As janelas roubadas

28/01/2017

As janelas roubadas: um esboço para um projecto que alia texto e fotografia, que achei num caderno, e adoraria concretizar com a minha filha Maria Leonardo (é dela a foto desta crónica).

A coisa é simples: flanaríamos por Lisboa e, escolhidas algumas janelas que nos parecessem sugestivas, pediríamos delicadamente aos donos das casas que nos deixassem fotografar a partir das suas janelas. Inspirado por tais “vistas” eu escreveria algumas micro-narrativas que juntas (como os favos de uma colmeia) dessem “um clima” de Lisboa.

Mas a minha filha está em Munique e eu em Maputo – a vida não é exactamente, ou só, o «processo de decomposição» de que se lastimava Fitzgerald, mas às vezes parece.

31/01/2017

“Era uma vez um ilhéu que gostava muito de uma mulher que vivia noutra ilha. Gostava tanto dela que lhe escrevia todos os dias. Ela acabou por casar com o carteiro. O carteiro era o meu avô”: eis um tipo de narrativas que eu já não julgava possível desenvolver com credibilidade por causa do progresso. Hoje o e-mail dispensaria o papel do carteiro – o tremendo charme do meu avô ficaria a ver navios.

Mas há um lugar onde a sua história ainda se encaixa: a maravilhosa lagoa do Bilene, a 200 km de Maputo. A primeira vez que cá vim foi em 95. E vi um lugar paradisíaco, com condições para um crescimento exponencial rapidíssimo… embora os tempos fossem de vacas magras. Nessa altura fiz três amigos: o Chico, o Artur e o Momed, três miúdos que palmilhavam diariamente doze quilómetros pela praia para irem à povoação comprar sal ou arroz, ou fósforos, coisas básicas.

Entretanto Moçambique, antes da crise actual, teve uma década de boom económico. E esta semana voltei, com a filharada. Foi uma reinação. E, em casa, alto incremento da sueca.

Nos breves momentos à solta que nos deixam três crias + o namorado da mais velha, observo o movimento dos pescadores, da população autóctone, das mulheres e crianças que circundam a lagoa pela praia para ir buscar farinha, arroz, ovos, material para o remendo das redes, sei lá. E penso nas duas horas que eles perdem nisto, para lá, e nas duas da volta, quatro horas extraviadas que só deixam tempo para uma vida fisiológica, de resposta às necessidades e estímulos mais primários. Estou a lamentá-los e não é que de repente nesse magote de figurinhas ambulantes descubro o Chico, o Artur e o Momed?

O Chiquinho já sem dentes, o Momed analfabeto como antes e o Artur (que era o mais bonito) com uma cicatriz na testa que se escusou a explicar. Se calhar foi o carteiro das cartas de amor de alguém para uma cachopa que vivia em Macia e um dia quis fazer de padrinho à italiana (como o meu avô) e lixou-se.

O Chico vem com um filho, o Nelson, de cinco anos a quem ele inicia às longas estiradas. Interrogo-me se o rapazito depois das tarefas obrigatórias para a comunidade familiar (ó Nelson, pede a mãe, vai-me comprar fósforos, ou arroz…) terá tempo para ir à escola, duas horas para lá, duas na volta, mas ofereço-lhe uma coca, felicito o Chico por estar vivo, e calo-me.

Olho em volta, certifico as condições ideais para um crescimento explosivo em duas décadas e interrogo-me: como é possível que vinte anos depois as infra-estruturas sejam rigorosamente as mesmas e só os ricos tenham beneficiado das potencialidades do lugar? Encolho os ombros, peço um uísque no imemorial Estrela do Mar e sento-me diante da televisão a ver o telejornal, e então ao meu lado ouço, pela nonagésima vez, um Laurentino gabar-se: Nellspruit (a cidade sul-africana mais próxima, a 200km) cresceu à custa dos moçambicanos! Sou de imediato varado pelo enigma, inconveniente, pertinaz: mas porque não cresce Bilene à custa dos moçambicanos? E porque não cresce Moçambique a outra velocidade, apesar do labor com que os moçambicanos fizeram crescer Nellspruit?

Talvez porque quando os moçambicanos começaram a ir largar o dinheiro a Nellspruit os sul-africanos tiveram «uma visão» em relação ao que fazer com essa mina. Não basta ter o dinheiro, é preciso ter uma estratégia… começar por oferecer bicicletas à população e montar bibliotecas itinerantes – é um exemplo.

1/02/2017

O Trump tem o ímpeto cavernícola e caprichoso de Calígula que um dia nomeou o seu cavalo senador. E assim mina involuntariamente até aquele mínimo em que poderia ter razão – creio que cava a passos largos a sua destituição por um país que se cansará de passar pelo ridículo. Mas, entretanto, a sua postura, que se pretendia técnica e pragmática, prova que não existe a neutralidade ideológica. O que pode ser o trampolim para o retorno da discussão política à mesa das necessidades elementares.

Entretanto, a escolher uma máxima para o definir, mais à doença contemporânea que ele representa, seria a seguinte, de Rochefoucauld: “Preferimos falar mais de nós mesmos do que não falar em absoluto!”. É disso que acho que ele padece: do pânico ao silêncio. Se ele aceitasse calar-se teria de escutar os outros, teria de escutar-se a si mesmo e aí ponderaria algumas dúvidas. Mas não, ele é um indubitável filho da “sociedade espectáculo”, e, cromado dos pés até à alma, não se enxerga nele um milímetro de superfície onde a pulsação dos reflexos se torne reflexão.

Eis o que devia ser uma regra universal: “ninguém com um espectro lexical de menos de quinze mil palavras pode ser candidato pois, como explicou Wittgenstein de forma convincente, a amplitude do nosso mundo/horizonte, depende do tamanho das janelas da nossa linguagem”.

E ficam já a saber, e aqui sou um tirano: os candidatos a casar com as minhas filhas têm de ter lido pelo menos oito peças de Shakespeare. Não há nesta exigência uma ponta de snobismo – é apenas uma reserva ecológica.

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