Wynn | 20.º aniversário celebrado com espectáculo de luzes

A operadora de jogo Wynn está há 20 anos em Macau e, para celebrar a efeméride, haverá espectáculo de luzes com drones às 20h este sábado e domingo, 5 e 6 de Setembro.

Segundo um comunicado, cada espectáculo terá a duração de 15 minutos, com três mil drones a “iluminar o céu nocturno num deslumbrante espectáculo de luzes”. No sábado, a performance terá lugar no lago do Wynn Macau. Já no domingo, o espectáculo acontece junto ao lago Nam Van.

O tema dos 20 anos é “Duas Décadas de Sucesso Partilhado, Empenhados na Parceria para um Futuro Sustentável”, adoptando-se a junção de tecnologia com arte para desenvolver um “conceito criativo” que aproxima o público.

Desta forma, combina-se a arte dos drones com uma coreografia artística, o que irá “transformar o céu nocturno de Macau, em junção com a arquitectura icónica do Wynn, num palco cativante”. “Guiados pela emblemática borboleta do Wynn, os espectadores embarcarão numa viagem visual por duas décadas de crescimento e progresso, celebrando a notável história que o Wynn e Macau escreveram em conjunto”, lê-se na mesma nota.

3 Set 2026

Justiça | Juristas aplaudem chegada de juízes portugueses

Dois juristas ouvidos pela TDM Rádio Macau consideram que a chegada dos dois juízes portugueses a Macau, Filipa Vaz da Fonseca e Ricardo Botica Quintas, é um “sinal muito positivo” dado por Pequim. Vitalino Canas, jurista e antigo chefe de gabinete do Governador Carlos Melancia, referiu que a China “certamente estará interessada em preservar esta identidade própria do sistema jurídico de Macau”.

“É uma mais-valia de que dispõe para desempenhar o papel de grande promotor ao nível mundial de vários movimentos”, acrescentou.

Já Eduardo Vera-Cruz Pinto, director da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, disse tratar-se de “um sinal muito positivo”.

“A presença da língua portuguesa e do desenvolvimento de falantes de português em Macau e na China é de uma importância tão grande que a China entendeu isso. E, à medida que for melhor entendendo, a importância estratégica da relação entre Portugal e a China coloca a China melhor colocada na Europa, nos países africanos de expressão portuguesa e no Brasil”, frisou.

3 Set 2026

Saudel | Ciclone Tropical pode voltar a aproximar-se

Ontem, a probabilidade de o sinal n.º 3 de tempestade tropical ser içado devido à passagem do ciclone Saudel mantinha-se “relativamente baixa”, de acordo com a Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (DSMG).

Todavia, nos próximos dias, o ciclone tropical pode aproximar-se da RAEM e levar a uma intensificação das chuvas e do vento. “A probabilidade de Macau ser afectado directamente pela sua circulação é relativamente baixa; assim sendo, a probabilidade de emissão do Sinal n.º 3 de Tempestade Tropical é relativamente baixa”, indicou a DSMG.

“No entanto, a trajectória de ‘Saudel’ na última metade desta semana ainda apresenta um elevado grau de incerteza, existe a possibilidade de rodar sobre si e aproximar-se novamente da Foz do Rio das Pérolas. Nessa altura, a intensidade do vento em Macau poderá aumentar, e os aguaceiros deverão intensificar-se”, foi acrescentado.

3 Set 2026

Obras | PJ alerta para esquemas de burlas

A Polícia Judiciária (PJ) alertou ontem para a ocorrência de esquemas de burlas relacionadas com obras em edifícios para a reparação de infiltrações de água.

Segundo noticiou o jornal Ou Mun, a PJ descreveu que estes esquemas estiveram mais activos entre os anos de 2024 e 2025, com as vítimas a descreverem, nas redes sociais, como só perceberam o esquema de que tinham sido alvo depois da contratação da empresa e da conclusão da obra.

A PJ diz que este tipo de burla voltou ao território, já que até Julho deste ano houve oito denúncias, com perdas monetárias que variam entre 8,5 e 41 mil patacas. O valor total de perdas para as vítimas foi de cerca de 150 mil patacas. As autoridades explicaram que os burlões fazem propaganda dos serviços nas redes sociais, telefonam para o contacto de Macau e alegam que usam materiais que rondam as 600 e 990 patacas por libra de peso, mas o valor real é de algumas dezenas de patacas.

Na obra, é usada a maior quantidade possível de material que também não resolve o problema das infiltrações de água, vendo-se as vítimas obrigadas a pagar a reparação. Só depois deste processo é que as pessoas percebem ter sido enganadas, mas aí já não conseguem entrar em contacto com os burlões.

3 Set 2026

PCC | Hua Liebing assume fiscalização em Hong Kong e Macau

Hua Liebing vai ser o novo chefe do Grupo de Inspecção e Supervisão Disciplinar do Gabinete de Trabalho de Hong Kong e Macau do Comité Central do Partido Comunista da China. A informação foi divulgada através da mais recente actualização do portal online deste gabinete.

Segundo a informação oficial, Hua Liebing, nasceu em 1967 e é natural da cidade de Taicang, na província de Jiangsu. Antes da promoção, Hua Liebing trabalhava, desde 2023, como director do Departamento de Investigação de Crimes Económicos do Ministério da Segurança Pública da República Popular da China.

Hua sucede a Geng Changyou, que foi transferido para a província de Hebei em Novembro do ano passado, onde também assumiu funções de inspecção e supervisão disciplinar.

3 Set 2026

Sede do Governo | Renovado Mandato de Loi Chi Sang

Loi Chi Sang vai ser mantido como director dos Serviços para os Assuntos da Sede do Governo (DSASG) durante mais um ano.

A renovação do mandato que começou em 2024 foi publicada ontem no Boletim Oficial, através de um despacho publicada pelo Chefe do Executivo. Loi é formado em Estudos Chineses pela Universidade de Macau, e entrou para Função Pública em 2014, como técnico no Gabinete de Comunicação Social (GCS).

Entre 2015 e 2021, foi técnico superior no Gabinete do Chefe do Executivo, até se mudar para a DSASG. Além de Loi, também o mandato de Pun Keng Sang, actualmente subdirector da DSAG, foi renovado pelo período de um ano. Pun desempenha este cargo desde Fevereiro de 2024.

As renovações surgem no âmbito da entrada em vigor de uma nova estrutura orgânica na DSASG, que passa a centralizar a gestão administrativa, financeira e informática da Direcção dos Serviços de Estudo de Políticas e Desenvolvimento Regional, da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos, do Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais e do Gabinete de Comunicação Social.

3 Set 2026

China | Energia solar supera pela primeira vez carvão

A capacidade instalada de energia solar na China ultrapassou, pela primeira vez, a do carvão no final de Julho, tornando a fotovoltaica a maior fonte de electricidade do país em termos de potência instalada, segundo o portal financeiro Cailian.

A capacidade fotovoltaica acumulada atingiu 1.286 gigawatts (GW), ligeiramente acima dos 1.285 GW de capacidade de geração a carvão, de acordo com os dados citados pelo órgão chinês.

Do total da capacidade solar, 704 GW correspondiam a instalações centralizadas e 582 GW a geração distribuída, modalidade que inclui projectos de menor dimensão ligados à rede junto dos locais de consumo.

Os dados representam um ponto de viragem na transformação do sistema eléctrico chinês, ainda dependente do carvão em termos de produção efectiva de electricidade, mas cada vez mais dominado pelas energias renováveis no que respeita à nova capacidade instalada.

Ganhar terreno

Entre Janeiro e Julho, a China acrescentou 85,65 GW de capacidade fotovoltaica, uma queda homóloga de 62 por cento, que o Cailian atribuiu sobretudo à elevada base de comparação criada pela vaga de novas instalações registada entre Janeiro e Maio de 2025.

Apesar da redução das novas ligações à rede, a produção de energia solar continuou a aumentar e atingiu 802.400 milhões de quilowatts-hora nos primeiros sete meses do ano, mais 15,5 por cento em termos homólogos. A energia solar representou já 13 por cento de todo o consumo de electricidade do país, mais 1,7 pontos percentuais do que a média registada em 2025.

A evolução acompanha a tendência observada no conjunto das energias renováveis. No primeiro semestre, estas fontes foram responsáveis por 41,2 por cento de toda a electricidade produzida na China, ultrapassando pela primeira vez a fasquia dos 40, segundo dados recentes da Administração Nacional de Energia.

Pequim prevê que as fontes não fósseis sejam responsáveis por metade da produção nacional de electricidade em 2030, no âmbito de uma estratégia que combina energias renováveis, nuclear e armazenamento para reduzir as emissões de carbono.

Relatórios recentes do grupo de reflexão britânico Ember e da organização ambientalista Greenpeace indicaram que o crescimento das energias eólica e solar e do armazenamento está a aproximar a China de um ponto de viragem no sistema eléctrico.

As organizações advertiram, no entanto, que o desafio passa agora por integrar melhor aquela capacidade na rede eléctrica e conter o papel do carvão, que continua a ser fundamental para garantir a segurança do abastecimento.

A China, maior emissor mundial de gases com efeito de estufa, estabeleceu como objectivos atingir o pico das emissões de dióxido de carbono (CO2) antes de 2030 e alcançar a neutralidade carbónica antes de 2060.

2 Set 2026

Nepal | Um dos três portugueses desaparecidos foi localizado e resgatado

Um dos três portugueses desaparecidos na sequência da inundação devastadora no Nepal e no Tibete foi localizado e resgatado, anunciou ontem o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

“De acordo com as autoridades do Nepal, um cidadão nacional terá sido resgatado”, indicou o ministério, acrescentando que “permanecem desaparecidas duas portuguesas”. De acordo com o mais recente balanço, o número total de mortos já ultrapassou os 1.000.

A agência nepalesa de gestão de catástrofes informou que foram contabilizados 987 mortos no país e que 3.916 pessoas continuam desaparecidas, entre as quais 583 estrangeiros. As autoridades chinesas tinham contabilizado 16 mortos na atualização mais recente, divulgada no domingo, elevando para pelo menos 1.003 o número de vítimas mortais nos dois países.

Pelo menos 11.814 pessoas foram até agora resgatadas, de acordo com as autoridades nepalesas. A catástrofe de 26 de Agosto teve origem numa sucessão de fenómenos nas zonas de elevada altitude dos Himalaias.

O colapso de um glaciar lançou grandes quantidades de rocha, gelo e água de degelo para os vales, desencadeando violentas cheias a jusante. A vaga de água e lama atingiu por volta das 09:15 locais o rio Bhotekoshi a partir da zona tibetana e afectou com particular gravidade as localidades de Timure, Rasuwagadhi e Syabrubesi, segundo fontes oficiais.

A água atingiu também o território chinês. Dezenas de imagens de câmaras de vigilância mostram pequenas povoações, albufeiras, pontes e outras infraestruturas a serem completamente destruídas quando o rio que as atravessa sobe repentinamente, enquanto dezenas de pessoas correm a tentar fugir das inundações.

A cheia atingiu com especial intensidade o distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, onde a massa de água varreu as localidades de Timure, Rasuwagadhi e Syabrubesi, junto a uma das principais passagens terrestres para o Tibete.

2 Set 2026

Seul | Cimeira entre Kim e Trump é possível “a qualquer momento”

Os serviços secretos da Coreia do Sul consideram possível “a qualquer momento” uma cimeira entre os líderes do Norte e dos EUA, porque existem “sinais de diálogo” entre os dois países, afirmou hoje um deputado.

“No que diz respeito à cimeira entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, uma análise considera que se deve partir do princípio de que esta pode ocorrer a qualquer momento”, declarou aos jornalistas o deputado Youn Kun-young, à saída de uma reunião com os serviços secretos.

“Embora não tenham sido apresentados factos relativos a contactos concretos entre as duas partes, existem sinais de diálogo”, acrescentou Youn, após a reunião, à porta fechada, com dirigentes do Serviço Nacional de Informações sul-coreano.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, que se encontrou com Kim Jong-un por três vezes durante o primeiro mandato na Casa Branca (2017-2021), surpreendeu todos a 19 de Agosto, ao afirmar que se iria reunir novamente com o líder norte-coreano até ao final do ano.

Além disso, encurtou os exercícios militares conjuntos anuais com a Coreia do Sul, que, segundo Trump, enviam “um sinal totalmente inadequado e hostil” a Pyongyang. Trump orgulha-se de ter uma relação privilegiada com Kim Jong-un, cujo país é considerado uma grande ameaça à segurança dos Estados Unidos pelos serviços secretos norte-americanos.

Por enquanto, a Coreia do Norte não deu publicamente qualquer sinal de aceitar este convite ao diálogo. Pouco depois do anúncio do Presidente norte-americano, Kim Yo-jong, a influente irmã do líder norte-coreano, afirmou que “não tinha qualquer conhecimento” de qualquer comunicação entre o irmão e Donald Trump.

A Coreia do Norte realizou posteriormente testes de lançamento de cerca de dez mísseis balísticos de curto alcance e condenou, esta semana, como uma ameaça, as manobras navais programadas para este mês entre Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão.

2 Set 2026

Cimeira | Xi Jinping pede maior destaque global da Organização de Cooperação de Xangai

O Presidente chinês, Xi Jinping, defendeu ontem um maior papel global da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), sobretudo nas áreas da segurança e tecnologia, destacando o “enorme potencial” do bloco euroasiático.

Durante a cimeira da OCX em Bisqueque, no Quirguistão, Xi afirmou que a organização demonstrou uma “forte vitalidade” desde a criação, há 25 anos, na sequência das “profundas lições da Guerra Fria”. Numa aparente referência ao sistema de alianças militares liderado pelos Estados Unidos, o chefe de Estado chinês afirmou que uma das principais lições retiradas de 25 anos de cooperação foi a necessidade de “encontrar a forma correcta de coexistir sem alianças, confrontos ou visar terceiros”.

“A conquista mais significativa foi o crescimento constante até se tornar num novo tipo de organização de cooperação regional, que abrange hoje um território mais vasto, engloba a maior população e possui o maior potencial de desenvolvimento do mundo”, afirmou Xi, citado pela agência de notícias oficial chinesa Xinhua.

O líder chinês considerou que “a sombra da guerra persiste” e que o mundo se encontra “numa encruzilhada”, entre diálogo e confronto, cooperação de benefício mútuo e competição de ‘tudo ou nada’, e multilateralismo e unilateralismo.

“Perante uma encruzilhada que diz respeito ao futuro e ao destino da humanidade, a Organização de Cooperação de Xangai deve assumir corajosamente as suas responsabilidades e orientar de forma proativa o curso da história”, afirmou.

Segurança prioritária

Ao apresentar as suas propostas para o futuro da organização, Xi Jinping defendeu que os países devem “dar prioridade à segurança e criar um ambiente de segurança universal”.

O Presidente chinês apelou ainda aos membros da OCX para “impedirem firmemente” a interferência de forças externas nos assuntos internos de outros países, com o objectivo de preservar a estabilidade regional. Na área tecnológica, Xi anunciou que a China vai executar 100 projectos científicos e tecnológicos com os países membros da organização nos próximos três anos.

A cimeira reúne, entre outros líderes, o Presidente russo, Vladimir Putin, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e o Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian. O encontro decorre num contexto de crescente instabilidade internacional, marcado pelos conflitos na Ucrânia e no Irão.

Fundada em 2001 por China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, a OCX expandiu-se posteriormente para incluir Índia, Paquistão, Irão e Bielorrússia. Pequim tem procurado reforçar o papel da organização como plataforma para promover uma ordem internacional multipolar e aumentar a influência da China entre os países do chamado Sul Global.

2 Set 2026

China exige protecção dos seus interesses na Venezuela após acordo com os EUA

A China exigiu ontem que os seus interesses na Venezuela sejam salvaguardados, após notícias de que o novo acordo petrolífero entre Caracas e Washington poderá afectar campos onde operavam empresas chinesas, como as estatais Sinopec e CNPC.

“Os direitos e interesses legítimos da China na Venezuela devem ser salvaguardados”, afirmou, em conferência de imprensa, o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Guo Jiakun.

Guo respondia a uma pergunta sobre informações segundo as quais, no âmbito do novo acordo petrolífero promovido pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, uma empresa dos Estados Unidos assumiria o controlo de vários campos venezuelanos anteriormente nas mãos de companhias chinesas, entre as quais a Sinopec e a CNPC.

O porta-voz não confirmou as mudanças de controlo e limitou-se a afirmar que Pequim “tomou nota das informações”. Guo sublinhou que a cooperação entre a China e a Venezuela “está protegida pelo direito internacional e pelas leis de ambos os países” e defendeu que a cooperação económica e comercial entre países deve reger-se pelos princípios da igualdade e do benefício mútuo.

A China mantém há vários anos importantes interesses no sector petrolífero venezuelano, onde empresas estatais como a CNPC e a Sinopec participaram em projectos de exploração e produção, no âmbito da estreita relação económica desenvolvida entre Pequim e Caracas durante os governos chavistas.

Saque americano

Os Estados Unidos e a Venezuela anunciaram, na sexta-feira, um acordo através do qual Washington passará a controlar mais de 20 por cento das reservas de petróleo venezuelanas, quase oito meses após a aproximação entre o Governo da Presidente interina, Delcy Rodríguez, e a administração Trump, na sequência da captura de Nicolás Maduro, em Janeiro.

Rodríguez detalhou, no sábado, que o acordo terá uma duração de 25 anos e prevê o desenvolvimento de 17 campos estratégicos, com reservas comprovadas de 65 mil milhões de barris de petróleo e um objectivo de produção superior a 1,5 milhões de barris por dia.

Desde a captura de Maduro, Washington tem tutelado o Governo liderado por Rodríguez e restabeleceu as relações diplomáticas com Caracas, após mais de duas décadas de afastamento bilateral.

2 Set 2026

Tibete | Pequim invoca riscos de segurança para restringir acesso de jornalistas a zona das cheias

O Governo chinês invocou ontem riscos de segurança e a possibilidade de novos “desastres secundários” para justificar as restrições no acesso de jornalistas estrangeiros à zona do Tibete atingida pelas cheias da semana passada.

“Neste momento, as estradas e as comunicações na zona afectada pelo desastre estão cortadas e existem riscos consideráveis de desastres secundários”, afirmou, em conferência de imprensa, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Guo Jiakun.

O porta-voz acrescentou que as operações de resgate decorrem “de forma intensa e ordenada” e garantiu que as autoridades vão continuar a divulgar informações sobre a situação e as operações de busca.

Guo respondia a uma pergunta sobre as razões pelas quais as autoridades chinesas ainda não permitiram o acesso de órgãos de comunicação social estrangeiros à zona afectada, enquanto jornalistas da imprensa estatal chinesa têm feito reportagens a partir do local.

Após as cheias, as autoridades suspenderam temporariamente a emissão de autorizações para as áreas fronteiriças sujeitas a controlo especial no município de Shigatse, incluindo Gyirong, e pediram às pessoas que já dispunham de autorizações válidas que evitassem deslocações à região.

As autoridades justificaram a medida com os riscos para a população e para as operações de resgate, bem como com a possibilidade de ocorrência de novos desastres.

2 Set 2026

Guangzhou Evergrande | Tribunal chinês abre processo de liquidação

Um tribunal de Cantão, no sudeste da China, abriu formalmente o processo de liquidação por insolvência do Guangzhou FC, antigo Guangzhou Evergrande e um dos clubes mais bem-sucedidos do futebol chinês, após anos de dificuldades financeiras.

O Tribunal Popular Intermédio de Cantão anunciou que aceitou, na segunda-feira, o pedido de liquidação apresentado pela Guangzhou Zhonghang Service Management contra o clube e nomeou uma equipa de liquidação como administradora da instituição. Os credores têm até 30 de Novembro para reclamar os respectivos créditos, estando a primeira assembleia de credores marcada para 08 de Dezembro.

A decisão surge depois de o clube não ter obtido, no início de 2025, a licença necessária para participar nas competições profissionais chinesas, por não ter conseguido reunir fundos suficientes para liquidar as dívidas, situação que o deixou então à beira do desaparecimento.

O Guangzhou FC viveu o período de maior sucesso sob a designação Guangzhou Evergrande, após o gigante imobiliário com o mesmo nome ter adquirido o clube em 2010. A equipa conquistou oito títulos da Superliga chinesa e venceu por duas vezes a Liga dos Campeões asiática, em 2013 e 2015.

Pelo clube passaram futebolistas como os brasileiros Robinho e Paulinho, o colombiano e antigo jogador do FC Porto Jackson Martínez e o argentino Darío Conca, enquanto entre os treinadores estiveram os italianos Fabio Cannavaro e Marcello Lippi e o brasileiro Luiz Felipe Scolari.

Os problemas do clube agravaram-se em paralelo com a crise da Evergrande, que entrou em incumprimento em 2021, após acumular um passivo de centenas de milhares de milhões de dólares. A equipa desceu da primeira divisão em 2022 e tentou posteriormente manter-se no segundo escalão, antes de ficar afastada do futebol profissional.

2 Set 2026

Uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista (2)

Por Chenyang Li

(continuação do número anterior)

Duas categorias de virtude

No Ocidente, a tradição da ética da virtude remonta a Aristóteles. Adotando uma abordagem funcional da virtude, a teoria de Aristóteles salienta a utilidade da virtude para que o indivíduo leve uma vida boa. A teoria da virtude de Aristóteles pode ser interpretada tanto de forma «espessa» como de forma «fina». Numa interpretação «forte», para ser virtuoso, o sujeito deve (a) realizar as ações corretas, (b) pelas razões certas e (c) nas circunstâncias adequadas.16 Nesta perspetiva, Michael Constantinescu e R. Crisp estabelecem uma distinção entre ser virtuoso, por um lado, e comportar-se de forma virtuosa, por outro. De acordo com a sua análise, os robôs de IA podem ser capazes de se comportar de forma virtuosa, mas não podem ser virtuosos. Argumentam que:

Apesar da sua capacidade de imitar ações virtuosas humanas e até de se comportarem de forma equivalente aos seres humanos, os sistemas robóticos de IA não conseguem realizar ações virtuosas de acordo com as virtudes, ou seja, de forma correta ou virtuosa; nem pelas razões e motivações certas; nem, através da phronesis, ter em conta as circunstâncias adequadas. E isto tem como consequência que a IA não pode ser genuinamente virtuosa, pelo menos não com os avanços tecnológicos atuais que sustentam o seu desenvolvimento funcional.17

A interpretação de Constantinescu e Crisp sobre o que é ser virtuoso pode muito bem refletir o que Aristóteles afirmou quando discutiu a pessoa virtuosa. No entanto, não está de acordo com o que Aristóteles disse sobre a função e a virtude em geral. Também é possível fazer uma interpretação restrita da teoria da virtude de Aristóteles, uma interpretação que não se baseia na capacidade do sujeito de usar a razão.

Christine M. Korsgaard escreve:

Os filósofos gregos parecem, em geral, ter acreditado que uma virtude ou excelência é uma qualidade que permite que uma coisa desempenhe bem a sua função. Tanto Platão como Aristóteles estabelecem uma ligação conceptual entre ergon e arete. Uma arete não é meramente um dos pontos positivos de uma coisa; é, especificamente, uma qualidade que torna uma coisa capaz de desempenhar bem a sua função.18

Os termos gregos para «função» e «virtude», ergon e arete, aplicam-se tanto às pessoas humanas como aos seres não humanos. Aristóteles atribui estas características tanto às pessoas humanas como às «coisas» (NE 6.2 1139a17, NE 2.6 1106a15–23). Ele defende que «a virtude de uma coisa está relacionada com a sua função própria» (NE 6.2 1139a17) e que «toda a virtude, por um lado, coloca em bom estado a coisa de que é virtude e, por outro, faz com que a função dessa coisa seja bem desempenhada» (NE 2.6 1106a15–23). Aristóteles recorre aos exemplos de um flautista, de um escultor ou de um artista para defender o seu argumento de que «para todas as coisas que têm uma função ou atividade, considera-se que o bem e o “bem feito” residem na função; assim pareceria ser também para o homem, se ele tiver uma função» (NE I.7, 1097b24 e seguintes).

Numa interpretação restrita, as noções de função e virtude de Aristóteles podem ser aplicadas também aos sistemas robóticos de IA. Uma coisa pode ter muitas funções. Uma faca pode ser utilizada para cortar, para decoração e até mesmo como peso de papel. No entanto, a função própria de uma faca enquanto faca, segundo o raciocínio de Aristóteles, é cortar. Portanto, uma faca excelente, enquanto faca, é aquela que corta bem. É aí que reside a arete de uma faca, a sua excelência ou virtude. Como a função própria de uma faca é diferente da de, digamos, um martelo, a sua excelência ou virtude também é diferente da de um martelo. Para usar os próprios exemplos de Aristóteles, a função própria — a atividade característica — de um flautista é diferente da de um escultor. Um flautista, por exemplo, tem de ser capaz de soprar bem e de mover os dedos nas notas certas, enquanto um escultor cria esculturas esculpindo, modelando ou soldando os materiais adequados para transformá-los em obras de arte. Como têm funções diferentes, um excelente escultor pode ser muito mau a soprar ar num instrumento musical, e o inverso aplica-se a um excelente flautista. Por outras palavras, diferentes formas de ergon requerem diferentes tipos de arete.

Na perspetiva de Aristóteles, no entanto, para além dos papéis específicos das pessoas na sociedade, os seres humanos, enquanto seres humanos, partilham também uma função comum na vida, que é exclusiva da humanidade. Aristóteles defende que a alma humana tem várias funções. Ela mantém a vida vegetativa dos nossos corpos, a vida da nutrição e do crescimento. A alma também mantém as nossas funções animadas, que nos permitem movimentar-nos e ir ao encontro das coisas. Mas estas funções, argumenta Aristóteles, não são a nossa função própria. A vida vegetativa pertence até às plantas; as funções animadas pertencem também aos animais. Para Aristóteles, o uso da razão é a função própria da humanidade (NE 2.7 1197b35-1198a7). Portanto, a virtude dos seres humanos é o que os leva a desempenhar bem a sua função distintiva (NE 2.6 1106a15–23). Assim, uma vida que segue a razão conduz à eudaimonia («florescimento humano»), permitindo-nos viver bem enquanto seres humanos. Viver uma vida de eudaimonia é o objetivo supremo da humanidade.

Nas tradições filosóficas orientais, o conceito de virtude ocupa um lugar central na ética confucionista. A palavra para virtude em chinês é «de». O antigo dicionário chinês Shuowen Jiezi explica o seu significado através do seu homófono «», ou seja, adquirir, realizar. Explica ainda que isto significa «de shi yi ye» (謰燭鼫), nomeadamente, levar as coisas a bom termo de forma adequada. Trata-se de um poder ou capacidade que permite ao seu possuidor alcançar os seus objetivos. Tal qualidade é atribuída tanto aos seres humanos como aos objetos não humanos. O texto taoísta *Daodejing* afirma que tudo no mundo possui o seu *de* (*Daodejing*, Capítulo 51). Na tradição confucionista, *de* é aplicado principalmente às pessoas, mas também se aplica a objetos não humanos. Por exemplo, o Comentário Xi do Livro das Mutações afirma: «a maior virtude (de) do céu e da terra é gerar as coisas 蘢礜巃»»擯崵.» Confúcio disse: «um governante que governa o seu estado com virtude (de) é como a Estrela Polar do Norte, que permanece no seu lugar enquanto todas as outras estrelas giram à sua volta»

“Para o ‘Fan’ e o ‘Yi’, a luz do sol brilha sobre a multidão.” (19)Ao dizer isto, Confúcio sugeriu que é a virtude (de) da Estrela Polar que permite que as outras estrelas se movam em harmonia à sua volta. Confúcio também disse: «Um bom cavalo não é elogiado pela sua força, mas pela sua virtude (de): “骥嫄称剢淛, 称剢适憟”» (Analectos 14:33). A afirmação de Confúcio sugere que a verdadeira virtude de um bom cavalo não é (meramente) a sua força, mas as suas outras capacidades que lhe permitem correr bem, presumivelmente tais como resistência e fiabilidade. Nestas utilizações, o conceito de «virtude» é aplicável tanto aos seres humanos como aos sistemas robóticos de IA.

Pensadores clássicos como Confúcio, Mencius e Xunzi enfatizaram, todos eles, a necessidade de cada pessoa cultivar a virtude e tornar-se um ser humano virtuoso. A visão mais influente de Mencius na filosofia moral é o seu argumento de que as disposições inatas das pessoas podem transformar-se em virtudes morais através do autocultivo. Mencius defendia que todos os seres humanos nascem com quatro tipos de sentimentos inatos: o sentimento de compaixão, o sentimento de desdém, o sentimento de respeito e o sentimento de aprovação e desaprovação. Através do cultivo ativo, as pessoas podem transformar estes sentimentos naturais em disposições éticas, nomeadamente a virtude cardinal da humanidade (ren 嬬), da retidão (yi 义), da cortesia (li 礼) e da

sabedoria (zhi 簹) (Mencius 6A6). Xunzi defendia que as pessoas nascem com uma tendência para

fazem coisas egoístas e sem moralidade. Causarão o caos na sociedade. Ele defende que, através do estabelecimento de regras de decoro ritual (li) na sociedade, as pessoas podem alterar as suas disposições naturais e tornar-se seres humanos virtuosos. Ao praticar a correção ritual através do autocultivo, as pessoas desenvolvem virtudes como o respeito (gong jing 剉杶), a lealdade (zhong xin 蘙蝁), a civilidade e a retidão (li yi 礼义) e a preocupação com os outros (ai ren 爱嬣) (Xunzi, Capítulo 2).

As teorias da virtude de Mencius e Xunzi constituem o seu desenvolvimento da teoria da virtude de Confúcio, embora coloquem ênfase em aspetos diferentes. A contribuição mais fundamental para a teoria da virtude da ética confucionista foi dada por ninguém menos que o próprio Confúcio. A ética da virtude de Confúcio centra-se no desenvolvimento do conceito de ren 嬬. O significado original do caractere ren 嬬 refere-se a um sentimento de ternura para com os outros.20 Confúcio articulou o significado de ren em termos de «amar as pessoas» (ai ren 爱嬣, Analectos 12.22). Tanto Mencius como Xunzi, tal como apresentado acima, herdaram este significado de «ren» de Confúcio. No entanto, Confúcio não se limitou a isso na sua articulação do «ren». Ele alargou ainda mais o conceito como uma virtude abrangente da humanidade. Confúcio disse:

Quem conseguir praticar cinco coisas, em qualquer parte do mundo, pode tornar-se uma pessoa de ren.21 … Respeito (gong剉), tolerância (kuan宽), sinceridade (xin蝁), diligência (min睌) e bondade (hui). Se alguém for respeitoso, não será tratado com desrespeito. Se for tolerante, conquistará o coração de todos. Se for sincero, inspirará confiança. Se for diligente, alcançará os seus objetivos. E se for bondoso, poderá desfrutar do serviço dos outros. (Analectos 17.6)

Aqui, «ren» não é uma virtude específica de cuidado para com os outros, mas sim uma virtude abrangente que pode ser adquirida através da prática de várias virtudes específicas. Ou seja, alcança-se o «ren» praticando as cinco virtudes específicas: respeito, tolerância, confiabilidade, diligência e bondade (Analectos 17.6). Essa lista, no entanto, não é exaustiva. Confúcio também disse: «As pessoas com ren ajudam os outros a prosperar se desejam prosperar elas próprias, e ajudam os outros a ter sucesso se desejam ter sucesso elas próprias (da 达). Ser capaz de julgar os outros com base no que nos é próximo é o método para se tornar ren» (Analectos 6.30). Ser capaz de inspirar-se no que nos é próximo é estender o nosso coração aos outros, compreender os outros pensando no que nós próprios sentiríamos. Seguindo esta linha de pensamento, Confúcio afirmou que o ren exige que não façamos aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem (Analectos 12.2).

Para resumir a visão de Confúcio. O «ren», enquanto virtude, tem um significado específico e um significado mais amplo. Wing-tsit Chan afirmou: «Como virtude geral, o “ren” significa humanidade, ou seja, aquilo que faz do homem um ser moral. Como virtude específica, significa amor.» 22Para efeitos deste ensaio, gostaria de salientar que, na teoria de Confúcio, as virtudes dividem-se em duas categorias. A primeira é a das virtudes específicas. Esta categoria de virtudes inclui uma longa lista de traços morais específicos, tais como o respeito, a tolerância, a confiabilidade, a diligência, a bondade, etc. A segunda categoria é a da virtude abrangente da humanidade refinada. Uma pessoa dotada de «ren» neste último sentido, o da humanidade refinada, possui uma variedade de virtudes específicas. Neste segundo sentido, Confúcio afirmou, numa frase célebre, que «o “ren” é [a característica distintiva da] humanidade.»23

Na tradição confucionista, aqueles que possuem a virtude abrangente do ren podem ser chamados de junzi (珋磾, ver Analectos 4.5). Um junzi é uma pessoa virtuosa que possui uma variedade de virtudes. De acordo com os Analectos, essas pessoas não formam grupinhos (2.14); comportam-se com cavalheirismo quando competem (3.7); são cautelosas quando falam e diligentes quando agem (4.24); comportam-se com modéstia, tratam os superiores com respeito, são bondosas para com as pessoas e agem de forma adequada ao contratar pessoas (5.16); são cultas (6.27); são harmoniosas sem serem uniformizadoras (13.27); são corajosas (17.23). Entretanto, Confúcio também defendia que os junzi não são unidimensionais como um utensílio (junzi bu qi 珋磾嫄厞, 2.12). Ser como um utensílio é ser uma ferramenta destinada apenas a uma tarefa específica, fazer apenas uma coisa, ter apenas uma existência unidimensional. Um ser humano, na visão de Confúcio, deve desenvolver-se como uma pessoa completa e ser bom enquanto ser humano em si mesmo. Tais pessoas, ou junzi, possuem uma variedade de virtudes específicas, mas também não se limitam a essas virtudes específicas isoladas. São capazes de entrelaçar essas virtudes num todo equilibrado, alcançando a virtude abrangente do ren.

Assim, parece existir um paralelo entre Confúcio e Aristóteles. Para Aristóteles, uma pessoa que vive em eudaimonia «é aquela cujas atividades estão em consonância com a virtude plena, com um suprimento adequado de bens externos, não apenas por um período qualquer, mas ao longo de uma vida completa» (NE 1.10 1101a 15–17).24 Por outras palavras, uma vida de eudaimonia requer uma variedade de virtudes específicas na vida. Aristóteles não considerava a eudaimonia em si mesma como uma virtude, mas sim como uma atividade virtuosa. Defendia que se trata de «um certo tipo de atividade da alma em conformidade com a virtude» (NE 2.9 1099b25).

No entanto, Aristóteles aceitou que a sua visão é consistente com a ideia de que a eudaimonia «é a virtude [em geral] ou alguma virtude [particular]; pois a atividade em conformidade com a virtude é própria da virtude» (NE 1.7 1198b 30-32).25 Aristóteles reconhece que o conceito de virtude pode, por vezes, implicar a eudaimonia (NE 1.7 1198b 32-1099a 5). Se pudermos defender aqui uma interpretação de certa forma confucionista, podemos dizer que, na medida em que a função própria da humanidade é viver de acordo com a razão, e viver bem de acordo com a razão é eudaimonia, a eudaimonia encaixa-se na definição de virtude (arete) de Aristóteles.

Independentemente de Aristóteles ter ou não chamado a eudaimonia de virtude, num sentido lato, uma vida de eudaimonia, segundo Aristóteles, é análoga a uma vida de ren (virtude abrangente) para Confúcio. Para Aristóteles, uma pessoa dotada de uma virtude específica pode não ser um ser humano excelente se não agir de acordo com a razão e não possuir outras virtudes específicas. Confúcio defendia uma visão semelhante. Ele defendia, por exemplo, que uma pessoa dotada de ren tem necessariamente de ser corajosa, enquanto que uma pessoa corajosa pode não ser ren (嬬簅, 饡膧曏; 曏簅, 嫄饡膧嬬; Analectos 14.4). Ser corajoso é possuir uma virtude específica; ser «ren», no sentido de virtude abrangente, é possuir a virtude abrangente da humanidade.

2 Set 2026

Fundação Jorge Álvares cede piano para novo polo de investigação

A Universidade Nova de Lisboa inaugura, no dia 10 deste mês, um polo de investigação no Palácio Nacional de Mafra, onde vai ter laboratórios e um projecto de digitalização do património ligados à música, disse fonte da reitoria.

“Este polo não existia antes com as mesmas capacidades técnicas e vai ter condições de acolhimento e de trabalho”, afirmou à agência Lusa a pró-reitora para a Cultura, Impacto Social e Comunidades, Elsa Peralta.

O espaço associado ao Instituto de Arte e Tecnologia vai ter laboratórios de acústica musical, informática musical e património digital, cujos equipamentos foram financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência, além de outras três salas de trabalho, com capacidade para dez investigadores. “Vamos cruzar competências das artes e da cultura com as competências tecnológicas que podem ser aplicadas às artes”, referiu.

Além disso, Macau marca presença de forma indirecta, através da Fundação Jorge Álvares. Esta vai ceder ao polo de investigação um piano de cauda Steinway & Sons, de 1889, homenageando o pianista e compositor Filipe de Sousa, que residiu em São Miguel de Alcainça, no concelho de Mafra, nos últimos anos de vida, e que morreu em 2006.

Investigação global

No espaço vão trabalhar investigadores ligados a um projecto de digitalização do património musical, um programa desenvolvido em articulação entre a Faculdade de Ciências e Tecnologia e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas dedicado à aplicação de tecnologias digitais à documentação, preservação e valorização do património cultural.

O polo vai beneficiar da proximidade ao Museu Nacional da Música, que ocupa outro espaço do monumento, e ao Arquivo Nacional do Som, a ser construído na vila, criando condições favoráveis à colaboração da universidade com estas instituições musicais.

O trabalho laboratorial está associado à actividade académica, mas vai existir programação cultural e actividades formativas abertas à comunidade, como ‘workshops’ e cursos de Verão, existindo para tal um auditório com capacidade para meia centena de pessoas. “Queremos gerar conhecimento e desenvolver o território”, sublinhou Elsa Peralta.

Resultante de uma parceria estabelecida em 2021 com o Município de Mafra, o polo tem na música a sua matriz, enquanto campo de investigação, inovação e criação, mas também enquanto património material e imaterial, inscrito em monumentos, arquivos, repertórios, práticas, espaços e memória sonora.

“Ao cruzar a nossa forte herança musical — viva nos nossos órgãos históricos, carrilhões ou na riquíssima tradição das nossas bandas filarmónicas — com a inovação digital e a investigação científica, estamos a elevar a música de Mafra a uma nova dimensão, gerando um impacto cultural e educativo que enriquece todo o nosso território”, afirmou Hugo Moreira Luís, presidente da Câmara Municipal de Mafra, citado em nota de imprensa.

O contrato de comodato entre o Município e a Universidade Nova de Lisboa é válido por dez anos, podendo ser renovado.

2 Set 2026

Macau Legend reduziu as perdas anuais, mas continua a registar prejuízos

A antiga operadora de casinos Macau Legend anunciou um prejuízo de 136,8 milhões de dólares de Hong Kong na primeira metade do ano, menos 90,4 por cento em termos homólogos. Num comunicado enviado à bolsa de valores de Hong Kong, na segunda-feira à noite, a Macau Legend justificou a melhoria com a ausência nas contas do impacto do encerramento do último ‘casino-satélite’ da empresa.

Em 2025, a operadora registou uma queda de 1,18 mil milhões de dólares de Hong Kong no valor contabilístico do empreendimento Doca dos Pescadores, devido ao encerramento, em Novembro, do ‘casino-satélite’ Legend Palace.

Os ‘casinos-satélite’, sob a alçada de três das seis concessionárias oficiais, eram geridos por outras empresas, sendo uma herança da administração portuguesa e que já existia antes da liberalização do jogo no território, em 2002.

Dez dos 11 ‘casinos-satélite’ que ainda operavam em 2025 fecharam portas, enquanto a SJM adquiriu o Casino Royal Arc e obteve autorização do Governo para gerir directamente o espaço. A Macau Legend terminou 2025 com um prejuízo de 1,57 mil milhões de dólares de Hong Kong , mais do dobro do registado no ano anterior.

Futuro em risco

No relatório de segunda-feira a operadora admitiu ter “dúvidas significativas sobre a capacidade do grupo de continuar em actividade” devido a dívidas totais de 2,68 mil milhões de dólares de Hong Kong.

Em Setembro de 2025, a empresa lançou um concurso público para a venda do projecto imobiliário Ponto Legend, situado na ilha da Montanha, e que inclui uma praça ao ‘estilo manuelino’. O período de licitação decorreu até ao final de Outubro de 2025, mas a Macau Legend não anunciou ter recebido ou aceite qualquer proposta.

Em Março de 2025, a Macau Legend já tinha previsto um prejuízo contabilístico de 45,9 milhões de dólares de Hong Kong devido à ameaça de reversão do hotel-casino que a empresa deixou por acabar na Praia. Em Janeiro passado, o Governo de Cabo Verde tomou mesmo posse dos bens e edifício do hotel-casino que a Macau Legend abandonou há anos.

Três dias depois, a empresa disse que as autoridades cabo-verdianas não tinham “qualquer fundamento legítimo” para reaver a propriedade. Em Março, o Governo de Cabo Verde lançou um concurso de ideias para o espaço, aberto até meados de Abril, sendo que as propostas que forem seleccionadas serão objecto de consulta pública.

Em Abril, a Macau Legend garantiu que não desistiu do hotel-casino e que estava a ponderar “possíveis acções (…), sob assessoria jurídica”, face à perda da propriedade no ilhéu de Santa Maria e na orla marítima da Gamboa.

O relatório financeiro referente a 2025 revela que a Macau Legend reservou 32,4 milhões de dólares de Hong Kong para as despesas de uma eventual litigância em torno do projecto na capital cabo-verdiana.

2 Set 2026

Jogo | Receitas brutas com quebra anual de 1,2% em Agosto

Os números de Agosto mostram as receitas a caírem em termos anuais pelo terceiro mês consecutivo. Esta é a série mais negativa para a indústria do jogo, desde a pandemia da Covid-19

As receitas dos casinos caíram em Agosto, em termos homólogos, pelo terceiro mês consecutivo, foi ontem anunciado. De acordo com dados oficiais divulgados pela Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos, o sector arrecadou 21,9 mil milhões de patacas no mês passado, menos 1,2 por cento do que em Agosto de 2025.

As receitas dos casinos de Macau já tinham registado quedas homólogas de 12,1 por cento em Junho e de 8,4 por cento em Julho, algo que os analistas tinham justificado com o impacto do Mundial de futebol. O banco de investimento Citigroup indicou numa nota que as apostas no torneio, que decorreu entre 11 de Junho e 19 de Julho, reduziram o orçamento que os jogadores normalmente reservam para as mesas de Macau.

É a primeira vez desde 2021, em plena pandemia de covid-19, que os casinos do território registam três meses consecutivos com as receitas a cair em termos homólogos.

A indústria do jogo fechou 2025 com receitas de 247,4 mil milhões de patacas, o valor mais elevado desde 2019, antes do início da pandemia. O orçamento do Governo para este ano, aprovado em Dezembro de 2025, prevê que as receitas atinjam 236 mil milhões de patacas, o que representaria uma queda de 4,61 por cento em comparação com o ano passado.

O então secretário para a Economia e Finanças, Anton Tai Kin Ip, defendeu a previsão como “bastante prudente” e recusou apontar uma meta para o crescimento da economia da região, que descreveu como altamente “vulnerável a flutuações”.

Recorde em 2013

O recorde de receitas dos casinos foi atingido em 2013 – 360,7 mil milhões de patacas – antes das autoridades da China continental terem lançado uma campanha para limitar os fluxos ilegais de capitais. De acordo com dados oficiais, Macau recebeu quase 24,5 milhões de visitantes nos primeiros sete meses de 2026, mais 8 por cento do que no mesmo período do ano passado.

Os casinos representaram quase metade (47,3 por cento) do Produto Interno Bruto de Macau em 2025. Se ao jogo se juntar o turismo, então este sector reuniu 74,1 por cento da economia local. Apesar da crise sofrida durante a pandemia, os casinos davam no final de Junho trabalho a cerca de 66.100 pessoas, ou seja, 17,6 por cento da população empregada.

Além disso, os impostos sobre o jogo representavam 84,6 por cento do total das receitas públicas de Macau nos primeiros sete meses do ano.

2 Set 2026

Hengqin | UPM e UTM assinam acordo para uso de terreno

Foi assinado, esta segunda-feira, o acordo para a transferência de uso de terrenos e utilização do futuro campus universitário em Hengqin por parte da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e Universidade de Turismo de Macau (UTM), entendimento esse firmado com a entidade gestora da Zona de Cooperação Aprofundada de Guangdong e Macau em Hengqin.

Desta forma, “as três universidades públicas de Macau – Universidade de Macau, Universidade Politécnica de Macau e Universidade de Turismo de Macau – concluíram a aquisição de terrenos em Hengqin”, pode ler-se num comunicado oficial.

A ideia é construir “uma nova cidade de educação a nível internacional na Grande Baía”. O projecto da UPM e UTM tem mais de 459 mil metros quadrados, sendo que as duas instituições de ensino vão ter um campus em conjunto com edifícios de aulas, laboratórios, biblioteca, residências universitárias e instalações desportivas. Espera-se que as obras deste campus arranquem em 2027, ficando “praticamente concluído em 2030”.

2 Set 2026

Tribunais | Juízes portugueses tomaram posse

Os juízes Filipa Vaz da Fonseca e Ricardo Botica Quintas, contratados pela RAEM para os Tribunais de Primeira Instância, tomaram posse ontem, com a cerimónia de juramento público. O evento decorreu na Sala de Reuniões do Edifício do Tribunal de Última Instância (TUI). Os magistrados vão cumprir um mandato de dois anos, que poderá ser renovado.

Além dos magistrados portugueses, contratados como juízes estrangeiros, o juiz local Choi Mou Pan tomou posse como um dos três magistrados do TUI. Em relação ao Tribunal de Segunda Instância, a cerimónia incluiu a tomada de posse das juízas Cheong Un Mei e Leong Sio Kun.

Também Tang Chi Lai e Chong Chi Wai foram promovidos, ao fazerem o juramento para assegurarem as posições de Juízes-Presidentes do Tribunal Colectivo dos Tribunais de Primeira Instância.

2 Set 2026

Grande Baía | Abertas inscrições para visitas a empresas

Arrancou esta terça-feira o processo de inscrições para a “Visita de Jovens de Macau a Empresas da Grande Baía Guangdong Hong Kong Macau”, promovida pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL).

Segundo um comunicado deste organismo, pretende-se promover o emprego e a diversificação da economia local tendo em conta os novos sectores de actividade, onde se incluem as áreas das finanças, medicina tradicional chinesa ou saúde.

A visita realiza-se no dia 15 de Setembro deste ano e tem 30 vagas, destinando-se a jovens com residência de Macau e portadores de salvo conduto dos residentes de Macau e Hong Kong para a entrada no interior da China. Estes devem ter uma idade igual ou inferior a 35 anos.

As inscrições terminam na próxima semana, no dia 7 de Setembro, sendo que o percurso inclui a visita “às empresas líderes de inovação tecnológica”, nas áreas da inteligência artificial e outras, “abrangendo a indústria de circuitos integrados situada em Nansha, Guangzhou, o Centro de Experiência Inteligente de Haixinsha e a Sede de Investigação e Desenvolvimento de Inteligência Artificial da Região do Sul da China”.

2 Set 2026

Air Macau | Prejuízo encolhe 14,2% na primeira metade de 2026

O prejuízo da companhia aérea Air Macau encolheu 14,2 por cento na primeira metade do ano, em comparação com igual período de 2025, para 331 milhões de yuan. Segundo a empresa mãe, a companhia aérea estatal chinesa Air China, as receitas operacionais da Air Macau entre Janeiro e junho subiram 16 por cento em termos homólogos, atingindo 1,74 mil milhões de yuan.

De acordo com o relatório financeiro da Air China, divulgado no domingo à noite, a companhia aérea de bandeira de Macau registou também um aumento de 7,9 por cento no número de passageiros, para 1,69 milhões.

A taxa média de ocupação dos voos da Air Macau subiu 2,6 pontos percentuais, atingindo 78,34 por cento, enquanto os passageiros-quilómetro pagos, um indicador importante da procura de viagens, aumentaram 3,3 por cento. O relatório não menciona qualquer razão para os prejuízos da Air Macau.

Mas a Air China aponta para o aumento do preço dos combustíveis como justificação para uma perda total de 2,29 mil milhões de yuan (do grupo, mais 26,6 por cento do que na primeira metade de 2025.

Desde 2020

A Air Macau tem vindo a registar prejuízos consecutivos desde 2020, com o início da pandemia da covid-19, que levou à imposição de restrições à vinda de turistas da China continental, o principal mercado para Macau.

Nos últimos seis anos, a companhia aérea acumulou perdas totais de 3,89 mil milhões de yuan, incluindo 655 milhões de yuan só em 2025. No final de 2024, os avcionistas injectaram 1,6 mil milhões de patacas na Air Macau, incluindo 344,1 milhões de patacas em dinheiro público, naquela que foi a quarta injecção de capital na empresa desde 2009.

Em Fevereiro passado, a região semiautónoma chinesa implementou um novo regime jurídico da aviação civil, que liberaliza o mercado e põe fim ao monopólio da Air Macau, que vinha desde 1995. No entanto, o Governo ainda não emitiu concessões a qualquer outra companhia aérea, além da licença de operação válida por 20 anos dada à Air Macau.

O Aeroporto Internacional de Macau, inaugurado em 1995, ainda durante a administração portuguesa, tem actualmente voos regulares de passageiros operados por 29 companhias aéreas para 47 destinos na China continental, Taiwan, Sudeste Asiático, Japão e Coreia do Sul.

Em Junho, a empresa chinesa WGL Group assinou um acordo com uma companhia latino-americana para impulsionar a abertura, por Macau, de uma rota aérea directa de carga para a América Latina. Em Abril de 2025, arrancou a primeira rota de carga de longo curso entre Macau e Madrid, operada pela companhia aérea de bandeira da Etiópia, a Ethiopian Airlines.

1 Set 2026

Japão | Governo propõe orçamento de defesa recorde centrado na IA

O Ministério da Defesa japonês pediu ontem um orçamento recorde de 8,9 biliões de ienes (48 mil milhões de euros) focado na inteligência artificial (IA) para acelerar a tomada de decisões num contexto de tensão.

Uma fonte parlamentar da coligação no poder admitiu ao jornal Nikkei, sob condição de não ser identificada, que o orçamento final da defesa para o ano fiscal que começa em Abril de 2027 poderá atingir os 10 biliões de ienes, de acordo com a agência de notícias France-Presse (AFP).

Os valores exactos atribuídos a cada rubrica deverão ser finalizados assim que o Governo concluir, até ao final do ano, a revisão dos principais documentos relativos à segurança nacional, disseram responsáveis do Ministério da Defesa.

Com a proposta, o Governo pretende realizar uma ampla modernização das forças armadas para enfrentar as crescentes tensões com vizinhos como a China, a Coreia do Norte e a Rússia. A proposta orçamental foca-se no combate a “novas formas de guerra”, como a IA, drones (aparelhos telecomandados) e mísseis de longo alcance.

O Ministério da Defesa espera implementar um sistema de apoio à tomada de decisões baseado em IA e adquirir drones de baixo custo capazes de atuar em conjunto com mísseis de longo alcance para neutralizar alvos inimigos.

Planeia igualmente desenvolver mísseis hipersónicos lançados a partir de plataformas submarinas e criar uma nova unidade para reforçar as capacidades de defesa contra a guerra cognitiva. Trata-se de uma ameaça crescente que visa moldar a opinião pública através de campanhas de desinformação e de outras operações de influência.

Com o pedido orçamental para o novo ano fiscal, o Japão prossegue os esforços para reforçar as capacidades militares de modo a responder a uma realidade geopolítica instável. O país afasta-se assim progressivamente da postura pacifista tradicional, que limitava o uso da força à estrita legítima defesa.

1 Set 2026

A voz viva na era da voz fabricada

Por Zerbo Freire

Em outubro de 2025, uma canção gerada por inteligência artificial e publicada no YouTube fez milhares de ouvintes acreditarem que Adele gravara um tributo a Charlie Kirk, ativista conservador norte-americano assassinado em setembro daquele ano. Com o título “Heaven Gained an Angel”, o vídeo acumulou milhões de visualizações e centenas de comentários como “Obrigado, Adele, é uma canção magnífica” — apesar de a voz gerada por IA pouco se assemelhar à da cantora britânica. A plataforma removeu o vídeo após ser alertada pela AFP, mas a comoção, essa, já ocorrera. A voz fabricada fizera o que a voz viva não fizera: emocionar sem estar presente.

Há algo profundamente perturbador nessa voz fabricada que emerge de um alto-falante sem nunca ter atravessado uma garganta de carne. Não se trata aqui da voz mediatizada — aquela que, mesmo gravada, conserva o fantasma de um corpo, o rastro de um instante em que alguém, de fato, moveu os lábios. O inquietante, agora, é mais radical: uma voz gerada do zero por algoritmos, que nenhum ser humano pronunciou, e que, no entanto, soa como se pudesse tê-lo feito.

O medievalista e teórico da vocalidade Paul Zumthor já antecipava esse momento em 1986, numa passagem em que respondia à pergunta da revista italiana Linea d’Ombra sobre o impacto dos meios eletrônicos, auditivos e audiovisuais sobre a voz. Para ele, a distância entre a voz viva e qualquer mediação técnica era intransponível, justamente porque evidenciava “a diferença biológica entre o homem e a máquina”. Mas Zumthor não se detinha aí: ele via no computador — substituto eletrônico da escritura — o próximo passo de uma abstração vocal tão radical que “já não se tratará de gravação, mas de voz fabricada”. A pergunta que essa antevisão nos lega não é, portanto, meramente técnica, mas antropológica: o que resta da voz viva quando a fabricada se torna praticamente indistinguível da verdadeira?

A voz viva, nos lembra Zumthor, é um evento corporal. Mais precisamente: uma expansão do corpo. O som que emitimos não é algo acrescentado de fora; é o próprio corpo projetando-se para além de seus limites. Ao falarmos, tornamo-nos onda — tocamos o outro através do vazio, carregando nele o peso, o calor e o volume real da carne. Ouvir alguém ao vivo não é apenas processar informação linguística: é estar na presença de um outro. Sentimos sua fragilidade, seu risco iminente de gaguejar, de se emocionar demais. Essa vulnerabilidade é o que confere à voz viva sua força: ela é única, perecível, como um corpo.

A voz gravada já é outra coisa. Ela congela o instante, torna o efêmero repetível. Mas ali ainda resiste o traço de um corpo — ausente, é verdade, mas que um dia existiu.

Agora a voz fabricada — essa é uma expansão de nada. Não há corpo algum a ser expandido. A respiração que parecemos ouvir é simulada. A emoção que detectamos é calculada. O timbre foi montado estatisticamente a partir de milhares de vozes reais, desencarnadas e recompostas numa entidade que nunca existiu. Um significante sem significado existencial. Um som órfão.

Mas seria apressado concluir daí apenas um lamento. Não nos deixemos, contudo, cair num pessimismo fácil — há que se ter horror ao tom apocalíptico. A voz fabricada não é uma ruptura absoluta; ela apenas radicaliza um processo muito mais antigo: a progressiva desencarnação da vocalidade. Zumthor lembra que, por séculos, a voz foi reprimida pela hegemonia da escrita. Depois vieram a rádio, o disco, a televisão, apagando as referências espaciais da voz viva. A voz fabricada, agora, rompe o cordão da mediatização: já não há fantasma, já não há origem. Apenas simulação. É a desencarnação radical da vocalidade — preparada há séculos.

E, no entanto, algo inquietante acontece. Um ouvinte real pode escutar um poema recitado por uma voz sintética e chorar. A comoção é verdadeira? O corpo do ouvinte expande-se em resposta a algo que não é expansão de nenhum outro corpo? Uma primeira resposta, alinhada a Zumthor, seria o “não” categórico: o ouvinte chorou porque pensou estar diante de uma voz viva — foi ludibriado. Se soubesse da verdade, talvez não chorasse.

Mas há outra possibilidade, que Zumthor não teve tempo de contemplar. O corpo humano pode ser tocado por padrões sonoros mesmo na ausência de uma intencionalidade emissora. Assim como choramos com um filme de animação sabendo que os personagens não existem, podemos chorar com uma voz fabricada sabendo que aquele sopro não vem de ninguém. A diferença, porém, é que no filme há corpos humanos por trás — atores, animadores. Na voz fabricada, pode não haver ninguém. Apenas um algoritmo otimizado para maximizar a comoção. Se a comoção pode ser fabricada sem sujeito, então a escuta deixa de ser encontro e passa a ser resposta a um estímulo. E isso muda o estatuto da verdade na experiência estética.

Se é assim, o que acontece com a arte que sempre dependeu da voz como expansão do corpo — a poesia, por exemplo?

Para a poesia, as implicações são imensas. Zumthor definiu o poético como “uma arte da linguagem humana, independente de seus modos de concretização e fundamentada nas estruturas antropológicas mais profundas”. A poesia nasce do ritmo da respiração, da ressonância da caixa torácica, do gesto. Pensemos no griot da África Ocidental: ali, a voz não é um veículo do poema, mas o próprio corpo do poeta em ato. Sem esse corpo, o que resta da poesia? O movimento das mãos, o olhar que varre a audiência, a respiração que se suspende: tudo isso é o poema. O griot testemunha com seu corpo.

A poesia pode habitar uma voz que nunca respirou? Há quem diga que sim — que a voz fabricada pode criar novas vocalidades impossíveis para a garganta de carne. Mas essa resposta elide uma questão central: um instrumento requer um instrumentista. Na voz fabricada, quem é o sujeito da enunciação? O algoritmo? O programador? Nenhum deles, no momento da emissão, está expandindo seu corpo. Ninguém está ali, presente, assumindo aberta e responsavelmente a palavra.

A era da fabricação vocal nos obriga a repensar o lugar do corpo na experiência poética. A voz viva continua insubstituível — na intimidade de uma conversa, na força bruta de um protesto cantado, no silêncio que antecede a palavra de um poeta em cena. Ali, a presença carnal faz o que nenhum algoritmo pode: lembra-nos de que estamos juntos, frágeis, vivos e mortais, compartilhando o mesmo ar enquanto ele dura.

Mas a voz fabricada chegou para ficar. A sabedoria talvez não seja rejeitá-la, mas aprender a distingui-la da voz viva — sem deixar que sua perfeição nos faça esquecer o valor da imperfeição, da respiração ofegante, da palavra que hesita.

Ouvir uma voz fabricada e sentir-se tocado é, talvez, a mais estranha nostalgia que a técnica nos reservou: a nostalgia de um corpo que nunca esteve ali. Como se pudéssemos sentir saudade de um abraço que nunca aconteceu.

Porque, no fundo, não é a perfeição técnica que nos comove. É o sopro imperfeito. Se o sopro imperfeito ainda é nosso, cabe a nós decidir se queremos ouvi-lo como prova de humanidade ou como ruído a ser aperfeiçoado.

1 Set 2026

Nepal enterra mortos após devastadoras inundações

O Nepal enterra as vítimas da inundação devastadora ocorrida na fronteira com a China, sem esperar pela identificação de cadáveres nem pelo fim das operações de socorro, devido à magnitude do desastre.

Mais de quatro mil pessoas, incluindo estrangeiros, continuam desaparecidas de ambos os lados da fronteira, nesta região dos Himalaias, isolada e muito procurada por alpinistas e peregrinos. A catástrofe já causou cerca de 900 mortos e danos consideráveis.

As equipas de socorro trabalham incansavelmente, em condições perigosas e apesar dos riscos causados por uma nova subida das águas, na esperança, em particular, de salvar cerca de uma centena de trabalhadores bloqueados num túnel, escreveu a agência de notícias France-Presse (AFP).

Mas cinco dias depois, a esperança de encontrar sobreviventes no mar de lama e detritos que devastou aldeias inteiras vai-se desvanecendo.

Famílias e pessoas próximas dos desaparecidos acorrem aos hospitais e morgues na tentativa de encontrar sobreviventes, nomeadamente em Bharatpur, no sul do Nepal, onde imagens de cadáveres são exibidas num ecrã.

A força das águas levou cerca de 250 cadáveres até á área de Chitwan, a mais de cem quilómetros a jusante do local da catástrofe.

Shobha Adhikary está convencida que o corpo sem vida deitado junto a um rio é de um amigo de infância. “Parece-se com ele”, afirma a um voluntário. Mas só uma identificação por ADN permitirá confirmar a identidade da vítima, adverte o voluntário.

Contra o relógio

Um trabalho longo e difícil realizado sob pressão do tempo: no domingo, por razões sanitárias, as autoridades nepalesas começaram a enterrar vítimas sem sequer esperar pela identificação dos corpos, por motivos de saúde pública.

Estes enterros ocorrem após a recolha de uma amostra de ADN, precisaram as autoridades, e têm carácter provisório para as vítimas de confissão hindu. Isto permitirá que as famílias, após a identificação formal, exumem os corpos e procedem à cremação, conforme manda a tradição.

“Foram recuperados muitos corpos e estes começaram a decompor-se”, justificou o secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Amrit Bahadur Rai.

Entre as causas, destacam-se: infraestruturas insuficientes face ao número de corpos. Como a morgue de Bharatpur só tem capacidade para cerca de vinte, as autoridades tiveram de armazenar os cadáveres em instalações com ar condicionado da associação de comerciantes.

Em Devghat, na mesma região, onde foram enterradas vítimas ainda não identificadas, a polícia colocou números nos locais de sepultamento, de acordo com imagens da AFP. Várias dezenas estavam armazenados e prontos a serem utilizados.

Apesar das centenas de pessoas já resgatadas, as autoridades nepalesas e chinesas continuam sem notícias de mais de quatro mil outras, entre as quais centenas de estrangeiros.

O trabalho das equipas de salvamento está ameaçado por uma nova catástrofe: no lado chinês, os socorristas que intervêm no Tibete foram “transferidos para um local seguro” após a formação de um novo lago de barragem, provocado por um deslizamento de terra, segundo meios de comunicação estatais.

No Nepal, as autoridades apelaram à prudência devido ao aumento do caudal do rio Bhotekoshi, no zona de Rasuwa (norte).

1 Set 2026