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Julie O’yang

Sabem quem são os jovens da fotografia? Espero que algum dos meus amigos chineses reconheça nesta foto um dos seus antepassados e que fique orgulhoso de partilhar convosco uma estória há muito esquecida de um destes “boys”.
Tudo começa num jogo de basebol, há 130 anos nos EUA. Este jogo ficou na História por ter sido ganho por uma equipa de jovens tímidos, vindos de um País muito, muito antigo: a China. As crianças da foto tinham, entretanto, crescido e eram, ao tempo, jovens que viviam na América há mais de 10 anos.
A foto foi tirada em frente do edifício da Shanghai Merchants & Steamship Company, pouco antes da viagem que os levaria a atravessar o Oceano Atlântico. Estas crianças tinham em média 12 anos de idade e sobre os seus pequenitos ombros já se fazia sentir o peso da responsabilidade. Nos seus olhos podemos adivinhar o medo e a curiosidade por aquilo que os esperava no Novo Mundo. Quando pisaram pela primeira vez solo estrangeiro, usavam as longas vestes Manchus e saudaram as suas famílias de acolhimento com um tímido dagong (que sejas bem-sucedido). As crianças tinham sido enviadas numa missão que ficou conhecida como: fuguoqiangbing (富国强兵). (Tornem o nosso País próspero e as nossas Forças Armadas eficientes!), quatro caracteres que representam a essência da luta da China moderna, desde essa altura até aos nossos dias.
A seguir foram distribuídos por diversas casas na Nova Inglaterra. Mais de 40 famílias americanas acolheram os jovens chineses, que rapidamente se adaptaram ao exotismo de uma nova vida. Com esforço ultrapassaram a barreira da língua e cada um deles veio a ser o melhor da sua classe. Os adolescentes chineses acompanhavam os seus pares na patinagem, na dança e no basebol e, mais importante do que tudo, passaram a pensar em inglês. Tudo o que era novo passou a ficar inscrito no seu ADN. Quando somos muitos novos todas as experiências têm um impacto tremendo. Os jovens adaptaram-se, não só, à cozinha estrangeira, como e, sobretudo, aos novos valores! Mais tarde foram estudar para as Universidades de Harvard, Yale, Columbia e para o MIT. Passaram a viver lado a lado de algumas celebridades do seu tempo, como por exemplo, Mark Twain. Os valores e os costumes chineses deixaram de estar presentes na sua formação.
Quando finalmente foram obrigados a regressar a casa, prontos para dar o seu contributo e cumprir o dever de cidadãos exemplares, foi com relutância que se envolveram nos meandros da política chinesa. O dilema pessoal destes jovens passou a ser o dilema da Nação: sou patriota ou traidor? As suas histórias pessoais acabaram por sofrer diversas reviravoltas, onde beleza e tragédia andaram de mãos dadas. No fim das suas vidas, cada um dos protagonistas desta foto a preto e branco continuou a preferir que lhe chamassem: boy.
Os episódios históricos na China não costumam ter um final feliz. A vida na China moderna parece-me sofrer uma oscilação febril entre avanços e recuos. É sabido que alguns dos boys ficaram nos EUA e que nunca mais regressaram a casa. Alguns deles não permitiram que os seus descendentes aprendessem chinês.

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