Fringe | Edição de 2017 começa na próxima sexta-feira

A edição deste ano do Fringe fica marcada pela busca de uma direcção para os artistas locais. Há cada vez mais gente de Macau a querer participar num festival que pretende ser alternativo

Um cartaz cheio com nomes vindos de Portugal, Jordânia, República Checa, China e Macau, e espectáculos que podem acontecer numa sala de espectáculos, mas também no mercado, no salão de cabeleireiro, numa estrada ou num jardim. É esta a proposta para a edição de 2017 do Fringe.

Mas, este ano, o objectivo da organização vai além da programação: a ideia é apontar uma direcção para abrir portas aos artistas locais. “Queremos que o Fringe se transforme numa plataforma para os artistas do território terem acesso a outros destinos e, neste sentido, estamos a tentar criar uma direcção para o festival”, disse o membro da organização Billy Hui.

Para o efeito, o cartaz inclui uma sessão de partilha onde estarão presentes sete representantes de festivais que, de alguma forma, estão relacionados com o Fringe e que vão apresentar o que fazem, explicou Paula Lei, que também organiza o evento a cargo do Instituto Cultural (IC).

O Fringe começou em 1999. “Era uma altura de mudança e pensámos em fazer um festival que trouxesse uma lufada de ar fresco e pronto para receber a nova era”, recorda Hui. A organização, na altura, deslocou-se a algumas cidades europeias para ver o que por lá se fazia. Voltou com ideias da Europa distante que deram o tema à primeira edição: “European Small Theater Window”. “Vieram artistas de Portugal e Inglaterra, e só tínhamos três grupos de Macau. Ninguém sabia o que era ou como se juntar ao evento”, recordou Billy Hui.

Festival fora de portas

Com a experiência, os horizontes mudaram e o objectivo passou a ser a criação de algo realmente diferente. O primeiro passo a dar foi a saída dos espaços fechados e assumir a rua como palco. Billy Hui não deixa de mostrar o contentamento com a iniciativa: “Queríamos sair do teatro e fomos para as ruas, para a praia, lojas e mercados, queríamos aproveitar a beleza e a mistura cultural de Macau”.

Se em 1999 apenas participaram três grupos locais, 18 anos depois a presença da prata da casa é notável. São vários os artistas que, em nome individual ou em grupo, associados a colegas da terra ou da vizinhança, apresentam as ideias concretizadas. Agora, os interessados podem enviar os projectos no mês de Junho para o IC e, para este ano, a organização recebeu cerca de 20 propostas de Macau.

Para o IC, é também lema do festival a motivação para a produção e o Fringe terá, à sua maneira, contribuído para o incentivo à liberdade criativa. “Por vezes, os artistas apenas têm uma ideia mas não sabem como concretizá-la, e é aí que aparece o festival: uma entidade que apoia qualquer ideia que apareça, por mais louca que possa parecer, e que ajuda na sua materialização”, afirma Billy Hui. Por outro lado, é esta liberdade que atrai os artistas, “porque sabem que o Fringe apoia sem limitações”.

Muitos anos com algumas histórias

“Lembro-me que, em 2001, havia uma ideia de um criativo de fazer uma produção apenas iluminada pelas luzes das motas. Encontrámos uma companhia de dança que aceitou o desafio e o resultado foi surpreendente pelas possibilidades que criou: o palco era a rua e a coreografia foi criada para este tipo de iluminação ainda experimental”, exemplificou o membro da organização.

As memórias são muitas e, a par das “estrelas”, o caminho do Fringe foi marcado pela ajuda da própria população. “Lembro-me de uma produção feita num local sem luz eléctrica e precisávamos de lá fazer chegar cabos. O curioso foi que, sem nos darmos conta, a população ajudou: abriu as portas de casa e dos carros para que pudéssemos passar os cabos e fazer o espectáculo naquele lugar”, recorda Hui.

No entanto, a sociedade mudou muito e os desafios para a organização também. Se, em tempos, os residentes eram os primeiros a colaborar, até na cedência de espaços, actualmente a situação é bem diferente. “Encontrar locais alternativos agora é muito difícil. Os espaços são caros e, mesmo que queiramos arrendar ou pedir, deparamo-nos com outra situação: os donos dos locais já não são de cá e nem conseguimos chegar a eles”.

Billy Hui recorda uma edição em que uma das apresentações foi feita no Largo do Senado: “Tínhamos exposições em algumas lojas e DJs a tocar em varandas que davam para a praça. Agora, se queremos pedir, ou não temos acesso ao gerente ou quando temos a resposta é sempre a mesma, o dono está em Hong Kong ou na China, ou em qualquer outro lado, porque não é daqui. Antigamente o patrão era de cá, entrávamos e pedíamos para falar com ele. Agora isso é impossível”, lamentou.

Ainda assim, para os organizadores, o estado da criação artística local actual é caracterizado pelo optimismo. As mudanças são muitas e, para Billy Hui e Paula Lei, há esperança também, até porque “agora as pessoas estudam artes”. “Estou muito entusiasmado por ver o futuro”, concluiu Hui.

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