Palmas para o Palma

Só por existir

Só por duvidar

Tenho duas almas em guerra

E sei que nenhuma vai ganhar
Só por ter dois sóis

Só por hesitar

Fiz a cama na encruzilhada

E chamei casa a esse lugar
E anda sempre alguém por lá

Junto à tempestade

Onde os pés não têm chão

E as mãos perdem a razão
Só por inventar

Só por destruir

Tenho as chaves do céu e do inferno

E deixo o tempo decidir
E anda sempre alguém por lá

Junto à tempestade

Onde os pés não têm chão

E as mãos perdem a razão
Só por existir

Só por duvidar

Tenho duas almas em guerra

E sei que nenhuma vai ganhar

Eu sei que nenhuma vai ganhar

Emigrei. Numa estação do Metro de Paris, vi um jovem só a tocar guitarra e a cantar. Só. A cara não me era estranha. Durante a recruta do serviço militar pareceu-me que tinha conhecido aquele despenteado, que cantava e tocava tão bem. Cantava o amor, o protesto, o sentimento alheio, a solidão, a pobreza, a prepotência, em suma um conjunto de melodias que cativavam porque todas tinham um poema que caía fundo nos corações de quem o ouvia. Quando fez um intervalo, meti conversa. Confirmei quem era e demos um abraço.

Era o Jorge Palma, que tinha mandado a tropa e uma possível ida para o Ultramar às urtigas.
Veio o golpe militar do 25 de Abril de 1974 e voltámos a ver-nos. O músico, compositor, poeta e cantor nunca mais parou. Até à passada segunda-feira quando resolveu deixar-nos com as suas muitas canções de sentimento peculiar e de rebeldia. Jorge Palma será eterno para os amantes da música portuguesa, e não só.

Um dia, numa roda de cantores, cineastas e actores, o Jorge Palma recordou aos presentes o português que no Metro de Paris foi comprar uma pizza para o alimentar, depois de horas a cantar ali sentado no chão. Só. Muitos dos presentes ficaram muito meus amigos e quando fui residir para a Guarda, alguns foram lá visitar-me e um realizador de cinema até foi lá fazer umas filmagens. Conversámos horas sobre o Jorge Palma.

O cineasta amigo salientou que a vida de Jorge Palma dava um filme fantástico. Que até a sua condecoração com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique faria parte do filme. Durante a conversa indagámos o êxito da carreira do Jorge. Pontos fulcrais: simplicidade, seriedade, liberdade, genialidade, independência e humildade.

A conversa com o meu interlocutor foi mesmo demorada e participou-me que Palma apenas com oito anos realizou a sua primeira audição no Auditório do Conservatório Nacional; que aos 12 anos foi premiado em Palma de Maiorca com um segundo lugar, com atribuição de uma menção honrosa pelo júri do Festival das Juventudes Musicais; que durante a adolescência a par da sua formação erudita começou a interessar-se pelo rock’n’roll tendo dedicado-se à guitarra e tendo como as suas maiores influências Bob Dylan, Led Zeppelin e Lou Reed; que estudou Engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa ao mesmo tempo que integrou a banda ‘Sindicato’ como teclista e cantor; que na década de 1970 iniciou uma colaboração com Ary dos Santos que o ajudou a aperfeiçoar a escrita poética e a politizar-se; que em 1972 abandonou o curso de Engenharia e resolveu ir até aos Estados Unidos, Canadá e Caraíbas e que em setembro de 1973, o mesmo mês da sua morte, recusou cumprir o serviço militar obrigatório e partiu para a Dinamarca, onde lhe foi concedido asilo político e onde trabalhou como empregado de hotel.

Com o golpe militar de 25 de Abril de 1974, Palma regressou a Portugal e começou a participar nos mais diversos concertos, alguns com José Barata Moura, José Jorge Letria, Fausto Bordalo Dias, Vitorino Salomé e Sérgio Godinho. Nessa fase fez arranjos para fonogramas de Amália Rodrigues, Pedro Barroso, Paco Bandeira, Tonicha e para as bandas Intróito e Maranata.

Em 1975 gravou o primeiro LP, ‘Com uma Viagem na Palma da Mão’, com canções compostas durante o exílio em Copenhaga. Voltou a gravar outro trabalho discográfico, o ‘Té Já’ e o disco tinha significado. Era mesmo um até já porque partiu para o Brasil e regressou à Europa onde durante quatro anos percorreu as ruas de várias cidades espanholas, francesas, italianas e suíças, tendo como estabelecimento principal Paris.

Sempre com a sua guitarra e com a sua voz invulgar, deixava os passeantes surpreendidos pela qualidade das suas melodias. Acontecia que os ouvintes de rua escutavam canções de Charles Aznavour, Léo Ferré, Jacques Brel, Bob Dylan, Leonard Cohen, Simon & Garfunkel, entre tantos outros. Jorge Palma era um génio, um talento para a poesia, composição, interpretação à guitarra ou ao piano.

Em 1979, quando regressou novamente a Portugal começou a gravar discos com canções que ainda hoje estão nos ouvidos dos seus fãs. Existem canções icónicas, tais como ‘Só’, ‘Encosta-te a mim’, ‘Deixa-me rir’, ‘Bairro do Amor’, ‘Dá-me lume’, ’Estou Agarrado a Ti’ e tantas outras.

Jorge Palma nunca ligou nenhuma aos muitos prémios e distinções que ia recebendo ao longo da carreira. E foram muitos. Foi comendador com a Ordem do Infante D. Henrique. A sua simplicidade traduzia-se fundamentalmente no convívio com os amigos, com muito humor pelo meio e muitos, muitos copos. Nunca ouvimos o Palma a falar mal de algum colega das canções, mesmo de alguns que em vez de cantar deviam dedicar-se à pesca. Os seus concertos e as canções que criou são inumeráveis.

Mas, sempre o mesmo homem: pianista, guitarrista, cantor, compositor e poeta de excelência, simples, despenteado e amante de um bom carro descapotável. Jorge Palma deixou-nos na semana passada com uma paragem cardiorrespiratória tendo apenas 76 anos de idade. Não sabemos se teve alguma interferência mas o Jorge fumava muito, demasiado.

Palma ainda arranjou tempo na sua carreira para ir duas vezes a Macau e deslocar-se a Timor-Leste na companhia de Fernando Tordo e onde actuaram para o povo timorense. Temos de salientar que Jorge Palma teve uma grande satisfação em receber em 2002 o Prémio José Afonso, distinção da Câmara Municipal da Amadora.

A última actuação de Jorge Palma, a que assistimos, foi em 2024, espectáculo ‘3 Palmas na Mão’, acompanhado pelos seus dois filhos, Vicente e Francisco Palma. Fenomenal. Terminamos com a palavra saudade. Já temos saudades de Jorge Palma e resta-nos dispensar uma grande salva de palmas para o Palma.

29 Set 2026

Óbito | Jorge Palma morreu aos 76 anos vítima de paragem cardiorrespiratória

Jorge Palma, um dos mais importantes músicos portugueses, morreu na noite de segunda-feira vítima de paragem cardiorrespiratória. Deixa êxitos que marcaram gerações, como “Frágil”, “Bairro do Amor” ou “Dá-me Lume”. O músico actuou duas vezes em Macau, nos anos 90 e em 2015

O músico Jorge Palma, que morreu na noite de segunda-feira, aos 76 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória, trocou a música clássica pelo rock no início da adolescência, acabando por se tornar num dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea.

Nascido em Lisboa, em 1950, Jorge Palma começou aos seis anos a ter aulas de música, tendo ingressado no Conservatório de Música de Lisboa aos 10. Embora as aulas tenham começado bem cedo, Jorge Palma começou a tocar antes disso, em casa, onde havia um piano.

“Era o meu brinquedo. Tinha bom ouvido e as coisas que ouvia na rádio e no gira-discos reproduzia-as no piano. Tinha jeito para aquilo e as pessoas repararam, a começar pela minha mãe, que também tinha estudado piano. Daí ter-me posto a estudar aos seis anos”, partilhou numa entrevista, publicada em 2024 no jornal digital “Mensagem” de Lisboa.

Em 1963, ficou em segundo lugar num concurso internacional de piano, no Festival Juventudes Musicais, em Palma de Maiorca, Espanha, onde foi também distinguido com uma Menção Honrosa.

Embora a sua carreira comece a ser contada em 1972, ano em que gravou o primeiro ‘single’ em nome próprio, o percurso na música começou oito anos antes, aos 14 anos, quando abandonou a música clássica para se dedicar ao pop-rock.

Na altura, o que o movia “eram miúdas, festa, aquelas coisas”. No liceu, começou “a ouvir a pop rock, a começar por [Elvis] Presley, mas sobretudo [The] Beatles e [The Rolling] Stones”. “Aí abandonei completamente os estudos clássicos, chumbei no Liceu Camões, no 4.º ano, deixei de ir à ginástica, às aulas de piano”, recordou Jorge Palma, em entrevista à Lusa, em 2022. Após terminar o liceu, entrou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que frequentou durante dois anos, até desistir.

Início sindical

Antes de se apresentar em nome próprio, Jorge Palma fez parte do grupo Sindicato, que tocou na primeira edição do festival de Vilar de Mouros, em 1971, e dos Black Boys. Na mesma época, começou a trabalhar em composição, orquestração e gravação.

Em 1972, gravou “The Nine Billion Names of God”, o primeiro ‘single’ em nome próprio, cujo pagamento recebeu em electrodomésticos. O título do tema foi retirado de um conto de Arthur C. Clarke e inspirado no livro “O Despertar dos Mágicos”, de Louis Pauwels e Jacques Bergier.

“Gostei muito desse conto, ‘The Nine Billion Names of God’, que é um conto pequeno em que há um confronto entre a mística, o espiritualismo dos monges tibetanos, e os computadores do mundo ocidental. E consegui, num inglês ainda académico, fazer uma canção que não está nada mal feita. Tinha eu nessa altura 22 anos”, contou ao jornal Público, em 2022.

Quando quis gravar “The Nine Billion Names of God” e o lado B do ‘single’, “Come, Morpheus”, Jorge Palma foi ter com “o grande músico e maestro” Thilo Krasmann, que o gravou, cedendo espaço de estúdio para que gravasse a maquete, de piano e voz, mas “não pertencia a nenhuma editora”, recordou em entrevista à Lusa em 2022.

O músico foi então “bater à porta da Arnaldo Trindade, cujo director era o Carlos Cruz, que ouviu, achou piada e disse: ‘Nós pagamos-te a gravação e fazemos a gravação’”. O pagamento chegou na forma de “uma máquina de lavar roupa e um frigorífico”.

“O Arnaldo Trindade [1934-2024] tinha um negócio de electrodomésticos”, explicou Jorge Palma, lembrando que, naquela altura, tinha acabado de se casar com a primeira mulher.

A saída da ditadura

Pouco depois, em 1973, foi convocado para o serviço militar, mas decidiu abandonar o país e instalar-se na Dinamarca. Antes de partir, leiloou ‘o pagamento’ que recebeu pelo primeiro ‘single’ entre os amigos.

“Consegui licença militar para sair 15 dias antes de entrar para a tropa. Quando obtive essa licença, em Setúbal, saí aos saltos cá para fora. Quem me tivesse visto deveria ter pensado que eu era maluco. Cheguei ao aeroporto com um bilhete para Londres, e de Londres viajei para Copenhaga”, lê-se na biografia oficial de Jorge Palma, “Na Palma da Mão”, da autoria de Pedro Teixeira.

No mesmo livro conta-se que, em Copenhaga, Jorge Palma trabalhou num hotel onde desempenhou tarefas na manutenção e lavagem dos elevadores e na limpeza dos quartos, entre outras.

Em 1974, regressa a Portugal, após o 25 de Abril, começa a trabalhar como orquestrador e, no ano seguinte, edita o primeiro álbum, “Como uma viagem na palma da mão”, criado numa altura em que o músico estava “muito influenciado pelo rock sinfónico, Genesis, Yes, etc.”.

“Foi sob essa influência que escrevi as canções desse álbum. Somos só três instrumentistas: Vítor Mamede na bateria, que veio do meu grupo Sindicato, Rui Cardoso, sopro, flautas e ‘saxes’, e eu toquei tudo o que era teclas, baixo, as guitarras todas. Fomos só três pessoas a fazer aquele ‘sonzão’, com a voz muito fininha, novinho”, recordou em entrevista à Lusa, em 2022.

Ainda na década de 1970, troca Lisboa por Paris, onde toca nas ruas e no metro, cantando sobretudo Bob Dylan, Paul Simon, James Taylor, Crosby, Stills and Nash e ‘bluegrass’.

Depois de “Como uma viagem na palma da mão” gravou mais 13 álbuns de originais, e “cada um corresponde a um momento” da vida de Jorge Palma. “Com quem me dava, com quem vivia, o tipo de vida que levava, o que ouvia e lia, tudo isso torna cada disco único”, disse à Lusa na mesma ocasião.

A chegada de “Só”

Na década de 1980, de volta a Lisboa, retoma os estudos de piano no conservatório, que terminou em 1990. Logo a seguir, grava “Só”, editado em 1991, a primeira colectânea de carreira de Jorge Palma, na qual revisita, apenas ao piano, canções dos discos das duas décadas anteriores.

Jorge Palma tinha 40 anos quando gravou as 15 canções de “Só”, nos antigos estúdios da Valentim de Carvalho. “É um disco intimista, é um ambiente íntimo que reflecte de facto o que aconteceu na escuridão daquele enorme estúdio. Reflecte-se que há uma entrega grande, que há um empenho”, referiu em entrevista à Lusa em 2016.

Do alinhamento fazem parte, por exemplo, “Bairro do amor” (1977), “Na terra dos sonhos” (1980), “O meu amor existe” (1982), “Estrela do mar” (1984), “Deixa-me rir” (1985) e “Frágil” (1989).

Na altura, “a editora não estava muito abonada para um artista como eu que não é um grande vendedor de discos”, recordou. Deram-lhe a possibilidade de gravar piano e voz, e 30 anos depois ainda era abordado por pessoas que lhe elogiavam o disco.

Depois de “Só”, Jorge Palma passou o resto dos anos 1990 com a discografia que tinha, avançou com o Palma’s Gang (banda com Zé Pedro e Kalu, dos Xutos & Pontapés, e Flak e Alex Cortez dos Rádio Macau), fez música para teatro, fez parte do grupo Rio Grande, compôs para outros, até editar um novo álbum de originais, “É proibido fumar”, em 2001.

Seguiram-se “Norte” (2004), “Voo nocturno” (2007) e “Com todo o respeito” (2011). O álbum mais recente, o derradeiro, “Vida”, foi editado em 2023.

Em Maio de 2025 estreou o espectáculo “3 palmas na mão”, no qual se apresentava em palco com os dois filhos, Vicente Palma, nascido em 1983, e Francisco Palma, nascido em 1995. O título do espectáculo começou por ser o nome do grupo de Jorge Palma e filhos na plataforma Whatsapp, antes de se transformar numa canção incluída no álbum “Vida” e ganhar depois a forma de um concerto.

Vicente Palma faz parte da banda que acompanha o pai há cerca de 20 anos. Sobre os filhos, Jorge Palma disse, numa entrevista ao Mensagem de Lisboa, em 2024, que “têm vozes muito fixes, são muito afinados: o Vicente mais piano do que guitarra, o Francisco mais guitarra do que piano. Escrevi o ‘Três Palmas na Mão’, que em estúdio fomos nós três a tocar, cada um com a sua guitarra, guitarras e voz”.

Jorge Palma venceu o Prémio José Afonso, em 2002, com “Jorge Palma”, e a primeira edição do Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2012, com o álbum “Com todo o respeito”.

Em 2020, Jorge Palma recebeu a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Lisboa, no final de um concerto de celebração dos seus 70 anos, e foi condecorado pelo então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em Abril de 2026, foi distinguido com o Prémio Carreira dos 8.º PLAY – Prémios da Música Portuguesa.

Jorge Palma actuou em Macau por duas vezes: em 1990, no Teatro D. Pedro V, e em 2015, por ocasião das celebrações do 25 de Abril. Jorge Palma actuou num trio composto pelo filho Vicente Palma (guitarra, piano e voz), e Gabriel Gomes (ex-Madredeus e ex-Sétima Legião, no acordeão).

Políticos destacam legado de Jorge Palma

A morte de Jorge Palma foi lamentada por vários políticos portugueses, nomeadamente o primeiro-ministro, Luís Montenegro, que escreveu na rede social X, que “Jorge Palma parte, mas a sua música fica”. “Fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações. Fica, sobretudo, na cultura portuguesa, que ajudou a transformar com a sua voz única e músicas intemporais. Em meu nome e em nome do Governo, deixo à família e aos amigos as mais sentidas condolências”, destacou.

Também Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, falou num “dia triste – muito triste – para a música portuguesa e, claro, para todos os que o amavam”. Na sua página na rede social X, Paulo Rangel escreve que, perante a morte do cantor e compositor, “ficam a voz, os poemas e o carisma”.

Paulo Rangel abre a mensagem citando uma das canções do músico – “O que eu não vivi, hei-de inventar contigo” -, e termina-a garantindo: “O que ele já não vai viver, vamos nós agora inventar com ele”.

Já a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, agradeceu o legado do músico, considerando-o um “cantautor extraordinário”. Numa publicação na rede social X, Margarida Balseiro Lopes considerou o autor de temas como “Frágil”, “Dá-me Lume” ou “Bairro do Amor” uma das vozes mais icónicas da música portuguesa das últimas décadas e endereçou “sentidas condolências” à família e amigos.

23 Set 2026

Concerto | Diiv ao vivo em Hong Kong daqui a um mês

[dropcap style≠’circle’]C[/dropcap]om dois discos aclamados pela crítica na bagagem aclamados, os norte-americanos Diiv tocam na região vizinha no dia 14 de Setembro. O concerto, que terá na primeira parte a banda local Phoon, realiza-se em Kowloon na sala Kitec

Os Diiv foram apelidados como a grande esperança do rock sujo que tem as suas raízes entre bandas históricas como os Nirvana ou os Sonic Youth. Mas o conjunto de Brooklyn vai mais além do que as suas visíveis influências, que não se esgotam nestas duas bandas, tendo conseguido demarcar a sua sonoridade e marca identitária. A banda é liderada, e confunde-se com o seu guitarrista/vocalista, Zachary Cole Smith, o principal compositor e mentor do grupo.

No ano passado editaram o segundo e muito aguardado disco, “Is the Is Are”, depois de um hiato de quatro anos após o lançamento do registo de estreia “Oshin”. Ambos os álbuns mereceram aplausos da crítica, que quase em uníssono pegaram não só na música da banda, mas também na imagem do seu vocalista. Cole Smith é considerado por uma parte da crítica que gosta de estabelecer paralelismos como o sucessor natural de Kurt Cobain. As comparações agravaram-se depois do músico ter sido apanhado pela polícia na posse de uma quantidade considerável de heroína. Cole Smith estava acompanhado pela namorada, a modelo/actriz/cantora Sky Ferreira, levando a óbvias equiparações com trágicos casais do rock como Kurt Cobain e Courtney Love, ou Sid Vicious e Nancy Spungen. Pareciam destinados a seguir a rota decadente dos seus predecessores. Além disso, o caso trouxe ainda sérias dúvidas se o novo disco iria mesmo sair.

Vento a abrir

Assim que chegaram aos escaparates com três singles publicados online, “Sometime”, “Human” e “Geist”, mereceram a atenção das melhores publicações dedicadas à música alternativa, como a Pitchfork ou a Stereogum. Aí deu-se um contratempo identitário com a banda de Zachary Cole Smith que ainda teve de mudar de nome, uma vez que Dive já estava tomado. Assim nasciam os Diiv, que começaram a agarrar algum público com o lançamento do single “Doused”, popularizado em Portugal por musicar uma campanha publicitária de uma conhecida empresa de telecomunicações.

“Doused” é uma música que espelha bem a sonoridade da banda norte-americana, com um baixo pulsante, muito ritmado e guitarras carregadas de delay sempre prestes a irromper em solos. Os Diiv são difíceis de catalogar, com diversas influentes dentro do espectro do rock alternativo, vão buscar inspiração ao psicadelismo e outras às paisagens sonoras mais típicas do shoegaze. O seu mais recente disco mostra alguma maturidade, remetendo o ouvinte para um imersão completa num somatório que traz o melhor das últimas quatro décadas de música movida a guitarras. Foi assim que chegamos a “Is the Is Are”, que mal saiu mereceu um lugar de destaque entre os melhores discos do ano passado.

Desde então, a banda tem andado em tour a promover o seu segundo registo, até que chega ao território vizinho no dia 14 de Setembro para um concerto na Music Zone @ E-Max do centro Kitec, que abre as portas ao público a partir das 20h.

A primeira parte estará a cargo da banda local Phoon. Com assumida inspiração indie rock, o grupo de Hong Kong inspirou-se nos ventos que assolam a região e partiu da tradução inglesa da palavra “tufão”.

Este concerto serve bem de aperitivo para o festival Clockenflap, para o qual os espectadores ainda terão de esperar até Novembro.

14 Ago 2017