outros músicos. Vejo projectos que são menos conhecidos do grande público que têm uma qualidade incrível, e que quero dar a conhecer e promover. A cena musical portuguesa neste momento está com uma qualidade muito boa.

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