Difícil de compreender

Uma das coisas mais difíceis de compreender é o talento. Com apenas 13 anos de idade, e sem nunca ter tocado nenhum instrumento ou ter músicos na família – o pai não distinguia o som de uma guitarra do de um órgão –, em apenas um mês de contacto com uma guitarra eléctrica, Gastão (Gas) tocava vários standards da música rock. Ao fim de seis meses tocava numa banda com uma acuidade impressionante. Saltava o muro da casa dele para a minha e passava horas a tocar no estúdio. Em um ano tocava guitarra melhor do que eu hei-de tocar em várias vidas. Atentava em detalhes que escapam à maioria, distinguia sons num disco que poucos conseguiam. O pai não só não punha obstáculos, como ainda estimulava, comprando-lhe o melhor material possível, pois felizmente o dinheiro não era um problema naquela casa. Ao Gas só lhe interessava o rock, mais nada. Por vezes, aparecia-me em casa e tocava um tema de jazz que tinha ouvido na rádio ou visto num vídeo, ou ainda um samba no violão, mas era apenas uma forma de mostrar-me que podia tocar outros estilos musicais, se quisesse. E podia.

Fui vê-lo tocar apenas duas vezes num bar: o seu primeiro show, pois era um marco na sua vida e ele fazia questão que eu fosse assistir; e depois, passados dois anos de ter iniciado a sua relação com a guitarra, quando inaugurava a sua banda de originais. As músicas eram todas compostas em parceria com o vocalista. A melodia da voz e as letras eram do Maurício (o Mau) e os arranjos dele. Tinham ambos 15 anos, estudavam juntos no mesmo liceu e, aliado ao enorme talento que tinham, viam o futuro mais brilhante que a luz de um verão de Floripa. Quando sai de Florianópolis, faltava-lhe um ano para acabar o liceu. No final iria para Boston, estudar guitarra e composição em Berklee, seguindo os passos dos seus ídolos, a banda Dream Theater. E assim foi, soube-o depois. Há um ano vi no youtube um vídeo dele, onde tocava jazz com o guitarrista e compositor Matthew Stevens, que foi durante algum tempo o maestro de Christian Scott e de Esperanza Spalding. Fiquei surpreso, mas não tanto. Já vi muitos guitarristas, ao crescerem, mudarem do rock para o jazz.

Mas se o talento é uma das coisas mais difíceis de compreender, a razão porque acontece a uns e não a outros, e como se desenvolve de forma tão perfeita como uma flor a despontar, outra também muito difícil de compreender é o mau tempo que se abate sobre o humano, em forma de depressão e de más decisões. Na semana passada soube por um amigo comum que o Gas se tinha suicidado, com 24 anos acabados de fazer. Desde que o conheci nunca teve falta de dinheiro, nem de futuro, nem de amor. Provavelmente do que sempre teve falta foi dele mesmo, e a juventude e o rock de algum modo foram escondendo essa falta. O Mau, que continua a cantar, numa banda em Sampa, ao lamentar a morte do amigo publicamente, escreveu no mural do Facebook: Deus dá e Deus tira. Ou isso ou outra coisa qualquer, desde que seja incompreensível, como fazer um filho, escrever um livro, compor uma música… Gas viveu 12 anos, desde o dia em que pôs as mãos nas seis cordas da guitarra até ao dia em que as pôs na corda onde pendurou a vida.

23 Mai 2019

Talento

Como encontrar um unicórnio a cavalgar pelas ruas dos Iao Hon. Em Macau, terra mitológica de alegorias e quimeras, criou-se uma lenda fantástica em torno da figura do talento e da sua gambozínica busca. O conceito baseia-se na aspiração idiota trazida dos confins egomaníacos da reality tv, essa quase religião que professa o Evangelho de Narciso, essa umbilical noção de que todos somos especiais, que ninguém é banal, que todos temos uma aptidão fantástica só pelo simples motivo de estarmos vivos. Todos temos a natural inclinação para superar o outro todo que não somos numa área ainda por descobrir. Uma preposição impossível e contraditória, mas adiante.

O mundo é uma carnuda maçã pronta para ser mordida com soberba e nós somos o somatório de caninos e incisivos dotados de alienáveis direitos à trinca.

Mas tomando agora a questão por inteiro. Por um lado, a prioridade máxima de Macau é formar talentos locais. Pelo menos, é o que diz quem manda.

O problema começa na formação, porque aí são necessários quadros superiores de fora para delapidar esse diamante em bruto que são os talentos locais, demasiado perfeitos para terem consciência da sua perfeição. Como tal, é tragicamente necessário importar talentos externos. Os problemas adensam-se neste ponto devido à aversão a estrangeiros evidenciada por aqueles que estão cá há uma ou duas gerações. Nativismo light, com raízes ao descoberto.

Dessa forma, e de modo a encontrar um equilíbrio nesta equação de política psiquiátrica, tenta-se atrair talentos repelindo-os previamente. Passo a explicar esta engenhosa lógica. Ao mesmo tempo que se procuram pessoas qualificadas de fora, fazem-se os possíveis para limitar essa importação. Exigem-se limites o número talentos importados e ao tempo que podem permanecer no território.

Perde-se em eficácia e ganha-se em ironia. Importa sublinhar que estamos a falar do centro internacional de coiso e tal e da plataforma para não sei quê. Uma cidade governada por luminárias que, por certo, já viajaram e apreenderam conceitos tais como: não comer, ou meter na boca, animais com cores fluorescentes, não enfiar os dedos nas tomadas de electricidade, ou que cidades vibrantes e cosmopolitas, que vingam em termos socioeconómicos, são, sem excepção, abertas ao exterior e à diversidade, não são temerosas quanto à competitividade, muito pelo contrário, aceitam a competição como imperativo essencial à excelência.

Esta é a minha interpretação das coisas, uma visão enviesada e desprovida de talento, carne fraca para o canhão de Simon Cowell.

Mas agora permitam-me o desabafo libertador. Eu não tenho qualquer tipo de talento, não sou especial. Sou a expressão mais ordinária do ser mediano, limito-me a cumprir as minhas funções o melhor que posso, procuro melhorar a cada dia e a corrigir as falhas que me constituem. Repitam comigo: EU NÃO SOU ESPECIAL! É óptimo, catártico, um grito primordial que expressa a posição infinitesimal que ocupamos neste universo de elementos e forças que se estão a cagar para nós. Libertem-se das amarras desse mudo de espelhos, parem com vãs tentativas de mascarar imperfeições com ideais inatingíveis, infantis, destinadas a criar privilégios infundados e egos frágeis. Para bem dos poucos potenciais talentos.

Nem todos atletas merecem ganhar a medalha de ouro, isto sob pena de a medalha perder todo o valor e simbolismo. Urge salvar o que resta dos conceitos de vitória e mérito, para que signifiquem algo, muitos vão ter de perder. Lamento, a vida é assim, dura e implacável, indiferente ao orgulho, adversa ao pedantismo.

Só quando nos libertarmos desta amarra psico-política poderemos viver na realidade. Raramente teremos o privilégio de avistar unicórnios fantásticos a cavalgar livres pelas ruas do Iao Hon. Receio que com a mentalidade reinante, essas criaturas únicas sejam abatidas pela virulência do tribalismo de dois dígitos de QI, ou atropelados por um taxista com a cabeça cheia de gelo.

25 Fev 2019