Ai Portugal VozesPalmas para o Palma André Namora - 29 Set 2026 Só por existir Só por duvidar Tenho duas almas em guerra E sei que nenhuma vai ganhar Só por ter dois sóis Só por hesitar Fiz a cama na encruzilhada E chamei casa a esse lugar E anda sempre alguém por lá Junto à tempestade Onde os pés não têm chão E as mãos perdem a razão Só por inventar Só por destruir Tenho as chaves do céu e do inferno E deixo o tempo decidir E anda sempre alguém por lá Junto à tempestade Onde os pés não têm chão E as mãos perdem a razão Só por existir Só por duvidar Tenho duas almas em guerra E sei que nenhuma vai ganhar Eu sei que nenhuma vai ganhar Emigrei. Numa estação do Metro de Paris, vi um jovem só a tocar guitarra e a cantar. Só. A cara não me era estranha. Durante a recruta do serviço militar pareceu-me que tinha conhecido aquele despenteado, que cantava e tocava tão bem. Cantava o amor, o protesto, o sentimento alheio, a solidão, a pobreza, a prepotência, em suma um conjunto de melodias que cativavam porque todas tinham um poema que caía fundo nos corações de quem o ouvia. Quando fez um intervalo, meti conversa. Confirmei quem era e demos um abraço. Era o Jorge Palma, que tinha mandado a tropa e uma possível ida para o Ultramar às urtigas. Veio o golpe militar do 25 de Abril de 1974 e voltámos a ver-nos. O músico, compositor, poeta e cantor nunca mais parou. Até à passada segunda-feira quando resolveu deixar-nos com as suas muitas canções de sentimento peculiar e de rebeldia. Jorge Palma será eterno para os amantes da música portuguesa, e não só. Um dia, numa roda de cantores, cineastas e actores, o Jorge Palma recordou aos presentes o português que no Metro de Paris foi comprar uma pizza para o alimentar, depois de horas a cantar ali sentado no chão. Só. Muitos dos presentes ficaram muito meus amigos e quando fui residir para a Guarda, alguns foram lá visitar-me e um realizador de cinema até foi lá fazer umas filmagens. Conversámos horas sobre o Jorge Palma. O cineasta amigo salientou que a vida de Jorge Palma dava um filme fantástico. Que até a sua condecoração com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique faria parte do filme. Durante a conversa indagámos o êxito da carreira do Jorge. Pontos fulcrais: simplicidade, seriedade, liberdade, genialidade, independência e humildade. A conversa com o meu interlocutor foi mesmo demorada e participou-me que Palma apenas com oito anos realizou a sua primeira audição no Auditório do Conservatório Nacional; que aos 12 anos foi premiado em Palma de Maiorca com um segundo lugar, com atribuição de uma menção honrosa pelo júri do Festival das Juventudes Musicais; que durante a adolescência a par da sua formação erudita começou a interessar-se pelo rock’n’roll tendo dedicado-se à guitarra e tendo como as suas maiores influências Bob Dylan, Led Zeppelin e Lou Reed; que estudou Engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa ao mesmo tempo que integrou a banda ‘Sindicato’ como teclista e cantor; que na década de 1970 iniciou uma colaboração com Ary dos Santos que o ajudou a aperfeiçoar a escrita poética e a politizar-se; que em 1972 abandonou o curso de Engenharia e resolveu ir até aos Estados Unidos, Canadá e Caraíbas e que em setembro de 1973, o mesmo mês da sua morte, recusou cumprir o serviço militar obrigatório e partiu para a Dinamarca, onde lhe foi concedido asilo político e onde trabalhou como empregado de hotel. Com o golpe militar de 25 de Abril de 1974, Palma regressou a Portugal e começou a participar nos mais diversos concertos, alguns com José Barata Moura, José Jorge Letria, Fausto Bordalo Dias, Vitorino Salomé e Sérgio Godinho. Nessa fase fez arranjos para fonogramas de Amália Rodrigues, Pedro Barroso, Paco Bandeira, Tonicha e para as bandas Intróito e Maranata. Em 1975 gravou o primeiro LP, ‘Com uma Viagem na Palma da Mão’, com canções compostas durante o exílio em Copenhaga. Voltou a gravar outro trabalho discográfico, o ‘Té Já’ e o disco tinha significado. Era mesmo um até já porque partiu para o Brasil e regressou à Europa onde durante quatro anos percorreu as ruas de várias cidades espanholas, francesas, italianas e suíças, tendo como estabelecimento principal Paris. Sempre com a sua guitarra e com a sua voz invulgar, deixava os passeantes surpreendidos pela qualidade das suas melodias. Acontecia que os ouvintes de rua escutavam canções de Charles Aznavour, Léo Ferré, Jacques Brel, Bob Dylan, Leonard Cohen, Simon & Garfunkel, entre tantos outros. Jorge Palma era um génio, um talento para a poesia, composição, interpretação à guitarra ou ao piano. Em 1979, quando regressou novamente a Portugal começou a gravar discos com canções que ainda hoje estão nos ouvidos dos seus fãs. Existem canções icónicas, tais como ‘Só’, ‘Encosta-te a mim’, ‘Deixa-me rir’, ‘Bairro do Amor’, ‘Dá-me lume’, ’Estou Agarrado a Ti’ e tantas outras. Jorge Palma nunca ligou nenhuma aos muitos prémios e distinções que ia recebendo ao longo da carreira. E foram muitos. Foi comendador com a Ordem do Infante D. Henrique. A sua simplicidade traduzia-se fundamentalmente no convívio com os amigos, com muito humor pelo meio e muitos, muitos copos. Nunca ouvimos o Palma a falar mal de algum colega das canções, mesmo de alguns que em vez de cantar deviam dedicar-se à pesca. Os seus concertos e as canções que criou são inumeráveis. Mas, sempre o mesmo homem: pianista, guitarrista, cantor, compositor e poeta de excelência, simples, despenteado e amante de um bom carro descapotável. Jorge Palma deixou-nos na semana passada com uma paragem cardiorrespiratória tendo apenas 76 anos de idade. Não sabemos se teve alguma interferência mas o Jorge fumava muito, demasiado. Palma ainda arranjou tempo na sua carreira para ir duas vezes a Macau e deslocar-se a Timor-Leste na companhia de Fernando Tordo e onde actuaram para o povo timorense. Temos de salientar que Jorge Palma teve uma grande satisfação em receber em 2002 o Prémio José Afonso, distinção da Câmara Municipal da Amadora. A última actuação de Jorge Palma, a que assistimos, foi em 2024, espectáculo ‘3 Palmas na Mão’, acompanhado pelos seus dois filhos, Vicente e Francisco Palma. Fenomenal. Terminamos com a palavra saudade. Já temos saudades de Jorge Palma e resta-nos dispensar uma grande salva de palmas para o Palma.