EventosLiteratura | “MyWay”, uma viagem pelos lugares de Natividade Ribeiro Andreia Sofia Silva - 30 Mai 2026 “My Way – Diário e Escritas Paralelas” é o mais recente livro de Natividade Ribeiro, mulher açoriana, autora e docente que também fez de Macau a sua casa durante muitos anos. Com edição da Letras Lavadas Edições, eis uma obra que mistura registos biográficos com sentimentos sobre lugares que são casa, como é o caso de Portugal e de Macau Antes das letras surgem as imagens que revelam, elas próprias, vivências e memórias: a “janela dos bambus”, a “entrada do jardim Camões” ou objectos como “a sombrinha chinesa”. Há ainda espaço para o desenho da casa em Coloane ou até a fotografia “do jardim da vizinha Lagos”, ou até da “Mesa de Jantar – Lisboa”. É assim o mais recente livro de Natividade Ribeiro, natural de Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, Açores, formou-se em Filosofia e deu aulas em Macau nos anos de 1982 e 1999, tendo tido depois uma posterior experiência de ensino no Instituto Português do Oriente (IPOR), nos anos de 2015 e 2016. De nome “My Way – Diário e Escritas Paralelas”, o mais recente livro da autora, editado no final do ano passado pela Letras Lavadas Edições, revela-se ao leitor uma espécie de diário de bordo pela mais recente passagem de Natividade Ribeiro por Macau, numa ligação aos seus Açores e a outros lugares de Portugal que representam casa para si. Trata-se de um “diário de mês e meio”, entre Macau, Algarve e a ilha açoriana de São Miguel, datado de 2023, “com a liberdade de saltar tempos e espaços, excercendo o poder da mente”, lê-se logo no início. O relato desta vivência começa ainda em Lisboa, no dia 23 de Agosto, com a autora a descrever a viagem a Macau e a recordar os momentos em que, nos idos anos 80, se mudou para o Oriente. “Amanhã iremos revisitar Macau. Foi em setembro de 1982 que para lá fomos viver. Passados estão 41 anos. Ao calor intenso à chegada, disse ‘Macau é como estar nas estufas de ananás do meu pai, em pleno verão da minha ilha’. E respirei um ar familiar, ainda que com outros cheiros.” A chegada fez-se a 25 de Agosto, no Aeroporto Internacional de Hong Kong, e é nesse momento que Natividade Ribeiro vai buscar a referência à ideia do caminho pessoal traçado, “My way”. “Saímos. À porta do avião uma cadeira de rodas à minha espera. Agora a All Ways. My way, all ways gosto destes nomes, minhas pernas. O meu caminho, a minha maneira. Todos os caminhos, todas as maneiras”, lê-se a certa altura. Por entre relatos de idas e vindas, regressos e chegadas, Natividade Ribeiro vai revelando também ao leitor alguns poemas e escritos da sua autoria, nomeadamente “Perfil virtual II”: “Ela desafia tudo / Senhora de tanto / Com olhos ainda inocentes / Reinventa o mundo / Em palavras de liberdade / Vivendo à beira do mar / E em cada alvorada / Ri com as gaivotas.” Alguns dos textos que se lêem em “My Way” foram escritos na Casa Garden, sede da Função Oriente em Macau. “Fechada no quarto belo, escreverei este diário como fiz na adolescência com a Ilha como clausura”, descreve a autora, que não esqueceu as referências a outro poeta bem conhecido do território, Camilo Pessanha. “Pessanha (meu) em tom menor I” é o nome de um dos poemas, com uma estrofe que começa com o verso “Choveu!, sobre bambus e nenúfares”. Entre descrições e narrações A sinopse da obra dá-nos conta que, “além da narração e descrição do quotidiano, há reflexões, interrogações sobre as cidades, o mundo, a actualidade”, tratando-se de um “diário como um livro de viagens por lugares interiores e exteriores, conhecidos e de reconhecimento da autora”. O leitor depara-se com uma “escrita híbrida que já caracteriza a autora”, e com um livro que deambula entre a prosa e poesia, “não excluindo narrativa ficcional, onde o mar, a cidade e até as gaivotas algarvias são personagens”. Na apresentação da obra na Casa de Macau em Lisboa, Natividade Ribeiro destacou as cores escolhidas para a capa do livro, que tem “uma forte simbologia”. O vermelho “presente em todas as festividades de Macau, cor que representa alegria”, e depois o verde que remete para a natureza da ilha de São Miguel e para as próprias “cores da bandeira de Portugal”. No lançamento, Natividade Ribeiro descreveu como as “escritas paralelas a estes registos diarísticos foram acontecendo”, e de como se deu “um ambiente propício a outras escritas”. Os escritos “foram-se colando ao diário como um patchwork, em que os pedacinhos de tecido nas diversas cores, estampas e tamanhos para criar uma nova peça se vão juntando meticulosamente”. Natividade Ribeiro, que já editou anteriormente outros livros, trouxe também alguns desses escritos para “My Way”. “Aproveitei também para fixar alguns textos, com temáticas sobre Macau, de dois dos meus livros, ‘Nada, nada professora’, da Edições do Oriente, e ‘Os três lugares de uma mulher’, da editora Salamandra. Há também dois textos, ‘Jogar com a cidade’, já publicado na colectânea ‘Viagens III’, das Letras Lavadas; e o poema ‘Calçada das Verdades’. Estes textos referem-se a um Macau pós-1999 e quero que cheguem a leitores de lá”, referiu.