ONU | Direitos humanos sob ataque em grande escala

Os direitos humanos “estão sob ataque em grande escala em todo o mundo”, levado a cabo “por aqueles que detêm o maior poder” e, por vezes, até “com orgulho”, denunciou ontem o secretário-geral das Nações Unidas.

“O Estado de direito está a ser substituído pelo Estado de força. E este ataque não vem das sombras nem é uma surpresa. Está a acontecer à vista de todos e, muitas vezes, liderado por aqueles que detêm o maior poder. Em todo o mundo, os direitos humanos estão a ser deliberada e estrategicamente reprimidos, e, por vezes, com orgulho”, declarou Guterres, intervindo, em Genebra, na sessão de abertura da 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

O secretário-geral advertiu que as consequências deste ataque “são devastadoras”, apontando que as pessoas sofram assim “duas vezes: primeiro com a violência, a opressão ou a exclusão, e, depois, novamente com a indiferença do mundo”.

“Vivemos num mundo onde o sofrimento em massa é ignorado, onde os seres humanos são usados como moeda de troca, onde o direito internacional é tratado como um mero inconveniente. Os conflitos multiplicam-se e a impunidade tornou-se contagiosa. Isso não se deve à falta de conhecimento, ferramentas ou instituições. É o resultado de escolhas políticas”, deplorou o antigo primeiro-ministro português.

Segundo António Guterres, “esta crise de respeito pelos direitos humanos não é um caso isolado” e “reflecte e amplia todas as outras fraturas globais”, já que “as necessidades humanitárias estão a explodir, enquanto o financiamento entra em colapso”, “as desigualdades estão a aumentar a uma velocidade impressionante, os países estão a afogar-se em dívidas e desespero, e o caos climático está a acelerar”.

O líder das Nações Unidas sublinhou também que “a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, está a ser cada vez mais utilizada de formas que suprimem direitos, aprofundam a desigualdade e expõem pessoas marginalizadas a novas formas de discriminação, tanto online como offline”.

“Em todas as frentes, aqueles que já são vulneráveis estão a ser empurrados ainda mais para as margens. E os defensores dos direitos humanos estão entre os primeiros a serem silenciados quando tentam alertar-nos”, lamentou, reforçando que, “nesta ofensiva coordenada, os direitos humanos são as primeiras vítimas”.

Retrato deplorável

Expondo um retrato devastador a nível global, o secretário-geral da ONU apontou que é hoje evidente um “aperto cada vez maior do espaço cívico”, com “jornalistas e activistas presos, ONG [Organizações Não-Governamentais] fechadas, direitos das mulheres em retrocesso, direitos das crianças ignorados, pessoas com deficiência excluídas e democracias em erosão”.

“O direito de reunião pacífica é esmagado – e condeno mais uma vez a recente repressão violenta aos protestos no Irão. Os migrantes são perseguidos, detidos e expulsos, com total desrespeito pelos seus direitos humanos e pela sua humanidade. Os refugiados são transformados em bodes expiatórios. As comunidades LGBTIQ+ são difamadas. As minorias e os povos indígenas são alvo de ataques. As comunidades religiosas são atacadas”, prosseguiu.

Aludindo à sua história pessoal, na última vez que discursou como secretário-geral na abertura de uma sessão do Conselho de Direitos Humanos, apontou que “crescer sob a ditadura de Salazar” lhe ensinou que “a negação dos direitos humanos corrói todos os aspectos da sociedade.

“Quando o Conselho de Segurança está paralisado, quando os vetos servem de escudo político, quando as rivalidades geopolíticas prevalecem sobre a protecção dos civis, o resultado é o mesmo: a impunidade espalha-se, o sofrimento multiplica-se e os direitos humanos são pisoteados”, disse. “Precisamos de um Conselho de Segurança que reflicta o mundo de hoje, não o de 1945”, acrescentou.

24 Fev 2026

Rota das Letras | Filme de Filipa Queiroz conta história de desalojados da Alta de Coimbra

“Salatinas – Histórias da Velha Alta de Coimbra” traz de novo a Macau a jornalista Filipa Queiroz, juntamente com Rafael Vieira e Tiago Cerveira, co-autores do documentário que integra o cartaz do Rota das Letras. O filme conta a história de como, em pleno Estado Novo, cerca de três mil moradores foram expulsos da Alta de Coimbra para permitir a construção da Cidade Universitária

A Cidade Universitária na Alta de Coimbra é um dos pontos turísticos da cidade, oferendo uma paisagem deslumbrante. Porém, apesar da beleza, a história da construção da Cidade Universitária está repleta de sofrimento. No documentário “Salatinas – Histórias da Velha Alta de Coimbra”, Filipa Queiroz, Rafael Vieira e Tiago Cerveira contam a história das pessoas que viviam no local na década de 40 e que se viram subitamente desalojadas e sem um plano B. O filme integra o cartaz do Festival Literário Rota das Letras, que começa no próximo dia 5 de Março.

“Esperamos que, em Macau, a história possa ter impacto em toda a gente e em particular nos tantos conimbricenses que sabemos que residem no território”, contou ao HM Filipa Queiroz, que viveu vários anos em Macau, tendo sido jornalista do HM e da TDM – Teledifusão de Macau.

Está feliz por voltar e por revelar esta história desconhecida para muitos. E deixa os maiores elogios a um festival que viu nascer, há 15 anos. “Acho a programação desta edição do Rota das Letras particularmente corajosa e relevante tendo em conta os contextos de Portugal, de Macau e do mundo neste momento. Fazemos por apresentar o filme onde faz sentido e é precisamente este o caso. É um filme sobre pessoas, mas também sobre poder, resistência, identidade e o preço do progresso – temas que Macau conhece tão bem”, destacou.

Filipa Queiroz teve contacto com a história destas pessoas através de uma reportagem. “O Rafael Vieira colaborava comigo como jornalista, pois dirigia uma publicação em Coimbra [Coimbra Coolectiva] e disse-me que havia ali uma história [interessante], e que queria contar histórias fora da caixa, mais invisíveis, digamos assim.”

Nasceu assim o “Salatinas”, em referência ao nome dado às gentes que viviam na Alta de Coimbra, onde já havia as faculdades de Letras, Direito e a biblioteca. Porém, o Estado Novo desalojou estas pessoas para fazer as construções actualmente existentes. Foram três mil pessoas que deixaram as suas casas, sendo esta “uma das maiores transformações urbanísticas em Portugal, num tempo em que desalojamentos forçados, falta de acesso à habitação e segregação social ainda fazem manchetes”, descreve a sinopse do documentário.

“Salatinas” é, portanto, “uma viagem à memória do bairro histórico varrido do mapa sob o ímpeto renovador do regime e ao burburinho de estudantes, tricanas, merceeiros e alfaiates que se esconde por baixo das faculdades”, acrescenta a mesma sinopse.

Sair depressa

“O que aconteceu foi uma vontade do Governo daquela altura”, diz Filipa Queiroz, para explicar como uma decisão política mudou a vida a tanta gente. “A Universidade de Coimbra andou entre Lisboa e Coimbra durante muitos anos, mas depois ficou instalada em Coimbra e era a única do país, onde estavam os cérebros do país, a elite. Houve então a decisão de que a universidade precisava de crescer e tinha de ser ali. O próprio Salazar tinha estudado ali [Faculdade de Direito], além de que havia um hospital. Não se tratou de uma requalificação, mas destruíram mesmo o que havia para construir por cima.”

O que se seguiu foi uma profunda transformação nas famílias da zona. Muitos nunca recuperaram completamente. “Quando começou a destruição, basicamente o Governo avisou as pessoas que lá moravam de que tinham todas de sair dali. Deram valores às casas [para indemnizações], completamente desproporcionais e muito inferiores ao valor das casas”.

“Há uma pessoa que mencionamos no filme que fazia parte do círculo de Salazar, era médica e uma pessoa ilustre, e conseguiu que a sua casa fosse das últimas a ser retirada, mas mesmo assim foi [desalojada]. Quanto mais pobres e humildes eram as pessoas, mais rapidamente tiveram de sair, com uma mão à frente, outra atrás. Estas pessoas foram atiradas para bairros da cidade, que nem podemos chamar de bairros, porque foi algo improvisado na altura”, conta a co-autora do documentário.

Falamos de zonas com casas “frágeis”. Porém, a precariedade da habitação já vinha de trás. “Foram construídas casinhas que não tinham uma qualidade incrível, mas já as casas na Alta de Coimbra também não tinham, muitas delas. Não havia saneamento básico, aquilo precisava de ser requalificado.”

Uma “identidade própria”

Filipa Queiroz destaca como “a solução foi acabar com tudo, não se valorizando o facto de ser um bairro, e com uma identidade própria, e esta é a questão principal”. O bairro era o Salatina. “Salatinas são as pessoas que trabalhavam ou viviam na Alta da cidade, ou que tinham nascido ali, e que se cruzavam diariamente com a elite estudantil. Essa diversidade tinha uma riqueza muito grande, que acabou por ter efeitos no aspecto cultural, na música, por exemplo”.

Coimbra é terra associada a nomes da música portuguesa, sobretudo de intervenção, como Zeca Afonso e Carlos Paredes, e por entre os “doutores” havia também “os futricas”, ou seja, “as pessoas do povo de Coimbra, mas desses nunca mais ninguém se lembrou”. Filipa Queiroz destaca que “muita gente, inclusive de Coimbra, não sabe o que se passou ali”. “Havia ali uma cidade, uma malha urbana muito concentrada e cheia de gente e de vida, com as fogueiras de São João, eventos culturais, tudo coisas muito identitárias.” Tudo coisas destruídas com a requalificação e expansão da Cidade Universitária.

Filipa Queiroz destaca que nos dias de hoje, e apesar das vivências universitárias, a Alta da cidade deixou de ter a dinâmica que tinha. “Tem aquela arquitectura austera e à noite, não se passa nada.”

“Salatinas” deu voz a um tema pouco falado. “As pessoas estão muito emocionadas e sentem-se muito valorizadas. Tivemos pessoas que foram à estreia [em Coimbra, na zona da Alta] e que nos disseram: ‘Parece que houve aqui uma reparação’. Isto provocou, inclusivamente, a morte de algumas pessoas, porque se suicidaram com o desgosto, porque tiveram de deixar o sítio onde construíram o seu negócio e a sua vida”.

Filipa Queiroz agradece ainda a Ricardo Pinto, director do Rota das Letras, pelo convite feito. “Convidou-nos sabendo apenas a ideia do filme. Isto vai permitir levar os meus colegas a conhecerem, pela primeira vez, este sítio, Macau, que é tão especial para mim.”

Filipa Queiroz quer continuar a contar histórias através de imagens. Tendo feito documentários ligados a Macau, como “Boat People” e “Era uma Vez em Ka-Hó”, a ideia é continuar num género audiovisual tão próximo do jornalismo.

“O documentarismo acrescenta uma camada artística e um tempo que o jornalismo não permite. Sim, gostava de fazer [mais documentários], isso está sempre no meu horizonte. Há sempre desafios, com o financiamento dos trabalhos e o tempo que se pode dedicar a eles, mas sem dúvida que sim, gostava de continuar.”

24 Fev 2026

Património | Histórias das lojas da Rua Cinco de Outubro contadas em livro

Natalie Fu acaba de lançar um livro sobre o comércio tradicional da Rua Cinco de Outubro, a convite da Associação de Estudos de Reinvenção do Património Cultural de Macau. “Macao’s Historical House Taxonomy – The Shophouses at the Rua Cinco de Outubro” conta a história secular de lojas-casa que foram o “coração da comunidade chinesa de Macau”

Acaba de ser editado um livro que revela um pouco da história do comércio feito pela comunidade chinesa na Rua Cinco de Outubro, localizada no Porto Interior, palco de muitas movimentações comerciais ao longo dos séculos. A obra explica também como estas lojas, que, ao mesmo tempo, são casas, revelam detalhes sobre a história de Macau.

“Macao’s Historical House Taxonomy – The Shophouses at the Rua Cinco de Outubro”, da autoria de Natalie Fu, doutoranda na Universidade de São José, surge a convite da Associação de Estudos de Reinvenção do Património Cultural de Macau, cuja edição depende também “do apoio e da assistência de muitas outras pessoas”, contou a autora ao HM. Um dos espaços de venda do livro, que não tem versão em português, é a Pin-to Livros.

“A investigação começou com o amor por Macau e pelos seus edifícios antigos”, revela a autora, que começou o trabalho de investigação em torno destes prédios em 2022, em plena pandemia.

“A Rua de Cinco de Outubro sempre foi uma importante zona comercial em Macau. Outrora, era o coração da comunidade chinesa de Macau. Ainda hoje, muitas lojas antigas permanecem próximas do bairro local. As lojas são edifícios de uso misto”, explica ainda a autora.

Este é o palco da diversidade comercial, uma vez que a Rua Cinco de Outubro “alberga vários negócios, tais como padarias tradicionais chinesas, lojas de medicina chinesa, lojas de chá e lojas de fruta”.
Segundo a apresentação da obra, feita nas redes sociais pela própria associação, este tipo de imóvel constitui “um tipo comum de edifício residencial multifuncional”, onde a “planta dos edifícios é geralmente rectangular, com dois a três pisos”. Normalmente, o piso térreo é usado para a loja ou como armazém, enquanto que os pisos superiores estão reservados para a habitação.

“Este tipo de construção consegue adequar-se ao clima local, apresentando grande flexibilidade nos métodos de construção e nos materiais utilizados. Devido à diversidade dos usos quotidianos, as casas-loja foram outrora o principal tipo de edificação das ruas de Macau, possuindo importante valor histórico, social, cultural, arquitectónico e estético”, lê-se ainda.

Desafios de preservação

Ainda segundo a mesma nota, o livro chama a atenção para a importância de se preservar este tipo de construção e, consequentemente, um símbolo do património local. “Infelizmente, por se tratarem de edifícios de pequena escala e dispersos, e por não estarem plenamente protegidos pela Lei de Protecção do Património de Macau, têm vindo a desaparecer gradualmente com o rápido desenvolvimento da sociedade”, sendo que, actualmente, “apenas um pequeno número destas construções tem a classificação de ‘monumento’ e está protegido”.

Para Natalie Fu, “a preservação das lojas de Macau enfrenta muitos desafios, um dos quais é o facto de não estarem incluídas na lista existente de edifícios antigos protegidos de Macau”, além de que, na sua visão, “as alterações nas leis de construção também dificultaram a manutenção destes edifícios antigos”.

Questionada sobre o futuro desta rua icónica do Porto Interior, a autora reconhece que “o crescimento de uma cidade envolve inevitavelmente a renovação e o desaparecimento de edifícios”, pelo que “determinar quais os edifícios que devem ser preservados e como preservá-los é um desafio a longo prazo”.

Natalie Fu fala mesmo da necessidade de alargar a investigação a mais ruas de Macau que também são zonas de comércio tradicional. “A investigação e documentação das lojas na Rua Cinco de Outubro e em Macau são urgentes, uma vez que o seu número está a diminuir. Além disso, são necessárias investigações académicas adicionais e discussões com a comunidade local para informar a direcção futura da área do Porto Interior.”

Em relação ao panorama na Rua Cinco de Outubro, a autora descreve que se deve apostar na manutenção, mantendo os espaços comerciais abertos. “As lojas que são mantidas em utilização destacam melhor o seu valor social. Tomando como exemplo algumas lojas na Rua Cinco de Outubro, a existência de lojas centenárias enfatiza ainda mais o valor cultural e histórico da área e das lojas. Além disso, ‘mantê-las em uso’ permite a monitorização e manutenção de forma mais imediata, o que constitui a forma mais directa de proteger a arquitectura antiga.”

Uma certa influência

Num território que pautado pela coexistência das culturas portuguesa e chinesa, o livro de Natalie Fu mostra como estas casas sofreram influências de outras culturas. “As arquitecturas chinesa e ocidental em Macau sempre se influenciaram mutuamente ao longo do desenvolvimento histórico, sendo esta característica particularmente visível na aparência das casas-loja.” Desta forma, este livro ajuda a cimentar essa característica, “estabelecendo um sistema de classificação das casas-loja de Macau, consolidando a sua definição arquitectónica”.

Este livro é, portanto, um “estudo classificativo das antigas casas-loja de Macau”, constituindo “o primeiro passo para a sua salvaguarda”, descreve, na mesma nota, a associação que apoiou o projecto editorial e investigação.

“A autora realizou um registo e levantamento detalhados [das lojas], começando por realizar visitas e levantamentos de cartografia na zona do Porto Interior. Foram elaborados mapas de localização das casas-loja existentes nessa rua, fichas de análise com base em trabalho de campo, registos fotográficos e entrevistas aos comerciantes e moradores actuais, de modo a compreender a história do uso de cada edifício.”

Além disso, a obra documenta sete casos em particular, “fornecendo informações sobre a sua história, evolução e utilização actual, bem como uma discussão preliminar sobre possíveis direcções de preservação”. O livro deixa ainda o registo de dois exemplos de casas-loja que já desapareceram. “Espera-se que esta obra incentive mais pessoas a descobrirem a ‘beleza de Macau’. Tendo as casas-loja como tema central, é esperada a promoção do intercâmbio e da discussão entre académicos de diferentes áreas”, aponta ainda a associação.

Natalie Fu convidou “vários especialistas e académicos para partilhar as suas ideias, experiências e sugestões sobre a protecção e o futuro deste tipo de edifícios”, é descrito.

Nascida e criada em Macau, Natalie Fu teve a oportunidade de visitar todo o Sudeste Asiático desde muito jovem, viagens que a levaram a “fomentar uma profunda apreciação e paixão pela arquitectura”. A autora é licenciada em Arquitectura, descrevendo-se também como uma pessoa interessada pela área da conservação do património e uma “estudiosa da arquitectura histórica formada em Macau”.

23 Fev 2026

Diáspora | Defendida maior ligação entre Casa de Macau e Casa de Goa

Decorreu ontem em Lisboa a conferência “Casa de Goa e Casa de Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que analisou o papel de ligação que as entidades podem ter na diáspora goesa e macaense. Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau, destaca a importância de criar pontes com a Casa de Goa pelo “paralelo de representatividade de luso-descendentes”

Que papel podem ter a Casa de Macau e a Casa de Goa, em Lisboa, tendo em conta o desfilar do tempo e os desenvolvimentos trazidos pelas novas gerações das comunidades macaense e goesa? É certo que Macau e Goa há muito deixaram de fazer parte do antigo império português, mas os laços socioculturais permanecem. A pensar nisso, decorreu ontem, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a palestra “Casa de Goa e Casa de Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que procurou traçar respostas para os desafios do futuro.

Ao HM, Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau em Lisboa, declarou que “seria interessante que as pontes entre a Casa de Macau e a Casa de Goa pudessem também ser equacionadas num paralelo da sua representatividade dos luso-descendentes e das culturas mestiçadas”, tendo em conta que as duas entidades “são pilares fundamentais para a representatividade dessas comunidades”.

O responsável, ele próprio macaense, destaca “as similitudes da sua gastronomia, crioulo e festividades” entre as duas comunidades. Seria, assim, “interessante aliar as pequenas representações dos gigantes do mundo asiático, representadas pela simbologia do Dragão e do Elefante, como elementos estruturantes para um diálogo entre Portugal e a Ásia, queiram as vontades políticas e institucionais”.

Na visão de Carlos Piteira, as duas casas “reforçam a herança legitimada do diálogo entre o Ocidente e o Oriente, e as relações seculares de Portugal com estes países, muitas vezes ignorada e esquecida pelos poderes oficiais e institucionais”.

Já Pedro Colaço, da direcção da Casa de Goa, destaca a importância de preservar a memória da presença portuguesa tanto em Goa como nos restantes territórios de Damão e Diu. “Foram 450 anos de história, no caso de Macau foram mais umas décadas, e procuramos acompanhar a actual cultura goesa. Uma das partes mais importantes do nosso trabalho é fazer uma ponte entre Goa e Lisboa, e diariamente contactamos com artistas, músicos e membros da comunidade, é esse o nosso papel”, descreveu ao HM. Pedro Colaço deu o exemplo do concerto que vai decorrer a 8 de Março na Fundação Oriente, em Lisboa, intitulado “Oscar Castellino – Voz de Ópera de Goa e Piano com Rodrigo Ayala”.

De resto, a Casa de Goa, actualmente sem sede própria, procura, tal como a Casa de Macau, atrair novos sócios, sobretudo das novas gerações, a fim de dar continuidade ao projecto, para que a Casa se mantenha “como um polo de união dos goeses e, cada vez mais, dos amigos de Goa”.

Acompanhar a história

A Casa de Macau foi fundada em Lisboa em 1966 e tem acompanhado diversas fases não só da história de Portugal como do relacionamento do país com Macau e a China.

“A existência da Casa de Macau marca, sem dúvida, um paralelo com a própria história de Portugal por mais de 70 anos. Macau foi a ‘pérola do Oriente’ para o Estado Novo e viveu as turbulências do período revolucionário de Abril 1974, adaptando-se e consagrando-se como a ‘ponte entre o Ocidente e Oriente'”. Por fim, depois da transição para a República Popular da China, tem-se assistido à reorganização [de Macau] como território central na ligação, a partir da China, com os países da língua portuguesa.”

Carlos Piteira descreveu ainda que a Casa de Macau tem acompanhado “a história dos tempos, alargando a visão da presença portuguesa neste território”. Além disso, teve uma tarefa “não menos importante”, por ter “cristalizado, protegido e perpetuado a comunidade macaense em Portugal e no mundo”.

Actualmente, a Casa de Macau tem desenvolvido diversas actividades que levam mais sócios à Avenida Gago Coutinho, onde está situada, e cujo edifício foi recentemente alvo de obras de restauro. Todas as quartas-feiras há almoços de comida macaense com a Chef Tina, natural de Macau, decorrendo também sessões de cinema e palestras.

A missão da Casa é, actualmente, “realizar actividades de divulgação de Macau e da cultura macaense”, dando-se “apoio e dinamização de estudos e trabalhos de teor científico sobre Macau, macaenses” e fazendo-se também a “interligação institucional com as demais entidades ligadas a Macau, Portugal e Casas de Macau na diáspora”.

Quem é de Goa e quem não é

Pedro Colaço explicou que a comunidade goesa em Lisboa “tem mais facilidade em falar com a restante diáspora indiana” em Portugal, tendo em conta que, por exemplo, “a ligação é muito antiga” com a comunidade hindu.

“Temos pena que às vezes não se fale mais [da comunidade], ao nível dos meios de comunicação, porque é uma parte importante da história portuguesa”, lamenta o responsável, lembrando figuras bem destacadas no país, como António Costa, que foi primeiro-ministro português, ou Narana Coissoró, antigo presidente da Casa de Goa e ex-deputado do CDS-PP. “Há figuras mais notórias, mas no geral a comunidade goesa inseriu-se muito bem e é conhecida por ser uma comunidade bastante instruída”, lembrou ainda, lamentando que em Portugal não se consiga fazer uma distinção entre comunidades de origem indiana.

“Uma coisa que é preocupante é o desconhecimento que existe em relação às comunidades. Hoje em dia há uma grande pressão devido à imigração e depois mistura-se tudo”, destaca Pedro Colaço, lembrando que há um sentimento forte em ser-se goês, nomeadamente na ligação ao catolicismo e a uma cultura muito própria por oposição a comunidades do Indostão que, actualmente, estão muito presentes em Portugal.

“A comunidade goesa é tão miscigenada que metade da minha família, ou mais, não aparenta ser goesa, mas eu, por acaso, aparento. Há um sentimento de ser goês, algo que nos une. As outras comunidades da diáspora indiana são, muitas vezes, confessionais, têm uma religião associada, enquanto que a comunidade goesa é, na sua maioria, católica, mas cada um vai à sua igreja, está muito espalhada”, apontou.

O futuro é um desafio

Pedro Colaço fala num “futuro desafiante” para a Casa de Goa. “Estou agora no segundo mandato, a direcção mudou de presidente, e uma das coisas que se tem tentado fazer é trazer jovens para os órgãos sociais. Agora temos três ou quatro membros mais novos, abaixo dos 40 anos. Também temos tentado alargar a Casa a não goeses.”

Neste ponto, há semelhanças com a Casa de Macau, que também tem procurado alargar o leque de sócios a chineses ou portugueses que não pertençam à comunidade. Pedro Colaço adianta que, com o passar dos anos, as coisas mudaram.

“Há 30 anos a comunidade era muito grande, mas neste momento, e tal como todas as instituições, temos de nos alargar. Há muitas pessoas que gostam muito de Goa e que sabem muito do território, talvez até mais do que eu, e são esses que têm de ser puxados”, assumiu.

Actualmente, a Casa de Goa tem 500 associados e, mesmo sem sede, procura fazer actividades, nomeadamente em parceria com a Fundação Oriente. É publicado um boletim mensal. Deixaram de ter sede devido às obras do metro em Lisboa, o que tem dificultado a agenda da Casa.

“Estamos no processo de arranjar uma nova sede, e é algo que tem constituído um constrangimento, mas procuramos fazer o máximo de actividades possível e, mensalmente, temos sempre actividades”, rematou Pedro Colaço.

13 Fev 2026

Associação dos Advogados de Macau declara apoio à lei de Comissão de Defesa da Segurança do Estado

A Associação dos Advogados de Macau, presidida pelo ex-deputado Vong Hin Fai, considera razoáveis e necessários os requerimentos exigidos pela proposta de lei que irá regular a Comissão de Defesa da Segurança do Estado. Num artigo de opinião assinado pela associação, publicado no jornal Ou Mun, é defendido o veto à participação de advogados em qualquer processo considerado de alguma forma relacionado com a segurança nacional
No texto, a associação argumenta que muitos países e regiões têm leis semelhantes, apontado os exemplos do Estatuto de Advogado especial no Reino Unido e no Canadá, a lei de procedimentos de informações classificadas nos Estados Unidos da América e o regulamento dos praticantes de direito em Hong Kong.
Todos os regimes mencionados pela AAM têm por base sistemas jurídicos do estilo Common Law, a tradição britânica, que contrasta com a realidade de Macau, que adopta um sistema legal da chamada tradição continental, com raízes na Alemanha e França e que vigora também Portugal.

Apoio total
A associação também disse que concorda e apoia a proposta de lei, por considerar que avança e melhora as atribuições e as competências da comissão enquanto “aplica completamente a perspectiva geral da segurança nacional”.
A associação cita ainda a nota justificativa para vincar que “a defesa da segurança do Estado constitui uma responsabilidade constitucional da RAEM”.
A Associação dos Advogados de Macau destacou também que Macau tem de “implementar as decisões e instruções do Governo Central no âmbito da segurança nacional” e que esta proposta de lei ao reforçar os poderes da comissão vai manter “a coerência com as normas da lei da segurança nacional de Hong Kong” e “articular-se com a Lei Eleitoral para o Chefe do Executivo e a Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa”.

12 Fev 2026

Segurança | Governantes da RAEM aplaudem Livro Branco sobre Hong Kong

A China lançou um novo Livro Branco sobre a segurança nacional, sobre Hong Kong, que se intitula “Prática da Salvaguarda da Segurança Nacional em Hong Kong sob ‘Um País, Dois Sistemas’. Na RAEM, os secretários e dirigentes políticos reagiram de forma positiva, dizendo que o documento dá garantias de estabilidade e que é uma referência para Macau

Dias depois da condenação, em Hong Kong, de Jimmy Lai, empresário dos media que fundou o extinto jornal Apple Daily, eis que a China lança um novo Livro Branco virado para a necessidade de salvaguarda da segurança nacional no território vizinho. A “Prática da Salvaguarda da Segurança Nacional em Hong Kong sob ‘Um País, Dois Sistemas'”, foi publicado pelo Departamento de Comunicação do Conselho de Estado da China na terça-feira.

Segundo a agência noticiosa Xinhua, este Livro Branco é composto por cinco partes, detalhando “a persistente luta para salvaguardar a segurança nacional em Hong Kong e a responsabilidade fundamental do Governo Central em questões de segurança nacional relacionadas a Hong Kong”.

Na mesma nota, é explicado que o Livro Branco “expõe as conquistas da RAEHK no cumprimento da responsabilidade constitucional de salvaguardar a segurança nacional” e ainda “a transição de Hong Kong do caos para a estabilidade e prosperidade”.

Não são esquecidos “os esforços para criar [um panorama de] segurança de alto padrão a fim de promover o desenvolvimento de alta qualidade da política de ‘Um País, Dois Sistemas'”, além de ser explicado que “o Governo Central aplicou uma abordagem holística à segurança nacional”.

Neste contexto, “exerceu efectivamente a jurisdição geral sobre a RAEHK, de acordo com a Constituição do país e a Lei Básica da RAEHK”, sendo que a Lei sobre a Salvaguarda da Segurança Nacional “tem sido aplicada na região” e veio garantir “que Hong Kong seja administrada por patriotas”.

Do lado da RAEM, o aparelho governativo reagiu de forma positiva a este Livro Branco, isto depois de ter sido aprovada na generalidade, na Assembleia Legislativa, a proposta de lei que apresenta um novo formato e composição da Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM, criada em 2018.

Chan Tsz King, secretário para a Segurança, foi uma das figuras políticas que reagiu ao documento, que considera “assegurar a implementação estável e duradoura” do princípio “Um País, Dois Sistemas”.

Citado por uma nota oficial, o secretário entende que o Livro Branco vem “esclarecer a unidade intrínseca entre os princípios políticos e a lógica institucional, fazendo com que a sociedade de Hong Kong volte à normalidade e a ordem seja restaurada”.

O documento, na visão do secretário, “serve como importante referência para a RAEM rever e melhorar a construção do seu sistema jurídico no âmbito de defesa da segurança do Estado e do respectivo mecanismo de execução”.

Chan Tsz King destaca que a sua tutela dará “grande importância à garantia da segurança nas áreas não tradicionais sob nova conjuntura, estabelecendo como objectivo estratégico a estabilidade a longo prazo da RAEM”.

Firme como uma rocha

Ainda segundo a Xinhua, o Livro Branco descreve como Pequim “apoia a RAEHK no cumprimento de sua responsabilidade constitucional de salvaguardar a segurança nacional, prevenindo, interrompendo e punindo efectivamente quaisquer actividades que coloquem em risco a segurança nacional”.

“Os esforços” da região vizinha na salvaguarda da segurança nacional visam, segundo o mesmo documento, “sustentar e desenvolver” o princípio criado por Pequim como sustentação de Taiwan e das duas regiões administrativas especiais, sem esquecer a protecção “dos direitos humanos fundamentais, a dignidade e o bem-estar dos 7,5 milhões de residentes de Hong Kong”.

O Livro Branco divulgado pelo Conselho de Estado dá ainda conta que “no mundo actual, e com transformações globais sem precedentes ocorridas em um século, estão a acelerar, com o ambiente de desenvolvimento enfrentado pela China a passar por mudanças profundas e complexas”. Desta forma, “salvaguardar a segurança nacional é uma tarefa de longo prazo e permanente”, é referido.

O Livro Branco dá conta que Hong Kong “desfruta de uma segurança de alto padrão”, estando a região “fadada a superar todos os riscos e desafios na futura jornada, permanecendo tão estável como uma rocha num mundo turbulento”.

Outra figura política da RAEM que reagiu foi Adriano Marques Ho, director-geral dos Serviços de Alfândega, dizendo que o Livro Branco “tem um significado orientador importante e um impacto profundo para a implementação completa e precisa de ‘Um País, Dois Sistemas’ nas regiões de Hong Kong e Macau, para a realização da prosperidade e estabilidade a longo prazo, e para a sua progressão estável e sustentável”.

Adriano Marques Ho acrescentou que “tanto Hong Kong como Macau são partes inalienáveis e sagradas da China”, sendo que Pequim “tem mantido, de forma firme e consistente, a soberania, segurança e interesses de desenvolvimento nacionais”.

Na visão do responsável máximo da Alfândega, “as forças hostis externas e os elementos anti-China que perturbam Hong Kong incitaram e criaram os ‘tumultos da revisão legislativa’, que acabaram por evoluir para uma ‘revolução colorida’ versão Hong Kong, prejudicando gravemente a ordem constitucional e o Estado de Direito em Hong Kong, e colocando em risco a soberania, segurança e interesses do desenvolvimento nacionais”.

Fim da “situação caótica”

O Lam, secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, disse que o Livro Branco “analisa e delineia de forma abrangente o percurso de Hong Kong na defesa da segurança nacional, as grandes realizações e a experiência colhida”.

Na visão da governante, “Hong Kong passou de uma situação caótica para a estabilidade e prosperidade”. No caso da RAEM, aplicam-se os princípios contidos no Livro Branco, prometendo a secretária “continuar a intensificar a educação, dando prioridade à formação de uma base social que sustenta os valores de amor pela pátria e por Macau”.

Neste contexto, pretende-se “desenvolver um sistema educativo abrangente para aumentar o sentimento patriótico dos jovens e consolidar o alicerce ideológico da segurança nacional através de actividades e intercâmbios educacionais multidimensionais”.

Fica a promessa de que a tutela dos Assuntos Sociais e Cultura “irá continuar a promover a segurança nacional utilizando como força motriz a cultura, reforçando a exploração e a divulgação dos recursos históricos e culturais de Macau e organizando diferentes tipos de exposições e espectáculos culturais com características singulares”.

A ideia é “divulgar a excelente herança cultural chinesa no sentido de resistir à erosão das culturas nocivas, reforçar a identidade cultural e nacional da população e unir as forças dos diferentes sectores da sociedade através da cultura”.

Wong Sio Chak, secretário para a Administração e Justiça, e que durante anos deteve a pasta da Segurança, considera que o Livro Branco tem “extrema relevância para os assuntos da RAEM relativos à defesa da segurança nacional”, nomeadamente no que diz respeito à “defesa da soberania, segurança e dos interesses de desenvolvimento do Estado”.

Ficam as promessas de que a área da Administração e Justiça “irá impulsionar a produção legislativa nos domínios prioritários relacionados com a defesa da segurança do Estado, continuando a aperfeiçoar o respectivo regime jurídico”, sendo organizados “cursos de formação sobre a Constituição, a Lei Básica e a legislação relativa à defesa da segurança do Estado vocacionados para os trabalhadores dos serviços públicos de diferentes níveis”.

Por seu turno, Tai Kin Ip, secretário para a Economia e Finanças, descreveu que “as seguranças económica e financeira constituem domínios-chaves não tradicionais de entre as vinte áreas prioritárias da visão global de segurança nacional, sendo também factores cruciais para garantir o desenvolvimento estável e a segurança de longo prazo de Macau e do país”.

Tai Kin Ip pretende “promover de forma pragmática o desenvolvimento da diversificação adequada da economia, reforçando a resiliência económica global de Macau e mantendo um elevado nível de atenção face a vários riscos e desafios no domínio económico-financeiro”.

Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, disse que Macau deve “cultivar uma consciência de vigilância em tempos de paz, a fim de consolidar os alicerces de uma estabilidade e segurança duradouras”.

Neste sentido, o governante entende que “Macau deve colocar sempre em primeiro lugar a salvaguarda da soberania, da segurança e dos interesses de desenvolvimento do Estado”, sendo que na tutela dos Transportes e Obras Públicas promete “persistir na predominância do poder Executivo, integrando de forma firme a salvaguarda da segurança nacional em todas as tarefas”.

Ao Ieong Seong, Comissária contra a Corrupção, acredita que “a segurança e a estabilidade do ambiente político e o bom funcionamento do sistema, com predominância do poder Executivo, [garante que] o nível de governação da RAEM seja cada vez mais elevado”.

A comissária destacou “a realização bem-sucedida, no ano passado, das eleições para a 8ª Assembleia Legislativa, reforçando-se a concretização do princípio ‘Macau governado por patriotas’ e assegurando eficazmente a estabilidade duradoura da RAEM”.

12 Fev 2026

Comissão de Segurança | Juristas alertam para contrariedade à Lei Básica

Apesar do apoio às questões da segurança nacional, as exigências da proposta de lei da Comissão da Defesa da Segurança do Estado são tidas como contrárias e incompreensíveis à luz do quadro legal de Macau

Analistas ouvidos pela Lusa consideram inconstitucional a proposta de lei para a Comissão da Defesa da Segurança do Estado, votada ontem na Assembleia Legislativa, assinalando “aspectos perturbadores”, como restrições à nomeação de advogado em casos de segurança nacional.

A proposta de lei que vai enquadrar a Comissão de Defesa da Segurança do Estado (CDSE) foi ontem discutida e votada na generalidade pelos deputados à Assembleia Legislativa.

O documento, de acordo com o advogado radicado em Macau Luís Almeida Pinto, “comporta em si aspectos perturbadores do funcionamento constitucional de vários poderes, e também em algumas matérias de direitos, liberdades e garantias consagrados na ‘Constituição’ de Macau: a Lei Básica”.

Antecipando alterações à Lei de Bases da Organização Judiciária, a proposta determina que a escolha de um advogado para casos de segurança nacional está sujeita à aprovação de um juiz, que remete o requerimento à CDSE, para que esta emita um parecer, vinculativo e não passível de recurso.

A autorização especial, propõe o Governo, pode acontecer em processos penais ou de outra natureza, quando se “tiver fundadas razões para crer que existe a necessidade de proteger os interesses da segurança do Estado”.

Almeida Pinto evoca a Lei Básica, que garante “o acesso ao Direito, aos tribunais, e à assistência por advogado na defesa dos seus legítimos direitos e interesses”, para apontar que cabe ao arguido “escolher de livre vontade o advogado que melhor o sirva”. “Parece uma norma que será inconstitucional quando aprovada, e quando aplicada em concreto”, expõe.

Colisão com Estatuto do Advogado

Além de se tratar de “uma violação da Lei Básica”, com força constitucional em Macau, Pedro Leal, a exercer advocacia no território há várias décadas, aponta “nitidamente, uma colisão” entre o proposto e “o decreto que regula a Associação dos Advogados e o próprio Estatuto” do Advogado, no que diz respeito à livre escolha de um defensor.

Esta é a “questão mais discutível” da proposta, assume Leal, que diz concordar com a iniciativa legislativa. “A China dá especial atenção às questões de segurança, é uma potência mundial, como tal não quer interferências de forma alguma. Entendo a posição e entendo que não quer alterações no ‘status quo’. (…) Agora, querem fazer as coisas, façam-nas bem”, acrescenta.

À Lusa, Almeida Pinto considera ainda “inaceitável o regime previsto” para “a sindicância a fazer aos advogados” que pretendam representar judicialmente um arguido em casos de segurança nacional. Anexado ao pedido feito pelos mandatários ao juiz, têm de estar, entre outros elementos, informações relativas aos membros do agregado familiar do advogado, nacionalidade e ligação com os organismos ou indivíduos no exterior.

Trata-se de uma “verdadeira investigação à vida pessoal”, quando “o que apenas está em causa é o exercício da profissão para que se encontra devidamente inscrito e autorizado na Associação dos Advogados de Macau”, refere.

A exigência, “além de extremamente vaga, é perfeitamente impossível” de concretizar, avalia Leal, que sugere “estar implícito” que a um advogado não chinês não será autorizada representação nestes casos – sublinhe-se que em casos de segurança nacional já só é permitida a intervenção de juízes chineses.

Questão de tempos

Outra dúvida, levantada à Lusa pelo jurista António Katchi, prende-se com o tempo que a CDSE vai levar a emitir o parecer. A proposta não esclarece este aspecto, pelo que “deverá” ser aplicado o Código do Procedimento Administrativo, que fixa em 15 dias o prazo para os actos a praticar pelos órgãos administrativos.

Mas, lança Katchi, “irá a CDSE seguir este mesmo entendimento ou irá ela considerar (sem possibilidade de tal lhe ser negado por qualquer tribunal) que pode simplesmente deixar a questão para a sua reunião ordinária semestral seguinte?”.

Caso o parecer seja negativo e seja necessário repetir o processo, com um novo representante legal, “quantos meses ou anos estará o arguido, que continua privado da sua liberdade, sem advogado”?

Aludindo ao princípio da independência judicial, que lembra estar garantido pela Lei Básica, António Katchi deduz “com toda a segurança, a inadmissibilidade de sujeitar uma decisão judicial a um parecer vinculativo de um órgão administrativo, nomeadamente da CDSE”.

O docente fala ainda sobre a importância de uma relação de confiança entre constituinte e advogado e o “quão vital é, para uma pessoa em risco de condenação a pena de prisão, ser defendida por um advogado sinceramente motivado para a causa e bem versado na matéria envolvida”.

Além da Lei Básica e da Declaração Conjunta, assinada por Lisboa e Pequim, em 1987, e que definiu regras para Macau após a transição de administração, Katchi resgata outra disposição legal que a proposta vem contrariar: o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (PIDCP), segundo o qual, cita, “toda a pessoa acusada de um delito terá direito, em plena igualdade, (…) a apresentar-se em julgamento e a defender-se pessoalmente ou ser assistida por um defensor da sua escolha”.

O PIDCP é um dos instrumentos que constituem a Carta Internacional dos Direitos Humanos da ONU. Em 1992, quando Macau era ainda um território administrado por Portugal, Lisboa procedeu à extensão desta convenção à região. Embora a China tenha assinado o tratado em 1998, nunca o ratificou, não estando vinculada às normas aí presentes.

A Lei Básica, explica António Katchi, assinala que as restrições a direitos fundamentais, incluindo o direito de ser assistido por advogado, “não podem contrariar o disposto no PIDCP”.

11 Fev 2026

Cooperação | Relações entre China e Timor-Leste pautadas por cautela, indica estudo

É certo que, ao integrar a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, Timor-Leste pode tornar-se num ponto estratégico nas relações comerciais deste lado do globo, apesar do “pragmatismo cauteloso” nas relações com a China. A conclusão é de um estudo sobre a política externa timorense no âmbito da iniciativa chinesa, da autoria de três académicos portugueses

Timor-Leste, um jovem país, tem vindo a cimentar as suas relações com a China, nomeadamente através da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, mas há ainda alguma cautela em torno deste relacionamento. Esta é uma das conclusões do estudo “As opções de política externa de Timor-Leste no âmbito da Iniciativa Faixa e Rota 2.0 da China: uma perspectiva de pequeno Estado”, da autoria dos académicos Tiago Botelho dos Santos, Diogo Borges e Paulo Afonso Duarte. O trabalho foi publicado na The Pacific Review, revista académica editada pela Taylor & Francis.

O trabalho de investigação parte da adesão de Timor-Leste à iniciativa chinesa, algo que aconteceu em 2017, para analisar como tem corrido o relacionamento com a China, tendo em conta o facto de Timor-Leste ter “a condição de pequeno Estado”.

Conclui-se, assim, que “o envolvimento de Timor-Leste com a Iniciativa Faixa e Rota da China, particularmente no período pós-2023, pode ser entendido como uma tentativa estratégica e calculada de maximizar a sua condição de pequeno Estado num ambiente regional e global complexo”. Descreve-se que, neste período, a política externa timorense tem-se caracterizado “por uma abordagem multivectorial, estrategicamente ancorada no multilateralismo”, procurando “diversificar parcerias internacionais para reforçar a segurança nacional, promover o desenvolvimento económico e ampliar a sua voz no sistema internacional”.

O estudo aponta que as relações entre Timor-Leste e China, no contexto da iniciativa Faixa e Rota, é um “movimento deliberado para alavancar oportunidades de desenvolvimento” no país, sendo uma estratégia alinhada com o Plano Estratégico de Desenvolvimento de Timor-Leste 2011-2030.

O plano visa “promover a diversificação económica e o desenvolvimento de infraestruturas críticas, num contexto em que a Iniciativa Faixa e Rota 2.0 enfatiza infraestruturas digitais, energia verde e cooperação na área da saúde”.

O potencial timorense

Os três académicos destacam ainda que Timor-Leste, ao pertencer à iniciativa geopolítica chinesa, tem potencial para se destacar economicamente, e também em termos comerciais, na região. O país tem “o potencial para se afirmar como centro logístico numa rota que liga o Sul do Oceano Índico ao Pacífico Sul”, pelo que a iniciativa chinesa “oferece uma oportunidade relevante para elevar significativamente a sua proeminência regional e facilitar, de forma decisiva” a integração na ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático], a que Timor-Leste aderiu recentemente.

Apesar de todos estes sinais positivos, o estudo conclui que “embora a relação de Timor-Leste com a China se tenha aprofundado, culminando numa parceria estratégica abrangente em 2024, o seu envolvimento continua a ser marcado por um pragmatismo cauteloso”.

Neste contexto, “pondera-se cuidadosamente os benefícios de uma maior conectividade e investimento face a preocupações relativas à sustentabilidade da dívida, à transparência e a possíveis dependências estratégicas”. Esta cautela do lado de Timor-Leste demonstra a sua “capacidade de acção ao envolver-se selectivamente em projectos alinhados com os seus interesses nacionais”, deambulando pelas “complexidades da competição entre grandes potências no Indo-Pacífico, ao mesmo tempo que mantém o seu compromisso com uma política externa equilibrada e diversificada”.

O pragmatismo timorense denota-se ainda, segundo o estudo, no facto de o país “não apenas optimizar oportunidades de desenvolvimento, como também reforçar a sua posição regional ao analisar meticulosamente os benefícios económicos face aos potenciais riscos”. O que se fortalece, “em última instância”, é a “capacidade de acção enquanto pequeno Estado”, destacam os autores.

Uma capacidade “notável”

O estudo em questão destaca como Timor-Leste tem tido “uma notável capacidade de acção” no contexto da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” tendo como ponto de comparação outros pequenos Estados, como o Sri Lanka.

Citando outros estudos, os três académicos destacam como “Timor-Leste tem demonstrado uma abordagem mais cautelosa do que países como o Sri Lanka, que enfrentaram preocupações significativas quanto à sustentabilidade da dívida associada a projectos da BRI [Belt and Road Initiative] ou Estados sem litoral como o Laos e nações costeiras como o Camboja”.

No caso destes países do Sudeste Asiático, “os empréstimos chineses para projectos emblemáticos, como caminhos-de-ferro e autoestradas, aumentaram drasticamente a dívida externa e a dependência em relação a Pequim”.

O que se procurou fazer nesta investigação foi “examinar a posição singular de Timor-Leste, não como financiador, mas também não como vítima de uma ‘armadilha da dívida'”, destacando-se “a forma distinta e valiosa de capacidade de acção de um pequeno Estado no âmbito da BRI”.

Os autores destacam que, na última década, a China “expandiu significativamente a sua presença no Sudeste Asiático” através da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, tendo, com isso, “ampliado a sua influência regional nas esferas económica, de segurança e política”. Neste relacionamento, Timor-Leste tem estado “longe de ser um observador passivo”, procurando “envolver-se activamente com a China para assegurar benefícios de desenvolvimento”.

Timor-Leste procurado “identificar uma oportunidade para alinhar-se com os objectivos de longo prazo” do seu Plano Estratégico de Desenvolvimento 2011-2030, indicam os analistas.

“Estrategicamente, o país também pretende capitalizar a sua posição geográfica nas rotas marítimas comerciais emergentes, particularmente através do estabelecimento de um polo logístico no Sul do Oceano Índico e no Pacífico Sul, potencialmente reforçando o seu papel regional como novo Estado-membro integrado da ASEAN”, apontam os autores.

Timor-Leste procura “equilibrar ganhos económicos e potenciais dependências”, num contexto geopolítico que “inclui a competição entre grandes potências no Indo-Pacífico, onde as políticas dos Estados Unidos, sob sucessivas administrações, visam conter a influência regional da China”.

Em termos metodológicos, os autores realizaram esta investigação com base na leitura de relatórios oficiais, documentos que servem de base a acordos bilaterais assinados e documentação governamental. Além disso, foram realizadas entrevistas a “especialistas sediados tanto na Europa como na Ásia”.

Os autores referem que procuraram entrevistar académicos e diplomatas “devido ao facto de os cidadãos comuns, em geral, não estarem familiarizados com as iniciativas multilaterais globais da China, enquanto os diplomatas tendem a ser excessivamente cautelosos nas suas declarações, dado que representam a posição oficial do seu Estado, e não necessariamente as suas opiniões pessoais”.

Entende-se, assim, que os académicos “tendem a oferecer análises mais equilibradas e rigorosas”. As questões versaram a forma como Timor-Leste, na qualidade de pequeno Estado, tem beneficiado da iniciativa chinesa, se esta iniciativa é compatível com o Plano Estratégico de Desenvolvimento de Timor-Leste 2011-2030, ou se “existem perigos visíveis de criação de dependência” entre os dois países, entre outras questões.

10 Fev 2026

USJ | Livro destaca panorama da filantropia em Macau

Acaba de ser editado pela Universidade de São José o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”. Um dos capítulos versa sobre a filantropia em Macau, o perfil discreto dos filantropos e o trabalho de entidades como a Fundação Rui Cunha, Banco Nacional Ultramarino e Fundação Oriente

A Universidade de São José (USJ) acaba de editar o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”, com edição do professor José Manuel Simões. Como o nome indica, a obra pretende traçar o panorama das artes, meios de comunicação social e cultura nos nove países e regiões de língua portuguesa, onde se inclui Macau.

A RAEM está representada com um capítulo dedicado à filantropia, da autoria de Carmen Zita Monereo, aluna de pós-doutoramento da USJ, com o nome “The Impact of Corporate Philanthropy on Media, Art, and Technology in Macao / What do we know about Philanthropy in Macao? What is the relationship between Confucianism, Philanthropy, Media, and strategic communication?”.

“A Carmen tem desenvolvido um estudo sobre filantropia em Macau, sendo um trabalho um pouco diferente dos restantes”, começou por dizer ao HM José Manuel Simões. “Trata-se de um trabalho que dá o seu contributo na análise daquilo que é o espectro dos filantropos em Macau, traçando depois um estudo sobre a Fundação Rui Cunha, o Banco Nacional Ultramarino, a Fundação Oriente. Ela olha para o que é a filantropia corporativa e os impactos que tem na sociedade através de uma análise dos meios de comunicação social, mas também da arte e da tecnologia em Macau. Ou seja, ela questiona o que sabemos sobre filantropia em Macau e qual a relação existente entre o Confucionismo, a filantropia, os media e a comunicação estratégica.”

José Manuel Simões acrescenta que um dos pontos inovadores neste capítulo é o perfil discreto dos filantropos. “Um aspecto curioso é que, ao contrário dos filantropos da Europa e dos Estados Unidos, que gostam imenso de aparecer nos rankings, em Macau há uma maior discrição e perfil discreto destas pessoas ligadas à filantropia, e isso tem a ver com a própria cultura.”

Acrescenta o editor da obra que “no campo das ciências da comunicação [em Macau] a filantropia tem vindo a ganhar uma importância muito grande como instrumento de comunicação”, e que o trabalho de Carmen Zita Monereo “identifica os valores de uma cultura organizacional que é capaz de gerar fluxos de comunicação propícios à inovação através dessa actividade filantrópica”.

O livro, que está disponível gratuitamente em versão digital, “procura traçar laços de união entre vários vectores, e um deles é as nove culturas de língua portuguesa”, sem esquecer Macau “enquanto plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa”.

Segundo José Manuel Simões, trata-se de um livro “cuja investigação foi desenvolvida procurando adoptar uma abordagem multidisciplinar”, tendo “um carácter académico, mas, ao mesmo tempo, pretende ter uma linguagem simples e acessível”.

O bom exemplo de Cabo Verde

Com edição bilingue, o livro apresenta “um espectro bastante abrangente” de temas, contendo um artigo da autoria de José Manuel Simões sobre São Tomé e Príncipe, intitulado “Digital Media Contribution to Entrepreneurship and Development in São Tomé and Príncipe”. Segue-se um artigo sobre o panorama educativo em Angola e o uso de inteligência artificial (IA), da autoria de Wilson Gomes Caldeira, intitulado “Angola’s higher education system: An analysis of the opportunities and challenges presented by Artificial Intelligence”.

No caso de Cabo Verde, Silvino Lopes Évora explora as ideias de comunicação social em conjugação com a IA, em “Artificial Intelligence, newsroom culture, and journalism: From international spectrum to experiences in Cape Verde”.

“Cabo Verde é um bom exemplo do desenvolvimento dos media em África e o texto de Silvino Évora trabalha sobre a componente da IA nos media e como ela se está a inserir. [O texto analisa também] quais as possibilidades de uso da IA e como a ética pode vigiar e apoiar a IA e, ao mesmo tempo, o jornalismo”, acrescenta José Manuel Simões.

O livro editado pela USJ explora também, no capítulo “The media system as a leverage for democratic development in East Timor”, de Paulo Faustino e Rui Alexandre Novais, as ligações entre o jornalismo e as memórias históricas do processo de independência.

O editor do livro explica a “componente mais histórica quanto ao papel de remissão que os jornalistas ainda hoje têm para quase preservar a memória daqueles que morreram em prol da independência do país”.

“O jornalismo tem uma importância enorme em Timor, houve gente e jornalistas que morreram. Isso é muito pouco falado e nesse estudo há uma conclusão interessante, de que essas pessoas, ao morrerem em nome da liberdade de expressão, deixaram um lugar muito importante em Timor-Leste que ainda hoje vigora, procurando-se preservar a memória através da vigilância sobre os outros poderes.”

Desta forma, “Timor-Leste é quase um exemplo de como o jornalismo deve actuar enquanto vigilante dos outros poderes, o que não acontece nos outros quadrantes”.

José Manuel Simões destaca o caso da Guiné-Bissau, “onde os jornalistas são chamados de bocas de aluguer”. “Eles não sabem a diferença entre o que é propaganda, relações públicas, marketing e jornalismo, porque estão condicionados por um salário baixíssimo. Escrevem o que pedem a troco de um envelope com algum dinheiro lá dentro, e isso faz com que a profissão [de jornalista] esteja muito fragilizada na Guiné Bissau”, frisou.

Uma língua de união

Segundo José Manuel Simões, o livro pretende unir “estes quadrantes das culturas portuguesas”, sendo que a edição em inglês visa chegar às comunidades anglo-saxónicas, “para que saibam da existência destas culturas”.

“Há quem não concorde comigo quanto à ideia de que a língua portuguesa é uma língua de união, não só entre os povos de língua portuguesa, mas mesmo dentro de cada país. Temos o caso de Timor-Leste, que só na ilha de Ataúro, que é pequeníssima, com 500 mil habitantes, tem 40 dialectos, um em cada aldeia. Ali, o que é que a língua portuguesa faz? Une estas pessoas, porque apesar de haver a diferença entre os que falam e dos que aprenderam português, em Timor-Leste, hoje, os idosos falam português e os jovens também, mas há a faixa etária que vai dos 25 aos 50, que não fala. Mas, por ser uma língua de aprendizagem, por ser oficial, por ter livros, uma memória, o português une todas essas etnias e dialectos, e tem um valor comum. Este livro deixa transparecer isso, do facto de a língua portuguesa ser a língua-mãe de toda a gente”, esclarece.

José Manuel Simões não esquece o trabalho que a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, tem feito nesse sentido. “A CPLP tinha uma ideia maravilhosa de nos unir através da língua, mas a CPLP tem feito um trabalho vago, exíguo e pouco visível. Aliás, muito pouca gente tem feito um trabalho digno de criar laços entre as novas culturas de língua portuguesa. Neste sentido, este livro vem preencher uma lacuna e traz novos dados sobre estas novas culturas, com esta dinâmica tecnológica e inovadora”, isto relativamente aos códigos QR para todos os capítulos do livro. Cada código dá acesso a um vídeo que resume o trabalho do autor em cada capítulo.

Em termos globais, “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures” quer ser abrangente em áreas como a tecnologia, arte, cultura e comunicação social. Há, porém, “um denominador comum, criando-se, curiosamente, uma certa harmonia, mesmo com focos diferentes, e acaba por abranger, de forma directa e indirecta, o espectro da comunicação social”, remata.

9 Fev 2026

Diocese de Macau/450 anos | Novo Centro Católico terá um hotel

O novo Centro Católico deverá abrir “em meados do segundo trimestre” deste ano e irá ter um hotel, preparado para receber “peregrinos e turistas”, diz a Diocese de Macau. Numa altura em que a instituição celebra 450 anos, a inauguração do Centro Católico tem por base “a visão” de D. Paulo José Tavares, bispo de Macau nas décadas de 60 e 70

Depois de muitos anos de vazio e obras na esquina da Avenida da Praia Grande com a Rua do Campo, o novo Centro Católico prepara-se para abrir portas ainda este ano e é talvez o acontecimento mais importante na celebração do 450º aniversário da Diocese de Macau.

O HM colocou questões à Diocese de Macau a propósito da reabertura do edifício, que confirmou que a inauguração oficial está prevista “para o segundo trimestre” deste ano. Este edifício, com um total de 17 pisos, terá as funcionalidades pensadas para fins religiosos, mas também um hotel preparado para receber todo o tipo de pessoas.

“O Centro Católico será um centro nevrálgico para a divulgação e partilha da missão da Igreja Católica. Os pisos inferiores contarão com uma capela, um auditório, salas de conferências, áreas de exposição e espaços para actividades.” Enquanto “os pisos superiores funcionarão como um hotel, oferecendo acomodações acolhedoras e confortáveis, imbuídas de um espírito de serviço”.

Na resposta escrita da diocese, acrescenta-se que as instalações hoteleiras “foram concebidas para receber tanto peregrinos como turistas, acolhendo católicos e não católicos com hospitalidade e inclusão”.

Recorde-se que em Dezembro começaram a ser recrutados funcionários para a unidade hoteleira, em parceria com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL). Numa sessão de emparelhamento de emprego destinada a residentes, realizada a 5 de Dezembro, com a “Companhia de Gestão do Centro Católico”, foram disponibilizadas 23 vagas de emprego para gestor de vendas, assistente gerente de recepção, chefe de cozinha, chefe de segurança, supervisor de serviço de quartos e supervisor de aquisição, lê-se na nota da DSAL difundida em Novembro.

A Diocese de Macau não quis avançar ao HM quanto custou reerguer o novo Centro Católico, referindo apenas que as previsões iniciais derraparam graças à pandemia. “O Centro Católico está actualmente em fase de aperfeiçoamento e submissão e aprovação pelo Governo. Após os desafios da pandemia covid-19, os custos de construção aumentaram significativamente. Estamos gratos pela compreensão e apoio dos construtores e empreiteiros, que permitiram que o projecto de reconstrução fosse concluído com sucesso. Ao mesmo tempo, acolhemos calorosamente doações de todos os sectores da sociedade para ajudar a sustentar e levar adiante a missão original do Centro Católico de servir a comunidade de Macau.”

Um bispo ainda presente

Questionada sobre as principais metas do novo Centro Católico, a Diocese de Macau descreve que o edifício “tem como objectivo dar continuidade à missão espiritual da Igreja Católica e incorporar o espírito de Cristo”, tendo por influência o trabalho do bispo D. Paulo José Tavares, que realizou a sua missão em Macau em meados do século XX.

Destaque para o facto de D. Paulo José Tavares, falecido em 1973 e nomeado bispo de Macau em 1961, ter sido importante na manutenção da presença da Igreja Católica em Macau na época do movimento “1,2,3”. Entre Novembro de 1966 e Fevereiro de 1967, a Revolução Cultural manifestou-se no território, agregando muitos estudantes locais, que pretendiam mudar os conteúdos do ensino católico. D. Paulo José Tavares travou um braço de ferro com estes grupos de manifestantes, conseguido manter inalterado o ensino nas escolas católicas e o espírito que a elas estava associado.

Desta forma, e tendo como base “a visão” deste bispo, a diocese pretende que o novo Centro Católico “continue a servir como uma ponte vital para a comunidade de Macau, promovendo o diálogo, o intercâmbio e a integração da fé e da cultura”. É ainda intenção “abrir as portas [do Centro] a visitantes de todo o mundo, reforçando não só o seu papel como refúgio espiritual, como também infundir uma nova vitalidade no panorama religioso e cultural de Macau”.

António Pedro Costa, autor da biografia do clérigo, intitulada “D. Paulo José Tavares – O bispo diplomata”, descreveu, em entrevista ao HM concedida em 2023, que o bispo “foi uma lufada de ar fresco”, e uma figura acarinhada pela comunidade chinesa da época.

“Essas atitudes de valorização da comunidade chinesa levaram a uma aproximação e ao estabelecimento de uma relação de confiança. Só assim conseguiu levar os seus objectivos adiante, pois percebeu que tinha de ter a população do seu lado. Mas isso trouxe-lhe muitos dissabores com o clero europeu, que não concordava com a postura de D. Paulo José Tavares. Fez com que a população tenha visto nele um aliado e não uma pessoa que vem de fora e que impõe as suas ideias”, disse o autor.

Um ano de celebrações

Foi em 1576, no quarto ano do reinado Wanli, da Dinastia Ming, que se fundou em Macau a Diocese, sendo 23 de Janeiro a data oficial de celebração. Porém, os próximos meses também serão de festa.

Num comunicado anteriormente divulgado, a Diocese de Macau assume que tem tido, ao longo destes anos, “a missão de estabelecer pontes entre o Oriente e o Ocidente, promovendo a educação, a caridade e o serviço pastoral”, deixando “uma marca profunda e duradoura no desenvolvimento cultural, educativo e religioso de Macau”.

O tema das celebrações é “De Macau para o Mundo: 450 anos de Missão e Misericórdia”. O novo Centro Católico irá acolher duas exposições temáticas, intituladas “Honrar o Passado, Criar o Futuro” e ainda “Testemunha do Património, Missão no Mundo”. Estas mostras pretendem “reflectir o desenvolvimento da Diocese a partir de perspectivas históricas, pessoais e culturais, bem como as suas orientações futuras”, destaca-se na mesma nota.

Amanhã decorre na Igreja da Sé um concerto de música sacra com oito agrupamentos corais de Macau, Hong Kong e da Província de Cantão, podendo ouvir-se as sonoridades do novo órgão de tubos da igreja.

A partir das 19h30, vão actuar o Coro Diocesano de Macau, o ensemble Cathedral Schola e ainda outros grupos corais de Macau, como o Coro Perosi, o Dolce Voce e o Cantate Chorus, sem esquecer outros conjuntos de Hong Kong e Cantão.

A Diocese destaca que a “iniciativa mais simbólica e de grande dimensão do ano comemorativo” será a “grande celebração” agendada para 31 de Outubro deste ano, e que consiste numa recepção e missa.

“Através desta celebração solene, a Diocese dará graças a Deus pelas graças e pela missão concedidas ao longo de quatro séculos e meio, e rezará para que Ele continue a orientar o caminho a seguir”, descreve-se no mesmo comunicado.

Haverá ainda iniciativas realizadas por “várias instituições diocesanas” nos próximos meses, nomeadamente “espectáculos culturais, concursos escolares, simpósios académicos, actividades de convívio, encontros juvenis, recursos de formação online, iniciativas paroquiais e celebrações litúrgicas”.

“Através de uma participação transversal e intergeracional, o ano comemorativo procura aprofundar o conhecimento público sobre o desenvolvimento histórico da Diocese e o seu serviço à comunidade, promovendo o espírito do lema diocesano ‘Scientia et Virtus’ (Ciência e Virtude), que inspira uma prática de serviço assente no equilíbrio entre o saber e o cuidado ético.”

Numa altura em que celebra 450 anos de existência, a Diocese diz querer traçar o futuro, “caminhando com os residentes de Macau na reflexão sobre o passado e na continuação da sua missão de fé, serviço e cultura nesta nova etapa”.

6 Fev 2026

História | Livro revela como Macau se fez à imagem de Évora

A associação local Heritage Society acaba de lançar um livro em dois volumes sobre a história da fundação de Macau. Da autoria de Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos, “Foral of the City of the Name of the God, Macau”, contém traduções e anotações de documentos que mostram como a fundação de Macau teve Évora como modelo

Acaba de ser editado pela associação local Heritage Society um livro, dividido em dois volumes, que ajuda a contar a história da fundação de Macau, a partir de meados do século XVI. Os dois volumes intitulam-se “Foral of the City of the Name of the God, Macau: Évora of the Far East” [Foral da Cidade do Santo Nome de Deus, Macau: A Évora do Extremo Oriente] e “The Twenty-eight Alvaras” [Os 28 Alvarás], e são da autoria dos académicos Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos.

O primeiro volume, que estabelece uma curiosa ligação entre Macau e Évora na fundação do território a Oriente, baseia-se no arquivo “Foral, Regalias e Privilégios Concedidos à Cidade de Macau, na China, 1596-1756”, cujo original está guardado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, existindo microfilmes no Arquivo de Macau.

Por sua vez, a parte dedicada aos 28 alvarás, uma continuidade do primeiro volume, analisa os 28 textos jurídicos inicialmente decretados pelo então governador de Macau e vice-rei da Índia, D. Rodrigo da Costa, em 1689. Estes documentos foram depois confirmados pelo rei D. João V, em Portugal, em 1709.

Segundo contaram os autores ao HM, numa entrevista conjunta por email, o primeiro volume “trata da primeira parte do arquivo, ou das primeiras 17 folhas, que dizem respeito às cartas fundacionais mais antigas, às cartas e às sentenças recebidas pelo Senado de Macau durante os últimos anos do século XVI”.

O segundo volume analisa o conteúdo do arquivo entre as folhas 17 e 33, sobre os 28 alvarás. “Esta não é ainda a história completa, uma vez que pretendemos continuar a trabalhar sobre o restante arquivo nos anos futuros”, confessaram os autores.

Os autores destacam a importância do foral, um antigo documento que consistia numa “carta ou contrato que o poder governante, seja um senhor feudal, um bispo ou um rei, estabelece com uma entidade local, seja ela uma aldeia ou cidade, um senado ou um concelho”.

“Consideramos que a palavra e o conceito são importantes para reflectir sobre este período histórico e não apenas em Macau, mas também da época em que o reino europeu [Portugal] se encontrava no auge da sua expansão pelos mares e oceanos. O conceito de foral implica a forma como uma estrutura social portuguesa estava a ser transplantada e repensada em Macau.”

Desta forma, acrescentam os autores, todos os documentos analisados para estes dois volumes estão relacionados com a ideia de foral.

Por sua vez, a designação “Cidade do Nome de Deus de Macau” surge, neste arquivo em específico, “não apenas na carta de D. Filipe I de Portugal, durante a União Ibérica, que estipula a elevação de Macau de povoação a cidade, mas também ao longo dos 28 alvarás posteriores”.

Em termos concretos, os leitores podem deparar-se com “um trabalho de investigação que aborda alguns dos documentos mais importantes da história de Macau, documentos que nos informam sobre a fundação da cidade e sobre a evolução da sua tradição jurídica e governativa”.

A ligação com Évora

O primeiro volume da obra inclui o subtítulo “Évora do Extremo Oriente”, relatando “a história em que o Senado da povoação apresentou uma petição ao vice-rei da Índia para o reconhecimento do Senado, para a elevação deste porto ao estatuto de cidade e para a concessão à ‘nova cidade’ de Macau dos privilégios, direitos e liberdades da cidade de Évora”.

D. Duarte de Meneses, à época governador de Macau e vice-rei da Índia, acabou por conceder esse pedido em nome do rei D. Filipe I, em 1586, uma “decisão que foi posteriormente confirmada pelo próprio rei em 1595”. “Para confirmar e corroborar que Macau tinha o mesmo estatuto de Évora, tornou-se natural que todos os documentos fundacionais da cidade de Évora fossem transcritos para Macau, de modo a que o Senado de Macau os pudesse conservar como prova e guardá-los nos seus arquivos como documentos fundadores da cidade”, explicam os autores.

Os documentos encontrados no arquivo sediado no Rio de Janeiro apontam para que “a ‘prova’ do estatuto de Macau como cidade comparável a Évora não consiste num único documento, mas numa compilação de vários textos”.

No primeiro volume da obra encontram-se exemplos como “sentenças sobre a jurisdição de certos cargos, como o Procurador e o Almotacé, cartas régias sobre questões específicas, leis sobre quais os cargos que deveriam integrar um Senado, ritos de procissões religiosas e fúnebres e até a configuração da sala do Senado”.

Em resumo, “tudo aquilo que Évora possuía de jure nesse período foi herdado por Macau, como se comprova pela transcrição meticulosa e pela autenticação destes documentos”, explicam os autores.

Os alvarás da sobrevivência

Relativamente ao segundo volume da obra, focado nos 28 alvarás, os autores entendem que estes documentos “são particularmente significativos por se apresentarem como um conjunto coeso, com grande integridade ao nível da linguagem, do formato, da administração e da argumentação”.

Para Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos, tal resulta do facto de, em finais do século XVII, Macau já não se encontrar no período áureo de comércio, “devido à perda de rotas comerciais”.

“Ao mesmo tempo, Macau enfrentava uma constante agitação social, tanto internamente – por exemplo, entre o Senado, o Capitão-Geral e o Ouvidor – como externamente, nas relações com os chineses e os castelhanos. Os privilégios e direitos do Senado não eram respeitados, e era necessário resolver ambiguidades para garantir a sobrevivência da cidade, como se reflecte nas várias atas das reuniões do Senado.”

Desta forma, foi apresentada uma petição, por parte destes órgãos, ao governador D. Rodrigo da Costa “para a reafirmação dos direitos da cidade e para a apresentação de soluções para diversos problemas, como o extravasamento da jurisdição do Capitão-Geral, a preservação do Padroado face a grupos missionários estrangeiros e o comércio com os chineses e em Solor e Timor”.

Surgiram, assim, os 28 alvarás, que “tratam também de um grupo muito diverso de pessoas de diferentes artes, profissões, origens e ideologias”, e não apenas as relações entre portugueses e chineses, o que tornou “este conjunto documental particularmente interessante de estudar”.

A publicação destes dois volumes teve por objectivo facilitar o acesso ao arquivo e respectiva informação. “Pretendemos colocar nas mãos dos leitores de Macau um documento fundamental da origem jurídica e política da cidade, que permanece pouco estudado, mesmo na historiografia lusófona, e que está quase totalmente ausente da imaginação histórica quotidiana de Macau”, acrescentam.

O arquivo sediado no Rio de Janeiro foi traduzido pelos autores “e nunca foi publicado na íntegra, sobretudo os documentos fundadores relacionados com Évora, nem sequer em português”.

Este arquivo surge quase sempre “de forma indirecta, como excertos e paráfrases, como as de historiadores canónicos de Macau, no caso de Manuel Teixeira; ou na qualidade de referências inseridas em trabalhos especializados, e em alguns casos apenas através de transcrições digitalizadas que circulam em teses de doutoramento”.

No caso dos alvarás, são “mais conhecidos entre os historiadores, mas surgem apenas em publicações muito limitadas”. “Por esta razão, a publicação do texto primário em si torna-se essencial. Ao apresentá-lo em inglês e em chinês, a par do português, procuramos também remover uma barreira que há muito estrutura a historiografia de Macau, dividindo o passado documental da cidade em arquivos linguísticos separados que raramente dialogam entre si”, rematam.

Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos entendem ainda que “estes volumes oferecem novas respostas em termos historiográficos, porque mostram com uma clareza renovada que a existência jurídica de Macau emergiu através da transplantação e da adaptação local do município português [Évora] como ideia governativa numa fronteira asiática”.

“No seu cerne, o arquivo impõe uma questão fundamental que muitas vezes permanece implícita: o que contava como ‘território português’ na sua menor unidade cívica, e como essa unidade podia ser reconstruída no Ultramar através de privilégios, cargos e jurisdição, depois de Portugal se ter tornado global a partir do século XV?”.

Uma gestão local

Sobre o relacionamento entre Portugal e a China à época, os autores referem que a obra mostra como “as relações entre a China e Portugal em Macau não se faziam principalmente através de uma diplomacia formal entre duas cortes distantes, mas através da gestão quotidiana da convivência por instituições locais, em condições de jurisdição desigual”.

O primeiro volume do livro mostra como “o rei eleva Macau de povoação a cidade e confirma as eleições de vereadores, juízes e oficiais porque o Capitão-Mor nomeado para a China partia frequentemente para a viagem anual ao Japão, permanecendo pouco tempo no local e deixando o assentamento sem liderança contínua”.

O documento original revela que “esta situação era especialmente perigosa na China, dada a distância de Macau em relação à Índia e o facto de os abastecimentos só poderem ser feitos durante a viagem anual”. Desta forma, “o governo municipal é apresentado como uma necessidade: uma cidade de fronteira não podia esperar por um comandante ausente nem podia permitir a desordem”.

Assim, acrescentam os autores, “os privilégios, a jurisdição e os cargos cívicos concedidos a Macau descrevem uma lógica política tanto quanto jurídica, uma vez que a presença portuguesa dependia de um órgão local permanente capaz de manter a paz e gerir riscos num espaço onde a autoridade superior se encontrava distante”.

No tocante aos alvarás, mostram-se o que implicava manter a estabilidade do território, pois “a sobrevivência de Macau dependia de se manter dentro dos limites tolerados pela autoridade chinesa”.

“O Vigésimo Sexto Alvará, por exemplo, é explícito ao afirmar que o mandarinato chinês não aceitava a jurisdição portuguesa sobre súbditos chineses, especialmente quando credores cristãos procuravam prender devedores chineses. O Senado descreve as despesas e os perigos causados quando um mandarim era enviado para fazer cumprir tais determinações e solicita uma solução directa: impedir os cristãos de contrair créditos com os chineses e negar-lhes recurso tanto ao Ouvidor como aos tribunais chineses, para que a cidade pudesse ‘viver em paz’. A Coroa confirma esta abordagem”, concluem.

5 Fev 2026

Eleições | Portugal prepara-se para escolher o próximo Presidente da República

Portugal vai a votos no domingo para escolher o próximo Presidente da República. Dos 11 candidatos, apenas dois têm mandatários por Macau: Bessa Almeida do PSD, e Neto Valente do PS. O ex-presidente da Associação dos Advogados de Macau realça que António José Seguro “não alinha em provocações à China”, enquanto Bessa Almeida considera que Marques Mendes é o homem certo para o momento

 

Onze candidatos vão a votos no domingo para a escolha do próximo Presidente da República portuguesa, para um mandato de cinco anos. Trata-se de um número recorde, sendo que apenas sete tem apoio de partidos políticos. Concorrem ao cargo Luís Marques Mendes, apoiado pelo Partido Social-Democrata (PSD), e que nomeou António Bessa Almeida para seu mandatário na RAEM. Segue-se António José Seguro, com apoio do Partido Socialista (PS), que tem Jorge Neto Valente, presidente da Fundação da Escola Portuguesa de Macau e advogado, como seu mandatário. São os únicos candidatos à Presidência da República que escolheram figuras para mandatários da RAEM.

Os restantes candidatos são Henrique Gouveia e Melo, João Cotrim de Figueiredo, Catarina Martins, António Filipe, André Ventura Jorge Pinto, Manuel João Vieira, André Pestana e Humberto Correia.

Ao HM, António Bessa Almeida, militante do PSD e explicou as razões para apoiar Marques Mendes. “Na altura que Portugal atravessa, o país necessita de um candidato como Marques Mendes, profundo conhecedor das diversas políticas”, começou por apontar.

Questionado sobre o tipo de acções desenvolvidas em Macau para captar o eleitorado para o voto em Marques Mendes, Bessa Almeida apenas referiu que “a campanha em Macau é totalmente diferente da de Portugal”, sendo que as acções desenvolvidas passam por “aquilo que o candidato vai procedendo na proximidade com o povo, passando informação”.

Para Bessa Almeida, “o eleitorado em Macau, do lado chinês, também é constituído por portugueses”, e que “tem acompanhado estas eleições como qualquer outro português acompanha, com visões seguras para o futuro de Portugal”.

No passado dia 6 de Janeiro, o mandatário divulgou uma nota a realçar a importância da candidatura de Marques Mendes, que neste momento está longe dos lugares cimeiros nas sondagens. “Sempre nos preocupamos com tudo o que está relacionado com Portugal e neste momento, a nível mundial, as mudanças políticas são bruscas e inesperadas. Por isso precisamos de um presidente visionário, experiente e ponderado na condução dos destinos de Portugal e dos portugueses nascidos e radicados fora do país.”

 

Uma volta segura

Em Portugal as sondagens relativas às eleições presidenciais têm sido quase diárias, e mostram um volte face na escolha dos candidatos. Se inicialmente António José Seguro estava algo afastado dos lugares cimeiros, uma sondagem realizada pela Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e jornal Público, entre os dias 6 e 9 de Janeiro e divulgada esta semana, mostra como Seguro está em empate técnico com André Ventura, candidato do Chega, garantindo 23 por cento das intenções de voto, quando Ventura arrecada 24 por cento. João Cotrim de Figueiredo surge em terceiro lugar, com 19 por cento, havendo possibilidade de ir à segunda volta de eleições, seguindo-se Marques Mendes e Gouveia e Melo com 14 por cento.

Outra sondagem, desta vez para a TVI, CNN, TSF e Jornal de Notícias, com dados recolhidos nos dias 10, 11 e 12 de Janeiro, mostram Seguro com 23,9 por cento das intenções de voto, seguindo-se Cotrim de Figueiredo com 20,8 por cento e Ventura com 20,5 por cento. Marques Mendes cai para quinto lugar, com 13,2 por cento.

Seguro escolheu, na RAEM, Jorge Neto Valente para seu mandatário, que não atendeu a chamada do HM. Num comunicado divulgado nos jornais esta quarta-feira, o ex-presidente da Associação dos Advogados de Macau declarou que Seguro “propõe uma visão de futuro assente na modernização do país, na valorização da educação e aposta na inovação”. Referindo-se especificamente às relações Portugal-China, Neto Valente destaca que “diferentemente de outros candidatos, Seguro não alinha em provocações à China no que respeita ao estatuto de Taiwan, sendo também um candidato que “conhece Portugal, a Europa e o mundo”.

Neto Valente afirmou também que Seguro “é um homem decente”. “Participou em todos os debates, revelou educação, defendeu as suas ideias com firmeza, nunca foi excessivo na linguagem e, ao contrário dos outros, não insultou adversários, nem lhes fez insinuações maliciosas.”

 

Um “percurso consistente”

Paulo Pisco, mandatário da campanha de Seguro para a emigração, recordou ao HM que o candidato “chegou a exprimir a opinião que, dado tratar-se de um voto presencial [para as eleições presidenciais], o Governo poderia ter feito muito mais, designadamente cumprindo aquilo que diz a lei eleitoral para a Presidência da República, que é a possibilidade de serem abertas mais mesas de voto”.

Seguro defendeu ainda, segundo Paulo Pisco, “que poderia ter sido também aplicado o voto em mobilidade, tendo por base a experiência anteriormente realizada nas últimas eleições para o Parlamento Europeu”.

Paulo Pisco refere que António José Seguro tem feito um “percurso muito consistente, sólido e objectivo”, que o permitiu chegar aos primeiros lugares das sondagens. Relativamente ao eleitorado que está emigrado, o deputado destaca que Seguro “não se desviou dos propósitos, forma e valores com que pretende exercer a Presidência da República”.

Além disso, é “um garante da estabilidade do sistema político e também da democracia”. “Esta imagem que o candidato António José Seguro tem passado neste seu percurso tem-lhe valido uma maior receptividade por parte dos eleitores”, destacou Paulo Pisco.

O mandatário não esquece que “Seguro é o candidato que tem mais mandatários por país na nossa diáspora”. “São 18, dez na Europa e oito fora da Europa. Julgo que isto consubstancia um compromisso muito firme do candidato para com o exercício de funções como Presidente da República, e na relação que pretende ter com a diáspora”, frisou.

Olhando para os candidatos nos lugares mais abaixo nas sondagens, temos muitos rostos da esquerda. A mesma sondagem com dados recolhidos nos dias 10, 11 e 12 de Janeiro coloca Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, com 2,5 por cento; seguindo-se António Filipe, do PCP, com 1,4 por cento, taco a taco com Jorge Pinto, do Livre, que tem 1,3 por cento. Manuel João Vieira, artista plástico e músico, obtém 1 por cento das intenções de voto.

17 Jan 2026

Estudo | Sociedade de Hong Kong domina notícias sobre depressão

Um estudo publicado no Journal of Medical Internet Research analisou temas e tom emotivo de notícias sobre depressão publicadas em Hong Kong. O “sistema societário”, relacionado com saúde, família ou trabalho, surge em primeiro lugar com 34,83 por cento do total das notícias, tendo uma “inclinação mais negativa”

O sistema da sociedade de Hong Kong domina o grupo de temas presentes em notícias sobre depressão, representando 34,83 por cento dos artigos analisados, seguindo-se temáticas como a aplicação da lei, com 18,81 por cento, ou a ainda a recessão económica global em terceiro lugar.

Esta é a principal conclusão do estudo “Analyzing Themes, Sentiments, and Coping Strategies Regarding Online News Coverage of Depression in Hong Kong: Mixed Methods Study” [Análise de Temas, Sentimentos e Estratégias de Enfrentamento Relacionados com a Cobertura Jornalística Online Sobre Depressão em Hong Kong: Estudo de Métodos Mistos], publicado no Journal of Medical Internet Research no ano passado. O estudo é da autoria de Chen Sihui, Cindy Sing e Yangna Hu, da Universidade Politécnica de Hong Kong; e Cecília Cheng, da Universidade de Hong Kong.

O estudo é focado na cobertura de notícias online sobre depressão na região vizinha, nomeadamente de publicações como o South China Morning Post e Hong Kong Free Press, e que procurou perceber quais os temas dominantes e a carga emocional dos textos, se eram positivos ou negativos, entre outras questões.

Assim, o estudo revela que o “sistema societário” da região esteve na origem de 34,83 por cento das notícias sobre depressão, ou seja, 848 num total de 2.435, seguindo-se o tema da “aplicação da lei”, representando 458 de todas as notícias analisadas, com uma fatia de 18,81 por cento. Segue-se, em terceiro lugar, o tema da “recessão global”, com 17,4 por cento de respostas; “estilo de vida”, com 8,05 por cento; “lazer”, com 11,21 por cento de respostas; “questões de saúde”, com 6,94 por cento e, finalmente, “política dos Estados Unidos”, representando apenas 3,12 por cento das notícias.

O estudo descreve, assim, que analisando o sentimento inerente às notícias, “torna-se evidente que o sistema societário apresentou uma inclinação mais negativa”, estando “relacionado com diversos sistemas da sociedade de Hong Kong, incluindo de saúde, social, família, educação e trabalho”.

Entre extradição e covid-19

A recolha de notícias online foi feita entre Fevereiro de 2019 e Maio de 2024 “com o intuito de examinar a representação mais recente da depressão, especialmente durante e após o período de agitação social e a pandemia de covid-19”.

Os artigos foram escolhidos com base em três critérios, sendo que um deles era a acessibilidade aos leitores sem assinatura paga, além de que o website em questão “deveria permitir a recuperação de uma quantidade suficiente de notícias relacionadas com depressão (isto é, mais de 20) para garantir dados adequados para as análises subsequentes”. Foram ainda escolhidos sites com notícias em inglês. Depois, foram feitas pesquisas separadas com as palavras-chave “depression” e “depressed”.

As datas escolhidas para este estudo prendem-se com duas ocorrências. Uma delas foi em Fevereiro de 2019, com a introdução de a proposta de lei sobre extradição para a China, intitulada “Fugitive Offenders and Mutual Legal Assistance in Criminal Matters Legislation (Amendment)”. Tal “desencadeou protestos e marchas em Hong Kong devido a divergências políticas, levando a um aumento significativo nos casos de depressão, agravado em 2020 com o surto da covid-19”.

Os autores revelam que houve “picos de cobertura” de notícias relacionadas com a depressão, nomeadamente em Abril e Maio de 2020 e em Julho de 2023. Seguiu-se a covid-19 como segunda ocorrência.

No caso das notícias de 2020, o estudo constata que “as medidas de confinamento devido à covid-19 afectaram fortemente Hong Kong, contribuindo para um humor mais depressivo”, sendo que este período “correspondeu à segunda onda do surto de covid-19”. A segunda onda pandémica originou fortes medidas de confinamento como o encerramento de escolas, “políticas de trabalho remoto e a proibição de refeições presenciais em restaurantes”.

O fecho de escolas, “conforme relatado nas notícias, resultou no aumento das taxas de depressão entre crianças e ansiedade entre os pais, que precisaram cuidar simultaneamente dos filhos e idosos em casa”.

“Além disso, conflitos entre trabalho e família também se intensificaram devido à interrupção da rotina normal de trabalho”, nomeadamente “a ausência de espaço de escritório e indefinição dos horários de trabalho”, o que “foi associado a sentimentos depressivos”, descreve-se.

Por sua vez, em 2023 observou-se “um aumento nos casos de suicídio noticiados”, sobretudo porque Coco Lee, “uma estrela influente que enfrentava a depressão, morreu por suicídio em casa, o que gerou maior consciencialização sobre a necessidade de expansão de serviços de apoio na área da saúde mental e melhoria em termos de acessibilidade, sendo frequentemente destacadas as linhas de apoio”.

Um certo estigma

No que diz respeito ao segundo tema mais encontrado nas notícias, a “aplicação da lei”, o estudo releva que acarreta também “um sentimento negativo”. “O volume de notícias atingiu picos em Novembro de 2020 e Agosto de 2019”, sendo que, em 2020, foram sobretudo noticiados “crimes individuais e processos judiciais, com destaque para o caso de um professor de Hong Kong que assassinou a esposa, o que pode ter causado um grande choque social e atenção pública”.

Os autores explicam que, neste caso, “a depressão foi frequentemente citada nas notícias como explicação para as acções ilegais do perpetrador, o que pode reforçar atitudes estigmatizantes e retratar pessoas com depressão como violentas, perigosas e mais propensas a cometer crimes”.

Outros tópicos que também apresentaram “tendências negativas” são “questões de saúde” e “política dos Estados Unidos”, sendo que temas como “estilo de vida” ou “lazer” “tenderam para sentimentos mais positivos”.

No que diz respeito a outro tema associado a notícias sobre depressão, o da “recessão global”, o foco são as “dificuldades económicas provocadas pela disseminação da covid-19 em diversos sectores”, apresentando-se “um sentimento positivo mais contraditório”. Ou seja, “a estrutura das reportagens descrevia inicialmente os desafios económicos, para enfatizar, de seguida, as iniciativas para facilitar a recuperação em resposta à crise”.

Assim, os autores denotam que se “observou uma mudança significativa no sentimento geral”, pois “até Janeiro de 2021, interrompeu-se a diminuição contínua na quantidade de notícias positivas”, e que depois “o número agregado de notícias positivas superou o de notícias negativas quase todos os meses, sinalizando uma mudança geral de um sentimento negativo para um sentimento mais positivo em relação às circunstâncias económicas discutidas”.

Os autores consideram que a mudança pode dever-se “ao facto de as pessoas terem sido forçadas a adaptar-se a um ‘novo normal’ e iniciar a recuperação da economia, saúde, e sociedade após um ano de convivência com a pandemia”. No que respeita ao tema da política dos EUA encontrado em notícias associadas a depressão, os textos “enfatizavam a rivalidade e o processo eleitoral presidencial, bem como políticos de diferentes partidos que vivenciaram depressão”.

Poucas respostas institucionais

O estudo olhou também as chamadas estratégias de enfrentamento, ou seja, esforços cognitivos, ou comportamentais, usados para lidar com situações menos boas. E aqui, as notícias analisadas centraram-se sobretudo em “informações sobre habilidades e recursos” disponíveis para ajudar pessoas com depressão, como “as linhas de apoio para intenções suicidas e prevenção do suicídio”. Foram ainda apresentados programas de saúde mental disponibilizados por organizações locais, como a Mind HK, o Kely Support Group e a Mental Health Association of Hong Kong, e foram escritos artigos sobre “serviços de aconselhamento e terapias para pessoas com depressão”, ou ainda recomendações de exercício físico.

Os autores destacam que, ao analisar as notícias, perceberam “a insuficiência de intervenções políticas, apoio institucional e assistência financeira para indivíduos com depressão, o que indica uma deficiência no nível societário das estratégias de enfrentamento e que estão presentes na cobertura jornalística”.

14 Jan 2026

Ensino superior | Académico destaca crescimento do sector em Macau

Em “Macau, redes, diálogos e afectos – A consolidação da comunidade lusófona de estudos da China”, o académico Pedro Steenhagen defende que Macau está a dar passos largos para ser uma ponte de ligação a nível académico com os países de língua portuguesa, apesar de “ter ainda um longo caminho para atingir as metas”

Acaba de ser editado na Revista Sinóptica, projecto editorial do portal Observa China, o artigo “Macau, redes, diálogos e afectos – A consolidação da comunidade lusófona de estudos da China”, da autoria do académico e doutorando Pedro Steenhagen. No artigo, destaca-se o papel que a RAEM pode ter na conexão do seu sistema de ensino superior com os países de língua portuguesa, e da importância crescente que tem tido nessa área.

“Os referidos esforços no campo da educação não ficam apenas na retórica”, descreveu no artigo, referindo que “em relativamente poucas décadas, a nação asiática tornou-se numa verdadeira potência na área”. Pedro Steenhagen baseia-se em dois rankings mundiais para avaliar a qualidade do ensino superior no mundo, nomeadamente o World University Rankings 2026 da Times Higher Education (de 2025), que mostra como “Macau, pequena região administrativa especial da China, possui três universidades ranqueadas: Universidade de Macau (145), Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (251-300) e Universidade da Cidade de Macau (601-800)”, sendo estes dados relativos às posições ocupadas no ranking.

“De maneira muito interessante, as universidades da RAEM têm experimentado um crescimento estrondoso; por exemplo, a Universidade de Macau teve um salto de mais de 250 posições no ranking nos últimos 10 anos”, destaca o autor do artigo. Na sua visão, estes dados traduzem-se no facto de a RAEM “assumir um papel de liderança cada vez mais relevante na área da educação e da pesquisa”.

Além disso, tem “a melhor universidade do mundo lusófono em seu território, experimenta uma intensa expansão do sector de educação e pesquisa e serve como eixo fundamental para o intercâmbio de pessoas e a promoção de conhecimento”.

Tendo em conta os rankings, o artigo de Pedro Steenhagen recorda que a China “possui cinco [universidades] no top 50 do mundo: Universidade Tsinghua (12), Universidade de Beijing (13), Universidade Fudan (36), Universidade de Zhejiang (39) e Universidade Shanghai Jiaotong (40)”, sendo que o ranking da Times Higher Education “mostra um total de 97 resultados para a China continental”.

O Brasil, na qualidade de “maior país de língua portuguesa do globo, possui um total de 59 resultados, e suas cinco melhores universidades são: Universidade de São Paulo (201-250), Universidade Estadual de Campinas (351-400), Universidade Federal do Rio de Janeiro (601-800), Universidade Estadual Paulista (601-800) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (601-800)”.

No caso de Portugal, há 16 resultados, com os cinco melhores estabelecimentos de ensino superior a serem a Universidade de Coimbra, Universidade de Lisboa, Universidade do Porto, Universidade Nova de Lisboa e ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa.

Olhando para os restantes países de língua portuguesa, Pedro Steenhagen destaca como “Moçambique possui apenas uma presença no ranking”, com a Universidade Eduardo Mondlane, enquanto que “nenhum outro país de língua portuguesa possui universidades ranqueadas”.

Um longo caminho

Apesar dos bons resultados, Pedro Steenhagen aponta que “a RAEM ainda tem um longo caminho para atingir todas as suas metas”. No entanto, “o seu enorme potencial como protagonista regional e global em áreas como tecnologia e inovação, turismo sustentável, indústria criativa, finanças e, particularmente, ensino, pesquisa e intercâmbio de pessoas já é bastante claro”.

No artigo académico é referida a “componente da Lusofonia e da conexão única com os PLPs [países de língua portuguesa] que acrescenta ainda mais dinamismo às suas ambições e a uma trajectória que já pode ser considerada incrivelmente bem-sucedida desde a sua retrocessão”, ou seja, a transição da administração portuguesa de Macau para a China, em 1999.

No caso da Universidade de Macau (UM), a primeira a surgir em Macau, e que está agora a comemorar 45 anos de existência, “possui o maior departamento de português da Ásia”, é destacado no artigo, além de ter “dois centros de pesquisa: o Centro de Investigação para Estudos Luso-Asiáticos e o Centro de Ensino e Formação Bilíngue Chinês-Português”, sendo “notável o seu crescente movimento de internacionalização”.

Pedro Steenhagen contabiliza os “programas de intercâmbio de estudantes com mais de 10 universidades brasileiras”, além do fortalecimento da “colaboração em ensino e pesquisa via alianças internacionais, como a Associação das Universidades de Língua Portuguesa, e estabelecido o Centro de Estudos Judiciários e Jurídicos da China e dos Países de Língua Oficial Portuguesa”.

É referido o exemplo da Universidade Cidade de Macau (UCM), onde está estabelecido o Instituto para Pesquisa sobre Países de Língua Portuguesa, com “programas únicos” de mestrado e doutoramento em Estudos de Países de Língua Portuguesa.

Ao estabelecer parcerias com o ISCTE-IUL, a UCM fica numa “posição na vanguarda de programas e de iniciativas académicas que vão além de questões puramente linguísticas e culturais” na conexão com os países de língua portuguesa.

Há ainda o exemplo de uma instituição de ensino superior privada, a Universidade de São José, que “firmou [acordos] por exemplo, com a Universidade Federal do Ceará e a Universidade Católica Portuguesa, não só para aproximação no âmbito bilateral, mas também para promover projectos conjuntos”.

O lugar do Governo

Pedro Steenhagen refere ainda a intervenção do Governo da RAEM na ligação ao mundo lusófono, nomeadamente da Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico e do Centro de Incubação de Negócios para os Jovens de Macau, que realizaram o Concurso de Inovação e Empreendedorismo de Macau para as Empresas de Tecnologia do Brasil e de Portugal desde 2021.

Destaca-se o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) em Lisboa e as Casas de Macau espalhadas pelo mundo que, “juntamente com iniciativas internacionais como o Encontro de Comunidades Macaenses, contribuem não só para a vitalidade dos intercâmbios intelectuais, mas também para o cultivo da memória e dos laços afetivos entre Macau, a diáspora, os descendentes e as comunidades lusófonas”.

“Associações como a Associação de Estudos Brasileiros em Macau e a Associação Industrial e Comercial de Macau oferecem substância, de maneira complementar às universidades e aos institutos de pesquisa, para o estreitamento de relações, o desenvolvimento de redes e a geração de diálogos cada vez mais frutíferos entre as partes envolvidas”, lê-se ainda.

Pedro Steenhagen é doutorando na área de Política Internacional na Escola de Relações Internacionais e Assuntos Públicos da Universidade Fudan, e presidente do Conselho de Cidadãos Brasileiros em Xangai. Na plataforma Observa China, é director de desenvolvimento e coordenador do Núcleo de Relações China-Brasil e Lusofonia. A plataforma é um think-tank criado em 2020 por “um grupo de jovens profissionais e estudantes com a missão de criar uma rede para qualificar o debate sobre a China em português”, lê-se no website.

13 Jan 2026

Livro | As mudanças na política colonial portuguesa nos finais do século XIX

Defendida em 2018, a tese de doutoramento de Célia Reis, docente e investigadora em História contemporânea, acaba de ser editada em livro pelo Centro Científico e Cultural de Macau com o apoio da Fundação Macau. “O Poder entre Lisboa e o Oriente – Persistências e Mudanças na Administração. Do Ultimato ao Ato Colonial” circula entre Macau, Índia e Timor e traz “um bom contributo para a história do poder colonial”

Célia Reis, docente e investigadora na área da História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, acaba de editar em livro a sua tese de doutoramento centrada no poder colonial português a Oriente a partir do final do século XIX. “O Poder entre Lisboa e o Oriente – Persistências e Mudanças na Administração. Do Ultimato ao Acto Colonial” é uma edição do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), apoiada pela Fundação Macau (FM), e nasce da tese defendida em 2018.

Ao HM, Célia Reis defendeu que este livro e respectiva investigação trazem “um bom contributo para a história do poder colonial”, focando-se “nas configurações administrativas nas colónias do Oriente, Índia, Macau e Timor, no período compreendido entre o Ultimato e o Acto Colonial”, publicado em 1930.

Foram analisados “milhares de documentos”, nomeadamente “ofícios formais, cartas particulares, pareceres de repartições, rascunhos, pequenas notas” e que demonstram decisões e o funcionamento da Administração nos territórios da Índia portuguesa, Macau e Timor.

Falamos, segundo a autora, de “uma época de muitas experimentações, em fases diferenciadas”, sendo que, para Célia Reis, se ultrapassou “uma lacuna que existia na historiografia portuguesa” no sentido de uma melhor compreensão do funcionamento do poder colonial português nestes anos, e especificamente nos territórios a Oriente.

No caso de Macau, o livro e estudo contribuem “para uma história administrativa do período em causa”, nomeadamente “porque se decidiu, como se decidiu; que problemas foram colocados a nível administrativo; como se fez sentir o poder de Lisboa e como se resolveu, ou como se procurou influenciar o poder central; ou quem o representava”.

O território é também colocado “a par de outros dois espaços, Índia e Timor, muito diferentes, possibilitando uma história comparativa, um realce do que era comum ou específico, o que, sem dúvida, é essencial para um conhecimento mais profundo”. Célia Reis diz estar “muito contente com a publicação”, por poder “partilhar o trabalho, as investigações e os seus resultados, com o público, contribuindo para que se conheça melhor a história e as realidades vividas”.

Ajustes históricos

Os anos a que se dedica esta investigação mostram muitas alterações a nível da política colonial, tendo em conta que “o movimento de colonização verificado a partir das últimas décadas do século XIX se reflectiu na forma de governar as colónias, suscitando discussões, estudos e adaptações às realidades”.

Célia Reis explicou ainda que “o quadro existente, e que foi institucionalizado desde 1869, foi sendo alterado pela criação de novas repartições, pela introdução de novas formas de controlo financeiro ou pela mudança no estatuto e organização de algumas colónias, tornando a administração menos homogénea do que se fazia ver em muitos discursos”.

Em causa, está, nomeadamente, um decreto datado de 1 de Dezembro de 1869, e que revelou ser a “verdadeira carta orgânica das Províncias Ultramarinas”, conforme se lê na conclusão da obra, sem esquecer o Código Administrativo de 1842, que “enformaram os organismos políticos ultramarinos durante décadas”.

“Não obstante conduzirem a um modelo continuado, nos órgãos e nas suas funções, não impediram a progressiva organização de novas configurações ou a adaptação de estruturas diferenciadas”, lê-se ainda.

A investigadora destaca a ocorrência de sucessivas tentativas de modernização em termos legislativos e administrativos, e até antes da implementação da I República. “Fizeram-se diversas propostas para modificações, com uma intenção mais modernizadora, e que tiveram maior ênfase a partir dos últimos anos da Monarquia, prosseguindo depois pela República para uma mudança mais estruturada, que acabou por ser realizada pelas leis publicadas em 1914 e 1920”.

A partir de 5 de Outubro de 1910, quando cai a Monarquia e é instaurado regime republicano, houve “uma alteração ministerial, com a assunção da referência a colónias em substituição do Ultramar e a autonomização do seu ministério”.

“Nos espaços ultramarinos entendeu-se a mudança de regime como uma oportunidade de renovação administrativa, como se compreende pela proposta da Índia, ou pela abertura manifestada pelas instâncias governamentais a alterações em Macau. Mas o novo regime republicano ficou, no campo da administração colonial, enredado nas circunstâncias do seu início, ao constitucionalizá-la.

Com efeito, no largo conjunto de mudanças, as questões coloniais constituíram apenas uma parte e os parlamentares não se dedicaram suficientemente a elas, não obstante a existência de propostas”, lê-se na conclusão da obra.

Nos anos do Republicanismo, deu-se “o processamento político que impôs um quadro de parlamentarismo, devido a alguma desconfiança relativamente ao Executivo”, sendo que ao nível das colónias “esta opção conduziu a uma maior interferência do Senado na nomeação dos governadores, afastando-se do que se consideravam modelos mais eficazes”.

Além disso, “a ruptura também não teve lugar no campo da participação no Congresso, onde os territórios ultramarinos mantiveram o seu espaço no jogo político”. “A decisão republicana evidenciou igualmente um caráter conservador em relação aos órgãos municipais. Não sendo possível realizar aqui o seu estudo mais aprofundado, constatou-se que a visão política assente na importância do município, como espaço de participação, impediu as mudanças mais profundas que se propunham para a orgânica interna”, é referido na conclusão.

Entraves e controlo

Seguiream-se “entraves ocorridos, como o Sidonismo”, verificando-se as tentativas de mudança como sendo “insuficientes”. De frisar que o Sidonismo teve origem num golpe militar protagonizado por Sidónio Pais contra o regime republicano em vigor naqueles anos, desde 1910, e que funcionou entre 1917 e 1918. Tratou-se de um regime de cariz autoritário e militarista.

Segundo Célia Reis, foi a partir da Ditadura Militar de 1926 que “se encaminhou para um maior controlo” em matéria de política colonial.

Em termos gerais, “o regime iniciado a 5 de Outubro foi, em suma, modernizador em algum sentido, mas as suas concepções políticas e a inserção das questões coloniais no espaço mais lato das mudanças a realizar no país permitiram a persistência de muitos modos anteriores”.

“Apesar destas limitações, as leis de 1914 constituíram, indubitavelmente, um passo modernizador, substituindo o quadro existente”, concluiu Célia Reis, referindo-se aos anos do Sidonismo como “uma ruptura no caminho que estava ser seguido, com o recuo das capacidades coloniais, particularmente dos órgãos colegiais e de participação local, assim como com uma diminuição da autonomia financeira”. Esta “tendência política” vivida na então metrópole acabou “transplantada para o ultramar”.

Em matéria de documentação utilizada nesta investigação, temos o exemplo das Cartas Orgânicas, implementadas por Portugal para cada colónia, e que “surgiram na sequência das leis de 1914”, analisando “as diversas propostas existentes na Índia, Macau e Timor, o seu processo de realização, as características essenciais das que pertenciam àquelas colónias e o seu percurso posterior”.

Segundo a investigação, “elas foram o produto do momento em que se realizaram, inseridas numa mudança mais vasta introduzida em Portugal pela República, o que condicionou a sua existência, primeiro pelos diferentes contributos que tiveram e, posteriormente, pela indefinição da sua situação”.

Faz-se, neste estudo, a análise “da forma como se operacionalizavam as decisões centrais e coloniais”, tendo sido consideradas “estruturas governamentais e parlamentares”. No caso das colónias, foram estudados “os seus órgãos de poder”, onde “agia o governador, interlocutor entre metrópole e colónia, examinando-se as suas capacidades e possibilidade de acção, quando se encontrava sob a alçada de um ministério longínquo, mas a par de outros poderes de supervisão, particularmente financeiros, de Conselhos e, no geral, sob a pressão das várias forças da colónia”.

No caso das “competências e composição dos diversos Conselhos e meios de controlo financeiro” conheceram, nestes anos, “uma mudança, muito mais pronunciada ao longo das diversas reformas; integrando maioritariamente o funcionalismo”. Além disso, “a junção de outros elementos da sociedade local mostrou-se diferenciada, conforme as colónias”.

Ordens de Lisboa

Célia Reis descreve que “as deliberações locais estavam dependentes da sanção superior e assim se mantiveram além das reformas”, sendo que “a prática contornava, muitas vezes, a norma, mantendo indefinições como forma de acção”.

Outro ponto a destacar neste estudo, é como o facto de ser Lisboa a tomar as decisões mais importantes afectou a vida nas colónias.

“Embora se mantivesse a obrigatoriedade da sanção, a legislação foi introduzindo alterações, sobretudo baseadas no estabelecimento de prazos. Não obstante, a capacidade de decisão metropolitana continuou essencial, afectando a vida das colónias. As formas usadas, persistindo o que existia ou alterando o quadro, constituíram essencialmente adaptações às circunstâncias ocorrentes, respondendo quer aos modelos estrangeiros, quer às necessidades impostas às realidades portuguesas. A política, na sua instabilidade e fases de mudança determinou também este caminho”, disse.

12 Jan 2026

Universidade de Macau | Antigos docentes recordam experiências

A Universidade de Macau celebra 45 anos e o HM convidou dois antigos docentes a recordar experiências profissionais na instituição. Brian Hall, da área da psicologia, encontrou “o ambiente ideal” para iniciar a carreira. Vera Lúcia Raposo diz ter “aprendido muito” e encarado o Direito como um “lugar de encontro”

Começa este domingo uma série de eventos para celebrar os 45 anos de existência da Universidade de Macau (UM), entre eles o “Dia Aberto” que decorre no Teatro Lakeside entre as 11h e as 17h (ver texto secundário). Foi em Março de 1981, ainda com a designação de Universidade da Ásia Oriental, que a UM começou a dar os primeiros passos no ensino superior local, nomeadamente no ensino do Direito em língua portuguesa.

Era a primeira vez que Macau tinha a sua própria universidade, disponibilizando uma oferta educativa a nível superior para os residentes, que já não tinham apenas o exterior como possibilidade de prosseguir estudos, como Portugal, Reino Unido, Hong Kong ou Austrália.

Para lembrar a efeméride, o HM convidou dois antigos professores da instituição, de duas áreas académicas diferentes, para contar a sua experiência na UM.

Vera Lúcia Raposo, que foi docente na Faculdade de Direito a partir de Janeiro de 2014, recorda de ter sentido “um choque”. “As aulas eram integralmente em inglês, e nunca tinha leccionado um curso completo nessa língua, a pressão para publicar em revistas indexadas era absoluta e o sistema de avaliação era periódico, exigente e implacável. Nada ali se parecia com o regime a que estava habituada, onde o simples decurso do tempo parecia, muitas vezes, garantir o avanço natural da carreira académica”, contou.

Porém, chegou a adaptação e acabou por seguir “as regras” até hoje, nomeadamente na NOVA School of Law. “À época, porém, essas exigências eram ainda profundamente estranhas em Portugal, e continuam a sê-lo, em muitos contextos, mesmo hoje”, refere.

Vera Lúcia Raposo diz ter “aprendido muito” na UM, pois “as exigentes metas de produção científica e a investigação interdisciplinar contribuíram para definir o tipo de académica que sou hoje”. “Devo à UM mais do que uma passagem profissional, e sim uma transformação”, assegura.

Um caldeirão cultural

A antiga docente da Faculdade de Direito da UM recorda também a chegada a um território que era “um espaço de verdadeira amálgama cultural”, com a instituição a ser disso exemplo.

“Trabalhar lado a lado com colegas de diferentes nacionalidades e culturas foi um privilégio raro. Em particular, a convivência intelectual entre colegas chineses, macaenses e portugueses, no estudo e no ensino do Direito de Macau, ofereceu-me uma forma absolutamente singular de pensar o Direito: menos autocentrada, mais dialogante, mais consciente da sua contingência cultural e histórica”, destacou Vera Lúcia Raposo.

Brian Hall, que deu aulas na Faculdade de Ciências Sociais e coordenou o “Global and Community Mental Health Research Group”, destaca a possibilidade de fazer trabalho pioneiro na área da saúde mental. “A UM proporcionou-me a oportunidade de desenvolver cursos únicos e nunca antes ministrados em Saúde Mental Global e Saúde Global. Foram os primeiros cursos deste tipo em Macau e na universidade”, recordou Brian Hall, que hoje está ligado à New York University Shanghai.

“Fiquei grato por ter alunos realmente excelentes que se interessaram por tópicos como migração, saúde mental global e digital, e gostei muito de os orientar dentro e fora da sala de aula.”

Os primeiros prémios

O académico realça também o facto de ter publicado “regularmente artigos de investigação com os alunos de graduação e pós-graduação, levando-os a conferências internacionais de investigação, onde ganharam prémios”. “Fomos dos primeiros na universidade a alcançar esses excelentes resultados e sou eternamente grato à UM por me proporcionar todas essas oportunidades”, confessou.

Brian Hall adiantou também que entrou na UM “num período de transição e crescimento ambiciosos para se tornar numa universidade de investigação”, proporcionando “um ambiente ideal para iniciar a carreira”. Quando estava na UM, Brian Hall recebeu, em 2020, um prémio pelo trabalho desenvolvido, o “Excellence in Advising Award” do Center for Global Health da Universidade Johns Hopkins, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health.

“A universidade recompensou-me pelo meu excelente desempenho em investigação, concedendo-me permissão para me candidatar a uma promoção antecipada a professor associado, que me foi concedida apenas quatro anos após ingressar na universidade. A UM serviu de trampolim para construir uma carreira regional e internacional”, disse.

Livro do Génesis

A necessidade de criar uma universidade em Macau surgiu da vontade de desenvolver o território, sobretudo tendo em conta a assinatura da Declaração Conjunta entre Portugal e a China, em 1987.

O antigo Governador de Macau Garcia Leandro recordou os primeiros momentos da criação da futura universidade no livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979”, onde se lê que o orçamento inicial foi de 40 milhões de patacas para a construção “num terreno na ilha da Taipa, com projecto moderno de arquitectura”.

A instituição deveria ter capacidade para “uma população de dois mil alunos em quatro anos, ao ritmo de 500 por ano”, sendo que “a regência das várias cadeiras dos cursos garantida por um professor decano doutorado pela Universidade de Oxford e por vários professores universitários originários da Matteo Ricci, da Universidade Chinesa de Hong Kong e também dos EUA”, descreve-se.

O primeiro contrato para formar a equipa docente e os conteúdos pedagógicos foi assinado em Fevereiro de 1979 com o grupo Matteo Ricci. “Creio que foi mais um bom serviço prestado à população”, escreveu o antigo Governador. Em 1991, a instituição mudava de nome para o que tem actualmente.

Segundo dados do relatório anual de 2024, o último disponível, a UM tem 52.146 estudantes graduados, sendo que no primeiro semestre do ano académico de 2024/2025 frequentavam a uniersidade 15.147 estudantes, de todos os graus de ensino. Destaque para o maior número de estudantes do exterior, 9.328, face aos 5.819 locais.

Dia aberto em Hengqin

Apesar de ter sido formalmente criada em Março, a UM começa a celebrar este domingo 45 anos de existência com um Dia Aberto. Segundo um comunicado da instituição de ensino, entre as 11h e as 17h o público poderá conhecer o Teatro Lakeside, onde decorre a primeira cerimónia, e depois outras áreas do campus em Hengqin, nomeadamente o campus principal e o Instituto de Investigação Científica e Tecnológica da UM em Zhuhai, no Vale do Empreendedorismo Juvenil em Hengqin.

Neste percurso inclui-se ainda a possibilidade de conhecer, pela primeira vez, o Local de Investigação e Educação Transitório na Torre Yuxin, na Zona de Cooperação. “Através de uma ampla gama de actividades no local e transmissões online ao vivo, o evento irá mostrar os mais recentes desenvolvimentos e conquistas da UM no ensino, investigação e serviço comunitário”, destaca a mesma nota, que recorda como a UM foi a primeira instituição de ensino superior de Macau a “alargar as actividades de ensino e investigação à Zona de Cooperação Aprofundada Guangdong-Macau em Hengqin”.

Nesse dia haverá também “aproximadamente 250 actividades no campus principal ao longo do dia, incluindo palestras sobre admissão, actividades académicas e de investigação e jogos interactivos”.

“Os visitantes interessados em assuntos académicos podem assistir a palestras envolventes sobre ciências e outras disciplinas, enquanto os entusiastas do desporto podem explorar as instalações desportivas da UM. As famílias também podem participar em jogos interactivos em stands, experiências científicas, workshops e desafios de conhecimento organizados por várias faculdades, residências e laboratórios”, é revelado. No Dia Aberto haverá também descontos na área da restauração.

9 Jan 2026

Igreja | Papa fecha 2025 com críticas ao consumismo e xenofobia

O Papa Leão XIV encerrou ontem o Ano Santo de 2025 no Vaticano condenando o consumismo e a xenofobia e convocou os cardeais para iniciarem na quarta-feira dois dias de reuniões sobre a governação da Igreja Católica.

O discurso serviu para fechar o Jubileu – um Ano Santo que acontece geralmente a cada 25 anos, proclamado pelo Papa como um tempo especial de perdão, reconciliação e renovação espiritual -, que levou cerca de 33 milhões de peregrinos a Roma e incluiu uma transição histórica de um pontífice americano para outro.

Na presença de cardeais e diplomatas de todo o mundo, Leão XIV ajoelhou-se em oração no chão de pedra no limiar da Porta Santa da Basílica de São Pedro, tendo depois fechado as duas portas, para completar simbolicamente o mais raro dos Jubileus, já que foi aberto pelo Papa Francisco, em Dezembro de 2024, e encerrado pelo sucessor, um ano depois.

Esta situação só se tinha verificado uma vez, em 1700. A cerimónia de ontem, no início da missa que celebra a festa da Epifania (quando os três Reis Magos ofereceram presentes ao recém nascido Jesus) terminou um ano vertiginoso de audiências especiais, missas e reuniões que dominaram os primeiros meses de Leão XIV como pontífice e colocaram a sua própria agenda em suspenso.

Para sinalizar que o seu pontificado pode agora começar de facto, o Papa convocou os cardeais de todo o mundo para o Vaticano, para reuniões na quarta e quinta-feira que visam debater a governação da Igreja Católica, com os seus 1,4 mil milhões de fiéis.

Para reflectir

Na homilia de ontem, Leão XIV disse que o ano jubilar convidou todos os cristãos a reflectirem sobre os ensinamentos bíblicos de acolher o estrangeiro e de resistir à “bajulação e sedução daqueles que detêm o poder”. “À nossa volta, uma economia distorcida tenta lucrar com tudo”, criticou, adiantando esperar que este ano seja possível reconhecer “um peregrino no visitante, um buscador no estrangeiro, um próximo no forasteiro e um companheiro de viagem naquele que é diferentes”.

Os Anos Santos abrangem habitualmente grandes projectos de obras públicas, como foi o caso da construção da Capela Sistina (encomendada pelo Papa Sisto IV para o Jubileu de 1475) e da grande garagem do Vaticano, onde estão estacionados os papamóveis e outros veículos (encomendada por João Paulo II para o Jubileu de 2000).

Algumas obras foram polémicas, como a construção da Via della Conciliazione, em 1950, que conduz à Praça de São Pedro e que implicou a demolição de um bairro inteiro. Leão XIV anunciou também que o próximo Jubileu será em 2033, para comemorar os 2000 anos do que as Escrituras assinalam como a morte e ressurreição de Jesus Cristo, em 33 d.C.

7 Jan 2026

Medalhas | Ho Iat Seng, Kou Hoi In e Raimundo do Rosário distinguidos

A lista de premiados fica marcada pela atribuição de duas Medalhas de Honra do Grande Lótus, a maior distinção da RAEM, a Ho Iat Seng e Kou Hoi In. Todas as individualidades agraciadas desempenharam funções no Governo ou na Assembleia Legislativa

O ex-Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, e o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Kou Hoi In, vão ser agraciados com a Medalha de Honra do Grande Lótus, a maior distinção da RAEM. A lista com as distinções do Executivo relativas a 2025 foi anunciada a 31 de Dezembro, através de um comunicado do Gabinete de Comunicação Social, e a cerimónia de entrega das distinções está agendada para 30 de Janeiro, no Centro Cultural de Macau.

As principais distinções atribuídas por Sam Hou Fai foram para ex-governantes, com o macaense e ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas Raimundo do Rosário a ser agraciado com a Medalha de Honra do Lótus de Ouro. Esta distinção será também atribuída a Ho Veng On, ex-Comissário de Auditoria, e Vong Man Chong, ex-director-geral dos Serviços de Alfândega. As medalhas de honra têm como objectivo distinguir indivíduos ou entidades que contribuíram para a imagem e o bom nome da RAEM.

Após ter sido anunciada a lista das medalhas, Ho Iat Seng considerou o título “uma profunda honra”. O ex-líder do Governo afirmou ainda, através de um comunicado, que “mantém, desde sempre, um profundo carinho por Macau” e que ao longo dos anos se “dedicou” a “servir a nação e Macau”.

O ex-Chefe do Executivo elogiou os resultados da sua governação e considerou que dependeram “não só da dedicação e do trabalho árduo da equipa da acção governativa e de todos os funcionários da Administração Pública, mas também do forte apoio, dos esforços conjuntos da comunidade e de todos os residentes”. “Esta honra é uma vitória colectiva, que demonstra o compromisso de toda a sociedade em impulsionar um desenvolvimento maior e melhor para a RAEM”, afirmou.

No texto de atribuição da Medalha de Honra do Grande Lótus a Ho Iat Seng surge destacado o período em que o ex-governante teve de lidar com a pandemia da covid-19. “Durante o seu mandato como o quinto Chefe do Executivo, uniu o Governo da RAEM e todos os sectores sociais, ultrapassou com sucesso os desafios e dificuldades severos da pandemia Covid-19 e envidou todos os esforços para promover a recuperação económica e o desenvolvimento social pós-pandemia”, foi indicado.

Além de Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, empresário de profissão, foi presidente da Assembleia Legislativa, membro do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional e membro do Conselho Executivo. Esta é a terceira vez que Ho Iat Seng vai ser agraciados, depois de em 2001 ter recebido a Medalha de Mérito Industrial e Comercial e em 2009 ter sido distinguido com a Medalha de Honra Lótus de Ouro.

Mais um Lótus

Outro empresário e ex-presidente da Assembleia Legislativa distinguido é Kou Hoi In, destacado pela actividade como membro da Assembleia Popular Nacional, o principal órgão legislativo da República Popular da China, e pelos mais de 34 anos como deputado da Assembleia Legislativa.

“Nos trabalhos de legislação, supervisão da acção governativa e formulação de políticas públicas defendeu sempre os princípios de exercer funções em conformidade com a lei, de forma racional e pragmática, promoveu activamente o aperfeiçoamento dos regimes e a construção do Estado de Direito e empenhou-se na salvaguarda dos direitos e interesses dos residentes e na promoção da estabilidade social e do desenvolvimento a longo prazo”, foi considerado. “Durante o seu mandato como presidente da Assembleia Legislativa de Macau de 2019 a 2025, concentrou esforços na melhoria da eficiência do funcionamento parlamentar, na promoção da interacção positiva entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo, e deu contributos importantes para o reforço da construção do Estado de Direito, para a promoção da harmonia social e para a melhoria das políticas de bem-estar da população”, foi acrescentado.

Após deixar o hemiciclo, Kou foi nomeado para exercer as funções de presidente do Conselho de Administração da TDM, é ainda vice-presidente do Conselho de Administração e gerente-geral da Companhia de Produtos e Produções Especiais da China e vice-presidente da Associação Comercial de Macau.

No passado, o anterior presidente da AL tinha sido agraciado com em 2007 com a Medalha de Mérito Industrial e Comercial e em 2016 com a Medalha de Honra Lótus de Prata.

Em português

Raimundo do Rosário, secretário para Transportes e Obras Públicas, entre 2014 e 2024, é o único representante da comunidade macaense nas distinções de 2025, tendo em conta as individualidades e associações distinguidas.

No texto sobre o ex-governante são indicados vários cargos assumidos em instituições públicas e privadas. “Ingressou na Função Pública em 1979 e trabalhou até 1990 sucessivamente como técnico superior, chefe de departamento, subdirector e director dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes”, pode ler-se. No currículo consta também que foi membro da delegação portuguesa do Grupo de Terras Luso-Chinês, adjunto do Conselho de Administração da CAM-Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau e chefe da Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa tendo também a seu cargo as Delegações Económicas e Comerciais junto da União Europeia, em Bruxelas e da Organização Mundial do Comércio, em Genebra.

Raimundo foi ainda membro da Comissão de Redacção da Lei Básica e da Comissão Preparatória para o Estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau, deputado e membro do Conselho Fiscal do Banco Comercial de Macau.

Em termos das medalhas de honra, a Associação de Bancos de Macau vai ser agraciada com o Lótus de Prata, devido ao “papel fundamental na promoção da colaboração do sector e no desenvolvimento sólido da indústria”.

Medalhas de Mérito

No capítulo damedalha de mérito profissional este ano surge apenas uma distinção, para Chan Iok Lin, que desde 2000 integrou o Gabinete do Presidente do Tribunal de Última Instância, tendo chegado a chefe, em 2016. “Demonstrou sempre uma atitude rigorosa e dedicada no exercício das suas funções, possuindo excelentes capacidades de liderança e organização, além de um elevado profissionalismo e espírito de entrega”, foi justificado.

Na área industrial e comercial, as distinções foram para a empresa estatal Companhia de Logística Nam Kwong, do grupo Nam Kwong, pelos contributos para a diversificação da economia e para a empresária Amber Li Jiaming que é presidente do Grupo HN e membro do 14.º Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), vice-presidente da Comissão de Assuntos Externos da CCPPC e membro do Conselho para o Desenvolvimento Económico de Macau.

A nível turístico, a única distinção foi atribuída à Equipa do Espectáculo House of Dancing Water, da Melco Resorts & Entertainment. O espectáculo foi suspenso durante a pandemia, mas regressou após o fim das restrições fronteiriças impostas durante os anos de combate à covid-19.

Em termos da educação, foram distinguidas a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, Escola Keang Peng e Escola Kao Yip. Na cultura, as distinções foram para a Associação de Ópera Chinesa dos Moradores Marítimos e Terrestres da Barra de Macau, para o deputado Lam Fat Iam e o artista Chan Iu Pui, que desenha caricaturas para o jornal Ou Mun.

Finalmente, vai ser atribuída uma Medalha de Mérito Altruístico à Equipa Internacional de Emergência Médica da China (RAEM) e medalhas de Mérito Desportivo para a Equipa de Karaté da RAEM que participou nos Jogos Nacionais. A atleta Zhu Yuling, que defendeu as cores do Interior até 2024, altura em que se mudou para Macau, também será agraciada. A atleta passou a representar a RAEM ao abrigo dos programas de promoção de quadros profissionais e conquistou o título individual feminino no WTT de United States Smash de Ténis de Mesa, a primeira atleta de Macau a conseguir tal feito. Actualmente, é professora na Universidade de Tianjin.

Medalhados

Medalhas de Honra

Grande Lótus

Ho Iat Seng

Kou Hoi In

Lótus de Ouro

Raimundo Arrais do Rosário

Ho Veng On

Vong Man Chong

Lótus de Prata

Associação de Bancos de Macau

Medalhas de Mérito Profissional

Chan Iok Lin

Medalha de Mérito Industrial e Comercial

Companhia de Logística Nam Kwong, Limitada

Li Amber Jiaming

Medalha de Mérito Turístico

Equipa do Espectáculo «House of Dancing Water» — Melco Resorts & Entertainment

Medalha de Mérito Educativo

Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau

Escola Keang Peng

Escola Kao Yip

Medalha de Mérito Cultural

Associação de Ópera Chinesa dos Moradores Marítimos e Terrestres da Barra de Macau

Lam Fat Iam

Chan Iu Pui

Medalha de Mérito Altruístico

Equipa Internacional de Emergência Médica da China (RAEM)

Medalha de Mérito Desportivo

Equipa de Karaté da Delegação Desportiva da RAEM à 15.ª Edição dos Jogos Nacionais

Zhu Yuling

Medalha de Dedicação

Tai Kam Un

Medalha de Serviços Comunitários

Centro de Serviços de Tele-Assistência Peng On Tung de Macau

Títulos Honoríficos

Título Honorífico de Valor

Equipa do Instituto Salesiano da Imaculada Conceição

Equipa da Escola Secundária Pui Ching

Equipa da Escola Secundária Lou Hau

Equipa de Macau na Competição Asiática de Dança de Elite 2024-2025

Selecção feminina das escolas secundárias de Macau participantes no 2.º Campeonato Asiático de Basquetebol 3×3 para Escolas Secundárias

Equipa de Macau participante na Taça Mundial de Bowling de 2025

Li In Iat

5 Jan 2026

Economia | Deputados alertam para falta de confiança e desigualdades

Apesar do crescimento económico ao longo deste ano, Chan Lai Kei e Leong Sun Iok alertaram o Governo para os problemas nos bairros comunitários e para a necessidade de distribuir recursos financeiros de forma mais equitativa

O deputado Chan Lai Kei apelou ao Governo para se focar na promoção do optimismo económico e no consumo, por considerar que em vários bairros de Macau a situação económica é preocupante, apesar do crescimento macroeconómico. O assunto foi trazido para a Assembleia Legislativa ontem, uma intervenção antes da ordem do dia no Plenário.

Segundo o deputado ligado à comunidade de Fujian, a economia apresenta uma “recuperação estável”. Entre Janeiro e Setembro “o valor inicial do PIB cresceu 4,2 por cento face ao período homólogo do ano passado”. Também indicou que a taxa de desemprego foi de 2,3 por cento, entre Agosto e Outubro.

No entanto, Chan alertou que “os dados macroeconómicos positivos não eliminaram completamente os indicadores negativos”, principalmente no que diz respeito à vida da população.

Citando um “estudo recente”, o legislador indicou que existe fraca vontade de consumo, porque “a confiança dos residentes no aumento dos rendimentos e a sua satisfação com a situação financeira ainda estão entre um nível baixo e médio”.

Chan Lai Kei explicou que para esta onda de pessimismo contribui o maior consumo no exterior, mas também os vários encerramentos de pequenas e médias empresas (PME): “Face ao stress do consumo no exterior, o ambiente de negócio das PME nas zonas ligadas à vida da população (como nos NAPE, Iao Hon e Fai Chi Kei) continua a piorar e o risco de encerramento mantém-se”, avisou. “Estas empresas enfrentam, geralmente, o desafio crítico da instabilidade das fontes de clientes, dos elevados custos e do consumo transfronteiriço”, vincou.

Perante o cenário traçado, o deputado pediu ao Executivo para criar um mecanismo de incentivo ao consumo semelhante aos vales de desconto, mas com uma natureza permanente, enquanto durar a “fase de transformação do modelo económico de Macau”, que “reforce a confiança nos negócios”.

Melhorar a distribuição

Também o deputado Leong Sun Iok abordou a situação da economia e apontou a necessidade de fazer uma melhor distribuição dos recursos provenientes do jogo, a principal indústria do território.

O legislador ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau elogiou as concessionárias do jogo pelo maior papel que têm vindo a assumir ao nível do investimento para o “desenvolvimento urbano, promoção turística e segurança social”, principalmente desde 2023.

Contudo, lamentou que os recursos estejam a ser canalizados de forma desigual: “Verifica-se que, actualmente, tanto as receitas provenientes do jogo como as próprias empresas concessionárias do jogo investiram muitos recursos no desenvolvimento social. Mas, de forma geral, esses recursos estão dispersos e carecem de um sistema e interligação, logo, não conseguem realizar o máximo benefício social”, apontou.

Leong defendeu assim que uma proporção maior das receitas arrecadadas pelo Administração com o jogo seja canalizada para o Fundo de Segurança Social, para o pagamento de pensões para os idosos.

O deputado pediu ainda a criação de um fundo com o dinheiro das concessionárias para desenvolver a RAEM e para assegurar que estas cumprem “melhor” as obrigações da lei do jogo, como as “garantias dos trabalhadores”, o “apoio aos portadores de deficiência ou reabilitados”, o apoio às PME e às “actividades educativas, de investigação científica, de protecção ambiental, culturais e desportivas e de interesse público”.

Leong Sun Iok pediu ainda um novo portal com a informação pública sobre os gastos das concessionárias com actividades não-jogo previstas das obrigações das concessões e terminou a intervenção com um pedido de cautela dirigido ao Executivo. “Os recursos da sociedade não vêm de forma fácil e são fruto dos esforços conjuntos do Governo, das empresas, dos diversos sectores sociais e da população em geral”, indicou. “A situação nem sempre é boa. Espero que o Governo aproveite bem os recursos oriundos das responsabilidades sociais das empresas de jogo, para melhorar a vida da população”, realçou.

Salário Mínimo | Aprovada subida de uma pataca por hora

O aumento de uma pataca por hora do salário mínimo, de 34 para 35 patacas, foi ontem aprovado na especialidade na Assembleia Legislativa. Com as alterações, a partir do próximo ano, em termos semanais, o salário passa de 1.632 patacas para 1.680 patacas.

Quando as contas são feitas ao mês, o ordenado sobe de 7.072 patacas para 7.280 patacas, um aumento de 2,9 por cento que vão abranger 4,4 por cento dos trabalhadores da RAEM. Os trabalhadores domésticos são excluídos, embora a aprovação da quota de contratação, no caso dos não-residentes, esteja normalmente associada à exigência de um salário entre as 3.500 e 4.000 patacas.

Orçamento 2026 | Deputados aprovam na especialidade

A Assembleia Legislativa aprovou ontem na especialidade o orçamento para o próximo ano, que prevê uma subida das receitas do jogo de 3,5 por cento, para 236 mil milhões de patacas. O documento, que reflecte as escolhas económicas do Executivo, estima receitas de 118,8 mil milhões de patacas, enquanto as despesas estão estimadas em 113,5 mil milhões de patacas.

Com base nestas perspectivas, o saldo final do orçamento ordinário deverá ser positivo em 5,3 mil milhões de patacas. No entanto, existe a possibilidade de o cenário ser efectivamente melhor, dado que o Governo tende a fazer estimativas por defeito, no que diz respeito às receitas e despesas. O orçamento volta também a prever a isenção de pagamento de imposto profissional, até 30 por cento do valor anual, limitado a 144 mil patacas.

19 Dez 2025

UCM | Livro Branco sugere métodos para acelerar diversificação económica

O “Livro Branco sobre a Cooperação Científica e Tecnológica entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, produzido na Universidade Cidade de Macau, refere desigualdades no relacionamento entre países e conclui que “a diversificação económica tem avançado a um ritmo lento”. Bárbara Morais, redactora principal do documento, explica as principais conclusões da análise

Foi lançado, no passado dia 3 de Dezembro, um Livro Branco que traça um olhar e análise à forma como a cooperação nas áreas científicas e tecnológica entre a China, Macau e os países de língua portuguesa tem decorrido, traçando algumas críticas, não apenas neste tema, mas também no rumo económico que a RAEM está a tomar.

O documento, intitulado “Livro Branco sobre a Cooperação Científica e Tecnológica entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, foi produzido pela Universidade Cidade de Macau (UCM) e teve Bárbara Morais, aluna de doutoramento da instituição, como redactora principal.

Esta descreve, em entrevista ao HM, que, em Macau, “a diversificação económica tem avançado a um ritmo mais lento do que o desejado, mantendo a economia estruturalmente dependente do jogo e do turismo”.

“A mensagem central do Livro Branco é clara: Macau precisa de acelerar a transição para funções de maior valor acrescentado. No entanto, o contexto actual oferece uma janela de oportunidade renovada. Com o apoio da Grande Baía e, muito especificamente, da Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin, Macau dispõe agora de novas oportunidades estruturais para recuperar o ritmo perdido e reposicionar-se, não apenas como uma ponte cultural, mas como uma verdadeira plataforma de inovação”, é referido.

Ainda sobre o território, mas a propósito do Fórum Macau, é referido o “sucesso na institucionalização do diálogo político”, mas o Livro Branco “aponta o dedo à insuficiência dos mecanismos de execução”. “Para agilizar o papel do Fórum e transformá-lo numa ferramenta de resultados tangíveis, o Livro Branco preconiza uma mudança de paradigma: é necessário passar das declarações de intenções para a tecnicidade”, descreve Bárbara Morais. A doutoranda sugere “a criação de grupos técnicos de trabalho especializados, sobretudo na esfera tecnológica, e a definição rigorosa de indicadores de desempenho, como o número de patentes registadas, startups criadas ou projectos de investigação conjuntos”.

“Paralelamente, sugere-se o estabelecimento de uma agenda comum focada em áreas de futuro, como a energia verde, a saúde, a economia do mar e a inteligência artificial, sujeita a uma avaliação periódica de progressos”, disse ainda.

O lugar da arbitragem

Tendo em conta estes parcos desenvolvimentos, o Livro Branco sugere que Macau se afirme “como centro de arbitragem tecnológica e governação de propriedade intelectual”.

O HM questionou Bárbara Morais sobre o que deve ser feito em termos efectivos, tendo em conta a existência, há vários anos, de um centro de arbitragem, e de ser um tópico na agenda política do território há muito tempo. A aluna de doutoramento destaca que “para que estas ideias, debatidas há anos, deixem de ser retórica e passem a realidade, a RAEM necessita de criar um quadro legal especializado em litígios tecnológicos alinhado com os padrões internacionais mais exigentes”.

“É fundamental atrair peritos e árbitros internacionais através de incentivos competitivos e estabelecer um centro de arbitragem que goze de reconhecimento tanto nos países lusófonos como na Grande Baía. O objectivo é desenvolver serviços de mediação, certificação e gestão de activos de propriedade intelectual, posicionando Macau como um ‘porto seguro’, neutro e eficiente, para a resolução de disputas tecnológicas internacionais”, acrescentou.

Cooperação desigual

Em termos globais, e no que diz respeito à cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP), o Livro Branco refere o “planeamento de topo” por parte de Pequim para a cooperação nas universidades e em investigação científica. Porém, o planeamento “não se traduz, linearmente, em mecanismos de execução igualmente eficazes no terreno, nem garante resultados homogéneos entre os nove países lusófonos”.

O planeamento implica “directrizes claras, prioridades definidas e instrumentos diplomáticos mobilizados para orientar esta cooperação”, com políticas como “Made in China 2025” ou a “Rota Digital da Seda”, que “integram a cooperação tecnológica com os PLP na própria medula da política externa e de inovação nacional chinesa”, destaca a autora.

Porém, verificam-se “desigualdades, que são, porventura, o traço mais marcante desta relação”, conforme explica Bárbara Morais. “O cenário actual revela uma profunda assimetria, caracterizada por uma ‘bicefalia’ na cooperação. (…) As principais capacidades científicas, a infra-estrutura tecnológica robusta e o volume de cooperação efectiva estão esmagadoramente concentrados em Portugal e no Brasil”. Pelo contrário, “os países africanos de língua portuguesa (PALOP) e Timor-Leste apresentam uma participação significativamente menor”.

Segundo Bárbara Morais, a “disparidade não decorre de falta de vontade política, mas sim de limitações estruturais de financiamento, escassez de recursos humanos qualificados e fragilidade das instituições de investigação locais”. Verifica-se, assim, “uma cooperação a duas velocidades, muito assimétrica dentro da própria comunidade lusófona”.

O Livro Branco realça a “encruzilhada histórica” em relação à cooperação entre a China e os PLP, o que significa “a urgente necessidade de passar do potencial à concretização” nesta matéria.

“Existem visões ambiciosas e planos estratégicos, mas os resultados práticos permanecem aquém do possível. Para resolver esta encruzilhada, o caminho proposto passa por fortalecer mecanismos de execução, investir massivamente em talento e educação técnico-científica, criar ecossistemas de inovação colaborativa genuína entre a China, Macau e os PLP, e, acima de tudo, ter a coragem de medir resultados e reformular estratégias com base na evidência empírica, abandonando o discurso de circunstância em favor do pragmatismo económico e científico.”

Lacunas em África

Outra das conclusões do Livro Branco é a “tenuidade” das ligações académicas com o continente africano, que Bárbara Morais descreve como “cenário de fragilidade”. “Há uma tríade de factores: a escassez de capacidade científica instalada, a falta crónica de financiamento e programas de mobilidade consistentes”, sem esquecer “a ausência de estruturas estáveis de investigação conjunta”.

“Para colmatar este fosso e criar uma massa crítica duradoura, o Livro Branco não se limita ao diagnóstico, sugerindo medidas concretas como o reforço robusto de bolsas de investigação, a criação de programas de doutoramento conjunto, a implementação de laboratórios colaborativos e o desenho de mecanismos de mobilidade académica especificamente orientados para a realidade africana”, acrescenta.

O documento fala ainda do impacto negativo das “assimetrias geopolíticas”, tal como as “restrições tecnológicas da União Europeia e NATO a Portugal”. Segundo referiu Bárbara Morais, estão em causa “impactos reais e restritivos”. “Estas limitações condicionam a participação de Portugal e, por extensão, de outros actores lusófonos que cooperam em rede com Lisboa, em projectos de alta tecnologia que envolvam a China. O impacto é particularmente sensível em áreas nevrálgicas como as telecomunicações 5G, a defesa, a inteligência artificial e a ciber-segurança, criando barreiras que exigem uma navegação diplomática complexa.”

Novas estratégias

O Livro Branco foi desenvolvido no Instituto de Investigação sobre os Países de Língua Portuguesa da UCM, e redigido por Bárbara Morais com a participação do académico João Simões. O projecto baseia-se na revisão de literatura académica sobre o tema e ainda nos resultados do “Seminário do Lançamento da Cooperação Tecnológica”, realizado a 22 de Julho de 2025 na UCM.

A obra analisa áreas como a “evolução estratégica”, “mecanismos institucionais”, “marcos tecnológicos” e “desafios estruturais”, pretendendo “fornecer estratégias baseadas em evidências para transformar o potencial da parceria China-PLP numa realidade concreta, criando um novo modelo de cooperação tecnológica para o Sul Global”, refere um comunicado da UCM.

18 Dez 2025

Austrália | Doze mortos em ataque durante festa judaica

Pelo menos doze pessoas morreram e muitos feridos foram ontem transportados para os hospitais de Sydney, depois de um ataque com tiros na praia australiana de Bondi, quando se realizava uma festa judaica. “Há duas pessoas sob custódia policial na praia de Bondi”, informou a Polícia do estado de Nova Gales do Sul na sua conta no X, que pede “à população que evite a área”.

Citando fontes policiais, a agência de notícias AFP refere que o ataque causou dez mortos. O serviço de ambulâncias de Nova Gales do Sul confirmou à televisão ABC que, pelo menos 16 pessoas foram transportadas para seis centros hospitalares da região.

Várias testemunhas referem que se trata de um ataque a tiros protagonizado por um número ainda indeterminado de pessoas armadas, mas as autoridades também não confirmaram essa informação. Um turista britânico disse à agência francesa de notícias AFP que viu “dois atiradores vestidos de preto e armados com espingardas semiautomáticas”.

O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, já emitiu um comunicado lamentando as “cenas chocantes e angustiantes” que estão a chegar de Bondi e confirmou a existência de feridos.

Parte da praia era palco de uma celebração da festa judaica de Hanukkah, que começou ontem e, embora as autoridades australianas ainda não tenham feito qualquer conexão com o incidente, o Presidente de Israel, Isaac Herzog, denunciou o que classificou como “vil ataque terrorista contra os judeus que estavam a acender as primeiras velas” da festa religiosa.

“O nosso coração está com eles. O coração de toda a nação de Israel bate forte neste preciso momento, enquanto rezamos pela recuperação dos feridos, rezamos por eles e rezamos por aqueles que perderam a vida”, afirmou num comunicado oficial.

15 Dez 2025

Crime | Governo não divulga dados sobre suicídios e tentativas

Depois de os Serviços de Saúde, também a tutela da Segurança deixou de divulgar os dados de suicídio e tentativas, ao fim de dez anos de publicação. A ausência foi notada na divulgação dos dados da criminalidade relativos aos meses de Janeiro a Setembro deste ano, que mostram o aumento de abusos sexuais de menores para quase o dobro

 

O Governo deixou de divulgar os dados sobre os casos de suicídio ocorridos em Macau, assim como as tentativas. A ausência destes números foi notada pelo jornal Cheng Pou aquando da divulgação na sexta-feira dos dados da criminalidade entre os meses de Janeiro e Setembro deste ano.

A publicação questiona mesmo se “os dados sobre o suicídio se tornaram ‘no segredo que não se pode dizer’ das autoridades, empenhadas em construir uma Macau feliz”, lembrando ainda que estes dados começaram a ser divulgados em 2015. Destaque para o facto de os Serviços de Saúde também terem deixado de divulgar a estatística, algo que era feito a cada três meses. No caso da secretaria para a Segurança, os dados eram mensais e era feita a discriminação por sexo, grupo etária e métodos utilizados.

A ausência de números surge depois de Macau ter batido os recordes em termos de casos de suicídio em 2024, registando 90 mortes, mais 2,27 por cento em relação aos casos de 2023. Face a 2022, o aumento foi de 12,5 por cento. Dos 90 casos, 48 diziam respeito a vítimas do sexo masculino e 42 feminino, com idades compreendidas entre 12 e 76 anos. Os dados mais recentes, relativos ao primeiro semestre deste ano, revelam 41 mortes por suicídio e 101 tentativas.

Na divulgação das estatísticas de crime, na sexta-feira, surge apenas um caso de morte por suicídio em relação a um episódio de homicídio entre irmãos, ocorrido em Agosto deste ano, na zona norte. Aqui, o irmão mais velho terá saltado da varanda, sendo suspeito de ter morto o irmão mais novo devido a disputas financeiras.

Quebra no crime

Olhando para o panorama da criminalidade em termos gerais, regista-se uma queda de 7,1 por cento nos meses em análise, em comparação com o mesmo período do ano passado. As autoridades do território sublinharam a queda acentuada dos delitos informáticos. O secretário para a Segurança, Chan Tsz King, disse que a quebra se deve à “tendência de diminuição” dos “crimes que despertam mais atenção da sociedade”, incluindo criminalidade violenta grave, furto, roubo, burla e crimes informáticos.

Nos primeiros nove meses do ano, foram contabilizados 187 crimes violentos, o que traduz uma queda de 11 por cento face ao período homólogo de 2024 (210). Já os furtos, roubos, burlas caíram 7,7, 5,9 e 23,6 por cento, respectivamente. A criminalidade informática, que contou nos nove primeiros meses de 2024 com 770 casos, apresentou no período em análise uma descida de 52,1 por cento, com 369 casos.

A descida nos casos das burlas com recurso às telecomunicações, burlas cibernéticas e burlas informática, referiu Chan Tsz King, “reflecte a eficácia dos trabalhos de prevenção e combate desenvolvidos pela polícia, e o aumento significativo da consciência do público sobre a prevenção de burla”, disse.

O Governo sinalizou também que a criminalidade relacionada com jogo ilícito disparou entre Janeiro e Setembro deste ano 985 por cento, com mais 394 casos em relação ao mesmo período de 2024. A subida deve-se à entrada em vigor, em Outubro do ano passado, da lei de combate aos crimes de jogo ilícito, que introduziu “o novo crime de ‘exploração de câmbio ilícito para jogo’ e alargou o âmbito de cobertura de alguns crimes conexos com o jogo ilícito”.

Pela mesma razão, disse o secretário, dispararam nos três primeiros trimestres de 2025 os crimes relacionados com o jogo – 1.737 casos, mais 70,1 por cento do que no período homólogo. No passado, referiu o responsável, burlas cometidas por pessoas que trocam ilegalmente dinheiro fora dos casinos “não podiam ser identificadas como relacionadas com o jogo”. “No entanto, com a criminalização da ‘troca ilegal de dinheiro’ e o aperfeiçoamento das disposições legais”, estes casos “são agora incluídos nas estatísticas de crimes de jogo, aumentando assim o número de crimes”, indicou.

Mais abusos de menores

Chan Tsz King, que entrou em funções em Outubro e apresentou na sexta-feira pela primeira vez o balanço da criminalidade, referiu ainda uma subida de 6,1 por cento dos crimes contra a pessoa, com o abuso sexual de crianças a aumentar 86,7 por cento, de 15 casos nos primeiros nove meses de 2024 para 28 casos no mesmo período deste ano.

O secretário explicou que se tratam, essencialmente, de “actos sexuais voluntários entre pessoas da mesma idade”, ocorrendo ainda a “transmissão de fotografias e imagens pornográficas”, sem esquecer casos de “importunações sexuais de gravidade menor”.

Foram ainda “identificados casos que envolveram pessoas com relações familiares, o que merece a atenção da sociedade”, referiu Chan Tsz King, que divulgou os dados das acções de sensibilização para este problema: mais de 70 actividades realizadas pela polícia, que contaram com a participação de mais de 12.000 pessoas, incluindo alunos, encarregados de educação e pessoal docente.

O tráfico e venda de drogas e o consumo de estupefacientes registaram, por sua vez, um aumento de 37,1 por cento, com mais 13 casos, e 72,7 por cento, mais oito casos, respectivamente. Segundo a apresentação do secretário, os 48 casos registados nos três trimestres e o respectivo aumento deve-se “à descoberta de vários casos de tráfico transfronteiriço de droga através do reforço da cooperação policial interna e externa”, destacando-se um caso ocorrido em Setembro, quando foram apreendidos 31 quilos de flor de canábis no valor de 31,77 milhões de patacas. Chan Tsz King referiu que este foi “o maior caso de contrabando de canábis apreendido na história de Macau”.

Entre paredes

No caso do crime de violação, assistiu-se a um recuo do número crimes de violação, para um total de 24 casos, menos 40 por cento do que no mesmo período do ano anterior.

O secretário para a Segurança adiantou que “mais de 70 por cento das vítimas não eram residentes de Macau”, sendo que “a maioria destes crimes ocorreu em quartos de hotel”, enquanto “uma parte destes envolveram conflitos pecuniários entre as vítimas e os suspeitos, não sendo de afastar a hipótese de que alguns dos casos tenham ocorrido num contexto de transacção sexual”.

Neste contexto, o secretário esclareceu que as autoridades policiais têm estado “em comunicação estreita com o sector hoteleiro”, tendo sido reforçados “os dispositivos policiais e inspecções nas zonas periféricas de hotéis e casinos”. Entre Janeiro e Setembro foram realizadas mais de 160 acções policiais de combate à prostituição, tendo sido interceptadas 192 pessoas suspeitas da prática de actividade de prostituição.

Além disso, no período em causa foram resolvidos 17 casos da prática dos crimes de lenocínio ou de exploração de prostituição, com a detenção de 26 suspeitos.

Silêncio de sempre

Questionado pela Lusa durante a conferência de imprensa sobre o primeiro caso a ser investigado em Macau no âmbito da segurança nacional, o secretário não fez comentários. “O caso (…) está a ser tratado pelas entidades judiciais e, devido ao sigilo, não seria adequado ao secretário da Segurança comentar”, completou Chan Tsz King, que era Procurador do Ministério Público quando o ex-deputado Au Kam San foi detido.

A polícia do território anunciou, no final de Julho, a detenção de Au Kam San, a primeira ao abrigo da lei de defesa da segurança do Estado, que entrou em vigor em 2009, tendo o âmbito sido alargado 14 anos depois. Ainda não é conhecida a acusação e não há informações sobre quem vai defender o ex-deputado. Com Lusa

15 Dez 2025

UE | Nova meta para reduzir 90% de poluentes até 2040

Os eurodeputados e países da União Europeia (UE) chegaram ontem a um acordo sobre uma meta para reduzir 90 por cento das emissões poluentes até 2040, com vista à neutralidade carbónica em 2050, prevendo-se, porém, novas formas de flexibilidade.

“Os colegisladores acordaram numa meta de redução de 90 por cento das emissões de gases com efeito de estufa até 2040, face aos níveis de 1990, com o objectivo de alcançar a neutralidade climática da UE até 2050”, é anunciado em comunicado divulgado em Bruxelas.

Depois de várias horas de negociações, o Parlamento Europeu e o Conselho chegaram assim, esta madrugada, a um acordo político provisório (que terá de ser confirmado por ambos) sobre uma emenda à Lei do Clima da UE, estabelecendo uma nova meta intermédia e vinculativa para 2040, a de reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa em 90 por cento em comparação com os níveis de 1990.

Ainda assim, eurodeputados e países concordaram em introduzir novas formas de flexibilidade para cumprir a meta de 2040, “acreditando que a transição verde e a competitividade europeia devem avançar lado a lado”, segundo refere a nota.

Em análise

Em concreto, a partir de 2036, até cinco pontos percentuais da redução de emissões (mais dois do que a proposta inicial da Comissão) poderão advir de créditos internacionais de carbono de elevada qualidade, compatíveis com o Acordo de Paris. No caso de Portugal, por exemplo, isto significa que projectos sustentáveis em países como os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) possam contar para a meta portuguesa.

“Graças à insistência do Parlamento, foram integradas salvaguardas adicionais, incluindo a proibição de financiar projectos em países parceiros que contrariem os interesses estratégicos da União”, assinala a assembleia europeia. Cabe à Comissão Europeia analisar diferentes opções para o papel dos créditos internacionais na futura legislação climática da UE para alcançar a meta de 2040.

Além disso, o executivo comunitário avaliará os progressos a cada dois anos, considerando os dados científicos mais recentes, os avanços tecnológicos e a competitividade internacional da UE.

“A revisão analisará a situação das remoções líquidas a nível europeu, comparando-a com o necessário para cumprir a meta de 2040, bem como eventuais dificuldades de implementação e o potencial para reforçar a competitividade industrial da UE. Serão também consideradas as tendências nos preços da energia e respectivos impactos em empresas e famílias”, de acordo com o Parlamento Europeu.

Tal permitirá a Bruxelas modificar a meta de 2040 ou adoptar medidas adicionais para reforçar o quadro de apoio, por exemplo para proteger a competitividade, a prosperidade e a estabilidade social da UE.

O Parlamento votará agora o acordo informal e o Conselho terá igualmente de o aprovar, com o texto a entrar em vigor 20 dias após a sua publicação no Jornal Oficial da União Europeia. A Lei Europeia do Clima torna juridicamente vinculativo o esforço de cada país para reduzir as suas emissões poluentes.

11 Dez 2025

Europa | Merz considera inaceitáveis pontos da geostratégia de Trump

O chefe do governo federal alemão, Friedrich Merz, declarou ontem que há certos pontos inaceitáveis no documento sobre Defesa e geostratégia da Administração norte-americana liderada por Donald Trump, na perspectiva europeia. “Não vejo qualquer necessidade de os americanos quererem salvar a Democracia na Europa”, disse, em visita à Renânia-Palatinado (estado a sudoeste), que alberga várias bases militares dos Estados Unidos da América (EUA).

Num documento estratégico sobre segurança nacional dos EUA, divulgado na passada semana, lê-se um alerta para o perigo de “extinção civilizacional” da Europa, caso se mantenham as “tendências actuais”, “Se as tendências actuais continuarem, o continente [Europa] vai ficar irreconhecível dentro de 20 anos ou menos”, lê-se no documento de 33 páginas, no qual é defendida a “restauração da supremacia” dos EUA na América Latina.

Trump, no prefácio, resume: “pomos a América em primeiro lugar em tudo o que fazemos”. “É mais do que plausível que, em poucas décadas, no máximo, os membros da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte, na sigla inglesa) se tornem predominantemente não europeus”, escreveu, acrescentando que “é legítimo questionar se eles perceberão o seu lugar no Mundo ou sua aliança com os EUA, da mesma forma que aqueles que assinaram a carta da organização”.

A Casa Branca lamenta decisões europeias que “minam a liberdade política e a soberania, as políticas migratórias que estão a transformar o continente [Europa] e a criar tensões, assim como a censura à liberdade de expressão e a repressão à oposição política, a queda nas taxas de natalidade e a perda de identidades nacionais (…)”.

Washington manifesta desejo de que “a Europa permaneça europeia, recupere sua autoconfiança civilizacional e abandone sua obsessão infrutífera com o sufoco regulatório”.

10 Dez 2025