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* por Julie O’yang
Há pouco tempo descobri um álbum de 2004, da autoria da dupla de fotógrafos RongRong(da China) e Inri (do Japão), 榮榮&映里. Este duo de artistas marcou a fotografia contemporânea não só na China, como em todo o mundo. OK, mas voltem lá atrás e leiam outra vez a frase de cima. Não notam nada de invulgar? Pois é, isso mesmo. Ele é chinês e ela é japonesa.
De repente a minha memória dispara. Não foi há muito tempo, estava uma noite numa cidade do sul da China e deu-se um acontecimento que até hoje me continua a intrigar.
Na altura estava de visita à família. Um dia, ao fim da tarde, um amigo da escola ligou-me para me convidar para um jantar com outros amigos comuns de longa data. Depois do jantar, desafiaram-me para ir a um bar, pese embora uma série de restrições impostas pelo local onde estava alojada. Acabei por acompanhá-los. No bar descobri que comigo só tinham ficado homens. O que aconteceu a seguir, foi, no mínimo, bizarro. Os meus amigos da escola perguntaram-me se me podiam violar em grupo. Bom, ainda bem que perguntam. Não, não estavam bêbados. A ideia deste extraordinário pedido surgiu por terem lido uma das minhas novelas, na qual eu tratava as Violações de Nanjing de uma forma “moralmente ambígua”. Não defendi a perspectiva chinesa, e isso foi um erro. Nessa noite estive cara a cara com o passado do meu País e, pela primeira vez, senti o regresso da História, na carne. A Justiça é a Vingança. Depois de quase 80 anos, para os homens chineses a única possibilidade de conservar o orgulho masculino é fazer com que todos e cada um dos guizi*, incluindo eu, a anti-patriota, paguem por terem violado as suas mulheres.
Como é que eu saí desta estranhíssima situação, ao mesmo tempo fascinante e ameaçadora, não é para ser contado hoje. Em vez disso, vou convidar-vos a ver um filme que vos vai fazer ficar com pele de galinha.

Nanking! Nanking!, ou A Cidade da Vida e da Morte, é a terceira produção de Lu Chuan. Lu é independente e corajoso. Ele nunca pisca o olho a Zhang Yimou-ism (Lanternas Vermelhas). É brutal e brilhante e a sua narrativa cinematográfica é provocadora.
O cenário da história de Lu Chuan é a II Guerra Mundial, que começou na Ásia. Abalado por um colapso económico de longa data, o regime militar japonês sonhou com uma solução e arranjou um problema. O passe de magia passava por subjugar a China para catapultar o Japão para o futuro expansionista. Em 1931, o Imperador Hiroshito, passando por cima dos procedimentos parlamentares, deu uma ordem directa para que o exército japonês invadisse a Manchúria. No entanto, o Japão esperou até Julho de 1937, quando perto de Pequim se deu o incidente da Ponte Marco Polo, cuidadosamente encenado. O Japão declarou oficialmente guerra à China e ao resto do mundo. Em Novembro o Exército Imperial tomou Xanghai. Um mês depois, o Governo Nacionalista abandonou Nanking, a capital chinesa ao tempo.
Nanking! Nanking! conta, no período que se seguiu, a vida e morte de várias pessoas, misturando personagens ficcionadas e o histórico “Bom Nazi de Xanghai”, John Rabe. Mas este filme não quer ser a Lista de Schindler chinesa. Lu Chuan escolheu uma perspectiva corajosa para contar uma história nunca antes contada. Através do olhar de um jovem soldado japonês, Kadogawa, um “rapaz como todos os outros”, somos levados até ao campo de carnificina onde ocorreu o Massacre de Nanking, também conhecido como, Violações de Nanking. O trabalho da câmara é intencionalmente sóbrio e embalador, não perdendo de vista um objectivo maior. Transporta de forma impressionante os espectadores horrorizados para outro tempo e outro lugar, onde tudo era tão INSUPORTAVELMENTE “real”. Assassínios, roubos, incêndios, mutilações, violações em grupo, apunhalamentos com baionetas e crianças espetadas com um longo pau de bambu… Mas então, de repente, a câmara muda para o acampamento militar nas margens do Rio Yangtze. Jovens, pouco mais que crianças, cantam, dançam e falam sobre as suas terras. “O o-mochi da minha mãe é delicioso,” diz um soldado que toma banho no rio. “E Tóquio é tão incrivelmente bela!” respondem os amigos, enquanto lhe lavam as costas com rebentos de cerejeira e com ternura na voz. Estes homens são assassinos, exterminadores, que há um minuto atrás tínhamos visto em acção. A que será que lhes sabe o o-mochi!?
Quando estreou em 2009 Nanking! Nanking! revelou-se um imenso sucesso – para grande surpresa do realizador. Pouco depois Lu recebia ameaças de morte por email, que o visavam a si e à sua família. O seu pecado foi ousar mostrar um soldado japonês parecido com um ser humano.

A história foi clara? Sem dúvida. A história foi útil? Aí está uma coisa que dá que pensar.

Veja o fragmento em: bit.ly/1U7jsq3

南京! 南京! (Cidade da Vida e da Morte)
Lu Chuan, 132 min / Drama, História, Guerra

* Guizi (termo insultuoso que pode designar estrangeiros e tem também uma conotação racista)

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