Literatura | “MyWay”, uma viagem pelos lugares de Natividade Ribeiro

“My Way – Diário e Escritas Paralelas” é o mais recente livro de Natividade Ribeiro, mulher açoriana, autora e docente que também fez de Macau a sua casa durante muitos anos. Com edição da Letras Lavadas Edições, eis uma obra que mistura registos biográficos com sentimentos sobre lugares que são casa, como é o caso de Portugal e de Macau

Antes das letras surgem as imagens que revelam, elas próprias, vivências e memórias: a “janela dos bambus”, a “entrada do jardim Camões” ou objectos como “a sombrinha chinesa”. Há ainda espaço para o desenho da casa em Coloane ou até a fotografia “do jardim da vizinha Lagos”, ou até da “Mesa de Jantar – Lisboa”. É assim o mais recente livro de Natividade Ribeiro, natural de Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, Açores, formou-se em Filosofia e deu aulas em Macau nos anos de 1982 e 1999, tendo tido depois uma posterior experiência de ensino no Instituto Português do Oriente (IPOR), nos anos de 2015 e 2016.

De nome “My Way – Diário e Escritas Paralelas”, o mais recente livro da autora, editado no final do ano passado pela Letras Lavadas Edições, revela-se ao leitor uma espécie de diário de bordo pela mais recente passagem de Natividade Ribeiro por Macau, numa ligação aos seus Açores e a outros lugares de Portugal que representam casa para si. Trata-se de um “diário de mês e meio”, entre Macau, Algarve e a ilha açoriana de São Miguel, datado de 2023, “com a liberdade de saltar tempos e espaços, excercendo o poder da mente”, lê-se logo no início.

O relato desta vivência começa ainda em Lisboa, no dia 23 de Agosto, com a autora a descrever a viagem a Macau e a recordar os momentos em que, nos idos anos 80, se mudou para o Oriente. “Amanhã iremos revisitar Macau. Foi em setembro de 1982 que para lá fomos viver. Passados estão 41 anos. Ao calor intenso à chegada, disse ‘Macau é como estar nas estufas de ananás do meu pai, em pleno verão da minha ilha’. E respirei um ar familiar, ainda que com outros cheiros.”

A chegada fez-se a 25 de Agosto, no Aeroporto Internacional de Hong Kong, e é nesse momento que Natividade Ribeiro vai buscar a referência à ideia do caminho pessoal traçado, “My way”. “Saímos. À porta do avião uma cadeira de rodas à minha espera. Agora a All Ways. My way, all ways gosto destes nomes, minhas pernas. O meu caminho, a minha maneira. Todos os caminhos, todas as maneiras”, lê-se a certa altura.

Por entre relatos de idas e vindas, regressos e chegadas, Natividade Ribeiro vai revelando também ao leitor alguns poemas e escritos da sua autoria, nomeadamente “Perfil virtual II”: “Ela desafia tudo / Senhora de tanto / Com olhos ainda inocentes / Reinventa o mundo / Em palavras de liberdade / Vivendo à beira do mar / E em cada alvorada / Ri com as gaivotas.”

Alguns dos textos que se lêem em “My Way” foram escritos na Casa Garden, sede da Função Oriente em Macau. “Fechada no quarto belo, escreverei este diário como fiz na adolescência com a Ilha como clausura”, descreve a autora, que não esqueceu as referências a outro poeta bem conhecido do território, Camilo Pessanha. “Pessanha (meu) em tom menor I” é o nome de um dos poemas, com uma estrofe que começa com o verso “Choveu!, sobre bambus e nenúfares”.

Entre descrições e narrações

A sinopse da obra dá-nos conta que, “além da narração e descrição do quotidiano, há reflexões, interrogações sobre as cidades, o mundo, a actualidade”, tratando-se de um “diário como um livro de viagens por lugares interiores e exteriores, conhecidos e de reconhecimento da autora”.

O leitor depara-se com uma “escrita híbrida que já caracteriza a autora”, e com um livro que deambula entre a prosa e poesia, “não excluindo narrativa ficcional, onde o mar, a cidade e até as gaivotas algarvias são personagens”.

Na apresentação da obra na Casa de Macau em Lisboa, Natividade Ribeiro destacou as cores escolhidas para a capa do livro, que tem “uma forte simbologia”. O vermelho “presente em todas as festividades de Macau, cor que representa alegria”, e depois o verde que remete para a natureza da ilha de São Miguel e para as próprias “cores da bandeira de Portugal”.

No lançamento, Natividade Ribeiro descreveu como as “escritas paralelas a estes registos diarísticos foram acontecendo”, e de como se deu “um ambiente propício a outras escritas”. Os escritos “foram-se colando ao diário como um patchwork, em que os pedacinhos de tecido nas diversas cores, estampas e tamanhos para criar uma nova peça se vão juntando meticulosamente”.

Natividade Ribeiro, que já editou anteriormente outros livros, trouxe também alguns desses escritos para “My Way”. “Aproveitei também para fixar alguns textos, com temáticas sobre Macau, de dois dos meus livros, ‘Nada, nada professora’, da Edições do Oriente, e ‘Os três lugares de uma mulher’, da editora Salamandra. Há também dois textos, ‘Jogar com a cidade’, já publicado na colectânea ‘Viagens III’, das Letras Lavadas; e o poema ‘Calçada das Verdades’. Estes textos referem-se a um Macau pós-1999 e quero que cheguem a leitores de lá”, referiu.

30 Mai 2026

Turismo | Registado aumento de visitas de estudo para Macau

O presidente da Associação de Indústria Turística de Macau considera que o aumento das viagens de estudo na China e em Macau levou à expansão do sector do turismo. Andy Wu realça a subida anual entre 20 a 30 por cento de estudantes que viajam até Macau

As viagens de estudo têm um grande potencial para o sector do turismo e Andy Wu, presidente da Associação de Indústria Turística de Macau, destaca como os números têm registado um aumento.

Segundo noticiou o jornal Ou Mun, o mercado de viagens de estudo dos estudantes do Interior da China em Macau registou um aumento, com o número de visitantes deste segmento a crescer 20 a 30 por cento em 2025, face a 2024.

Andy Wu explicou que as viagens de estudo a Macau são de curta duração, não indo além de quatro dias, focando-se nos elementos de história, cultura e experiências. Apesar de serem em menor número face às viagens de estudo feitas pelos estudantes de Macau para o exterior, existe, segundo o dirigente associativo, um óbvio potencial que pode ser explorado noutras épocas do ano, nomeadamente durante a semana ou férias de Inverno.

Andy Wu destacou também que as visitas de estudo para cidades chinesas ocupam já cerca de 50 por cento da procura, com foco em destinos como Pequim, Xangai ou Xi’an. Antes, no período de Verão, os estudantes optavam mais por países estrangeiros como Reino Unido, Austrália ou Canadá, entre outros.

Mais agências de serviço

Nas visitas às cidades chinesas, o foco faz-se nas últimas tecnologias, como é o caso de voos espaciais e inteligência artificial, tendo Andy Wu destacado que o conteúdo das viagens está relacionado com as necessidades de aprendizagem dos alunos.

Quanto ao preço das viagens de estudo, o representante e empresário de agências de turismo apontou que é mais elevado do que excursões normais dado que estas viagens exigem mais mão-de-obra, nomeadamente guias turísticos e tutores, para garantir uma melhor experiência educativa.

Ainda no que diz respeito ao preço, as viagens ao Interior da China continuam a ser mais baratas do que ao estrangeiro, tendo Andy Wu apontado que se deu um aumento ligeiro devido à sobretaxa de combustível nos voos.

O responsável contou ainda que a popularidade das visitas de estudo beneficiou o sector turístico. Isto porque, no ano passado, apenas duas agências de viagens, com capitais de Macau e Hong Kong, se dedicavam a este tipo de serviço. Actualmente, já são entre oito a dez agências que organizam visitas de estudo, o que leva a um enriquecimento da oferta, disse.

30 Mai 2026

Xavier Garcia, jornalista e autor: “O domínio mundial do Ocidente acabou”

“China, ameaça ou esperança – A realidade de uma revolução pragmática” é o nome do mais recente livro de Xavier Garcia, editado em português pela Tempo Galiza Editora. O autor, que foi correspondente da EFE em Pequim, explica algumas ideias construídas pelo Ocidente em relação ao país e diz que Portugal deve aproveitar a ligação a Macau para estreitar laços com a China

Tem vasta experiência na China, na qualidade de repórter. Como começou a sua relação com o país, e de que forma está demonstrada neste livro?

A minha relação com a China começou em 2018 porque fui destacado como director da delegação da agência de imprensa EFE em Pequim. Vivi sete anos na China e desde o princípio que me surpreendeu o desenvolvimento, capacidade para organizar a vida de tantos milhões de pessoas, as mudanças rápidas, políticas orientadas a longo prazo e questões realmente decisivas, como a eliminação da pobreza, a distribuição de riqueza ou a questão ecológica. Também me surpreendeu o carácter pacífico das pessoas e, digamos, mediterrâneo, festivo, bem como o gosto pela comida ou a importância da família, a maneira simples de viver e de fazer as coisas de uma forma prática.

A China é uma ameaça, uma esperança ou um pouco das duas coisas, e porquê?

Considero que a China representa, acima de tudo, uma esperança para o mundo, pois demonstrou a eficácia das suas políticas contra os problemas mais graves da humanidade, como a pobreza ou a crise climática. Também porque defende uma relação internacional pacífica entre países, diferente daquela a que estamos habituados, uma relação baseada no comércio, na cooperação, no ganho mútuo e não na imposição de um país sobre o outro. A China não procura impor o seu modelo a ninguém e defende um mundo multipolar onde as diferentes culturas e civilizações possam coexistir na sua diversidade.

Quando se fala de revolução pragmática, entende que o Ocidente deve olhar para a relação com a China de outra forma, com mais pragmatismo?

O Ocidente, pragmaticamente, deveria tentar aprender com algumas das coisas que a China faz bem, aprendendo com os outros. Deveria deixar de tentar impor os seus valores e formas de organização política ao resto do mundo. Deveria olhar para outras civilizações e países com mais humildade, procurando aprender com o que pode servir para melhorar a vida das populações. O Ocidente precisa de aceitar que o tempo do seu domínio mundial acabou, mas que pode coexistir em paz com o resto do mundo, respeitando as outras culturas sem ter de abdicar dos seus valores.

Na obra, faz uma espécie de “denúncia das campanhas mediáticas ocidentais” criadas para “desprestigiar a China”. Quais as mais evidentes? Por que razão são criadas estas campanhas e quais são os seus principais objectivos?

Para as potências económicas, corporativas e mediáticas ocidentais, um país que se define como comunista não pode servir de exemplo para o resto do mundo, muito menos para o chamado Sul Global. O objectivo é demonizar e denegrir a imagem da China para que nenhuma das suas políticas possa ser vista como positiva, sob pena de representar uma alternativa viável ao modelo capitalista neoliberal promovido pelo Ocidente. Qualquer medida chinesa, mesmo as claramente desejáveis, como a erradicação da pobreza ou a construção de uma civilização ecológica, deve ser apresentada de forma negativa. Para tal, são empregues todas as estratégias e manipulações mediáticas, se não mentiras descaradas, bem como um arsenal de palavras e expressões que contribuem para deixar uma impressão negativa no leitor. Estas estruturas descritivas são constantemente repetidas até serem inconscientemente aceites como verdadeiras. Toda a política chinesa é criticada, há sempre um custo que a invalida. Trata-se de informação altamente tendenciosa, que exige um leitor muito atento e perspicaz para reconhecer as armadilhas. Fala-se de propaganda chinesa, mas a propaganda ocidental é mais complexa de detectar. Requer um leitor atento.

Como vê a posição da Espanha em relação a Pequim? O primeiro-ministro espanhol tem assumido algumas posições contrárias a Washington em matéria de geopolítica que podem agradar mais à China. Considera que isso traz benefícios, sobretudo económicos?

Nos últimos tempos, Sánchez tem desempenhado um papel de destaque na política internacional e na União Europeia em questões cruciais como o genocídio em Gaza, a guerra do Irão e as relações com a China. A aproximação à China é recente, dado que Espanha tinha perdido terreno considerável para outros países europeus até há apenas quatro anos. Uma maior cooperação com a China trará, sem dúvida, benefícios para Espanha, graças à liderança da nação asiática em áreas-chave para o futuro, como a inovação tecnológica e a transição energética. Além disso, a China representa um aliado previsível e fiável numa altura em que a relação precária com os Estados Unidos parece cada vez mais instável.

Portugal está a perder terreno face à Espanha na relação com a China?

A relação da Espanha com a China tem crescido significativamente nos últimos meses. Recentemente, foi anunciado que a China ultrapassou a Alemanha e é agora o principal fornecedor da Espanha. Além disso, Pequim escolheu Espanha para acolher a sua maior fábrica de automóveis na Europa. Neste aspecto, Portugal tem vindo a perder terreno para Espanha economicamente. No entanto, mantém uma relação de longa data com a China, particularmente em territórios como Macau, algo que Espanha não possui. Isto representa uma vantagem que Portugal deve aproveitar para aprofundar laços a todos os níveis. Esse estreitamento não deve estar condicionado à filiação política do Governo em funções.

A China está a mudar o formato das relações internacionais e diplomáticas que temos vindo a conhecer até agora? De que forma?

Sim. A China propõe um novo modelo de relações internacionais regido pelos cinco princípios da coexistência pacífica que moldaram a sua política externa durante mais de 70 anos: essencialmente, não interferência nos assuntos internos de outros países, respeito pela soberania e integridade territorial e não agressão. Durante mais de 200 anos, estivemos habituados a uma forma de relações internacionais em que alguns países se impõem a outros, com vencedores e vencidos. A China promove uma política de ganho mútuo, na qual todos os países beneficiam da cooperação, seja ela económica, científica ou cultural. Além disso, defende uma ordem internacional muito mais justa do que aquela que emergiu da Segunda Guerra Mundial, com uma representação mais equitativa e proporcional do Sul Global em instituições como a ONU e outras. Apoia um mundo multipolar no qual não exista uma potência hegemónica dominante e todas as civilizações possam coexistir e colaborar pacificamente.

Como encara o conceito “Socialismo com características chinesas”? Existe ainda desconhecimento por parte dos outros países em relação a este modelo de governação?

Ainda existe muita ignorância em relação à China, pois há também o interesse em retratá-la como um país opaco, obscuro e desconhecido. O que não se conhece inspira medo, e o medo é um dos principais factores que quem detém poder utiliza para controlar os cidadãos. A China adopta um socialismo marxista adaptado às características históricas da sua antiga civilização, fortemente influenciado pelas suas principais escolas de pensamento filosófico, como o taoísmo e o confucionismo, e pragmático, muito ancorado na realidade, procurando sempre as melhores soluções para melhorar a qualidade de vida da população. É um sistema que só poderia ser aplicado na China e está intimamente ligado às idiossincrasias do país. No entanto, isso não nos impede de aprender muito com este modelo.

Em termos gerais, quais são as principais mensagens que este livro nos transmite?

Em poucas décadas, a China passou de um dos países mais pobres do mundo para se tornar na segunda maior economia global, sem praticamente disparar um único tiro fora das suas fronteiras. O seu desenvolvimento tem sido, e continua a ser, pacífico, tirando 800 milhões de pessoas (75 por cento dos pobres do mundo) da pobreza. Nos últimos 15 anos, o país tem demonstrado também uma grande consciência ambiental, procurando construir uma civilização ecológica. Agora, centra-se na redistribuição da riqueza gerada e na correção das desigualdades criadas pela economia de mercado, ao mesmo tempo que promove um desenvolvimento de alta qualidade baseado na inovação tecnológica. Tudo isto é feito de forma pragmática, fundamentada em princípios marxistas, mas rejeitando completamente o dogmatismo. A China experimenta diversas soluções para os problemas emergentes e adopta aquela que produz os melhores resultados para melhorar a vida das pessoas. É flexível, como o bambu. É um país que não é governado por elites económicas, mas por funcionários públicos excepcionalmente bem formados, que demonstraram a sua capacidade de gerir assuntos públicos ao longo dos anos, desde o nível local até aos mais altos escalões pelas mentes mais brilhantes entre 1,4 mil milhões de pessoas. Estes são apenas alguns dos factos que os meios de comunicação ocidentais nos escondem, obcecados em pintar um retrato de um país que pouco ou nada tem a ver com a realidade.

30 Mai 2026

Arraial de S. João | Da Torre para a Doca dos Pescadores

Há nova localização este ano para uma das festas mais icónicas das comunidades portuguesa e macaense no território. Segundo noticiou a TDM Rádio Macau, o Arraial de São João regressa nos dias 20 e 21 de Junho na Doca dos Pescadores, deixando de se realizar na Torre de Macau. Mais concretamente o arraial realiza-se na zona exterior do restaurante Vic’s, no Hotel Rocks, localizado na Doca dos Pescadores.

A organização do evento está a cargo da Associação dos Macaenses (ADM), trazendo, como é habitual, petiscos portugueses e muita animação. De destacar que a localização do arraial tem sido um assunto debatido tendo em conta a saída da festa do bairro de São Lázaro, onde a festa se realizou desde 2007, em frente à igreja.

A edição deste ano conta ainda com apoios do Fundo de Desenvolvimento da Cultura da RAEM, tendo a colaboração na organização da Casa de Portugal, do Instituto Internacional e da Associação dos Jovens Macaenses. O HM contactou Miguel de Senna Fernandes, presidente da ADM, a fim de obter um comentário sobre a mudança de localização, mas até ao fecho da edição não foi possível estabelecer contacto.

Paragens e suspensões

Recorde-se que o arraial não se realizou durante quatro anos devido à pandemia e depois por restrições de trânsito no bairro de São Lázaro. Miguel de Senna Fernandes explicou ao Ponto Final, no ano passado, que “abrir a calçada de São Lázaro significaria cortar a festa em bocados, e isso não seria possível”.

“As pessoas ainda preferem São Lázaro, mas têm de compreender”, disse, explicando que a solução da Torre de Macau era a possível para manter a celebração com o parco orçamento atribuído. “Ainda bem que continuamos a contar com o apoio da Torre, que muito prontamente aceitou conceder-nos o mesmo espaço. Caso contrário, isto seria absolutamente irrealizável”, frisou.

A Associação dos Macaenses (ADM) já referiu que o arraial vai muito além da dimensão religiosa de homenagem ao padroeiro São João Baptista, constituindo um “esforço comunitário para manter a tradição de comemorar a data histórica de 24 de Junho de 1622”, em que as forças portuguesas derrotaram as tropas holandesas, mantendo a Administração portuguesa no território.

28 Mai 2026

José Paulo Esperança, docente da Universidade Cidade de Macau: “Macau precisa de especialistas”

José Paulo Esperança, professor de Finanças da Universidade Cidade de Macau, apresentou ontem uma palestra sobre o sector financeiro local intitulada “Mercado Pequeno, Estratégia Inteligente: O Futuro Financeiro de Macau”. O académico considera essencial que o ecossistema financeiro local “se torne mais robusto”

O Governo tem na agenda política o desenvolvimento do mercado financeiro. Como descreve este sector actualmente e quais as principais lacunas que aponta? Faltam, por exemplo, mais empresas com contabilidade organizada, ou uma maior estruturação?

O ecossistema financeiro necessário para suportar a nova visão do sistema financeiro é complexo. Macau tem elevadas competências ao nível legal, bancário e de supervisão, mas o desenvolvimento de novos produtos e fundos exige maior número de especialistas em auditoria, compliance, gestão de risco, investimento em acções, obrigações e derivados, para além da necessidade de reforçar a literacia financeira em Macau. Não menos importante é a capacidade da comunicação social em ajudar a perceber as oportunidades e riscos dos produtos financeiros.

Na sua apresentação abordou lacunas, ou espaços a que o mercado financeiro de Hong Kong não consegue dar resposta e que Macau pode preencher. Que áreas são essas?

Hong-Kong tem uma das dez maiores praças financeiras do mundo e é a segunda pelo valor de IPOs (Initial Public Offerings), beneficiando do dinamismo de startups da China. Também tem uma projecção inquestionável na gestão de fortunas, no mercado de obrigações, e no mercado cambial. A regulação de novos produtos como “stable coins” também não foi ignorada. No entanto, apesar do dinamismo dos parques científicos e dos “family offices”, o financiamento de startups e pequenas empresas regista ainda lacunas significativas, essencialmente ao nível da mobilização de capital privado para novos projectos. Talvez uma das diferenças mais significativas entre Macau e Hong-Kong seja o nível da taxa de poupança que representa um enorme volume de capital “ocioso” à procura de oportunidades de investimento.

Macau pode, de facto, construir um mercado financeiro “mais focado e diferente” em relação ao cimentado sector financeiro de Hong Kong? Que produtos de nicho poderia ter?

Macau tem desenvolvido diversas iniciativas ao nível do mercado de obrigações (MOX) ou de direitos de carbono, “Macau Emissions Exchange” (MEX), ambas áreas onde Hong-Kong também possui forte presença, por exemplo com a emissão de “green bonds”. No entanto, outras iniciativas são claramente distintas, como é o caso do “Microconnect”, uma plataforma de “revenue based (ou royalty) financing (RBF)” em que os investidores são remunerados através de uma percentagem da facturação dos negócios investidos. Este modelo, que já apoiou mais de 10.000 pequenas empresas por toda a China, permite começar a receber dinheiro na conta bancária logo que o beneficiário faz a primeira venda. A China constitui um mercado excelente para este modelo de financiamento, dado o elevado nível de digitalização da economia, o que reduz o risco de fraude. Alguns estudos sugerem que o RBF é o modelo de financiamento de pequenos negócios com maior potencial de crescimento no mundo, mais de 30 por cento ao ano. Outros modelos com enorme potencial para Macau incluem a criação de uma rede de “business angels” que permitiria dinamizar as elevadas poupanças dos residentes de Macau. Um dos maiores especialistas, antigo presidente da European Business Angels Network (EBAN) e autor do “Zero Risk Start-Up”, Paulo Andrez, fez já três visitas a Macau, tendo apresentado o modelo que permitiu à Europa acelerar a sua rede de “business angels”, uma área em que estava muito atrás dos Estados Unidos da América. A criação de novos fundos e o compromisso de investimento público nesses fundos permite uma elevada expectativa na capacidade de alavancar os investimentos privados em start-ups locais, na Grande Baía e nos países de língua portuguesa (PLP). Finalmente, uma área ainda não explorada que proponho é a criação de plataformas de “crowd-funding” que podem mobilizar muitas pequenas contribuições para novos projectos com fins lucrativos, ou para apoio a famílias de baixos recursos, por exemplo nos PLP.

Mencionou ainda exemplos de pequenas economias com laços internacionais, como o Luxemburgo e o Dubai. Que perperspectivas estes territórios abrem para a RAEM?

Estes pequenos centros financeiros têm diferentes especializações. Por exemplo, Singapura é muito forte em gestão de fortunas, mercados cambiais e derivados, mas o seu mercado de capitais é muito reduzido. O Luxemburgo beneficia de uma posição central na União Europeia e tornou-se o segundo maior centro de fundos de investimento bem como ao nível da indústria seguradora e de resseguros. Os fundos de investimento podem ter um elevado potencial também para Macau, mas é necessário que o nosso ecossistema se torne mais robusto.

Macau é, há muito, um território com baixa carga fiscal, não existindo impostos sobre o consumo ou rendimentos. Considera que haveria espaço para uma mudança – que seria estrutural – a esse nível?

A baixa carga fiscal é fundamental, nesta fase. A Irlanda é um exemplo em que um IRC [Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas) reduzido, de 12.5 por cento, permitiu atrair muitas multinacionais. No futuro, um sector financeiro mais robusto em Macau pode permitir uma receita fiscal mais elevada, mas isso vai levar algum tempo.

Macau quer apostar no desenvolvimento do sector financeiro, mas parece demorar a flexibilizar as leis de contratação de quadros externos. É importante ter uma “mente aberta” a este nível e permitir uma contratação mais acessível de pessoas, sobretudo do espaço lusófono?

Macau precisa de atrair especialistas e “boutiques” especializadas em produtos financeiros inovadores. Na fase de arranque é fundamental uma maior abertura ao direito de residência de especialistas e apoio financeiro à criação de novas empresas no sector financeiro e segurador. Portugal e o Brasil têm uma experiência recente de dinamização do sector financeiro de que Macau poderia beneficiar, para além de os mercados dos PLP representarem oportunidades de investimento muito interessantes, sobretudo se associadas à entrada de empresas chinesas, nas áreas da energia, agricultura ou indústria transformadora.

Finanças ao pequeno-almoço

“Small Market, Smart Strategy: Macau’s Financial Future?” [Mercado Pequeno, Estratégia Inteligente: O Futuro Financeiro de Macau?] foi o tema da mais recente sessão de conversas ao pequeno-almoço, organizada ontem pela Câmara de Comércio França Macau no Sofitel Ponte 16.

A sessão protagonizada por José Paulo Esperança teve como objectivos frisar a importância de Macau não copiar as características de Hong Kong, mas aproveitar e preencher as lacunas da praça financeira vizinha, e ganhar margem de manobra no financiamento de startups e nas ligações aos países de língua portuguesa e espanhola.

Segundo o académico, produtos financeiros de nicho e aposta em novas tecnologias podem também ser trunfos da RAEM. Em Portugal José Paulo Esperança foi vice-presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal, tendo ainda ajudado a criar o AUDAX-ISCTE, um centro dedicado ao empreendedorismo e às empresas familiares, que presidiu até 2015 e reitor da ISCTE Business School.

28 Mai 2026

Bombeiros | Saídas para incêndios sobem 15%

Dados do Corpo de Bombeiros (CB) mostram que o número de saídas para casos de incêndios aumentou, em termos anuais, 15,35 por cento, tendo-se registado, entre os meses de Janeiro e Março deste ano, 248 casos, face aos 215 casos registados em igual período do ano passado.

O CB explica que em 194 saídas não foram usadas mangueiras, sendo que “as principais causas dos incêndios deveram-se ao esquecimento de desligar os fogões, a chamas que não foram totalmente extintas, à queima de incensos e velas/papéis votivos, ao curto-circuito das instalações eléctricas e às falhas mecânicas/de equipamentos”, com um total de 166 casos. Tal representou 66,94 por cento do número total de saídas de incêndio.

No caso das saídas com ambulâncias, houve um ligeiro aumento de 0,93 por cento, com 11.515 casos a registarem-se no primeiro trimestre deste ano. Registaram-se, portanto, mais 106 casos em termos anuais, sendo que os casos gerais de socorro estiveram relacionados, na sua maioria, com episódios de tontura, dor abdominal, febre e vários tipos de ferimentos.

Destacam-se ainda, nos dados ontem divulgados, um aumento de 55,16 por cento de ocorrências de “serviços especiais”. No primeiro trimestre deste ano, registaram-se 1.775 casos face aos 1.144 casos dos primeiros três meses de 2025.

27 Mai 2026

Glenn Mccartney, académico: “É importante avaliar continuamente o sentimento da comunidade”

O que leva a boicotes turísticos, seja de turistas que rejeitam destinos, ou populações com atitudes negativas face a visitantes? O docente da Universidade de Macau Glenn Mccartney analisou as causas destes boicotes e alerta: “É algo a que devemos estar cada vez mais conscientes em Macau, dado o grande volume de visitas”

No artigo “Tourist Boycott Decision-Making—Why Do It (Or Not)? Understanding and Responding to Tourism Boycotts” cita o trabalho de outros estudiosos sobre o boicote turístico que ocorreu em Hong Kong durante os protestos em Central. Terá sido este um ponto de viragem para o sector do turismo, deixando uma marca na região?

Os boicotes turísticos têm um efeito imediato e subsequente de longa duração. A questão reside em quanto tempo o sentimento negativo permanece, e também nas intervenções das autoridades de turismo para restaurar esse sentimento positivo – algo que vimos em boicotes anteriores, onde o número de visitantes foi restaurado. Embora o boicote deva ser evitado, naturalmente que a tarefa do destino e das autoridades turísticas é agir rapidamente, por exemplo, através de campanhas de comunicação, para evitar que qualquer sentimento negativo se enraíze.

Estará Macau preparada, em termos de gestão da comunicação, imagem e apoio ao sector, para um boicote turístico?

A questão do comportamento em torno do boicote turístico é a animosidade ou retaliação do potencial visitante. A acção tomada pode ser cancelar reservas (se for possível), mudar a viagem para outro local e partilhar opiniões nas redes sociais. Constatei que existem múltiplas razões pelas quais surgem boicotes e animosidade por parte dos turistas. O viajante pode perceber algo que aconteceu no destino como sendo antiético ou errado, e contrário à sua própria imagem, ou ser influenciado por outros, como, por exemplo, através de redes sociais. Os viajantes podem continuar a achar que ocorreram irregularidades, mas mesmo assim viajar, considerando o boicote desnecessário, pensando que são outros que estão a aderir ao boicote. [Podem ainda pensar] que o boicote poderá prejudicar comunidades que dependem do turismo, como as pequenas e médias empresas, ou que a acção terá, de qualquer forma, um impacto limitado, mas é importante ter em conta que pode continuar a existir um sentimento negativo. Avaliar a probabilidade de um boicote é válido, mas a comunicação, e especialmente o envolvimento nas redes sociais, é uma acção fundamental para mitigar consequências a longo prazo. Na verdade, a gestão da comunicação também faz parte de uma estratégia de resposta à gestão de crises no turismo. É necessário evitar comportamentos arraigados e trabalhar em intervenções como a comunicação eficaz junto desses visitantes, quer estejam, ou não, a boicotar [o destino], e também da comunidade, funcionários do turismo e hotelaria, e meios de comunicação, incluindo as redes sociais, ligadas também a questões como a imagem da cidade como destino. Dada a importância significativa do turismo para Macau, o comportamento de boicote ou qualquer tipo de animosidade em relação ao turismo de massa que gere maior atenção poderia ser tido em conta na preparação para a gestão de crises turísticas.

Tendo em conta as conclusões do seu estudo, que factores poderiam levar a um boicote a Macau como destino turístico?

Quando escrevi este estudo, analisei os boicotes turísticos a nível global, bem como as suas razões e consequências. No que diz respeito à sua questão, o foco poderia estar no sentimento dos residentes ou análise das publicações nas redes sociais partilhadas por visitantes, na sua maioria provenientes da China continental e de Hong Kong. [O potencial boicote] poderia dever-se, por exemplo, a um incidente de falha no serviço ou a uma experiência negativa que pudesse escalar em discussões nas redes sociais. Não se trata de uma acção de boicote turístico, como refiro no documento, mas sim de expressão de um sentimento negativo, que, no entanto, poderia prejudicar a imagem do destino. Esta perspectiva é particularmente importante devido à estratégia de Macau de se posicionar como Centro Mundial de Turismo e Lazer, pelo que monitorizar o sentimento dos visitantes estaria intimamente ligado à avaliação contínua e ao investimento nesta declaração de posicionamento da marca.

Pode a guerra no Médio Oriente dar origem a cenários de boicote, especialmente em regiões onde existem investimentos no turismo e no jogo? Será que Macau poderá tirar partido desta situação, e como se deve posicionar tendo em conta esse panorama?

A guerra no Médio Oriente poderá dar origem a cenários de boicote. Há quem seja afectado na região, bem como pessoas que formam opiniões ao ver televisão, programas de opinião e publicações nas redes sociais. Os boicotes podem significar que os turistas procurem ou lhes sejam apresentados destinos alternativos, e esta mudança pode ser a curto ou a longo prazo. Uma estratégia turística para Macau neste momento consiste em alargar os segmentos turísticos além da China continental e de Hong Kong. Por exemplo, houve recentemente uma delegação de alto nível a Portugal e Espanha, com o objectivo de reforçar laços turísticos. Por isso, o foco deve permanecer nestas acções de desenvolvimento turístico, como consolidar a imagem de marca da cidade de Macau nos potenciais mercados turísticos estrangeiros, desenvolver ligações de transporte, como companhias aéreas, infra-estruturas e desenvolvimento de produtos turísticos em Macau, e estratégias de marketing e promoção para viajantes de lazer e de negócios no estrangeiro, com uma perspectiva mais ampla do turismo internacional para Macau e Grande Baía.

Poderá ocorrer em Macau um boicote turístico inverso, com os locais a “boicotar” turistas, evitando-os ou adoptando atitudes menos acolhedoras?

Sim, é possível que os habitantes locais adoptem uma atitude menos acolhedora em relação ao turismo. Isso já está bem documentado em estudos sobre turismo e a atitude dos residentes. Há casos em que os residentes se sentem incomodados e irritados com o aumento do número de visitantes, especialmente quando se considera que os custos superam os benefícios. Temos assistido, nos últimos anos, a protestos em ruas e locais turísticos. Isto deve-se a grandes aumentos dos preços da habitação e rendas, à sobrelotação, que também se designa por “turismo excessivo”, e ainda à pressão sobre as infra-estruturas e o ambiente local. Penso que é algo de que devemos estar cada vez mais conscientes em Macau, dado o grande volume de visitas. Os resorts integrados no Cotai foram concebidos para grandes volumes de visitantes, pelo que o foco recairia sobre os bairros e comunidades locais. Tudo para que os benefícios económicos positivos, directos ou indirectos, sejam sentidos e superem as percepções negativas. Por isso, será importante avaliar continuamente o sentimento da comunidade, fazendo investigação sobre a economia, mas incluindo, também, as perspectivas sociais e ambientais. Isso iria proporcionar uma visão mais abrangente das atitudes dos residentes, não apenas no presente, mas também com vista a possíveis acções futuras para manter um sentimento positivo. Existem formas de as autoridades planearem, gerirem e definirem estratégias para o desenvolvimento do turismo de forma sustentável, o que implica, essencialmente, adoptar uma visão de planeamento a longo prazo e uma maior consulta à comunidade – mantendo-a informada. Ou seja, um bom canal de comunicação. Vimos isso, por exemplo, no programa de consulta pública sobre a revisão da lei do jogo de Macau em 2021. Outras acções comuns incluem, por exemplo, reuniões comunitárias abertas ao público.

Glenn Mccartney destaca a importância da capacidade de resiliência

Em “Tourist Boycott Decision-Making—Why Do It (Or Not)? Understanding and Responding to Tourism Boycotts”, Glenn Mccartney destaca a importância de perceber quando vem aí uma crise no turismo “tendo em conta a proximidade e incerteza sentidas na fase de recuperação pós-pandémica, a influência das redes sociais e maior sensibilização dos turistas, bem como a sua reacção emocional a questões globais”.

Nas conclusões do estudo lê-se que “o sentimento inicial de boicote pode ser um prenúncio de piores tempos por vir (especialmente se o que motivou o boicote persistir)”, sendo que o estudo de causas e impactos pode ajudar as autoridades a elaborar “respostas e intervenções adequadas para dissuadir acções de boicote e mitigá-lo a longo prazo”.

Torna-se, assim, fundamental analisar “quais os motivos de boicote que resultam em comportamentos de viagem mais ou menos arraigados e em que cenários”, ou ainda “acompanhar a evolução do sentimento de boicote”. Outro critério importante é “examinar a resiliência do destino durante e após o boicote”, criando-se uma “projecção de recuperação que inclua factores sociais e internos”. Essa recuperação deve ainda incluir “a cooperação entre sectores público e privado e uma resposta colectiva apoiada por dados”.

Causa e efeito

No estudo do docente da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau, destaca-se que “a animosidade e impactos variam consoante o evento que deu origem ao boicote e a resposta das autoridades”, sendo citado um estudo sobre o impacto dos protestos em Hong Kong, de 2020.

“Ao investigar boicotes turísticos por parte de turistas chineses decorrentes de animosidade política (por exemplo, o protesto Occupy Central em 2014) ou não política (por exemplo, o sequestro de um autocarro em Manila em 2010), verificou-se que os boicotes por animosidade não política exerceram impactos imediatos a curto prazo, enquanto os boicotes por animosidade política se prolongaram.”

Glenn Mccartney cita também o caso ocorrido durante o Ano Novo Chinês, no ano passado, quando a “Tailândia registou um declínio dramático no número de viajantes chineses devido a preocupações de segurança relacionadas com o rapto e posterior resgate de um actor chinês, Wang Xing”.

27 Mai 2026

A-Má | Nova edição de concurso literário aceita submissões até Setembro

Está aberto o período de submissão de textos literários sobre Macau para a quarta edição do Prémio A-Má, da Fundação Casa de Macau, que visa premiar os melhores escritos sobre o território, nas vertentes de cultura e literatura. O objectivo é também divulgar e valorizar a identidade macaense. Os prémios vão dos 200 aos 500 euros

A Fundação Casa de Macau volta a organizar mais uma edição do Prémio A-Má, que visa “incentivar e premiar a criatividade no âmbito da divulgação e valorização da identidade macaense”, destaca um comunicado. Até ao dia 15 de Setembro deste ano, os que escrevem sobre Macau podem enviar os seus textos, sendo este “um prémio de escrita”, com o conto a ser a modalidade do concurso.

Este texto “pode ser uma narrativa real ou ficcionada”, com o tema a dever ser relacionado com Macau e/ou a cultura macaense, “sob qualquer perspectiva ou interpretação do autor”, explica a fundação. Há prémios pecuniários para os vencedores, que começam nos 200 euros para o terceiro lugar, 300 euros para quem fica em segundo lugar e, finalmente, 500 euros para o primeiro lugar.

O júri é composto por três elementos, sendo presidido pelo presidente do Conselho de Curadores da Fundação Casa de Macau e dois membros convidados pela fundação.

Numa das sessões públicas de divulgação do prémio, em 2021, Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, declarou que o Prémio A-Má visa chamar a atenção para a identidade muito própria da comunidade macaense, e não apenas para o território em si. “Temos de olhar para o amanhã, e crer que tudo o que está a ser feito, e da parte da Fundação também, é olhar para esse amanhã e para esse reforço da identidade.”

O responsável disse ser fundamental esse trabalho de preservação tendo em conta “as enormes mudanças” que Macau tem tido. “A Grande Baía é agora o grande projecto do Governo da RAEM, sendo uma iniciativa do Governo Central. Com o crescimento de Hengqin, e todo este crescimento rápido [traz] enormes potencialidades, há muito que fazer. Este é apenas um pequeno trabalho”, acrescentou na altura.

Letras orientais

A última edição do concurso, a terceira, teve lugar em 2023, tendo sido atribuído o primeiro prémio a Ester Liñares, com o texto “Mui Wong”. Em segundo lugar ficou “A Jornada de Nina”, um trabalho literário de Rute Taveira. Em 2022, Evirges Aparecida Salgado arrecadou o primeiro prémio com “Enigma da Primeira Lua”, seguindo-se os segundos lugares ex-aequo ganhos pelo jornalista e ex-residente de Macau, João Botas, com o texto “Macau Sempre”; e Shee Va, que escreveu “Tomásia”.

Na edição de 2021 Caroline Pires Ting, investigadora, ficou em primeiro lugar ex-aequo com o texto “Ressonances between Tao Yuan-Ming (365-427) and Camilo Pessanha (1867-1926): The Paradise as utopic escape”. Ana Cristina Alves, ex-professora da Universidade de Macau e coordenadora do centro educativo do Centro Cultural e Científico de Macau, foi também a primeira classificada com o trabalho “Delírios de A-Má”.

Fátima Almeida, residente em Macau, ex-jornalista e actualmente professora universitária, ficou em segundo lugar ex-aequo com o conto “When I first Heard Kun Iam’s Voice”.

26 Mai 2026

Casa de Macau exibe documentário “Som Tam”, de Vanessa Pimentel

É exibido esta quarta-feira, dia 27, o documentário “Som Tam: Um Tailandês em Macau”, da autoria da realizadora Vanessa Pimentel, um projecto apresentado em 2023. A exibição acontece na Casa de Macau em Lisboa a partir das 15h30, sendo este documentário um “retrato da multiculturalidade de Macau”.

Vanessa Pimentel estará presente na sessão, seguindo-se um debate após a exibição, coordenada por Ruka Borges, também ele realizador e Gonçalo Magalhães. Ambos asseguram “o enquadramento temático do filme”.

O documentário em questão fez parte da programação de uma das edições do Festival Macao Films and Video Panorama, tendo o “mérito de nos trazer uma abordagem da vasta multiculturalidade que prolifera em Macau, trazendo a prespectiva da comunidade tailandesa de Macau”, explica a sinopse da autoria da Casa de Macau. Neste festival, a realizadora venceu dois prémios, o “Grand Jury Prize” e ainda o “Audience Choice Awards”, atribuídos pela Associação Audiovisual CUT.

História peculiar

É certo que Macau “é tradicionalmente conhecida como uma cidade multicultural devido à sua influência e raízes europeias”, descreve ainda a sinopse do documentário, sendo que, nos últimos anos, se transformou “numa economia próspera e um lar para muitos estrangeiros de diferentes nacionalidades”.

“Som Tam” aborda a história da comunidade tailandesa em Macau, seguindo JJ, Sakol, Kay e a sua família, Ian Ian e Chatsada, e as vivências de espaços tailandeses em Macau como um supermercado, um restaurante e um festival de rua que há várias décadas se realiza no território. Todos estes elementos “estão reunidos em Macau como cenário”, contando a história de uma comunidade.

O documentário espelha também “inúmeras emoções e conflitos que existem num processo de emigração”, nomeadamente sentimentos de “curiosidade, novidade, enfrentamento de outras realidades culturais, incerteza; e que podem mesmo ser sentimentos contraditórios”.

Há, depois, o “equilíbrio e a capacidade de nos adaptarmos mais ou menos à cultura do outro, e adoptar ou não hábitos como se fossem nossos, num processo de transformação, onde também partilhamos os nossos costumes com o outro, numa busca por um lar”, descreve a sinopse.

Ligada à câmara

Vanessa Pimentel nasceu em 1978 em Lisboa. Em 2000, enquanto frequentava o curso de Filosofia na Universidade de Lisboa, começou a trabalhar como assistente de edição no cinema. Abandonou o curso e, desde então, tem trabalhado como montadora de filmes, coordenadora de pós-produção e, mais tarde, como supervisora de continuidade.

Trabalhou em várias produções de cinema e documentários, como “Goodnight Irene” (prémio de longa-metragem narrativa no New Orleans Film Festival), “April Showers” (International Rotterdam Film Festival, IndieLisboa International Film Festival e Hamburg Film Festival) e “Go with the Wind” (melhor documentário no Extrema Doc e competição nacional no IndieLisboa International Film Festival).

Em 2008, começou a trabalhar em produções portuguesas no estrangeiro. Filmou em Espanha, China continental, Macau, Istambul e Moscovo. Em Abril de 2010, mudou-se para Macau, e continua a trabalhar como realizadora, sendo também um local onde tem vindo a aprimorar outras competências.

26 Mai 2026

Literatura | Livro sobre obra de Rodrigo Leal de Carvalho apresentado amanhã

Decorre amanhã, no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), a apresentação da obra que olha à lupa a escrita de Rodrigo Leal de Carvalho, autor profundamente ligado a Macau. “Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra”, de Dora Gago e Anabela Freitas, pretende “relançar o debate sobre a obra romanesca” do autor, que também foi juiz

“Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra” é o nome do livro da autoria de Dora Gago e Anabela Freitas que é apresentado amanhã no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), a partir das 15h. Segundo um comunicado da editora, Letras Lavadas, trata-se de uma edição que visa “redescobrir Rodrigo Leal de Carvalho” e lançar o “debate sobre a sua obra romanesca”. A apresentação estará a cargo de Ana Paula Laborinho.

Segundo a mesma nota, a obra “propõe uma revisitação crítica ao percurso literário de Rodrigo Leal de Carvalho, autor que publicou os seus oito romances já depois dos cinquenta anos e que, apesar de ter conquistado leitores atentos e o reconhecimento de vários críticos, não obteve a visibilidade mediática proporcional ao mérito da sua escrita”.

Todas as obras do autor foram editadas pela Livros do Oriente, fundada por Rogério Beltrão Coelho, destacando-se títulos como “A Mãe” ou “Requiem por Irina Ostrakoff”. No caso do livro apresentado amanhã, Dora Gago e Anabela Freitas “analisam a recepção da sua obra e destacam a singularidade da voz literária” de Leal de Carvalho, nascido nos Açores.
Propostas aos leitores

Este livro “conduz o leitor ao universo romanesco de um escritor terceirense que mergulhou profundamente na complexidade de um território distante, transformando-o em matéria narrativa rica e envolvente”. Desta forma, o que as autoras propõem são leituras que “oferecem novas perspectivas sobre a obra do autor e incentivam a redescoberta de um nome que merece maior presença no panorama literário contemporâneo”.

Este é um livro que traz “um contributo relevante para o estudo da literatura produzida no espaço lusófono e para a valorização de um autor cuja obra continua a despertar interesse e a justificar novas abordagens críticas”, refere a editora.

Rodrigo Leal de Carvalho faleceu em Janeiro deste ano aos 93 anos, tendo sido, mais do que escritor, juiz, Procurador da República e Presidente do Tribunal de Contas de Macau. Nascido na Praia da Vitória, na ilha Terceira, Açores, em 1932, Leal de Carvalho formou-se em Direito na Universidade de Lisboa, em 1956, ingressando de seguida na magistratura.

O juiz começou por trabalhar como delegado-interino na ilha do Pico, mas em 1959 foi para Macau, onde viria a viver boa parte da vida, com passagens por Lisboa e pelas então colónias portuguesas da Guiné, Angola e Moçambique.

Já depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, Leal de Carvalho regressou mais uma vez a Macau, em 1976, como Procurador da República.

Em 1995, foi nomeado juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e, no ano seguinte, liderou a comissão que organizou as últimas eleições para a Assembleia Legislativa de Macau sob administração portuguesa. Já em 1996, tornou-se presidente do Tribunal de Contas de Macau, posto que ocupou até às vésperas da transferência da administração da região para a China, em 1999.

Foi em Macau que Leal de Carvalho se estreou como romancista, em 1993, com a publicação de “Requiem por Irina Ostrakoff”, livro que lhe valeu o prémio do Instituto Português do Oriente, no ano seguinte, e que acabou por ser traduzido para chinês, em 1999, e para búlgaro, em 2002.

Seguiram-se os romances “Os Construtores do Império” (1994), “A IV Cruzada” (1996), “Ao Serviço de Sua Majestade” (1996) e “O Senhor Conde e as suas Três Mulheres (1999)”. Já regressado a Portugal, o juiz continuou a escrever sobre a região chinesa, nomeadamente em “A Mãe”.

Leal de Carvalho publicou ainda “O Romance de Yolanda” (2005), a história de uma macaense que aceita casar-se com um milionário filipino perseguido pela polícia para este obter nacionalidade portuguesa. O último livro do autor foi “As Rosas Brancas de Surrey” (2007). Com Lusa

22 Mai 2026

Diogo Lopes Teixeira, arquitecto e professor na USJ: “Estamos a aquecer as nossas cidades”

Arquitecto, co-fundador do atelier “Hori-zonte”, no Porto, e professor convidado na Universidade de São José, Diogo Lopes Teixeira foi considerado um dos melhores arquitectos europeus com menos de 40 anos nos “Europe 40 Under 40”. Em entrevista, chama a atenção para a importância do bambu e alerta para o excesso do ar condicionado

Qual o significado deste prémio para a sua carreira?

O prémio parte de candidatura feita em definição com os meus dois sócios. É, obviamente, importante, porque traz sempre motivação e confirma um bocadinho daquilo que estamos a tentar fazer com a nossa profissão, mais especificamente nós, como arquitectos mais ligados à área da sustentabilidade. O reconhecimento do trabalho que temos feito dá-nos motivação para continuar, para o fazer ainda melhor. É um privilégio ser reconhecido num grupo restrito de 40 arquitectos na Europa que têm feito um trabalho ligado à inovação e a alguns projectos de sustentabilidade. Mas nós damos aulas ou estamos ligados a algumas universidades, como a Universidade de São José (USJ) de Macau. Portanto, vestimos sempre a camisola em equipa, ainda que haja alguns momentos individuais.

Como tem corrido a experiência de docência na USJ?

Somos professores convidados. O primeiro contacto foi em 2024 através do professor Filipe Afonso, que é nosso colega e amigo. Tem sido uma boa experiência, e no meu caso acompanhei alunos no processo de desenhar e concorrer a um concurso que costumam fazer para desenhar um pavilhão em bambu, explorando [a utilização] de software e tecnologia. Foi um concurso aberto não apenas a pessoas de Macau, Hong Kong ou China, mas de todo o Sudeste Asiático, e o projecto ganhou.

Em termos de formação em arquitectura, os cursos são relativamente recentes. Como olha para o panorama do ensino de arquitectura no território?

A nossa experiência é muito recente, mas o que posso dizer é que, obviamente, é importante que os habitantes de Macau, que vivem a cidade todos os dias, consigam ter uma palavra sobre o seu desenvolvimento, seja num plano mais público, ao nível de infraestruturas e do urbanismo, mas também no desenho dos próprios edifícios e espaços interiores onde habitam. Nós, como escritório de arquitectura focado na sustentabilidade e no reconhecimento do local, achamos que a parte de identidade é muito importante. É preciso entender o local onde vivemos, e este tem muito a ver com o clima, os materiais disponíveis, os tipos de vida. Portanto, eles próprios são os melhores agentes da transformação da cidade. Existe uma série de talentos e arquitectos que podem ter uma palavra a dizer na transformação das cidades.

O seu trabalho foca-se na ideia da arquitectura sustentável. Como encara o uso do bambu, a sua preservação e papel em termos de sustentabilidade?

Quando comparamos com a Europa a maioria das estruturas e andaimes são feitos em bambu, e é algo que, para nós, não é concebível, porque estamos habituados às estruturas metálicas que ocupam a paisagem das cidades durante os anos em que os edifícios estão em construção. É uma pena que os andaimes em bambu não possam ser usados como uma estrutura permanente. Por exemplo, se tivermos de formular a imagem de um edifício, e se vai ser construído o andaime em bambu, porque não pensar numa forma em que este possa servir de base para, por exemplo, as varandas do edifício no futuro, ou como parte integrante da estrutura. Da nossa experiência, com o densificar das cidades e a necessidade de construir mais em altura, tecnologias e instrumentos como o bambu não são os mais apropriados, ou passam a ficar um bocado em desuso. Há também menos pessoas especializadas para o fazer. As universidades, e estes concursos, são importantes para sensibilizar as pessoas de que existe aqui um material que faz parte de uma cultura e que poderá ser introduzido, se calhar não em edifícios com grande altura e escala, mas noutros projectos.

É cada vez mais importante a arquitetura sustentável? Ainda estamos longe dos padrões ideais?

Sim, tendo em conta o objectivo que achamos que deveria existir num sector muito poluente. O sector da construção contribui cerca de 40 por cento para a emissão de gases e efeitos de estufa para atmosfera, e devia tentar olhar para aquilo que constrói uma pegada neutra, que deve ser dividida em dois parâmetros. Um deles é a energia, no sentido em que devemos pensar que os nossos edifícios são energicamente neutros e produzem energia suficiente para as necessidades em termos de manutenção, evitando-se gastos energéticos muito grandes. [Falo também] nas escolhas de sistemas de construção e materiais, que devem ser o mais neutros possível. Obviamente que o mercado não está 100 por cento preparado para isso, devendo existir legislação e apoios, ou incentivos fiscais.

Como estes apoios podiam ajudar, na prática?

No sentido em que novos materiais de base natural poderiam vir ao de cima e ser mais recorrentes no mercado. Isso ainda não acontece e há um caminho grande a fazer, porque é preciso perceber o que existe neste momento no nosso parque edificado. Há um comparativo engraçado entre a cidade de Lisboa, onde muitos edifícios não são dotados de isolamento ou de boas janelas e não têm sistemas de climatização, então há muitos ares condicionados espalhados no exterior do edifício. Esta imagem é ainda mais presente em Macau. É importante perceber que estes sistemas e as renovações que são feitas aos edifícios são prejudiciais também para o exterior.

Em que sentido?

Se colocarmos máquinas exteriores que não são bem dimensionadas ou bem feitas, ou se o projecto não for bem feito, estamos a aquecer ar exterior, ou seja, a retirar ar quente do interior das habitações e a colocá-lo no exterior. Estamos a aquecer as nossas cidades, e depois se precisamos de ir buscar ar fresco ao exterior, ele está mais quente do que deveria estar, além da poluição que já existe. Em Macau, e em muitas áreas da China, essa é uma imagem recorrente, vemos edifícios completamente cheios de máquinas de ar condicionado, e as temperaturas, bem como os níveis de humidade, são muito altos nestas localizações.

Desenvolveu dois projectos na China, um deles o “Park Greenhouse Garden”, em Xangai, e o “Taiyuan Botanical Garden”, onde decerto terá desenvolvido a ideia da arquitectura mais amiga do ambiente? Teve margem para explorar novas coisas nesta área?

Há princípios adoptados que são muito importantes e destaco dois. Houve a intenção de desenhar um edifício que fosse menos dependente de infra-estruturas exteriores e que pudesse produzir o máximo de energia possível. Portanto, é um edifício com muitos painéis solares e que consegue produzir muita energia para a sua manutenção. São projectos interessantes. Não é algo comum hoje em dia na Europa, mas são, praticamente, museus de plantas que criam atmosferas diferentes. Há um espaço dedicado a plantas suculentas, com um clima mais árido, tipo deserto, e temos um pavilhão com esse tipo de ecologia. Temos depois um pavilhão mais tropical, que já implica ter a vegetação do Sudeste Asiático, e aí conseguiu-se que o edifício fosse bastante neutro nesse aspecto. A outra questão é o facto de se situar numa zona onde foi a Expo de Xangai, muito central da cidade, mas desabitada, com muitos edifícios devolutos. Assim, este edifício [Park Greenhouse Garden] surge numa infra-estrutura existente que foi reaproveitada para introduzir um novo programa. Há esta ideia de circularidade, de aproveitar algo que estava lá, mas que não tinha função, para se adaptar e receber pessoas. Ao mesmo tempo, acompanhou-se a recriação de um parque urbano na zona. Estes dois fenómenos aproximam-se muito daquilo que gostamos de fazer, ou do que achamos que pode ser um projecto mais sustentável.

Arquitectura é mais do que construir para habitar, é preciso também ter sensibilidade para o fazer. Como define a sua profissão?

A arquitectura é o palco de muitas actividades humanas, sejam elas vividas no exterior, nas cidades. Neste aspecto, a arquitectura e o urbanismo andam de mãos dadas. Mas é também palco de muitos fenómenos importantes para a vida das outras pessoas. Portanto, a arquitectura está por todo o lado e acolhe outras dinâmicas e outras funções da vida humana com o desenho dos espaços, sejam eles museológicos, parques, zonas de conforto das pessoas com a introdução de vegetação, onde estas se sintam confortáveis, ou mesmo os próprios edifícios de habitação. Para nós, é importante sentir que temos responsabilidade de desenhar algo para as pessoas utilizarem, onde se possam sentir confortáveis, apelando ao seu bem-estar e conforto quando usam os espaços. Ao mesmo tempo, podermos também balancear isto com o conforto do nosso planeta e com os recursos limitados.

Foi fácil projectar na China? Ou foi desafiante lidar com esse mercado?

O projecto de Xangai fez parte de uma prática profissional anterior minha, quando estava num escritório de arquitectura na Áustria. Existe uma barreira cultural que é preciso compreender e também de comunicação.

Para o prémio “Europe 40 Under 40” concorreu com três projectos, o “Eco Retreat Yuma”, em Setúbal; o “Dome Next Door”, na Letónia; e “Historical Palace Office”, no Porto. Que ligações têm entre si?

São três projectos muito diferentes e que contam histórias diferentes, mas com um propósito comum. O projecto na Letónia é feito em parceria com outras pessoas que são muito próximas. A possibilidade de projectar num território que é património da UNESCO, como é Praça da Catedral de Riga, é muito interessante, porque nos permitiu utilizar materiais locais e ter uma estrutura em madeira, um material mais sustentável. [O projecto foi pensado para] ser palco de actividades que trouxesse de novo as pessoas para o centro da cidade. O centro histórico de Riga é muito bonito, mas pouco habitado pelos habitantes da cidade, sendo muito mais turístico. Criar este parque recreativo, onde as pessoas se possam encontrar, usufruir dele e ter momentos de encontro na sua própria cidade é muito importante. Tentámos recriar muito da arquitectura e património existentes através das formas geométricas dos arcos e com materiais locais. No Porto fizemos a reabilitação de um edifício, e as reabilitações enquadram-se bem na nossa filosofia. Houve um cuidado muito grande para tentar preservar e recuperar parte dos materiais existentes e dar nova vida a um edifício que estava sem função, e que tem também a integração com uma zona verde, introduzindo meios de biodiversidade. Utilizámos materiais locais e com uma baixa pegada [ecológica], como a ardósia, o que se alinha muito com os nossos pressupostos. Depois, o projecto em Setúbal é de turismo ecológico, feito num lugar muito específico e bonito. Houve bastante cuidado na maneira como intervimos no local, tentando ter o mínimo de impacto, com uma construção feita em fábrica, que chegou ao local e que foi pousada. Foi também planeada através de uma leitura muito presente do ambiente e do clima. A forma como se constrói nesta área, podendo-se construir num ambiente em que se respeita a paisagem natural existente, é quase como se o edifício desaparecesse no meio da paisagem.

22 Mai 2026

Teatro | Dóci Papiaçám di Macau apresenta sátira sobre negócios em crise

“Agora Como? (E Agora?)” é o nome da peça que os Dóci Papiaçám di Macau apresentam este fim-de-semana no Centro Cultural de Macau. Como faz parte da identidade da companhia, o espectáculo lança um olhar crítico à situação difícil do pequeno comércio local, com muito humor à mistura

“Esperança servida numa cidade em mudança.” É assim, numa espécie de mote, que começa a sinopse do novo espectáculo em patuá do grupo teatral Dóci Papiaçám di Macau apresentado este fim-de-semana, sábado e domingo, no grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), integrado no cartaz do Festival de Artes de Macau (FAM). As sessões estão marcadas para sábado, às 20h, e domingo, às 15h.

A peça, da autoria de Miguel de Senna Fernandes, centra-se nas vidas de Marta e Elena, filhas “do velho Secundino”, que ficam com o restaurante do pai depois da sua morte. É então que Marta e Elena se deparam com uma economia ainda a recuperar da pandemia, mas já com números bem mais animadores dos que foram registados no pico da crise. Há turistas, mas estes não passam sempre nos bairros residenciais. Entretanto, os casinos-satélite fecharam e levaram com eles muitos dos consumidores dos pequenos negócios da cidade.

Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência. Ao HM, Miguel de Senna Fernandes explica que “Agora Como? (E Agora?)” não é apenas “sobre os casinos-satélite, pois são apenas uma parte da situação actual” da economia.

“Não há dúvidas de que Macau está a recuperar em termos económicos, e fala-se muito de recordes, a indústria do jogo está a recuperar lentamente em relação a antes da pandemia e também quanto ao número de turistas em Macau, que não para de crescer. Estes dois números representam muito dinheiro para Macau, e como cidadão de Macau só me posso congratular com isto, naturalmente. Mas o grande capital e os turistas vão para as zonas turísticas, e o resto? Esta é a questão.”

A peça alerta também para o crescente cenário de afastamento do consumo das lojas e restaurantes locais para o Interior da China, para onde passou a ser mais fácil viajar. Há, portanto, “a abertura dos cidadãos de Macau ao continente onde abundam sítios para consumo de qualidade”, destacou o advogado e dramaturgo. “É inevitável que haja um aumento da qualidade dos serviços e produtos [na China], com um preço muito mais baixo do que em Macau. Não há nada a fazer, e depois as rendas continuam nos mesmos valores, as condições continuam a ser as mesmas”, alertou.

“Tudo isto gera situações de alguma contradição, e se, por um lado, sou um cidadão que vê com bons olhos o facto de Macau estar a recuperar economicamente, também vejo o poder de consumo diminuído face à concorrência que vem do outro lado da fronteira”, disse ainda Miguel de Senna Fernandes.

Uma história simples

Os espectadores que acorrerem ao CCM este fim-de-semana vão poder assistir a “uma história simples”, de duas filhas que regressam a Macau vindas da Europa, de Lisboa e Madrid, e que se deparam com um “restaurante à deriva”. “Uma das filhas quer vender já, porque face a esta situação é melhor vender, sem alimentar mais algum sonho; mas a outra quer manter o espírito com que foi criado o estabelecimento, que tem muitas memórias, defendendo que o tempo não pode apagar-se assim. Este ‘giga-joga’ em torno da ideia de vender ou não é a trama de toda esta peça”, contou.

Como não podia deixar de ser, há muitas “situações hilariantes”, conforme os Dóci Papiaçám di Macau já nos habituaram. A narrativa é pontuada por “coisas do dia-a-dia, com muito absurdo”, já que se trata de uma “comédia situacional”, em que se “brinca” com “situações absurdas que às vezes encontramos e não conseguimos controlar”.

Linhas do horizonte

Há muito que o FAM é o palco principal para o trabalho desenvolvido pelos Dóci Papiaçám di Macau na preservação do patuá, e Miguel de Senna Fernandes acredita que o interesse, do público e das autoridades, não esmoreceu. “Continua a haver uma apetência pelo teatro em patuá, que todos sabem ser um teatro satírico. É, provavelmente, o único teatro de sátira social em Macau, que é bem-sucedido e que marca sempre o Festival de Artes, com todo o respeito pelos outros grupos.”

Miguel de Senna Fernandes refere que, quanto aos conteúdos, “há linhas vermelhas”, mas que nunca sentiu “que haja algum controlo” relativamente ao que pode ser escrito, dito ou interpretado em palco.

“Eu, pelo menos, nunca senti que haja algum controlo, uma espécie de censura, em que não se pode dizer isto ou aquilo. Mas, por outro lado, sei quais são as linhas vermelhas, sei que elas existem. E dentro destas linhas vamos brincando. Posso estar errado, mas penso que temos conseguido sempre a confiança do Governo para que isto não resvale para sítios indesejados.”

Porém, tudo depende do futuro e de possíveis novas linhas. “Claro que isto vai evoluir mais tarde, mas não sabemos o que vai acontecer daqui a uns anos. Depende muito de qual é a orientação do Governo Central a respeito de Macau, e quais as manifestações culturais que passam a ser permitidas. É tudo meio incógnito e, face a isto, não sei como responder, mas vamos fazendo, ano após ano, aquilo que sabemos fazer”, rematou.

O que é certo é que, actualmente, “o Instituto Cultural continua a acarinhar o teatro em patuá, que é património cultural intangível”. Este fim-de-semana estarão em palco 20 actores, três deles crianças. A grande maioria são veteranos, que asseguram os papéis principais.

21 Mai 2026

Concertos | Nick Lei pede clarificação de regras de segurança

Depois da confusão no Cotai durante o festival “K-Spark”, Nick Lei interpelou o Governo sobre a necessidade de clarificar regras de segurança no Local de Espectáculos ao Ar Livre. Além disso, defende que a futura concessão do espaço não deve olhar apenas para o lucro

O deputado Nick Lei defende a necessidade de clarificar as regras de segurança no Local de Espectáculos ao Ar Livre, tendo em conta o recente episódio de desacatos entre fãs ocorrido no “K-Spark”, festival de música pop sul-coreana (K-Pop), no início deste mês.

Recorde-se que o facto de o evento ter lugares sentados com cadeiras desdobráveis fez com que dezenas de pessoas tenham deslocado as cadeiras mais para a frente do palco, o que gerou alguns desacatos.

Na interpelação escrita, o deputado referiu algumas opiniões divulgadas nas redes sociais sobre o facto de o espectáculo revelar regras insuficientes de segurança, bem como a falta de controlo da multidão.

“Podem as autoridades elaborar regras claras sobre a utilização do espaço, bem como orientações para o comportamento dos espectadores, melhorar a gestão de segurança e a ordem”, questionou. Nick Lei pediu ainda a criação de um “mecanismo de mediação para [o registo] de bilhetes e normas para o reembolso dos bilhetes” que sejam adquiridos em diferentes regiões vizinhas, a fim de “assegurar que as actividades se realizam de forma segura e ordenada”.

Nick Lei, ligado à comunidade de Fujian, recordou que as autoridades do Interior da China possuem já regras para a realização de espectáculos de grande dimensão, como os princípios de “organizador responsável de evento com supervisão do Governo”, ou “prioridade à segurança e prevenção acima de tudo”.

Porém, e ainda que exista em Macau um regulamento para a utilização do Local de Espectáculos ao Ar Livre, Nick Lei considera que o documento não é claro quanto a regras de segurança.

Para o deputado, deve ser criado um sistema “segundo o número de participantes, fazendo-se a diferenciação, em matéria de segurança, para actividades de escala diferente”, sem esquecer a implementação de diferentes “procedimentos de apreciação e aprovação, e respostas de emergência”.

O deputado pede ainda que seja integrada a “participação de entidades profissionais na avaliação de segurança”, sendo importante a elaboração de “normas regulamentares vinculativas para garantir o sucesso da realização dos espectáculos no futuro”.

O Local de Espectáculos ao Ar Livre fica no cruzamento da Avenida do Aeroporto com a Rua de Ténis, no Cotai, entre o Grand Lisboa Palace e o Hotel Lisboeta, com uma área 94 mil metros quadrados e capacidade para mais de 50 mil pessoas. O Instituto Cultural definiu mapas que incluem a “Zona de Espectadores”, “Zona Tampão para Evacuação”, “Zona do Palco e dos Batidores” e “Zona de Espera (controlo de segurança)”.

Olhar além dos lucros

Nick Lei defende também que a filosofia quanto à futura concessão do Local de Espectáculos ao Ar Livre não deve ser puramente comercial, mas incorporar obrigações públicas além de olhar a critérios como a obtenção de lucros e o valor comercial da zona, a fim de garantir apoios à comunidade. Tais necessidades devem ficar claras no contrato de concessão, referiu.

“Pode o Governo especificar no futuro contrato os indicadores concretos, nomeadamente um número mínimo de espectáculos para fins de caridade, a cobrança mais baixa em horários específicos e a obrigatoriedade de abrir o local à comunidade em períodos em que não se realizam espectáculos”, lê-se na interpelação.

21 Mai 2026

“The Impossible Truth” apresentado na Livraria Portuguesa

É apresentado esta sexta-feira, na Livraria Portuguesa, um dos mais recentes projectos artísticos e editoriais de João Miguel Barros, advogado e fotógrafo. “The Impossible Truth” é “um livro inesperado e controverso”, que visa a celebração do 30.º aniversário “de uma das mais importantes performances artísticas da arte contemporânea chinesa”, intitulada “To Add One Meter to an Anonymous Mountain”.

Este livro nasce de uma exposição sobre esta performance que já aconteceu na galeria fundada por João Miguel Barros em Lisboa, a Ochre Space. A sessão de lançamento de “The Impossible Truth” decorre esta sexta-feira a partir das 18h, contando com moderação da curadora Margarida Saraiva.

Performance singular

“To Add One Meter to an Anonymous Mountain” foi uma performance realizada por um grupo de dez artistas chineses em Maio de 1995, nos arredores de Pequim, consistindo num “gesto radical de empilhar corpos nus para alterar a paisagem”, algo que se transformou “num símbolo da vanguarda chinesa e um marco na arte performativa”, descreve a galeria Ochre Space no seu website.

Em declarações recentes ao HM sobre esta obra, João Miguel Barros considerou estarmos perante um livro “importante no contexto da temática que aborda”, por se tratar de uma “famosa performance” sobre “o percurso de vários artistas que a fizeram durante a quase totalidade da década de 1990”.

“Considero que o livro é importante porque reúne um conjunto alargado de depoimento de artistas, curadores e professores que abordam a arte chinesa daquela época, e está muito documentado com elementos recolhidos nos Arquivos da Bienal de Veneza que documentam as grandes tensões existentes entre os artistas durante o período que antecedeu e culminou com a realização da Bienal de Veneza de 1999”, descreveu ainda.

O autor adiantou que “The Impossible Truth” tem tido “grande impacto em certos meios artísticos na China”, tratando-se de uma obra bilingue, em chinês e inglês. Destaca-se que a apresentação em Macau surge depois do lançamento do livro na Photo Shanghai, entre os dias 7 e 10 de Maio.

20 Mai 2026

Livro | “Quem rasgou os meus lençóis de linho” com apresentações até fim do mês

Depois da apresentação no festival Rota das Letras, Dora Gago, docente e escritora, continua a falar do seu mais recente romance, “Quem rasgou os meus lençóis de linho”, que foi buscar o nome à escrita de Camilo Pessanha e cuja história se passa em Macau. Até ao final do mês haverá diversas sessões de apresentação desta obra em Portugal

Créditos: Festival Rota das Letras

Na escrita simbolista de Camilo Pessanha surge o verso “Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho”, a que a autora e docente Dora Nunes Gago foi buscar inspiração para dar nome ao seu mais recente romance, editado pela Poets and Dragons Society, em Portugal.

A obra, recentemente apresentada no festival literário Rota das Letras, é da autoria da antiga docente de português da Universidade de Macau, que mantém uma estreita relação com o território. “Quem rasgou os meus lençóis de linho” continua num leque de apresentações que se estendem ao longo deste mês de Maio, em Portugal, nomeadamente dia 29 na Biblioteca Municipal Estanco Louro em São Brás de Alportel, terra natal da autora; e também no dia seguinte, com uma sessão no I Festival Literário Internacional Afro-Ibero-Americano, em Almada. Já no dia 31 deste mês, é a vez de a obra ser apresentada na Feira do Livro de Lisboa.

A Poets and Dragons Society destaca como esta obra “não se organiza em torno de uma história, mas de uma experiência”, nomeadamente “a de uma consciência que se fragmenta, se recompõe e volta a ceder, num movimento contínuo entre lucidez e delírio”.

Desta forma, “o livro instala-se, desde o início, nesse território instável onde a memória não é apenas um arquivo, mas uma força activa, em que o passado regressa não como uma personagem e uma mera recordação”.

Não é só a presença de Camilo Pessanha que se denota na obra, mas da própria Macau, instalando-se no romance “uma atmosfera de deslocação”, lê-se na nota da editora.

“A protagonista regressa a Macau não como quem volta a casa, mas como quem atravessa um limiar. Esse regresso, marcado pela precariedade e pelo cansaço de uma vida falhada em múltiplas frentes, não é uma recuperação do passado, mas antes a sua reabertura. Como se o tempo não fosse linear, mas um campo de forças onde tudo regressa, deformado, insistente, impossível de encerrar.”

Vivências cruzadas

Há três figuras femininas centrais em “Quem rasgou os meus lençóis de linho”, de nomes Ana, Jenny e Kate, que vagueiam por entre um “espaço simultaneamente geográfico e psíquico”.

A história centra-se no regresso de Ana a Macau, depois de uma vida “atravessada pela perda, doença mental e toxicodependência”. No território a Oriente Ana busca alguma tranquilidade, cruzando-se depois com Jenny, trabalhadora filipina, e Kate, uma jornalista americana que também regressa a Macau por um motivo bastante pessoal: o de “resgatar uma paixão obsessiva”.

Segundo a editora, estas três mulheres, “mais do que personagens autónomas, funcionam como variações de uma mesma condição”, verificando-se cenários psicológicos de “consciência ferida” ou a “pulsão obsessiva, a recusa do tempo e a perda” de Kate, por exemplo. Há aqui “um tríptico que actua numa tensão permanente” criado por Dora Nunes Gago.

Para a editora, este é “um romance exigente e por vezes desconfortável, mas também profundamente necessário”, ou ainda um livro “que recusa a facilidade e aposta numa forma de verdade que só a literatura, na sua dimensão mais arriscada, pode alcançar”.

Dora Nunes Gago editou ainda recentemente, juntamente com Anabela Freitas, o livro “Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra”, com a chancela de Letras Lavadas, que faz a análise da obra do magistrado natural dos Açores que passou por Macau e que também se dedicou às letras, editando todos os seus romances com a Livros do Oriente.

“Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra” será apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) no próximo dia 23 de Maio. A sessão, que começa às 15h, conta com apresentação de Ana Paula Laborinho.

20 Mai 2026

“Autocarros de lazer” | Deputados defendem medida permanente

Os deputados Angela Leong e Ma Chi Seng defendem que a recente medida do Governo dos “Autocarros de Lazer” deveria ser permanente.

Numa intervenção antes da ordem do dia, os deputados defendem que o Governo “pode aperfeiçoar o plano à medida que houver resultados e com base nas experiências de funcionamento”, além de “considerar romper com as limitações ‘sazonais e de fim-de-semana’, no sentido de promover o funcionamento regular e com base temática”.

Angela Leong e Ma Chi Seng defendem ainda a ideia de “transformar os autocarros de ‘lazer’ de curta duração em ‘locomotivas’ para impulsionar, a longo prazo, a economia”, explorando “itinerários peculiares com base nas histórias de Macau”, aproveitando o “teor cultural dos templos, promover o Festival do Dragão Embriagado, as crenças e costumes da Deusa A-Má e de de Na Tcha, entre outros grandes eventos culturais”.

Museus | Lam Fat Iam pede “planeamento estratégico”

O deputado Lam Fat Iam defendeu ontem, no hemiciclo, que faz falta ao território “um planeamento mais estratégico” no que diz respeito a espaços museológicos e culturais. No entender do deputado, “Macau não carece de museus nem de actividades”, mas sim de uma “estratégia de desenvolvimento mais abrangente e de uma implementação institucional mais eficaz”.

Lam Fat Iam pede que se passe de um “desenvolvimento centrado em museus individuais para a construção de um sistema diversificado”, com mais exposições que tenham um cariz internacional.

“Macau é pequena, mas os seus recursos culturais não são poucos, pois abrangem temáticas diversas como a navegação, comunicações, bombeiros, religião, literatura, as artes, a educação, a beneficência, a guerra contra a agressão, a medicina, a ciência e a tecnologia. Se for possível integrar estes recursos, os mesmos vão poder sustentar uma melhoria qualitativa dos museus locais e ser um importante suporte para promover a construção de uma ‘Macau cultural'”, considerou.

20 Mai 2026

IA | Leong Pou U pede orientações e diálogo com trabalhadores

O deputado Leong Pou U recorreu ao período de intervenções antes da ordem do dia no hemiciclo para sugerir maior diálogo entre Governo, associações e trabalhadores como reacção à chegada da inteligência artificial (IA) ao mercado de trabalho.

“Sugiro ao Governo que se articule estreitamente com o 15º Plano Quinquenal do país e que, no âmbito do 3º Plano Quinquenal da RAEM, e tendo em conta a realidade de Macau, estude e defina orientações para a aplicação da IA em Macau.”

A ideia, segundo o deputado, é que possam ser “aperfeiçoados os respectivos diplomas legais, assegurando que a tecnologia IA possa ser aplicada e desenvolvida de forma saudável e ordenada” no território. Leong Pou U acredita que, no futuro, o “núcleo’ do trabalho civil vai passar da ‘execução repetitiva das tarefas’ para o ‘controlo da IA'”, com aqueles que criam conteúdo a passarem a ser “supervisores e analistas” do que a IA vai produzir.

Assim, o deputado defende que “Governo, empresas e associações de trabalhadores reforcem o diálogo social”, promovendo “formação sobre a aplicação da IA, nomeadamente para os sectores que podem ter mais riscos no uso de aplicações de IA, por forma a apoiar os trabalhadores a adaptarem-se às mudanças da nova era”.

20 Mai 2026

Saúde | Wong Kit Cheng pede estudo sobre recursos humanos

A deputada Wong Kit Cheng defende que o Governo deve elaborar “um estudo sobre o planeamento dos recursos humanos na área da saúde”, criando um “mecanismo de avaliação periódica das necessidades de pessoal de enfermagem em diferentes áreas profissionais, especialidades médicas e serviços de saúde comunitária”.

Para Wong Kit Cheng, continuam a faltar enfermeiros em Macau, devendo ser estabelecida “uma meta progressiva para a proporção de enfermeiros por mil habitantes nos próximos cinco anos”.

Desta forma, “estudantes de enfermagem e futuros diplomados podem preparar-se atempadamente para o seu percurso profissional”, enquanto “instituições de ensino superior e sector podem colaborar e aperfeiçoar os currículos e programas de formação especializada”.

Wong Kit Cheng pede ainda que seja feita uma “ponderação” sobre “currículos universitários e a organização dos estágios clínicos, evitando a sobreposição entre o estágio durante o período de estudos e o requisito de seis meses de estágio após a graduação”.

20 Mai 2026

Deputados exigem elevação da eficiência da Função Pública

O mais recente relatório de actividades do Comissariado de Auditoria (CA), que dá conta de má distribuição de trabalho e recursos humanos na Administração, levou ontem alguns deputados a pedirem maior eficiência no período de intervenções antes da ordem do dia.

Chan Hao Weng pediu às autoridades para “encararem as situações caóticas na gestão da Administração Pública e as dificuldades de trabalho dos docentes da linha da frente”.

O deputado entende que se deve “simplificar e eliminar os procedimentos desnecessários de autorização, para elevar a eficiência e facilitar a vida aos cidadãos”, ou ainda “optimizar o mecanismo de avaliação do desempenho do pessoal de chefia”.

Para Chan Hao Weng, “o mecanismo de avaliação do pessoal de direcção e chefia não passa de mera formalidade”, sendo “superficial, ignorando a eficácia e reputação junto dos cidadãos”. Existe, no seu entender, “falta de responsabilização” entre funcionários públicos, acabando por se “pressionar o pessoal da linha da frente e os problemas nunca são resolvidos”. O deputado entende que se devem “efectuar alterações a partir do nível superior, não se devendo criticar o pessoal da linha da frente”, chamando a atenção para o excesso de burocracia com que os docentes têm de lidar.

“Quanto às dificuldades dos funcionários públicos e professores, o problema não está na linha da frente, mas sim na gestão do superior: falta de rigor, acção e responsabilização. Peço ao Governo que ouça as vozes de todos, afira responsabilidades das chefias, corrija falhas, simplifique o fluxograma, alivie a carga da linha da frente e melhore a qualidade dos serviços públicos e da educação em Macau”, disse.

Docentes burocratas

Também o deputado Nick Lei chamou a atenção para os problemas analisados pelo CA, alertando para o facto de “os dirigentes dos serviços terem a responsabilidade indeclinável de acompanhar e resolver seriamente o problema, por forma a evitar a repetição dos mesmos erros”.

Nick Lei considera que devem ser divulgados “os resultados da correcção” dos problemas, “com vista a elevar a transparência da acção governativa”.

O deputado referiu uma das questões apontadas pelo CA, no que diz respeito “ao lançamento de novos projectos e serviços públicos”. Chama-se a atenção para o facto de o Executivo dever “adoptar novas soluções técnicas” que satisfaçam “requisitos básicos como a necessidade, viabilidade e a relação custo-benefício”, olhando ainda “os benefícios gerais da sociedade”.

Desta forma, Nick Lei entende que “há falta de razoabilidade e rigor na implementação dos trabalhos por parte dos serviços públicos, o que contraria o princípio da governação científica”.

20 Mai 2026

Nova lei possibilita criação de hospitais de dia para turistas

Os deputados aprovaram ontem, na especialidade, a proposta de lei relativa à “actividade das instituições privadas prestadoras de cuidados de saúde” que vem regular, entre outras matérias, a criação de hospitais de dia no território.

Vários deputados questionaram de que forma isso se pode coadunar com o sector do turismo e também com os serviços médicos já disponibilizados, tanto a nível público como privado. Ip Sio Kai disse que esta matéria diz respeito a “competências que não têm só a ver com os Serviços de Saúde”, destacando a necessidade de investimento para criar mais hospitais de dia em Macau.

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, declarou que “atrair investimento é um trabalho entre serviços” públicos, sendo que a proposta de lei ontem votada “permite a criação de hospitais de dia, existindo legislação suficiente e adequada”. “Temos recursos em termos de resorts, vantagens e atractivos para o exterior, e em conjugação com esses elementos conseguimos ter um destino adequado para esses tratamentos”, frisou.

Por sua vez, o deputado Leong Sun Iok argumentou que “Macau é uma cidade turística com vantagens geográficas” e questionou “como vai o Governo potenciar estas vantagens em conjugação com os recursos de turismo, a fim de criar um ambiente favorável para esta indústria”.

Já Song Pek Kei disse que os responsáveis do sector da saúde “estão preocupados quanto ao desenvolvimento do mercado privado”. A deputada entende que há “um desequilíbrio, porque muitas pessoas utilizam o hospital público [Centro Hospitalar Conde de São Januário] e o seu funcionamento enfrenta desafios, causando um conflito entre o sector público e privado”. “Há serviços especializados que podem ser realizados nos hospitais de dia e a população preocupa-se com a concorrência desleal”, disse.

Resultados a caminho

O Lam declarou que não existem motivos para preocupações, porque haverá “mecanismos estendidos aos hospitais de dia”, incluindo serviços de “telemedicina, terapias avançadas e serviços médicos de proximidade”. “Foi alargada a capacidade para dar mais prioridade ao sector”, adiantou a secretária. “Há uma complementaridade entre os dois sectores. No ano passado, fizemos um estudo sobre a complementaridade entre hospitais público e privado e vamos divulgar os resultados à sociedade e ao sector em causa. No hospital Macau Union, enquanto complexo hospitalar público, a meta é elevar os serviços médicos e curar doenças, e o hospital de dia é para ter determinadas especialidades”, explicou.

Relativamente à criação de Macau como destino de turismo de saúde, O Lam adiantou que “temos as nossas vantagens, e com a criação de hospitais de dia, também com o Macau Union, conseguimos ter uma maior plataforma para o sector”. “Entre o Macau Union e os hospitais de dia pode haver uma cooperação e vantagens para os dois”, disse, referindo que o Governo “aproveita da melhor forma as vantagens para incentivar o turismo e medicina, tendo a plataforma com os países lusófonos e da Ásia-Pacífico”, rematou.

20 Mai 2026

Tecnologia | Chui Sai Peng defende criação local de “robô polícia”

Chui Sai Peng acha que as forças policiais devem apostar mais nas novas tecnologias, sobretudo inteligência artificial, para criar um “robô polícia” com “características de Macau”. Enquanto isso, Leong Sun Iok alerta para os perigos da introdução de croupiers-robôs nos casinos

A ideia de criar em Macau um “robô polícia”, numa fusão entre as forças de segurança e as novas tecnologias, foi uma ideia defendida pelo deputado José Chui Sai Peng na sessão plenária de ontem da Assembleia Legislativa (AL), no período de intervenções antes da ordem do dia. “Tendo como referência as experiências positivas dos primeiros anos [de existência] da ‘mascote do trânsito’, que aconselhava os peões a atravessar legalmente as ruas, se for possível integrar mais tecnologia da Inteligência artificial e criar um ‘robô̂ polícia’ com características de Macau, tal elevará a eficácia da governação”, defendeu.

Mais concretamente, Chui Sai Peng citou o exemplo de cidades do Interior da China no uso da IA para “policiamento inteligente”, com recurso a “robôs-polícias de trânsito” no controlo do tráfego, na manutenção da ordem e no apoio turístico.

Chui Sai Peng entende que “Macau precisa de aprofundar a aplicação de cenários de inteligência artificial e tecnologia robótica, especialmente ao nível dos serviços públicos e gestão urbana”. Assim, para criar o “robô polícia”, poderiam ser convidados, pelas autoridades, “designers locais e operadores das indústrias culturais e criativas para participar no design de um ‘robô polícia’ com características próprias de Macau”.

Podem ainda, no entender do deputado, ser utilizadas “forças policiais inteligentes”, a fim de Macau poder integrar “o desenvolvimento nacional” e adoptar os exemplos de utilização de tecnologia que se verificam no interior da China.

Chui Sai Peng pede que sejam introduzidos “recursos financeiros para apoiar a investigação e desenvolvimento tecnológico”, em prol da “transformação de resultados e promoção de um ecossistema com orientação política e a participação da indústria”, em que haja “suporte académico e científico e ainda aplicação prática [de estudos e medidas]”.

Cartas na mesa

A recente realização em Macau da G2E Asia, uma das mais importantes feiras do sector do jogo, e o debate em torno do uso da IA e tecnologia nesta área, levou o deputado Leong Sun Iok a alertar, na AL, para os perigos do futuro uso de robôs nos casinos.

“Compreende-se que o desenvolvimento da IA é uma tendência geral que pode melhorar a vida humana e promover o desenvolvimento económico e social”, tendo também “desafios negativos”, como a necessidade de “reestruturação da estrutura da mão-de-obra, [questões de] ética social, a privacidade e a segurança, entre outros problemas estruturais de longo alcance”, alertou.

Leong Sun Iok citou dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos para indicam que até 2025 existiam em Macau cerca de 24 mil croupiers. Desta forma, a possibilidade de introdução de robôs para estas funções “vai afectar dezenas de milhares de famílias”. “É de salientar que, há vários anos, o sector promoveu a introdução de ‘croupiers robôs’, o que suscitou reacções dos trabalhadores, que manifestaram junto das associações sindicais a sua ‘preocupação’ e ‘oposição’, tendo o Governo respondido atempadamente a essa questão, dando confiança aos funcionários”, destacou.

Leong Sun Iok pede que o Executivo “continue a ter como objectivo a estabilidade social e a garantia da qualidade de vida da população, e encare seriamente os impactos estruturais provocados pela tecnologia”, devendo “manter restrições” à introdução de “‘croupiers-robôs’ pelas concessionarias do jogo, para garantir que estas funções são assumidas por trabalhadores locais, assegurando efectivamente o direito dos trabalhadores locais ao emprego no sector do jogo”.

20 Mai 2026

Tonan Quito, actor e protagonista de “Entrelinhas”: “Bem-dita a hora em que aceitei este desafio”

O Centro Cultural de Macau, apresenta hoje a primeira sessão de “Entrelinhas”, na edição deste ano do Festival de Artes de Macau (FAM). Trata-se de um monólogo escrito por Tiago Rodrigues de propósito para Tónan Quito, que em entrevista ao HM fala de um texto que é muito mais sobre a amizade do que propriamente sobre o processo da escrita

Vem a Macau com o “Entrelinhas”. Como se sente por apresentar esta peça num destino tão longínquo [em relação a Portugal, onde estreou em 2013]?

É uma grande honra ir ao festival e sinto-me perplexo com o convite, estou muito contente por ir. Há dois anos tive a experiência de ir ao festival de teatro de Aranya, no norte da China, e agora estou também muito curioso por estar perto de uma cultura diferente e perceber como é que o espectáculo pode ecoar junto a pessoas com uma cultura e maneira de estar completamente diferente da minha, ou no local onde o espectáculo foi criado, que é Portugal. Apesar de Macau ter uma influência histórica portuguesa, e neste sentido estou ainda mais curioso para saber como é que o público irá ver este espectáculo.

O público é sempre importante para todas as peças de teatro, mas nesta em particular, tratando-se de um monólogo, é importante perceber a relação com este texto, em particular?

Sim. Este é um espectáculo muito próximo do público, mesmo a nível físico. Estou mesmo em frente às pessoas, só a contar uma história, que é a história deste grande falhanço que foi fazer o que era suposto ser um espectáculo. E, neste sentido, [é um espectáculo] que pede uma grande proximidade e cumplicidade com as pessoas. Normalmente faço uma versão francesa para um público francês, mas eu compreendo a língua e as reacções, há um legado comum. Mas quando vamos assim, para fora, em que falo na minha língua, e certamente alguém poderá entender o português, mas muita gente não vai aceder ao português e terá de ler legendas, há outra dificuldade, que é eu comunicar esta história. É eu a comunicar-me a mim, como actor ali, naquela noite, numa maneira de estar diferente, que vai pedir empatia, uma escuta, a atenção das pessoas para aquilo que estou a fazer.

O que é que este espectáculo conta nas entrelinhas?

Nas “Entrelinhas” está uma história que, cada vez mais, vou percebendo é muito mais sobre amizade do que o espectáculo de um autor que tem de escrever para um actor. Acho que é uma história que fala muito mais sobre a nossa amizade [entre Tiago Rodrigues e Tónan Quito], sobre a amizade entre duas pessoas que se descobrem nos trabalhos que vão tendo, nos encontros que vamos ter, nos encontros com a família. Portanto, invocamos uma quantidade de gente para esta história, e o espectáculo acaba por ser uma maneira de eu e o Tiago estarmos juntos, mesmo não estando. Nas entrelinhas está isto.

Não é, portanto, um espectáculo focado no tal falhanço da escrita.

Não, mas isso é uma coisa que ando a descobrir, e que nós dois fomos descobrindo à medida que vamos fazendo o espectáculo. Em 2013, isso estava nas entrelinhas, nós é que ainda não tínhamos percebido que estava lá.

O texto foi escrito para si. Como foi o processo de preparação? Além disso, já passou algum tempo entre os tempos iniciais e esta apresentação agora no festival. Há um certo distanciamento, outro olhar sobre a peça?

Não. Continuo a descobrir ainda muito sobre aquilo que a peça é, e como é que faço isto. Isto porque tive mais ou menos um mês no processo de trabalho antes da peça começar, entre a escrita do texto, ensaiar e decorá-lo. Tudo foi feito num curto espaço de tempo. Na estreia não tive muita noção do que o texto era, até porque a minha filha nasceu três dias antes e a minha cabeça estava muito mais com ela do que com o texto. Mas acaba por ser engraçado, porque hoje em dia fazer este texto é reviver aquele dia e uma maneira de estar com ela, sem estar. Mas continuo a descobrir coisas no texto. Naquela altura [2013] fiz dez espectáculos, e no ano seguinte fiz mais dez, e desde 2021 que tenho feito cerca de dez espectáculos por ano, talvez mais [com o “Entrelinhas”], e vou sempre disponível para descobrir o texto outra vez. É sempre um trabalho muito activo, o descobrir o texto com as pessoas a quem o estou a contar, além de que a própria reacção das pessoas condiciona, às vezes, a maneira como o conto.

Este foi o seu primeiro monólogo. Como foi essa experiência de estar sozinho, em palco, pela primeira vez?

Já tinha feito um monólogo antes, mas era falso, porque tinha um manequim com quem falava, ele é que não respondia (risos). Era uma coisa pequena, com 15 minutos. Confesso que a sensação inicial não foi muito boa, confesso. Fazer monólogos não é uma coisa que me atraia muito, mas na altura o Tiago convenceu-me a fazê-lo e partimos. Mas depois, à medida que fui fazendo, percebi que é um falso monólogo, pois estou com as pessoas a contar isto, e já não estou sozinho. Depois vou utilizando muitas pessoas para serem os meus recompositores, na medida em que os uso como personagens do texto. Então, de certa maneira, é um monólogo cheio de personagens e de um mundo que invocamos para o palco. Percebo que não estou sozinho e torno-me um bocadinho mais suportável.

Porque é que não gosta tanto de fazer monólogos? Há um medo acrescido? Sente-se sozinho em palco?

É, gosto de estar com pessoas e colegas, gosto de ser provocado e responder às provocações. Gosto de contracenar, da acção, da reacção, da pergunta, da resposta, e de construir colectivamente um trabalho, um espectáculo. Claro que o espectáculo é feito lado a lado com o teatro, sempre, desde o primeiro momento. [O Entrelinhas] é uma co-criação, apesar de ter sido ele [Tiago Rodrigues] a escrever e depois eu a interpretar, mas foi sempre criado a dois. Portanto não estou bem sozinho.

Como é ter o Tiago Rodrigues, um encenador e dramaturgo premiado, a escrever para si?

Tenho muita inveja dele (risos). Estou a brincar, acho óptimo, e desejo-lhe sempre todas as felicidades, e é muito bom poder partilhar com ele este percurso. Ele influenciou muito a minha maneira de trabalhar, não só como actor, mas a ensinar também. Foi sempre uma partilha. Claro que o facto de estar a viajar com o “Entrelinhas” é muito à custa da pessoa que é o Tiago, que, de repente, é um nome apelativo, com um tipo de trabalho que interessa. Em boa hora o Tiago meteu na cabeça que queria escrever um monólogo para mim, e bem-dita a hora em que aceitei este desafio.

Ele tem mesmo este lado caótico da escrita, de deixar tudo para a última da hora?

Um bocadinho. Acho que já deve estar um bocadinho melhor, mas acho que continua a deixar um bocadinho para a última, pelo menos dos últimos relatos que ouvi.

Preparar um monólogo é mais difícil do que preparar uma peça?

Não. A dificuldade está lá sempre. É difícil fazer uma peça porque estar com outra pessoa em cena é sempre imprevisível, pelo menos na maneira como gosto de trabalhar. Obviamente que ensaiamos, combinamos regras, habituamo-nos à maneira do outro fazer, e vou-me descobrindo através do outro. Num monólogo só dependo de mim, estou disponível para me entregar e partilhar a história com as pessoas. Correndo bem ou mal, não há nada a fazer, começamos e acabamos, sou eu que controlo tudo. Mas, se calhar, até é mais difícil por causa disso, porque a responsabilidade é toda nossa, não é partilhada.

Recentemente protagonizou o filme “Soares é Fixe”, sobre as eleições presidenciais de 1986, em que interpretou o papel de Mário Soares. Como encara as diferenças de trabalhar em cinema, é mais desafiante do que em teatro?

São coisas diferentes. À medida que vou fazendo mais cinema vou percebendo que são maneiras de estar muito distintas [para um actor]. [Fazer cinema] é um trabalho muito mais isolado, não temos tanto tempo de preparação uns com os outros [os actores]. É também um trabalho de espera, de paciência, para depois se concentrar em cada “take”. Para mim, que estou mais habituado a fazer teatro, às vezes pode ser mais frustrante o facto de não haver logo uma reacção imediata ao que se acabou de fazer. É um bocado parecido com os ensaios, “Vamos repetir!”, se bem que está sempre a valer. Repito ali três ou quatro vezes uma cena e, às vezes, não há muito mais tempo para experimentar porque temos que passar para a cena seguinte. [Fazer cinema] é um trabalho de condensação muito grande, até porque não sabemos muito bem o que a câmara está a captar. Não tenho assim tanta experiência quanto isso, mas fazer um protagonista é bom, no sentido em que estamos lá muito tempo, é um mergulho muito grande na questão de estarmos sempre a filmar, e o poder fazer uma construção sobre o personagem e o plano de filmagens – quando é que se filma, e o que é que se filma. Às vezes anda-se muito para trás e para a frente, e, nesse sentido, é bom o trabalho dramatúrgico que se faz, e como é que nos comportamos em cada dia para poder activar o que é necessário para cada dia e cada cena.

Como se preparou para fazer de Mário Soares?

Foi um bocadinho assustador, até porque tive muito pouco tempo de preparação, desde o convite até começar a filmar. Basicamente o que fiz foi ler tudo o que podia, vi muitas entrevistas dele, para perceber como se comportava. Depois não íamos fazer um trabalho em que ficava igual ao Mário Soares, não era esse o objectivo, porque para isso teríamos de ter mais dinheiro. Para fazer um trabalho de reconstituição, com grandes caracterizações [de personagens], é preciso mais dinheiro que esta produção não teve. Era miúdo [nas eleições presidenciais de 1986], andava na escola primária e lembro-me perfeitamente. Mas fiquei a saber muito mais dele [no processo de pesquisa], mas não sobre a vida pessoal, até porque isso não me interessou, na altura, para a construção [da personagem]. [O trabalho de preparação] incidia mais sobre quem era este homem político e, sobretudo, perceber nas cenas em que falava quem estava atrás dos silêncios e do que se passava. Quis tentar desvendar ou revelar um bocadinho do que estava naquela cabeça, naquela noite [das eleições de 1986]. Foi uma eleição em que era o tudo ou nada. Aquele homem podia morrer politicamente ali ou então, pronto, nascer mais uma vez como Presidente [da República], que foi o que aconteceu.

19 Mai 2026

Parquímetros | Nick Lei quer notificação de multas por SMS

O deputado Nick Lei considera que o Corpo de Polícia de Segurança Pública deve rever o formato de tratamento das infracções rodoviárias, a fim de incluir nas notificações por SMS as multas nos parquímetros para melhorar a rotatividade no estacionamento

Nick Lei, deputado à Assembleia Legislativa (AL), interpelou o Governo quanto à necessidade de revisão, por parte do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP), da forma como são tratadas as infracções rodoviárias, a fim melhorar o sistema de tratamento das multas por tempo de estacionamento excessivo.

Segundo a interpelação, o deputado, ligado à comunidade de Fujian em Macau, destacou que o CPSP actualizou o formato de tratamento das infracções rodoviárias, mas excluiu as multas nos parquímetros. Essa actualização passou por uma renovação dos equipamentos para que os condutores passassem a receber SMS dez minutos após receberem uma multa. Tudo para remover os carros o mais depressa possível e, assim, escoar o fluxo de trânsito.

Porém, actualmente, “o serviço de notificação por SMS das infracções rodoviárias não inclui as infracções nos parquímetros de estacionamento, havendo grande diferença em relação às restantes situações de infracções”, destacou.

“Para que seja melhorado o mecanismo de notificações, e para que se aumente a rotatividade dos lugares de estacionamento na via pública, podem as autoridades pensar em incluir, no sistema de notificações por SMS, a infracção de não pagamento das tarifas de parquímetros, evitando-se assim custos sociais subsequentes?”, questionou.

Meios obsoletos

Além de pedir a notificação das multas por SMS, Nick Lei referiu que, no actual sistema de pagamento digital de multas por infracções rodoviárias, também ficaram de fora as infracções nos parquímetros de estacionamento.

“Após o carro ser bloqueado ou removido, os donos precisam de ir ao Departamento de Trânsito pagar a multa em numerário. Será que o Governo pode incentivar as empresas a proporcionarem meios de pagamento electrónico, a fim de responder à procura da sociedade?”, sugeriu.

De frisar que, no passado, o Governo justificou a exclusão das multas de estacionamento do sistema de notificações por SMS para não causar confusão nos infractores, destacando que, apesar de não informar os condutores por SMS, estes têm de cumprir a lei no que ao estacionamento diz respeito.

Para Nick Lei, a ausência de avisos por SMS faz com que os condutores se esqueçam do tempo de estacionamento pago, levando a situações ilegais com consequentes bloqueios de viaturas, perdas de tempo e de dinheiro. O deputado destaca também que esta situação leva a gastos de recursos do CPSP e impede a rotatividade de lugares de estacionamento.

19 Mai 2026

GP Consumo | Retalho com 60% de gastos no primeiro mês

A edição deste ano do Grande Prémio para o Consumo nas zonas comunitárias gerou, nas primeiras quatro semanas, gastos de cerca de 560 milhões de patacas, com 60 por cento do valor a ser direccionado para o sector do retalho. Governo diz ter sido registada maior adesão face ao ano passado

Dados ontem divulgados pela Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) revelam que a edição deste ano do Grande Prémio para o consumo nas zonas comunitárias gerou, no primeiro mês de implementação, mais de 560 milhões de patacas de consumo em negócios locais, tendo sido distribuídos quase sete milhões de cupões, um total de 6,947 milhões.

No que diz respeito aos sectores onde foram gastos estes cupões, destaca-se o retalho com 60 por cento dos gastos, seguindo-se a restauração com 30,6 por cento. No total, mais de 20 mil estabelecimentos comerciais, com espaço físico, no território estão abrangidos por este programa que visa incentivar o consumo local.

No primeiro mês de actividade do Grande Prémio de Consumo, registaram-se 3,492 milhões de transacções qualificadas para sortear cupões. A DSEDT chama a atenção para o facto de este montante representar “um aumento de, aproximadamente, quatro por cento face às 3,356 milhões de transacções registadas no mesmo período da edição anterior”.

Dos 6,947 milhões de cupões distribuídos, foram usados, no primeiro mês, mais de 118 milhões de patacas, com descontos imediatos em cartão no montante superior a 31 milhões de patacas.

Maior adesão

Segundo a DSEDT, a edição deste ano do Grande Prémio de Consumo registou um “aumento na taxa de utilização dos benefícios, com mais diferentes sectores beneficiados”. A taxa de utilização global, em termos de montante, “ultrapassou os 92 por cento, sendo a primeira vez que superou os 90 por cento desde o lançamento” da medida do Grande Prémio de Consumo.

Para o Executivo, tais dados significam que, “com o prolongamento do prazo de utilização” da medida, “os residentes conseguem planear melhor para fazer consumo com benefícios”. Desta forma, permite-se a utilização dos cupões não apenas no retalho, mas em “outros sectores de consumo imediato como a restauração, beneficiando assim mais diferentes sectores” económicos.

O Grande prémio para o consumo nas zonas comunitárias 2026 é da responsabilidade da DSEDT em conjunto com a Associação Comercial de Macau. Em termos gerais, deu-se “o crescimento no grau de participação dos residentes, de entusiasmo pelo consumo e de equilíbrio dos benefícios entre os diferentes sectores, em comparação com a edição anterior”.

Deu-se ainda um contributo ao estímulo do “consumo local durante os fins-de-semana”. Esta actividade prolonga-se até 18 de Junho.

19 Mai 2026