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1. Li esta semana no Facebook um anúncio que me deixou a pensar: uma portuguesa, residente em Cascais, anda à procura de uma “estudante” ou “profissional” para “housekeeping e babysitting” a partir das 18 horas, aos dias da semana, e aos sábados de manhã. Oferece, em contrapartida, um “bom” quarto “com WC”. Assim, sem mais – não há salário, dá-se apenas uma cama com roupa que a interessada ao cargo tem de lavar e passar a ferro.
Os comentários a este anúncio multiplicaram-se rapidamente e é nisto que as redes sociais são um instrumento interessante para se compreender o mundo através de quem vive nele. Não falta gente a achar que a proposta é uma excelente ideia, embora não esteja disposto a aceitá-la: a mulher de Cascais, que quer ter alguém que lhe tome conta dos filhos no período mais chato do dia e o jantar pronto à espera em casa, fica com o problema resolvido a custo zero. É gente que acha mesmo que a proposta é bonita do ponto de vista social, é uma ideia solidária, por se estar a dar a uma “estudante” ou “profissional” a possibilidade de ter um quarto onde dormir. Menos são aqueles que consideram que este tipo de anúncio representa um retrocesso.
Foi a isto que chegámos em países onde era suposto termos evoluído: no tempo dos nossos avós era normal os pais pobres entregarem as miúdas pobres às famílias com quartos vagos (na altura sem WC), às famílias ricas onde havia quartos e muitas crianças para tratar. Eram criadas a troco de quase nada – uma cama, comida, uns trapos para se vestirem. Era assim nos tempos dos nossos avós; é assim que hoje as coisas continuam a funcionar, nalgumas cabeças que acham bem que ao trabalho não corresponda um salário. Mais vale um quarto que nada; mais vale um quarto do que não ter onde dormir. Estranha ideia de generosidade.
 
2. Esta semana entrevistei um grego, numa conversa ao telefone, um grego que não conheço. O objectivo era saber como é que acompanha a embrulhada europeia em que o país dele – de onde saiu há 11 anos – está envolvido. Este grego que perdeu a esperança de um dia voltar a casa, à semelhança de muitos portugueses expatriados, falou-me da falta de investimento do país, dos salários que hoje se praticam e que são um quinto dos de antigamente, dos salários que hoje se oferecem e que não se podem recusar, porque pouco é melhor do que nada. Mais vale um quarto do que não ter onde dormir.
O meu entrevistado grego não é especialista em finanças. O meu entrevistado grego é da Grécia e tem amigos gregos e conhece o passado do país e o presente e sabe que as coisas não podem continuar assim, que não é com esmolas que o mundo evolui, que há alturas em que pouco não é melhor do que nada, porque pouco não vai resolver coisa alguma.
A Grécia vive dias difíceis naquela Europa que se inventou, apoiada num sistema financeiro que não existe. Temos especialistas em finanças e em política e em economia aos molhos, farto-me de ler que os gregos têm de pagar as dívidas, os portugueses também, como se todos os gregos e todos os portugueses tivessem culpa do estranho ordenamento em que o mundo se encontra, como se todos os gregos e todos os portugueses fossem culpados por tudo aquilo que está a acontecer.
No meio de tudo isto, temos uma Europa preocupada com o eleitorado que representa – com os vários eleitorados que representa, e aqui está um dos grandes problemas –, porque há eleições à porta e povos descontentes com a ajuda que se deu aos pobres, é melhor um quarto do que nada, o importante é que tenham onde dormir, vejam lá a generosidade, mais vale uns metros quadrados com WC do que nada.
Este mundo feito de economias e de empréstimos e de negociatas entre políticos tem de ser reinventado rapidamente. Assim não se vai lá.

Temos uma Europa preocupada com o eleitorado que representa, porque há eleições à porta e povos descontentes com a ajuda que se deu aos pobres, é melhor um quarto do que nada, o importante é que tenham onde dormir, vejam lá a generosidade, mais vale uns metros quadrados com WC do que nada


 
3. Em Macau está tudo bem por enquanto, apesar de a bolha na China estar aí quase a rebentar, numa demonstração de que aquilo que o resto do mundo foi experimentando no passado não tem grande interesse nas decisões do país que quer ser grande, maior do que já é, o maior de todos. Mas por aqui tudo bem – a vida faz-se ao ritmo de sempre, com os tiques de sempre, com as figuras de sempre.
Desde que cheguei a Macau que, na minha condição de jornalista, vou a conferências de imprensa na Assembleia Legislativa. Acontecem depois das reuniões das comissões, têm o presidente da comissão em causa como protagonista, e são feitas à hora que calha, ou seja, quando as reuniões acabam. Os deputados saem, os jornalistas entram, 10 minutos de conversa e a coisa está feita. Nos últimos tempos – sobretudo desde que tomou posse o actual Governo –, criou-se o hábito de, em reuniões em que estão presentes representantes do Executivo, estes falarem à porta, antes das declarações do presidente da comissão, que espera confortavelmente sentado na sala pelos jornalistas que estão a trabalhar.
Esta semana, tive a oportunidade de assistir a um momento invulgar: depois de quase três horas a aguardar que uma reunião terminasse, e enquanto ouvíamos o representante do Governo que tinha acabado de sair do encontro com os deputados, o presidente da comissão em causa deu de frosques. Era quase uma da tarde, a fome aperta, os jornalistas que ali estiveram quase três horas à espera que a reunião acabasse que voltassem em melhor oportunidade. Disseram-me que não era a primeira vez que tal acontecia, que Chan Chak Mo já teve outro momento de iguais pressas.
O maior desrespeito do deputado não é pelos jornalistas – é pela Assembleia de que faz parte e pela população que os órgãos de comunicação social informam. Mas Macau é assim, as coisas aqui nunca são realmente importantes, as pessoas aqui nunca são realmente importantes, tudo passa, tudo fica bem e para a semana há mais. Há sempre mais.
 
 

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