Manual de terrorismo ontológico

Os dois rapazes entraram e sentaram-se. O autocarro estava estranhamente vazio, ao contrário do que seria expectável em hora de ponta. Esperaram por um momento de silêncio para começarem a falar: é fundamental repor a presença da morte no contexto da existência, disse um para o outro, não é por não falarmos do assunto que ele deixa de existir, completou, e em pouco tempo e à medida que a conversa prosseguia – dos pré-socráticos à Heidegger, da existência pragmática à existência enquanto doença – os restantes passageiros, cada vez mais desconfortáveis, iam divergindo o foco daquilo que os ocupara e, como acontece num acidente de trânsito, por mais incomodados que estivessem, não conseguiam deixar de prestar atenção àquela conversa. O mesmo acontecia no metro. Numa esplanada ensolarada do chiado. Na biblioteca nacional. Numa festa de aniversário na qual o momento de cantar os parabéns fazia lembrar um ensaio de um coro de coveiros. Na praia, até na praia.

No início era apenas uma piada. Uma daquelas ideias que surgem quando se esgotam as conversas e os assuntos possíveis: e se começássemos a falar disto em sítios públicos, em voz alta, simulando uma conversa? “Isto” era filosofia ou, mais especificamente, o tipo de filosofia e de questionamento filosófico que nasce e se propaga quando um homem tem tempo suficiente para fazer as perguntas que não deve e que podem travar o curso normal da existência: o que faço aqui? O que fazemos aqui? Porquê? Para quê?

Nunca pensaram que a brincadeira pudesse ter alguma consequência para lá de uma possível historieta para preencher o silêncio num futuro jantar de natal. E as primeiras experiências que fizeram, no autocarro, pareciam confirmar essa ideia. Para além de um silêncio breve que surgia sempre quando um deles mencionava morte, as pessoas pareciam imunes ao parasita filosófico que eles tentavam fazer crescer e multiplicar por meio da palavra. Foi quando um deles, numa epifania que atribuíram à cerveja, propôs aos restantes mudarem radicalmente a orientação da conversa – até àquele momento muito vocacionada para a produção de respostas, umas mais sofisticadas que outras – e passarem a tentar gerar, nos espectadores das conversas encenadas, perguntas, que tudo mudou.

As pessoas já não sorriam umas para as outras com condescendência quando eles começavam a falar daquelas estranhezas que fazem o assunto de quem tem demasiado tempo. Algumas, ao vê-los entrar, saíam. Uma ou outra pediam-lhes com gentileza para mudarem de tema, porque não tinham idade para aquilo, porque não tinham cabeça, porque não tinham disposição. Não podiam nem queriam serem surpreendidas naquele assalto pelo qual se viam desmunidas, subitamente, das certezas que fazem o chão da vida. Os autocarros foram progressivamente perdendo passageiros, assim como o metro e restantes transportes públicos. Ao entrar num táxi as pessoas detinham-se e dirigiam-se ao condutor: não vai falar daquilo, pois não? O Benfica sagrava-se pentacampeão português à penúltima jornada perante um estádio praticamente vazio. As pessoas saíam de casa apenas por absoluta necessidade. Evitavam a televisão, onde aquilo já grassava também. A pergunta do ano, no Google, era “como evitar falar daquilo?”

Alguns especialistas defendiam, em colunas de opinião, uma acção concertada e internacional para a produção de um documento, subscrito pelo maior número possível de países, através do qual se decretasse a ilegalidade e suspensão imediata daquelas conversas. “Uma espécie de convenção de Genebra da filosofia”, concluíam, incapazes de disfarçar o orgulho que a metáfora neles produzia, malgrado os tempos sombrios.

Um movimento de resistência auto-intitulado “porque não?” organizava, a espaços, marchas de protesto às quais acorriam algumas dezenas de pessoas. Infelizmente, bastava alguém distrair-se, mesmo que bem-intencionadamente, e fazer uma pergunta que pudesse sugerir aquilo para toda a gente dispersar e ficarem espalhados no chão, sublinhando a ironia e impotência do movimento, meia dúzia de cartazes apelando à fé e à confiança dos homens uns nos outros.

Alguns dos rapazes que haviam começado a brincadeira tinham-se suicidado. Outros, esmagados pela culpa, procuravam uma forma de reverter aquilo. Falava-se em antídotos, vacinas, alinhamento de chakras. Mas era tarde demais. Aquilo não ia passar.

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