Graffiti | Artistas asiáticos marcam presença em nova edição do festival “!Outloud”

Oito artistas ligados ao mundo do graffiti competem este fim-de-semana na nona edição do festival “!Outloud – Macau International Street Art Festival 2026”, numa “batalha” competitiva que terá lugar hoje e amanhã no espaço Anim’Arte Nam Van. Na Praça Ponte e Horta, há mais concursos e exposições ligados ao grafitti para desfrutar até domingo

O graffiti é protagonista na nova edição do festival “!Outloud”. No fim-de-semana, os amantes deste tipo de arte urbana, que recorre às paredes para os mais variados tipos de expressões artísticas, podem ver de perto grandes artistas asiáticos a competir entre si.

Segundo uma nota da organização, a nona edição do “!Outloud Macau International Street Art Festival 2026 – Still & Next” traz a Macau oito artistas da China, Tailândia, Indonésia e Coreia do Sul para “dois dias de criação ao vivo e competição”.

Estes artistas são Crude, da Tailândia; Diego, Frank, Lost e Jams, da China; Boner e Nick23, da Indonésia; e ainda Enzo, da Coreia do Sul.

A competição acontece hoje na “!Outloud x Wall Lords 2026 International Graffiti Battle” entre as 11h e 19h, sendo que a avaliação por parte do público decorre amanhã, dia 7, a partir das 18h. A cerimónia de apresentação dos trabalhos e anúncio dos vencedores começa amanhã a partir das 19h. Todos estes eventos ocorrem na Zona de Graffiti no espaço Anim’Arte Nam Van, junto ao Lago Nam Van.

Nesta “batalha” artística, de acesso gratuito, convida-se o público “a vivenciar criações de graffiti ao vivo e a descobrir como o tipo de letras, cores e composição se reúnem na arte urbana”. O vencedor terá como prémio a atribuição de patrocínios através de voos e alojamento, entrando ainda no circuito internacional da competição “Wall Lords”, criada em 2008.

Segundo um comunicado da organização do festival, trata-se de uma “plataforma para artistas de graffiti de diferentes regiões trocarem ideias, porem à prova as suas capacidades e darem a conhecer os seus estilos individuais”. O vencedor terá, assim, oportunidade de “prosseguir o seu percurso competitivo e estabelecer contactos com uma comunidade internacional mais alargada de artistas de graffiti”.

O programa do “!Outloud” traz ainda mais eventos ligados ao universo do graffiti tanto no Lago Nam Van como a Praça Ponte e Horta, junto ao empreendimento Ponte 16, e que incluem criações ao vivo e actividades com a participação do público.

Assentar raízes

O tema da edição deste ano do “!Outlod” é “Still & Next”, que traz a ideia de um evento que se mantém “fiel às raízes criativas” procurando também “contribuir para moldar o que vem a seguir”. O júri que vai decidir quem é o melhor da “batalha” de graffiti é composto por três artistas conhecidos do meio, como é o caso de Jay Flow, considerado “um dos pioneiros do graffiti e arte urbana na Coreia do Sul”. Também da Coreia do Sul, Semi fará parte do júri, sendo um “artista urbano sul-coreano experiente, cujo trabalho explora a linguagem visual contemporânea e composições tipográficas complexas”. Da Austrália, chega Vans, “conhecido pela precisão dos seus traços, pelo uso dinâmico da cor e pela criação de murais de grandes dimensões”.

No que diz respeito a eventos destinados ao grande público, destaca-se a “N.E.X.T Party” amanhã, a partir das 20h30, na zona do palco do Anim’Arte Nam Van, realizando-se também, entre as 20h20 e 20h30, a sessão “Vinyl Scratching Experience”. Também amanhã, entre as 19h45 e 21h, decorre a iniciativa “Dusk Vinyl Music Session”.

No domingo, dia 8, decorre, entre as 15h30 e as 17h, o workshop de arte “Still & Next”, na tenda de workshops do Anim’Arte Nam Van, e ainda o “Still & Next Graffiti Experience Area”, também no mesmo local, das 15h às 17h.

Hoje, será inaugurada, no Centro Comercial Praia Grande, a mostra de pinturas em miniatura “All Goes to Tiny World Macao”, bem como a sessão de “Graffiti Art Sharing” na zona de palco do Anim’Arte Nam Van. Destaque ainda para a competição “Youth to King – Student Graffiti Competition”, entre as 15h e 18h, também no Anim’Arte Nam Van.

6 Nov 2026

Lord Stow’s | Estudo analisa “crescimento selectivo” da pastelaria

A Lord Stow’s poderia ter exportado o seu famoso pastel de nata através de franchising. Porém, um estudo da académica Vanessa Amaro, da Universidade Politécnica de Macau, mostra como a empresa optou por um negócio com raízes no território para garantir a tradição e qualidade dos produtos, seguindo uma expansão controlada

Vanessa Amaro, docente na Universidade Politécnica de Macau (UPM), acaba de publicar na revista académica Heritage, editada pela MDPI, um artigo que analisa o lado tradicional e até emotivo do negócio da Lord Stow’s Bakery, marca local bem conhecida pelo seu pastel de nata.

No estudo “Our Heart Is in Macau”: Selective Scaling, Memory Work and Place-Bound Culinary Heritage at Lord Stow’s Bakery” [‘O Nosso Coração está em Macau’: Crescimento selectivo, trabalho de memória e património gastronómico ligado ao território na Lord Stow’s Bakery] é analisado como a pastelaria tem tudo para se transformar num negócio com maior expansão global, tendo optado por ter poucas lojas em regime franchise a fim de manter as características locais do negócio e a qualidade dos produtos vendidos.

O estudo foi feito com recurso a entrevistas à actual co-proprietária, Eileen Stow e irmã do fundador, Andrew Stow, que faleceu há cerca de 20 anos. Vanessa Amaro também analisou centenas de notícias de meios de comunicação social em português, chinês e inglês, bem como publicações e comentários de visitantes nas redes sociais em perfis ligados ao sector do turismo.

Conclui-se, portanto, que o “crescimento selectivo” da Lord Stow’s Bakery contribuiu “para preservar o valor da pastelaria enquanto património intrinsecamente ligado ao território”. De frisar que para este estudo Vanessa Amaro realizou trabalho de campo com diversas visitas às várias lojas da Lord Stow’s Bakery no território para observar a decoração dos espaços e as mudanças ocorridas.

O estudo debruça-se sobre os moldes do crescimento da pastelaria. “Este caso demonstra como uma empresa familiar que suscitou interesse internacional para a criação de negócios franchise adoptou um padrão de crescimento selectivo.” O conceito de “crescimento selectivo” diz respeito a uma “opção deliberada de manter a expansão limitada, em vez de a eliminar por completo”. Isto porque “os proprietários recusam novas formas de reprodução territorial ou formas menos controláveis, apesar de existirem oportunidades viáveis, para proteger o valor afectivo, patrimonial e associado ao território”. Permite-se, porém, “algum crescimento local e acordos externos sujeitos a um controlo rigoroso”, pelo que não se pode falar “uma ausência de expansão” na Lord Stow’s Bakery, mas sim de uma “abordagem selectiva”.

A académica realça a “protecção da riqueza socioemocional, uma estratégia de marca orientada para a continuidade e um trabalho deliberado de preservação da memória”. A pastelaria manteve ao longo dos anos de funcionamento “as receitas, a produção centrada no trabalho manual” e a loja de Coloane, que “sofreu alterações mínimas”. Enquanto isso, “um novo estabelecimento cuidadosamente concebido constitui uma infra-estrutura de memória viva”. “As práticas da família, dos meios de comunicação social e visitantes transformam actos como fazer fila, fotografar, comer e partilhar em formas de construção do património”, é explicado.

O artigo destaca que “a família considera que uma maior expansão através de franchising e a diversificação de sabores constituiriam ameaças à qualidade, ao legado do fundador e à ligação a Macau”. Isto “apesar da continuidade dos estabelecimentos locais, do aumento da capacidade de produção e de algumas parcerias internacionais de longa data”.

Uma “experiência desgastante”

A Lord Stow’s Bakery é hoje “amplamente reconhecida como a criadora do agora icónico pastel de nata de Macau”, continuando a “funcionar essencialmente como uma pequena cadeia de estabelecimentos de propriedade familiar e concentrada em Macau”.

Vanessa Amaro explica que, “à primeira vista”, a cadeia de pastelarias “parece corresponder ao tipo de microempresa que as políticas para as indústrias criativas e o turismo poderiam pretender expandir”, por ter “um produto distinto, resultante da criatividade individual e do saber-fazer artesanal”. Este produto está “protegido por uma marca reconhecida, estando localizado numa cidade turística pós-colonial cuja economia depende fortemente do interesse dos visitantes por experiências específicas de cada lugar”.

Porém, a Lord Stow’s optou por não acompanhar essas expectativas do foro empresarial. “Em vez de apostar numa ampla expansão através do franchising ou no licenciamento da marca no estrangeiro, a família fundadora optou por manter a actividade predominantemente local, concentrando a marca num número reduzido de lojas em Macau e conservando apenas algumas parcerias de longa data noutros mercados”.

Não que tenham faltado oportunidades: Andrew Stow abriu a primeira pastelaria em Coloane, em Setembro de 1989, e ao longo da década de 90 o negócio cresceu. “No final da década de 1990” – lê-se no estudo – “o pastel de nata português tinha-se tornado uma verdadeira moda regional, sobretudo em Hong Kong e Taiwan”. A cadeia de restaurantes de comida rápida KFC “introduziu um pastel de nata em Hong Kong em 1998 e, posteriormente, notícias associaram uma receita adquirida a uma pastelaria de Macau à comercialização do produto em grande escala na China continental”.

Em 2001 surgiu a oportunidade de franchising em Los Angeles, mas o projecto nunca avançou. Segundo entrevista de Eileen Stow para este estudo, a possibilidade de franchising “em larga escala” revelou-se “uma experiência emocionalmente desgastante e incompatível com a forma como a família prefere conduzir o negócio”. Na viagem a Los Angeles “a mecanização não conseguia reproduzir a característica borda da massa sem um acabamento manual”, embora “a questão mais profunda” para a recusa do franchising fosse de “natureza afectiva”. Eileen Stow considerou que o negócio de família “podia ter-se tornado nos Dunkin’ Donuts”, aponta o estudo.

Pastel no fim da proposta

Lê-se no artigo académico que o pastel de nata nem fazia parte das equações iniciais de Andrew. “Eileen Stow recorda que o primeiro plano de negócios do irmão para o espaço em Coloane não previa a abertura de uma verdadeira pastelaria com atendimento ao público, nem sequer se centrava nos pastéis de nata”.

A ideia era “utilizar o espaço sobretudo como uma pequena unidade de produção, destinada a fornecer pão, pãezinhos e bolos a restaurantes e outros clientes, através de entregas”. O produto que é hoje famoso só surgia “mais abaixo no formulário do pedido de empréstimo, sobretudo para agradar ao gestor bancário português que iria aprovar o financiamento”.

Há “cinco processos patrimoniais” interligados no caso da Lord Stow’s Bakery, sendo eles “a emergência da pastelaria como um ícone enraizado na comunidade local” e a “criação e designação do pastel de nata de Andrew”. Vanessa Amaro observou também o factor do “franchising, a imitação e a decisão de limitar a expansão internacional”, bem como a “construção de Macau como o único lugar onde se pode encontrar o original”. Por fim, persiste “o papel da memória e da sucessão na consolidação destas reivindicações”.

O estudo faz ainda menção ao “conflito com Margaret Wong, antiga companheira de Andrew” sobre a verdadeira origem da receita do pastel de nata. Tal “tornou mais evidentes as tensões em torno da autenticidade, da autoria e da comercialização do produto”.

A Lord Stow’s Bakery continua a fazer, de forma artesanal, as bases de massa em Macau, sendo que, numa consulta ao website oficial a 30 de Agosto deste ano, a marca “não procura novos franchisados”.

O mesmo garantiu Eileen Stow na entrevista concedida para o estudo. “Não haverá mais franchisados. É demasiado desgastante para nós […] porque toda a gente tem de crescer? Porque não podemos estar satisfeitos com aquilo que já temos?”, é referido.

Vanessa Amaro conclui ainda que estas limitações ao crescimento “ajudam a preservar um ecossistema de autenticidade, memória e ligação local”. Mas salienta, referindo-se à preservação do pastel de nata como património gastronómico: “a gestão patrimonial de uma marca não substitui a salvaguarda de uma prática partilhada por uma comunidade mais alargada”.

6 Nov 2026

Lisboa | Casa de Macau acolhe projecto de Cheong Kin Man e Marta Sala

A exposição “As Espantosas e Curiosas Viagens”, já revelada a vários públicos pelos artistas Marta Stanisława Sala e Cheong Kin Man, volta a ver a luz do dia na Casa de Macau em Lisboa. A mostra integra o rol de apresentações artísticas do “Lisbon Art Weekend” e recebe visitas guiadas este fim-de-semana

A Casa de Macau em Lisboa acolhe, entre hoje e domingo, a exposição “As Espantosas e Curiosas Viagens – Casa di Macau”, da dupla de artistas Marta Stanisława Sala e Cheong Kin Man.

A exposição integra a programação do “Lisbon Art Weekend”, sendo inaugurada hoje entre as 16h e 18h, com possibilidades de visita amanhã e sábado, das 12h às 17h; e também este domingo com visitas guiadas pelos artistas entre as 14h e 17h. A exposição continua patente na Casa de Macau até ao dia 30 de Novembro.

A curadoria está a cargo de Ricardo Barbosa Vicente, sendo esta mostra um cruzamento entre linguagens visuais, instalação e trabalho com tecidos, onde se revelam memórias em torno da comunidade macaense. Segundo uma nota da organização, “a dupla cruza arte e antropologia, explorando relações entre línguas, culturas e memórias”.

Para este projecto, foram recolhidas histórias e retalhos de tecido junto da diáspora macaense, incluindo a que vive em Portugal, com “materiais do quotidiano a transformarem-se em obras têxteis, em imagens e línguas inventadas”.

Marta Stanisława Sala, natural da Polónia, e Cheong Kin Man, de Macau, formam uma dupla de criação artística e investigação com actividade entre Berlim, Macau, Cracóvia, Katowice e Lisboa. Desde 2021, desenvolvem uma prática conjunta que cruza arte e antropologia, explorando a memória afectiva, a migração e as relações entre línguas e culturas.

“As Espantosas e Curiosas Viagens” é uma exposição que já marcou presença no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, no ano passado. Esta série de exposições foi iniciada em 2024, já passou por Macau e Brasil, e “evoca a tradução alemã histórica da ‘Peregrinação’, de Fernão Mendes Pinto”.

Artes pela cidade

O Lisbon Art Weekend reúne 60 espaços com a promoção de 95 eventos distribuídos por vários espaços culturais da capital portuguesa, sendo esta a maior edição de sempre do encontro dedicado à divulgação da arte contemporânea, indica a organização.

Segundo noticiou a Lusa, nesta oitava edição o evento mantém a entrada gratuita nos espaços participantes e propõe um programa que inclui exposições, visitas guiadas, conversas com artistas, performances, visitas a museus, galerias de arte, coleções privadas, estúdios de artistas, e oficinas para crianças e famílias.

Entre as instituições participantes estarão o Centro de Arte Moderna Gulbenkian (CAM), a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, o Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), o Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitectura do Centro Cultural de Belém (MAC/CCB), o Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM), o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC) e o Pavilhão Julião Sarmento.

A programação inclui uma performance do artista português António Poppe no MNAC, que cruza artes visuais, poesia e performance, reflectindo a natureza interdisciplinar do seu trabalho, que tem apresentado desde 1996.

No MAC/CCB, uma visita guiada à exposição “Here I Stand” dá a conhecer o trabalho da artista portuguesa Ângela Ferreira, com uma leitura das suas esculturas e instalações e das relações que estabelecem entre arquitetura, história colonial e poder político.

Já no Pavilhão Julião Sarmento, a conversa “Encounters Between the Artist, the Work and the Public” propõe um encontro com a artista Iris Buchholz Chocolate, nascida na Alemanha e ligada a Angola desde 2003, com uma prática que cruza tradições ancestrais e artesanais angolanas com abordagens conceptuais europeias, incidindo em temas como memória, herança colonial e identidade.

No CAM, estão previstas uma visita orientada por curadores à exposição “Lugares que se Desenham”, e uma oficina para famílias, enquanto o MAAT propõe a oficina “Estas Obras MAATam-me”, dirigida a crianças e adolescentes dos 8 aos 12 anos, que combina movimento, desenho e criação colectiva de narrativas a partir das obras.

O Lisbon Art Weekend é uma organização sem fins lucrativos fundada por Merve Pakyürek e Marc Kean Paker, que se mudaram para Lisboa há uma década, e decidiram reunir espaços independentes e instituições culturais num circuito de acesso livre para reforçar a articulação entre os diferentes intervenientes da arte contemporânea e dar visibilidade à produção artística. Com Lusa

5 Nov 2026

Obras de Eric Fok para ver no MGM Cotai

O artista local Eric Fok apresenta novas obras em várias zonas do empreendimento MGM Cotai. “The Geography of Wind Directions: 1924”, um trabalho criado este ano, pode ser visto, “por tempo limitado” no Lion Lobby Entertainment Zone. Segundo a informação oficial do MGM, trata-se de uma obra inspirado “na histórica viagem dos aviadores portugueses que chegaram a Macau em 1924, combinando mapas antigos, registos de voo e paisagens regionais para recriar uma visão de exploração que abrange a Europa e a Ásia”.

Mas Eric Fok tem outros trabalhos em exposição no MGM Cotai, como é o caso do quadro “Paradisus – 1557”, no Emerald Lobby. Neste projecto, Eric Fok recorreu “ao estilo dos mapas antigos, e que evoca a história colonial de Macau”. Recorre-se a “papel utilizado para os desenhos é previamente tratado com chá e tinta acrílica, criando um efeito envelhecido que confere às pinturas a aparência dos mapas dos séculos XVI e XVII”.

No Bar Patuá está ainda disponível a peça “1557 – Carrack”, em que “uma nau surge a flutuar num oceano misterioso, navegando à descoberta de novas terras, num espaço exótico onde se cruzam a ilusão e a realidade”.

“O papel, previamente tratado com chá e tinta acrílica, contribui para criar a aparência de um mapa antigo dos séculos XVI e XVII. A reduzida dimensão da pintura evidencia igualmente o rigor e a minúcia do trabalho artesanal do artista”, é ainda explicado.

Arte na praça

Outro local do MGM Cotai que exibe peças de arte de Eric Fok, é o “The Spectacle”, com a obra “Giraffe meets Qilin”. Trata-se “da primeira grande obra digital de Eric Fok e dá continuidade ao conceito inovador de ‘Art-Tech’ da MGM”, é explicado pela operadora de jogo.

Este projecto “alarga os horizontes da arte em espaços públicos, transformando o The Spectacle num museu de arte a 360 graus, através da apresentação de um antigo mapa de navegação nos maiores ecrãs LED interiores da Ásia”. Eric Fok apresenta uma criação que junta a “cartografia náutica antiga e a arquitectura icónica”, proporcionando “uma experiência imersiva e fascinante de intercâmbio cultural entre o Oriente e o Ocidente e das respectivas transformações”. A experiência percorre “o período dos Descobrimentos até à actualidade”.

Outra das obras que podem ser vistas gratuitamente pelo público no The Spectacle, é “Connectivity”, de Kun Wang Tou. Trata-se de uma “obra de arte pós-fotográfica concebida no contexto da nova era digital”, sendo a “primeira apresentação dinâmica de uma obra num formato multicamada, e num espaço público de grandes dimensões”.

Kun Wang Tou, natural de Macau, “apresenta uma paisagem digital surrealista e que é construída a partir de imagens diversificadas da Grande Baía, incluindo fotografias, capturas de ecrã e vistas de ruas obtidas através de mapas de satélite”. Pode ainda ser vista no The Spectacle “Watercolor Story”, de Zheng Chongbin.

5 Nov 2026

Tabaco | Quase cinco mil infracções em três trimestres

Dados dos Serviços de Saúde (SS) revelam a ocorrência, nos primeiros três trimestres deste ano, de 4.859 casos de infracção à lei de controlo de tabagismo, números que resultam do total de 199.685 inspecções a estabelecimentos, numa média diária de 731 inspecções.

Nas acções de controlo do tabagismo, foram detectados 4.226 casos de actos ilegais de fumar, 560 casos de transporte de cigarros electrónicos na entrada ou saída de Macau e 68 casos suspeitos de violação de outras disposições da lei. Os restaurantes lideram os casos de infracção, com 786 casos, 18,6 por cento; seguindo-se as paragens de autocarro, com 523 casos, 12,4 por cento. Nos casinos, foram detectados 494 casos de fumo ilegal, com base em acções de fiscalização feitas pelos SS em parceria com a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos.

Relativamente ao controlo do consumo ilegal de álcool, foram registados apenas cinco casos nos primeiros três trimestres deste ano, sendo que um dos casos diz respeito a “alguém que permitiu que uma criança consumisse cerveja”. Nesse cenário, “os agentes de fiscalização do controlo do tabagismo e do alcoolismo dos Serviços de Saúde identificaram-se de imediato, impediram a situação e instauraram o respectivo processo de acompanhamento”.

5 Nov 2026

EUA | Vitória esmagadora dos democratas reacende debate sobre centros de dados

As eleições intercalares nos EUA deram uma esmagadora vitória ao partido Democrata tanto no Senado como na Câmara dos Representantes. O Presidente do país, Donald Trump, admitiu a derrota dos Republicanos e diz estar disposto a trabalhar com o partido rival. Entretanto, a vitória dos democratas reacendeu debates em torno da inteligência artificial

A vitória dos democratas nas eleições intercalares dos EUA reacendeu o debate sobre os centros de dados dedicados à inteligência artificial (IA), levando o empresário Elon Musk a ironizar sobre a derrota dos candidatos republicanos que apoiou financeiramente com mais de 400 milhões de dólares.

Perante a vaga democrata que garantiu o controlo das duas câmaras do Congresso norte-americano, Musk, o homem mais rico do mundo, mostrou-se preocupado com a possibilidade de serem impostas restrições à construção de centros de dados dedicados à IA. A Alphabet (Google) anunciou a construção de vários centros de dados no Estado, enquanto Elon Musk transferiu para o Texas as sedes das suas principais empresas: Tesla, SpaceX e X.

“Tenho a sensação de que a interferência dos meus lasers espaciais nas eleições não funcionou desta vez”, brincou o fundador da SpaceX, após, entre outros resultados, a derrota de Ken Paxton, o candidato que apoiava para o Senado pelo Texas. “Os centros de dados no espaço parecem agora particularmente atraentes”, comentou Musk na rede social X.

Os resultados das eleições intercalares nos EUA garantiram uma vitória histórica ao Partido Democrata nas duas câmaras do Congresso, incluindo o controlo do Senado, após derrotas republicanas em estados decisivos como Texas, Ohio, Kansas e, contra todas as expectativas, Carolina do Sul.

Num país com um discurso político anti-imigração, estas eleições marcaram também uma viragem no perfil dos candidatos eleitos, existindo agora três governadores negros e uma indígena. Foi ainda eleito, pela primeira vez, um senador assumidamente gay, Chris Pappas.

Keisha Lance Bottoms fez história no Estado da Geórgia a tornar-se na primeira mulher negra eleita governadora estadual no país. Byron Donalds, também negro, venceu na Florida, e David Crowley no Wisconsin.

O peso da derrota

No final de uma campanha marcada, entre outros temas, pelo debate em torno da instalação de centros de dados, Donald Trump depara-se agora com uma pesada derrota política por parte dos eleitores norte-americanos.

O campo do Presidente perdeu importantes bastiões, como o Texas, onde os cargos de senador e governador passaram para responsáveis democratas favoráveis a uma maior supervisão dos centros de dados.

“É necessário estabelecer imediatamente uma moratória sobre os centros de dados”, defendia Gina Hinojosa, advogada que derrotou o governador cessante Greg Abbott, num dos compromissos da sua campanha.

Abbott tinha afirmado, em 2025, querer transformar o Texas no “centro nevrálgico do desenvolvimento da IA”, antes de moderar a sua posição devido ao crescente descontentamento da população.

Hinojosa defende igualmente o fim das isenções fiscais concedidas ao sector, posição partilhada por James Talarico, eleito senador pelo Texas na terça-feira.

As eleições neste estado do sul dos EUA, historicamente conservador, foram descritas por muitos analistas como decisivas para o futuro das infraestruturas ligadas à IA. Graças à abundância de energia e a um enquadramento regulamentar favorável, o Texas deverá concentrar, em 2028, cerca de 30 por cento da procura nacional de energia eléctrica destinada à IA, que deverá aumentar fortemente, segundo estimativas da Bloom Energy.

Impacto nos Estados

Wall Street deve a sua impressionante valorização dos últimos anos ao entusiasmo em torno do advento da IA. Contudo, os investidores mostram-se cada vez mais exigentes quanto à rentabilidade desta tecnologia dispendiosa e preocupados com os obstáculos ao seu desenvolvimento.

Nas negociações antes da abertura de Wall Street, as valorizações das gigantes tecnológicas Microsoft, Google e Amazon recuaram cerca de 1 por cento, enquanto a SpaceX registou uma queda de 5 por cento.

“Tendo em conta a dimensão da vitória democrata” e dos referendos que apelam à restrição dos centros de dados, dado que os eleitores votam tanto em candidatos como em medidas locais durante estas eleições, “os políticos que querem conservar os seus empregos terão de ter em conta estas mensagens”, considerou na rede social X Jim Bianco, analista da Bianco Research.

Os especialistas concordam que o impacto será mais significativo a nível estadual, destacando o papel crucial dos governadores.

A democrata Keisha Lance Bottoms, recentemente eleita governadora da Geórgia, “defendeu um congelamento temporário, à escala estadual, da construção de novos centros de dados, bem como medidas para assegurar que os grandes consumidores suportem os custos associados às suas infraestruturas”, recordou Stephen Innes, analista da SPI Asset Management. Também Amy Acton, eleita governadora do Ohio, prometeu impor regras mais rigorosas ao sector.

Bolsas agitadas

A vitória dos democratas nas intercalares americanas trouxe também agitação às bolsas asiáticas, que registaram ontem resultados mistos nas primeiras horas de negociação, com fortes quedas em Tóquio e Seul e ganhos moderados na Índia e China.

Na Bolsa de Tóquio, o principal índice, o Nikkei, recuou 3,56 por cento até ao intervalo da sessão de ontem, perdendo 2.246,5 pontos, para 60.835,36 pontos. O índice mais abrangente Topix, que reúne as empresas japonesas da secção principal do mercado, as de maior capitalização, caiu 2,49 por cento, ou 98,01 pontos, para 3.832,27 pontos.

Em Seul, a tendência foi semelhante, com o principal índice, o Kospi, a perder 3,54 por cento após as primeiras três horas de negociação. O indicador recuou 199,98 pontos, para 5.448,81 pontos, invertendo a tendência positiva registada na abertura da sessão. O índice Kosdaq, que reúne empresas tecnológicas e de média capitalização, caiu 2,69 por cento, ou 18,93 pontos, para 685,46 pontos.

Na China continental, os mercados apresentaram resultados mistos perto das 12h locais. A Bolsa de Xangai recuou 0,1 por cento durante a sessão da manhã, enquanto Shenzhen avançou 0,14 por cento e o índice CSI 300, que acompanha as 300 principais empresas cotadas nos dois mercados, valorizou 0,04 por cento.

A Bolsa de Pequim registou uma queda mais acentuada, de 0,54 por cento, embora tenha menor peso no mercado financeiro chinês, devido à sua criação recente, em 2021, e à concentração em pequenas e médias empresas.

Em Hong Kong, o índice de referência Hang Seng avançou 0,02% até ao intervalo da sessão. Na Índia, os principais índices abriram em terreno positivo, depois de quatro sessões consecutivas de fortes valorizações. O BSE Sensex, índice de referência da Bolsa de Bombaim, que reúne 30 das maiores empresas cotadas, subiu 0,59 por cento, enquanto o Nifty 50, da Bolsa Nacional de Valores, que acompanha as 50 empresas com maior liquidez, avançou 0,47 por cento.

Nos principais mercados do Sudeste Asiático, predominaram as perdas, com quedas em Singapura (1,45 por cento), Tailândia (0,95 por cento), Indonésia (0,79 por cento) e Malásia (0,17 por cento). Em sentido contrário, as bolsas das Filipinas e do Vietname registaram ganhos de 0,98 e 0,33 por cento, respectivamente.

Donald aceita derrota

Perante este volte-face a favor dos democratas, Donald Trump acabou por assumir a derrota do seu partido em entrevista ao jornal New York Times, periódico que tem sido alvo de acusações frequentes, por parte do Presidente norte-americano, de difusão de notícias falsas sobre si e o seu Governo.

Numa entrevista concedida ao jornal esta terça-feira à noite, Trump disse estar “absolutamente disposto a aceitar” os resultados das eleições intercalares de terça-feira, prometendo trabalhar com um Congresso controlado pelo Partido Democrata. “Trabalharemos com os democratas; estamos ansiosos, sabe, por colaborar com eles. Provavelmente conseguiremos encontrar um terreno comum”, afirmou o chefe de Estado.

Apesar destas declarações, Trump escreveu na sua rede social, “Truth Social”, o seguinte: “Eu não estava no boletim de voto e, se estivesse, teríamos vencido POR UMA MARGEM ESMAGADORA!”.

Numa outra entrevista concedida ao canal Fox News, Trump responsabilizou “parcialmente” a guerra no Irão como factor para a derrota. Este disse ainda que os democratas “fizeram um bom trabalho” e “lutaram bem”. A derrota dos Republicanos “não tem nada a ver” com a sua Administração, defendeu, argumentando que “havia uma certa atmosfera no ar” e que não deveria sentir-se culpado. “Quase nunca o Presidente em exercício, independentemente de ser bom ou mau, republicano ou democrata (…) consegue vencer” as eleições intercalares, referiu.

Preocupações económicas

Segundo uma reportagem da agência estatal chinesa Xinhua, muitos eleitores norte-americanos demonstram preocupações com o panorama económico do país. “Por entre uma elevada inflação persistente e o aumento do custo de vida, as eleições intercalares deste ano irão constituir um grande teste à Administração Trump no seu segundo mandato”, lê-se.

“Nos últimos dias, jornalistas da Xinhua visitaram o Maine, Texas, Carolina do Norte e Georgia, bem como outros Estados, verificando que a inflação e o aumento do custo de vida estão entre as maiores preocupações para os eleitores americanos este ano. Muitos eleitores culpam a Administração Trump por políticas que levam a um aumento dos preços da energia e alimentação, expressando particular frustração em relação à guerra com o Irão e alterações tarifárias”, lê-se na reportagem. Além disso, os eleitores americanos parecem preocupar-se também “as políticas de imigração, cuidados de saúde e corrupção”. Com agências

5 Nov 2026

Cinco equipas seleccionadas em Macau para os prémios “Bocuse d’Or 2026”

Macau acolheu a “Eliminatória Ásia-Pacífico” dos prémios de culinária “Bocuse d’Or 2026” entre domingo e segunda-feira, tendo sido seleccionadas oito equipas do Vietname, Índia, China, Sri Lanka, Nova Zelândia, Malásia, Japão e Tailândia. Em primeiro lugar ficou o chef japonês, Tetsuya Asano, seguindo-se o chef Chutima Srichai, da Tailândia.

Os chefes de cozinha que ganharam os cinco primeiros lugares seguem agora para as finais desta competição, a decorrer no “Sirha Lyon”, o Salão Internacional da Restauração, Hotelaria e Alimentação a decorrer na cidade francesa de Lyon, em Janeiro de 2027.

Segundo uma nota da Direcção dos Serviços de Turismo (DST), que ajudou a organizar as chamadas “olimpíadas da gastronomia”, a realização destas eliminatórias em Macau foi uma estreia para o território e mostrou “o encanto único do destino enquanto Cidade Criativa de Gastronomia da UNESCO”.

Cada equipa participante nestas provas contou com o chef e um auxiliar de cozinha (commis), tendo tido apenas cinco horas e trinta minutos para preparar e apresentar os pratos “Platter Theme” e “Plate Theme”. Coube depois ao júri de degustação, de cozinha, de avaliação visual dos pratos e dos commis fazer a análise das melhores propostas.

Um “ingrediente-chave”

Cheng Wai Tong, director substituto da DST, referiu, na cerimónia de divulgação dos cinco vencedores, que “a gastronomia é um ingrediente-chave para o sucesso de Macau no desenvolvimento como um centro mundial de turismo e lazer”.

O concurso “Bocuse d’Or” foi criado em 1987 pelo chef francês Paul Bocuse e é conhecido pelo seu nível profissional e rigor do sistema de competição. A edição em curso atraiu mais de 70 equipas, que ao longo de dois anos passaram por eliminatórias nacionais, continentais e pela Grande Final Mundial.

As eliminatórias continentais estão divididas em cinco regiões – Europa, Ásia-Pacífico, Américas, Médio Oriente e África. Um total de 24 equipas marcarão presença na Grande Final Mundial em Janeiro do próximo ano, é referido pela nota da DST.

4 Nov 2026

Grande Baía | Lugar político de mulheres revela-se em exposição

“Outros Portos – Outros Olhares. Digressão de Exposição de Fotografia pela Grande Baía” é o nome da mostra inaugurada este sábado no Rooftop Art Center em Cantão. O projecto, com co-curadoria da designer Clara Brito, conta com trabalhos de Mina Ao, Margarida Gouveia, Ting Song, Xing Danwen e O Zhang

É inaugurada este sábado, dia 7, uma exposição de fotografia que traz o “debate da mulher enquanto sujeito político”, explorando-se a “visão feminista” dos conceitos de identidade e resistência. No Rooftop Art Center, em Cantão, apresenta-se “Outros Portos – Outros Olhares. Digressão de Exposição de Fotografia pela Grande Baía”, com trabalhos de Mina Ao, Margarida Gouveia, Ting Song, Xing Danwen e O Zhang.

A cerimónia de inauguração começa às 18h30, ficando patente no número 8 da Yuwei West Road até 31 de Dezembro. Esta mostra tem um cariz itinerante, já que depois de uma passagem por Zhuhai, Shenzhen e até pela cidade do Porto, marcará presença também em Foshan, no Art On Space, a partir do dia 5 de Março do próximo ano.

“Outros Portos, Outros Olhares” tem curadoria da designer local Clara Brito e de Gu Zhenqing, de Pequim, numa iniciativa da Associação Cultural +853 e do colectivo Tomorrow’s Heritage.

Segundo comunicado da organização, esta mostra “cria uma narrativa visual organizada em volta de dois eixos significativos do debate relativo ao lugar da mulher enquanto tema político e, de um modo mais abrangente, no contexto dos feminismos contemporâneos”.

O público pode observar estes temas nas obras de Mina Ao e Xing Danwen, por exemplo, já que “incidem sobre territórios de violência”, sejam eles “simbólicos ou materiais”. “Ao invés de se renderem ao medo e à vergonha, tentam demonstrar um olhar sincero e reflectir sobre estes assuntos”, é explicado.

Relações intrínsecas

Já os trabalhos de Ting Song, exploram temáticas como a “subjectividade feminina, tecnologia, colonialismo e culturas indígenas”. Olha-se ainda “o poder da cultura e de mulheres líderes em contextos políticos com desafios ao nível dos direitos e dinâmicas de ‘negociação cultural’ constante”.

Por outro lado, O Zhang partiu do facto de desde 1991 ser possível a adopção de crianças chinesas por famílias americanas para documentar esta prática. Desde então foram adoptadas “mais de 55,000 crianças, sobretudo meninas”.

Um dos trabalhos que mostra esta realidade é “Daddy & I” [O papá & Eu], explorando “a forma como diferentes aspectos étnicos e culturais afectam pais e filhas, em particular as percepções sobre estas novas famílias numa sociedade tão propensa a preconceitos”.

Estas fotografias de O Zhang foram já reveladas no “Getxophoto International Festival”, tendo a fotógrafa criado “uma alegoria sobre o potencial da China enquanto nação e da sua capacidade de se adaptar a novas circunstâncias, aprendendo com o Ocidente””.

“Outros Portos, Outros Olhares” quer mostrar arte em todas as cidades e territórios que compõem a Grande Baía, narrando “uma viagem de sinceridade e questionamento, sem constrangimentos ou receios, aceitando o modo como estas artistas sentem e vêem e questionam o género feminino”.

Este sábado Clara Brito, co-curadora, estará no Rooftop Art Center para realizar uma visita guiada com interessados, estando ainda agendada uma conversa com artistas e curadores. A exposição em Cantão pode ser vista entre segunda-feira e domingo, das 9h às 20h.

No tocante aos promotores deste projecto, a Associação +853, fundada em Macau em 2006, promove actividades anuais em Macau e em Portugal. A conexão à zona do Delta do Rio das Pérolas começou em 2015, e não faltam eventos no Brasil, organizados a partir de 2018. Esta mostra foi responsável por organizar 15 edições do festival “This is My City”, em Macau.

No caso do projecto “Tomorrow’s Heritage”, desenvolvido em parceria com esta associação, conta com várias personalidades do mundo da arte, cultura e design e visa desenvolver “uma visão intercultural que questiona as possibilidades utópicas de legados futuros, além de cruzar patrimónios culturais seculares de duas regiões: a Grande Baía, na China, e os Países de Língua Portuguesa”.

4 Nov 2026

Evandro Carvalho, docente na UPM: “Há resistência à presença brasileira”

Depois de temporadas de ensino e investigação na China, o académico brasileiro e especialista em Direito Internacional Evandro de Carvalho reforçou os quadros docentes da UPM. Em entrevista, analisa as relações China-Brasil com Lula da Silva e denuncia “resistência” à maior presença brasileira no território

É professor na Universidade Politécnica de Macau (UPM) há pouco tempo, depois de um percurso académico na China. O que o motivou vir trabalhar para a RAEM?

Morei em Xangai durante três anos, de Fevereiro de 2013 a Dezembro de 2015. Essa foi a minha primeira temporada na China. Depois fui o que chamam de primeiro “Foreign Senior Expert” do Centro BRICS da Universidade de Fudan, também em Xangai. Tudo isso ampliou bastante a minha compreensão sobre a China. Voltei para o Brasil de 2016 a 2019. Deu-se a pandemia, fiquei no Rio de Janeiro, voltei em 2023 para Pequim para mais um ano académico. Quando voltei de Xangai, em Dezembro de 2015, encontrei um Brasil em processo inicial de desfiguração.

Em que sentido?

Ocorreu o “Impeachment” da Dilma Rousseff, com a acção gradual, mas rápida, da extrema-direita. Tivemos, nos anos da pandemia, o primeiro Governo de Bolsonaro, que politicamente entrou em atrito com a China e abraça o discurso de Trump, referindo-se ao “vírus chinês”. As pessoas estavam a desenvolver um trabalho, e no meu caso tinha um vínculo, que mantenho, com a Universidade Federal Fluminense, onde sou professor de Direito Internacional. Tinha ainda um vínculo à Fundação Getúlio Vargas, onde criei, em 2017, um centro de estudos sobre a China. Mas nos anos da pandemia, que coincide com os anos de Bolsonaro como Presidente, esses temas começam a sofrer uma certa hostilidade da população, de uma parte dos apoiantes em função desse combate político. Aí decidi passar um ano fora, em Pequim, para perceber o que estava a acontecer.

Acha que investigar a China era uma actividade pouco compreendida?

Em primeiro lugar, há um uso político interno do tema China. O alvo do Bolsonarismo, quando falava da China ou do comunismo, era, na verdade, a esquerda brasileira. A China acabou por ser um pouco “vítima” dessas disputas políticas internas. Já existia então uma visão muito estereotipada da China, cheia de preconceitos, muito herdada do período da Guerra Fria. Isso é até estimulado por Trump. Criou-se um ambiente complexo para se trabalhar com autonomia temas complexos. Digo sempre isto: ninguém explica a China em 130 caracteres, que era o slogan do antigo Twitter. A China é um tema com uma complexidade tão fascinante e desafiadora que qualquer afirmação sobre o país, em qualquer assunto, inclui sempre um “mas”, um “porém”. Num ambiente cada vez mais polarizado, não se permitem essas ponderações. Então voltei para a China para terminar o meu livro.

“China: Tradição e Modernidade na Governança do País”, lançado no ano passado.

Sim. Depois voltei para o Brasil e queria ficar algum tempo, e aí surgiu o convite do então reitor da UPM, Marcus Im. Hesitei se deveria vir, porque tinha comprado casa no Brasil há pouco tempo, mas acabei por aceitar.

Porquê?

Depois de ganhar o Prémio de Amizade do Governo Chinês, em 2023, comecei a perguntar-me como seria esse novo ciclo tendo em conta a nova realidade política no Brasil e a nível internacional. Isto porque o terceiro mandato [de Xi Jinping] é o momento em que vemos [uma mudança], na agenda, relatórios do Governo, Planos Quinquenais, uma mudança dramática. Isso era algo gradual, mas até a questão da tecnologia não era tão forte como é hoje. Pensava então no que ia fazer, e como ia ser o contexto do Brasil tão polarizado. Então o convite de Macau acabou por ser interessante, mas interessou-me também o projecto da Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin. Vejo também, naturalmente, a componente da língua portuguesa em Macau e pensei que seria uma forma de trazer o Brasil para essa agenda. Há aqui uma cultura jurídica portuguesa, embora as coisas estejam a mudar muito rapidamente. Enfim, pensei que podia ser o início de um novo ciclo, sabendo que o Brasil não é muito activo no Fórum Macau. Pensei que poderia ajudar nesse contexto todo. Como investigador também me interessa como vai ser esse processo de integração cada vez maior de Macau como a China.

E o que pensa desse processo?

É uma forma de dar um recado a Hong Kong, mostrando que as coisas em Macau estão bem, e também para Taiwan. Acho que o Governo Central quer que tudo isso dê certo em função desses contextos, tendo em conta a chegada do centenário da República Popular da China. O projecto da Cidade Universitária em Hengqin é fantástico. Tudo isso fez com que tenha vindo. Vivi e gosto muito da China, mas Macau é uma cidade pequena e tem as suas especificidades. Sempre quis, como investigador, entender isso.

Como acha que ficam as relações entre a China e o Brasil com a vitória de Lula da Silva?

Torci pelo Lula. A primeira volta foi uma grande surpresa para o Lula e todo o campo progressista, pois as sondagens diziam que estava à frente com uma pequena margem. O primeiro Governo de Jair Bolsonaro foi, politicamente, um desastre nas relações com a China. Do ponto de vista económico, a balança comercial continua a crescer até hoje. Se Flávio Bolsonaro tivesse ganho, haveria um esfriamento na participação brasileira nos BRICs. Mas há aqui uma questão interessante. Penso que existe no Brasil o consenso, tanto à direita como à esquerda, de querer que o país tenha um maior papel ao nível das relações internacionais. O que muda é a abordagem.

Como?

Para a esquerda é através do fortalecimento dos BRICS, do Novo Banco de Desenvolvimento, do G20. Para a direita é o G7, mas preservando os BRICS. Para uma certa extrema-direita ou uma direita mais, digamos assim, “americanizada”, essa inserção é tanto maior quanto for a conexão do Brasil aos EUA, o que não acredito que seja o melhor caminho. Tudo o que foi dito por Flávio Bolsonaro e o seu irmão Eduardo, e até pelo próprio pai, mostra como o Brasil teria um Governo alinhado, para não dizer submisso, aos interesses americanos.

Falou na ligação afastada entre o Brasil e o Fórum Macau. Como explica isso? Pode haver uma mudança?

Essa é uma pergunta que faço até agora e não tenho resposta. Para a ter ia precisar de uma pesquisa profunda, não sei quantas entrevistas. Mas essa é uma das coisas que estou a pensar fazer, ajudar na compreensão desse problema. Converso com pessoas, diplomatas do Brasil, e percebo que a presença de brasileiros em Macau é muito pequena. Esse é um factor importante, porque também não há muita procura ou ideias, ou até pressão de interesses junto do Consulado brasileiro. Já ouvi outro factor, é que a diplomacia brasileira encarou o Fórum Macau como uma espécie de entrada na China, mas numa área que o Brasil acha que a China não se deveria meter, ou envolver tanto, que é a CPLP. Outro ponto que também me parece importante é o facto de as relações de parceria entre Brasil e Macau serem muito baixas, tanto na área do comércio como no ensino superior. Mas também são baixas porque as pessoas e as autoridades de Macau têm uma compreensão mínima sobre o Brasil. Não vão lá, acham que é um país com uma violência insana nas ruas, com tiroteios. Há uma série de preconceitos, e assim fica difícil. Além disso, as redes de relacionamento e de compreensão do mundo estão muito ligadas a essa relação Macau-Portugal, o que é normal. Acho que essa situação não é boa para o Brasil nem para Macau, não é boa para o Fórum Macau e até para a presença da língua portuguesa. Mas acho que há também uma certa resistência, de uma parte dos portugueses, à presença brasileira em Macau. Isso também precisa ser investigado.

Como explica essa resistência?

Talvez pela concorrência, porque ainda há aquela conversa de que o português do Brasil não é o português de Portugal. É um conjunto de factores e tudo isso tem de ser tido em conta. Há uma certa resistência dos portugueses e depois há os brasileiros que acham Macau pequeno e sem muito interesse. E entende-se que a China criou o Fórum Macau para entrar num território que não era bem aquele que deveria ter. Cada lado tem as suas questões. Mas acho que o Brasil deveria aproximar-se mais de Macau.

Como?

Para quem estuda a China é muito importante perceber esse lado da história das relações com Portugal. O Brasil tem a sua complexidade, é um país de muita emigração, e no Sul há mais italianos ou alemães do que brasileiros, e Portugal nem entra nesse radar. É interessante andar aqui de autocarros e ouvir português, ver anúncios em português. É um activo que a China soube utilizar. Não se fez o regresso da administração do território e apagou-se tudo o que era português – a China não fez isso e foi muito inteligente. E é um erro o Brasil colocar os dois pés atrás em relação à China e ao Fórum Macau. O Brasil podia caminhar lado a lado com Portugal e a China, fazer projectos conjuntos, ser mais activo.

Quando fala da resistência de portugueses, fala de quem concretamente? Da comunidade portuguesa, do Governo em Portugal?

Talvez a comunidade portuguesa, pessoas que estão aqui há muito tempo. Do Governo português, não sei. Não podemos generalizar sobre estes assuntos, mas quando ouvimos uma história de um brasileiro, e tendo em conta comentários que ouço, percebo que há coisas que têm de ser esclarecidas. Acho que o Brasil é um vector de fortalecimento do idioma português. O Brasil faz muito pouco, quase nada, na promoção do idioma português. É Portugal que envia professores para cá e para universidades da China, e é importante que isso seja dito. A política de promoção da língua deve-se uns 90 por cento a Portugal, o que é formidável. O Brasil meio que lava as mãos.

4 Nov 2026

MyLand Culture | Exposição de trabalhos da infância para ver no espaço Riverside

A terceira exposição de arte infantil “Coisas de que Não Me Esqueço 2026 – Oceano de Memórias” pode ser vista na zona da Barra, espaço Riverside, até ao dia 27 de Novembro. A mostra “multissensorial e interactiva”, promovida pela associação MyLand Culture, explora as memórias daqueles que nasceram já na era digital, promovendo a criação artística sem recurso aos ecrãs

Pode ser vista até ao dia 27 de Novembro a terceira edição do projecto “Things I Can’t Forget 2026 – Ocean of Memories” [Coisas de que Não Me Esqueço 2026 – Oceano de Memórias], promovida pela associação MyLand Culture. A mostra, patente no espaço Riverside, situado no número 291 da Rua do Almirante Sérgio, na Barra, explora as “memórias reais de mais de 20 jovens artistas da ‘Geração Alpha'”, ou seja, os que nasceram já na era digital, a partir de 2010. Os artistas presentes neste colectivo têm entre seis e 14 anos.

Segundo um comunicado da MyLand Culture, trata-se de uma “exposição multissensorial e interactiva” que tem como tema “Oceano de Memórias”.

Explora-se, através da arte, “o universo interior da ‘Geração Alpha’ – os chamados nativos digitais, nascidos a partir de 2010 e habituados à utilização constante de ecrãs e a respostas imediatas”.

“Numa época em que a tecnologia digital se tornou tão natural como respirar, o projecto coloca uma questão essencial: quando a tecnologia passa para segundo plano e o ritmo da vida abranda, que memórias emergem das experiências físicas e emocionais autênticas destas crianças?”, questiona a associação.

Estas obras nasceram de oficinas de arte realizadas no Verão, durante dois meses, tendo artistas e educadores acompanhado os jovens em diversas actividades. Uma delas, “A Minha Cidade! Instalação Artística dos Cinco Sentidos”, foi orientada por Dian Long; enquanto que “A Minha Vida! Pensamento e Criação de Videoarte” contou com coordenação do actor Pak Hou Wong.

O público pode ver 20 obras de arte que resultam de “20 pontos de memória” diferentes, como a instalação interactiva de vídeo intitulada “Espaço do Caracol” ou ainda a instalação “Praça do Lilau”, que inclui a projecção do filme de dança “Memórias Borbulhantes”.

Nesta mostra da MyLand Culture há ainda para ver a instalação interactiva “A Forma dos Sons” e “uma área de instalações sensoriais dedicada às memórias olfactivas”, é explicado.

Obras em Chengdu

Pal Lok Chok, fundadora da associação MyLand Culture, e também curadora deste projecto, considera que “através do olhar puro e atento destas crianças esperamos que esta viagem multissensorial desperte a criança que existe dentro de cada visitante, proporcionando uma pausa acolhedora e revigorante na rotina do quotidiano”.

Uma das novidades desta mostra passa pela apresentação de algumas das obras em Chengdu no próximo ano, no Festival de Arte Infantil iSTART. Este é, segundo a MyLand Culture, “um projecto nacional de grande dimensão dedicado à educação estética nos domínios público e social”.

A mostra faz-se acompanhar de diversas oficinas para o público jovem interessado na arte. Este sábado, 7, acontece a “Oficina de Leitura de Livros Ilustrados” com orientação do poeta e mentor de filosofia para crianças Daxiang Lin (Xiangjun Lin). Pretende-se analisar o livro “O Gato que Viveu um Milhão de Vidas”, sendo esta oficina pensada para crianças dos 8 aos 12 anos. Destaque ainda para a realização, no mesmo dia, da oficina “A Forma dos Sons”, com orientação de Dian Long. No dia 22 de Novembro é a vez de Mary Wong, educadora de dança, orientar a oficina “O Corpo no Momento”, pensada para crianças dos 8 aos 12 anos. Pretende-se aqui que estas crianças tomem “consciência da sua presença física e expressem, através do movimento, as memórias e imaginação sobre a vida”.

3 Nov 2026

FDC | Governo aceita candidatos a cinco planos de apoio financeiro

O Fundo de Desenvolvimento da Cultura (FDC) lança cinco planos de apoio financeiro com o objectivo de “promover o desenvolvimento cultural de Macau”.

Segundo um comunicado do FDC, o processo de candidatura para alguns destes apoios começa hoje, nomeadamente para o “Plano de Apoio Financeiro para Estágios do Pessoal Administrativo na Área Cultural e Artística de 2027”.

Para esta medida as candidaturas decorrem até ao dia 20 de Novembro, podendo concorrer “associações artístico-culturais ou empresas comerciais elegíveis de Macau”. O FDC explica que “a quota de apoio financeiro é de 80, incluindo um máximo de 70 para a categoria das associações e um máximo de 10 para a categoria dos empresários comerciais”.

Na área das indústrias culturais existem três planos de apoio, nomeadamente o “Plano de Subsídio à Criação de Amostras de Design de Moda” que já vai na 14.ª edição, e cujo prazo de candidaturas também começa hoje e vai até 2 de Dezembro deste ano. Também hoje, arrancam as candidaturas para o “Plano de Apoio Financeiro para a Promoção de Marcas de Espectáculos Culturais de 2026″, com o prazo a ser estendido até 30 de Dezembro deste ano.

Por sua vez, o Plano de Prémios para a Área Cinematográfica e Televisiva de 2026” aceita candidaturas de 17 de Novembro a 4 de Dezembro. Na mesma nota, é referido que o FDC decidiu melhorar o “Plano de Apoio Financeiro para a Beneficiação de Edifícios Históricos de 2026”, incluindo, assim, “projectos de segurança contra incêndios e de segurança eléctrica”. Neste caso, as candidaturas podem ser feitas até 13 de Novembro de 2026.

30 Out 2026

Livraria Portuguesa | Exposição de Mónica Coteriano explora mudanças de Macau

Pode ser vista até 15 de Novembro a nova exposição de instalação e fotografia de Mónica Coteriano, fundadora da 10 Marias – Associação Cultural. Em “Monochrome”, são exploradas as profundas transformações que Macau tem atravessado nos últimos anos espelhadas em rostos e objectos, numa conjugação da memória com algum sentido de humor

Mónica Coteriano, fundadora da 10 Marias – Associação Cultural, apresentou esta terça-feira “Monochrome”, uma nova exposição de instalação e fotografia patente na Livraria Portuguesa até ao dia 15 de Novembro. Segundo um comunicado, o público pode ver “uma instalação com humor sobre memória e transformação” do território. Para contar esta história, Mónica Coteriano juntou “um conjunto de obras onde são revisitadas pessoas, lugares, linguagens e hábitos de Macau, cruzando fotografia, colagem, objectos, luz e participação do público”.

O território é, assim, apresentado como um “espaço de memória, mudança e algumas contradições”, tratando-se de uma exposição onde Macau é olhada “a partir de situações aparentemente simples: o rosto de quem já não se volta a ver, uma loja antiga, uma placa de rua, um jogo de damas, uma garrafa de cerveja ou a neblina que esconde a Torre de Macau”.

Mónica Coteriano não pretende, com “Monochrome”, construir uma “visão monumental ou definitiva da cidade”, mas sim trazer ao público “uma narrativa feita de fragmentos”.

“As obras recuperam presenças e gestos do quotidiano, confrontam as transformações urbanas e reflectem sobre as marcas deixadas por diferentes culturas, línguas e gerações. O humor e a ironia atravessam a instalação, não como simples efeitos cómicos, mas como formas de olhar para aquilo que desaparece, permanece ou se transforma”, revelam-se no mesmo comunicado.

Percurso de memória

A primeira etapa da mostra explora “a memória como forma de resistência à ausência”. Uma das histórias exploradas é a de um alfaiate que teve uma loja na Rua dos Mercadores. Mónica Coteriano pegou nela, recuperou “uma figura da vida quotidiana de Macau e transformou essa fotografia numa homenagem e lugar de permanência”.

Esta obra em particular “preserva não apenas um rosto, mas também o seu sorriso, aberto, generoso e luminoso, que se torna o ponto de partida para uma reflexão sobre os ofícios, lojas antigas e relações discretas que compõem a memória colectiva da cidade”.

Outro tema abordado em “Monochrome”, é a linguagem e herança colonial, explorados “com humor” na obra “O poder da língua já não é o que era”. Aqui coloca-se “em tensão” o lugar da língua portuguesa no território, sendo presença em “placas de ruas e nomes de lugares”. Porém, revela-se o contraste pelo facto de não ser um idioma falado no dia-a-dia em Macau.

“A fotografia de um caracter chinês que significa ‘para sempre’ acrescenta uma camada irónica e poética: de um lado, uma língua histórica cuja influência já não é a mesma; do outro, uma palavra que promete uma permanência absoluta. Entre a língua viva e a língua inscrita, a peça questiona o que fica verdadeiramente na memória de uma cidade”, é explicado.

Há ainda obras que “confrontam o visitante com diferentes formas de olhar”, como é o caso de “Ignora a realidade”, com “um tubo que obriga a observar através de um enquadramento estreito, no fundo do qual surge a frase que dá título à peça”.

Aqui, o visitante “torna-se voyeur e vê as fotografias dos casinos a partir de uma posição simultaneamente curiosa e clandestina”. Permanecem “o brilho, o desejo, o risco e a promessa de uma realidade diferente que entram em conflito com a ordem para ignorar aquilo que está diante dos olhos”. “Ignora a realidade” coloca-nos uma questão: “se ignoramos realmente a realidade ou se apenas escolhemos cuidadosamente o que queremos ver”.

Monochrome constitui “um retrato de Macau feito de presenças frágeis e persistentes”, onde o território “aparece como arquivo vivo, lugar de conflito entre o antigo e o novo”. Macau surge também como um lugar “onde as memórias pessoais se cruzam com a história colectiva”.

Nesta exposição, “as obras não procuram fixar Macau numa imagem única”, revelando “uma cidade que se reinventa, que esconde e expõe, que conserva vestígios e produz novos símbolos”. Mónica Coteriano diz recorrer “ao humor, ironia e participação” para contar todas estas mudanças. O visitante é convidado “a olhar de novo para aquilo que parece familiar”.

Observa-se, num jogo permanente de contrastes, “a ausência e permanência, a língua e inscrição, a realidade e ilusão, o lamento e riso”. “Monochrome” faz-nos pensar o que “ainda conseguimos reconhecer numa cidade em transformação, e que parte dessa cidade continua, afinal, a viver dentro de nós”.

29 Out 2026

Glenn Mccartney, professor universitário: “Existem desafios ao aumento de visitantes”

Docente da Universidade de Macau e especialista na área do Turismo, Glenn Mccartney foi orador da palestra “International Visitor Appeal: Putting Macao on the World Stage”, promovida ontem pela Câmara de Comércio França-Macau. Em entrevista ao HM, o académico diz ser importante “alargar o potencial de captação de turistas internacionais”

O Governo tem investido recursos na promoção de Macau enquanto destino turístico para visitantes internacionais. Considera que este investimento está a produzir resultados concretos, ou é necessário fazer mais?

Os visitantes internacionais representam cerca de 7 por cento do total. Falei, na minha apresentação, sobre a importância de fazer uma análise retrospectiva das últimas duas décadas, quando foram desenvolvidos esforços de marketing e promoção em mercados turísticos internacionais. A questão passa por perceber o que é preciso alterar, por exemplo, ao nível das mensagens transmitidas, dos produtos e serviços turísticos. É necessário reconhecer que nem tudo o que Macau tem para oferecer irá atrair ou despertar o interesse dos turistas internacionais. Dar a conhecer a cidade é uma coisa, conseguir motivar uma visita é outra.

Como contornar esse problema de comunicação?

É necessário identificar e avaliar, com estudos, os aspectos em que Macau se distingue na capacidade de atrair visitantes pela primeira vez, ou no incentivo de visitas repetidas, tendo em conta os factores que levam alguém a visitar a cidade pela primeira vez, e que podem ser diferentes daqueles que motivam quem regressa várias vezes. É, assim, importante dar prioridade às mensagens turísticas que funcionam e, em seguida, adequar recursos humanos e financeiros, a estratégia, formação e necessidades de marketing. É ainda fundamental o estudo da visibilidade e reconhecimento de Macau nos mercados turísticos internacionais que se pretende alcançar, incluindo a percepção da imagem da cidade enquanto marca turística. É importante realizar estudos junto de potenciais visitantes desses mercados para perceber o que os leva efectivamente a visitar Macau, seja por lazer ou em negócios. Esta abordagem pode fornecer dados valiosos para orientar futuras estratégias de promoção da cidade. Falei também da “comunicação integrada de marketing”, que engloba a diversidade de ferramentas e acções promocionais disponíveis.

De que forma isso se relaciona com a realidade local?

O desafio consiste em destacar Macau num contexto de elevada concorrência, tanto regional como internacional, marcado pela multiplicidade de destinos, imagens, mensagens e campanhas promocionais. Para isso, é necessário recorrer a abordagens criativas, como a criação de “narrativas” sobre a cidade, e avaliar os resultados alcançados.

Outra ideia que abordou foi o possível aproveitamento da imagem cinematográfica de Macau para potenciar a cidade como destino turístico.

Tendo em conta o número de filmes produzidos em Macau ou que utilizam a cidade como cenário, referi o sucesso do turismo cinematográfico noutros destinos, enquanto estratégia para atrair públicos internacionais. Mas também a importância de acompanhar as tendências do turismo internacional e de reagir rapidamente às mudanças. Por exemplo, o conceito de “coolcation” está em voga e atrai visitantes que procuram destinos com climas mais frios, uma tendência que Macau poderá aproveitar nos próximos meses, quando as temperaturas forem mais baixas.

Sobre a internacionalização do turismo. Macau tem-se tornado, de facto, um território mais internacional, ou as coisas pouco mudaram na prática?

Existem desafios ao aumento do número de visitantes internacionais, mas também há medidas concretas que podem ser tomadas para os ultrapassar.

Que medidas destaca?

A necessidade de definição de uma estratégia que permita concretizar os planos de Macau e mudar a perspectiva: em vez de perguntar “quantos turistas virão a Macau?”, devemos perguntar “como podemos transformar o crescimento da procura turística em visitas de maior valor, tanto em termos de despesa como de experiências, estadias mais longas, visitas repetidas e recomendações positivas de Macau através do passa-palavra electrónico (e-WOM [Electronic Word-of-Mouth])?”. No fundo, trata-se de converter o crescimento do número de visitantes em crescimento das receitas dos sectores do turismo e da hotelaria. Deve-se compreender as experiências e expectativas actuais dos visitantes de Macau, obtendo informações valiosas que contribuam para a definição de uma estratégia de atracção de turistas internacionais. Ao abordar a importância da colaboração entre sectores público e privado, referi a possibilidade de criar um grupo de reflexão dedicado ao turismo.

Como iria funcionar esse grupo?

Poderia reunir um pequeno grupo de pessoas com diferentes competências, conhecimentos e experiências, onde poderiam estar representantes do Governo e resorts integrados, especialistas em planeamento urbano, geógrafos, peritos em turismo, economistas, ambientalistas, líderes comunitários, operadores de transportes, profissionais da hotelaria, entre outros. A partilha de recursos e conhecimentos permitiria aumentar a eficiência e orientar melhor as acções, ou ainda ajudar a interpretar políticas públicas, aconselhar sobre a sua formulação e os seus potenciais resultados, bem como criar condições para partilhar estudos e estratégias com a comunidade e com os setores público e privado.

O Governo tem demonstrado vontade de criar zonas pedonais. Considera que têm sido eficazes? Como podem ser desenvolvidas de forma sustentável e articulada com o resto do território?

Tem-se discutido, em Macau, o conceito de “cidade de 15 minutos”, com um modelo de planeamento urbano que iria permitir aos residentes chegar ao trabalho ou escolas em 15 minutos. Este conceito também poderia ser aplicado aos turistas. As zonas pedonais podem, sem dúvida, desempenhar um papel importante neste modelo e beneficiar pequenas e médias empresas (PME) ao aumentar a circulação a pé. Também podem ser introduzidas iniciativas inovadoras, incluindo espaços comerciais temporários (pop-up) ou acções de promoção de eventos culturais e desportivos na cidade. Outra possibilidade seria criar espaços interactivos temporários nas zonas pedonais, envolvendo residentes e turistas em actividades que reforcem a participação comunitária e enriqueçam a experiência dos visitantes. Perante qualquer iniciativa deste género, devemos ouvir as opiniões dos interessados, testar soluções-piloto e recolher comentários e sugestões. É o que está a ser feito, por exemplo, com o actual regime de licenciamento de esplanadas em Macau. Além da restauração, as zonas pedonais podem proporcionar experiências imersivas através da decoração dos espaços, da instalação de exposições de arte e elementos culturais, da realização de espectáculos ao vivo e da articulação com grandes eventos organizados noutras partes da cidade. Também falei do desenvolvimento de uma economia nocturna e factores que podem influenciar o seu crescimento. Então, as zonas pedonais poderiam integrar esta estratégia, com a criação de mercados nocturnos, restaurantes, bares, lojas e estabelecimentos de venda de lembranças, concertos e actuações culturais ao vivo. Mas falei também, na apresentação na Câmara de Comércio, da importância de reforçar a investigação.

Falta sustentação de políticas?

[Importa] Fundamentar as decisões em dados concretos. Isto aplica-se à avaliação dos impactos e resultados de diferentes iniciativas turísticas, como eventos desportivos ou culturais, mas também a questões como a capacidade de carga turística, a mobilidade, os recursos humanos, a formação e as necessidades de recursos. A investigação poderia incidir sobre diferentes perfis demográficos de visitantes, distinguindo entre quem visita Macau pela primeira vez e quem regressa, procurando perceber se os turistas tencionam voltar e recomendar o destino a outras pessoas, que conteúdos publicam nas redes sociais, quais os seus padrões de despesa e como avaliam a experiência ao longo de toda a sua jornada enquanto clientes. Outro ponto fundamental é o das infra-estruturas e da acessibilidade, que deverão integrar a estratégia de atracção de visitantes internacionais, incluindo o desenvolvimento aeroportuário. Um dos desafios consiste em alargar o potencial de captação de turistas internacionais além do Aeroporto Internacional de Macau, aproveitando também as possibilidades oferecidas pela rede de aeroportos da Grande Baía, que inclui o Aeroporto Internacional de Hong Kong, o Aeroporto Internacional de Guangzhou Baiyun, o Aeroporto Internacional de Shenzhen Bao’an e o Aeroporto de Zhuhai Jinwan. [É importante pensar] na forma como se pode ter mais articulação com o sector hoteleiro de Hengqin, que poderia beneficiar a estratégia de atracção de visitantes internacionais.

29 Out 2026

Bombeiros | Saídas de ambulâncias aumentam quase 7 por cento

Dados do Corpo de Bombeiros (CB) ontem divulgados revelam uma subida no número de casos que obrigaram à saída de ambulâncias. Segundo um comunicado, entre os meses de Janeiro a Setembro deste ano registou-se um total de 35.895 saídas de ambulâncias, mais 2.137 casos face a igual período de 2025, um aumento de 6,33 por cento.

O CB explicou que grande parte das saídas de ambulâncias se deveu a situações de “tontura, dor abdominal, dificuldades respiratórias, vómitos, febre e vários tipos de ferimentos”. Foi ainda deixado um alerta para a importância do “uso cauteloso dos serviços de primeiros socorros, a fim de deixar os recursos de primeiros socorros de emergência às pessoas com necessidade”.

Em termos gerais, o CB teve mais casos: 41.998, mais 5,28 por cento em relação ao período compreendido entre Janeiro e Setembro de 2025. No tocante aos casos de incêndio, também houve um aumento: nestes meses, registaram-se 680 episódios, mais 59 casos face a 2025. Trata-se de um aumento de 9,5 por cento.

“As principais causas dos incêndios deveram-se ao esquecimento de desligar os fogões, à deixa de chamas não totalmente extintas, à queima de incensos e velas/papéis votivos, ao curto-circuito das instalações eléctricas e às falhas mecânicas/de equipamentos”, é explicado. Estes cenários levaram à ocorrência de 441 casos, representando 64,85 por cento de todos os casos de incêndio.

28 Out 2026

Operação Trovoada | Quase três mil pessoas identificadas

A “Operação Trovoada 2026” levou a que 2.707 pessoas tenham sido sujeitas a identificação por parte das autoridades policiais, no âmbito de acções de fiscalização feitas entre a noite do dia 24 e a madrugada do dia 25 de Outubro.

Das pessoas sujeitas a identificação, 41 “foram conduzidas à Polícia para efeitos de averiguações”, sendo que cinco homens com nacionalidade chinesa estavam em excesso de permanência em Macau.

Segundo um comunicado dos Serviços de Polícia Unitários, houve colaboração com autoridades das regiões vizinhas nas acções de inspecção a bares e casinos, entre outros locais, com o destacamento de 370 agentes e seis equipas cinotécnicas. Os Serviços de Alfândega (SA) utilizaram duas embarcações de patrulha, seis lanchas rápidas e a equipa de drones.

Os SA interceptaram, no mesmo período, cinco embarcações e 14 pessoas, não tendo sido detectada qualquer infracção. De destacar que a primeira fase da “Operação Trovoada 2026” decorreu entre os dias 4 de Julho e 8 de Agosto, tendo sido mobilizados 8.800 agentes. Nesse período, mais de 51.489 indivíduos foram sujeitos a identificação, entre os quais 566 indivíduos que foram encaminhados aos órgãos judiciários “para efeitos de acusação por envolvimento em ilicitudes”, é referido na mesma nota. A segunda fase da “Operação Trovoada 2026” começou a 9 de Outubro.

28 Out 2026

IA | Relatório da Web Summit prevê redução de equipas e perda de empregos

O relatório “State of the Industry 2026: AI Edition” revela posições contraditórias de quase 1.500 profissionais do sector tecnológico quanto ao impacto da inteligência artificial. Se 33 por cento acredita na perda de empregos, 39 por cento prevê aumento. Mais de metade diz que a IA ajuda ao pensamento crítico

 

No “primeiro inquérito da Web Summit” sobre os impactos da inteligência artificial (IA) no sector tecnológico, as posições de 1.455 criadores de empresas ou engenheiros de software são contraditórias face aos impactos reais da IA no mercado de trabalho. Há quem acredite na perda de empregos, mas também há quem encare a IA como uma forma de reforçar o pensamento crítico ou mesmo numa alavanca para o aumento do número de profissionais no sector no espaço de dois anos.

Estas são algumas das conclusões do “State of the Industry 2026: AI Edition” [Estado da Indústria 2026: Edição IA], um documento que “revela divisão de opiniões em relação à IA”, conclui a Web Summit em comunicado. Há 42 por cento dos inquiridos a referir que a chegada da IA vai levar a uma redução de equipas nas empresas, enquanto 33 por cento acredita que a IA cortar postos de trabalho no espaço de dois anos. Porém, 39 por cento dos inquiridos acreditam que “o número de trabalhadores na sua área vai aumentar nos próximos dois anos”.

Descreve a mesma nota que “as perspectivas são mais negativas no que diz respeito aos empregos de entrada”, ou seja, de primeiro acesso ao sector. Isto porque “42 por cento antecipa uma diminuição de oportunidades, percentagem que sobe para 50 por cento entre os inquiridos que ocupam cargos de topo na gestão executiva”. Por sua vez, “os estudantes constituem uma excepção, com 55 por cento a prever um aumento” de vagas.

De destacar a opiniões de um consultor e director de serviços, oriundo da América Latina, que refere a “maior oportunidade da IA: acelerar processos”. Pelo contrário, o “risco” é a “perda massiva de empregos”.
Outro inquirido, também da América Latina e ligado à área dos média, considera que a “maior oportunidade da IA é quebrar barreiras linguísticas e permitir que criadores e comunidades de todo o mundo se liguem, comuniquem e cresçam em tempo real”.

O inquérito traz ainda perguntas sobre o volume de trabalho com a chegada da IA, e também aqui as posições são contraditórias. “A IA não está a reduzir a carga de trabalho”, aponta a Web Summit, já que “60 por cento afirma que a IA aumentou a carga de trabalho”. Porém, “20 por cento consideram que a IA reduziu” a quantidade de trabalho a produzir.

É ainda explicado que “o aumento é mais expressivo nos sectores directamente ligados à IA, com destaque para a área das infra-estruturas de inteligência artificial e aprendizagem automática (IA/ML), onde chega aos 70 por cento”.

Uma “visão positiva”

Outros dados fazem referência à conexão entre a máquina e o humano. “A maioria tem uma visão positiva da IA, com 55 por cento a afirmar que esta reforça o seu pensamento crítico.”

“O debate público sobre a IA oscila entre alertas sobre a deterioração das capacidades cognitivas, a rivalidade entre modelos de código aberto e fechado e receios de uma perda massiva de postos de trabalho, mas a realidade dos profissionais do sector tecnológico é mais complexa”, lê-se no relatório.

Isto porque “a maioria afirma que a IA melhora o seu pensamento crítico, havendo quem considere que a tecnologia permite dedicar mais tempo a tarefas de maior responsabilidade”. Apenas 26 por cento considera que a IA “enfraquece” esse mesmo pensamento, enquanto 19 por cento “não identifica diferenças”.

Sem referir nomes, o relatório destaca algumas das opiniões dos inquiridos. Neste ponto da manutenção, ou não, do pensamento crítico, o fundador de uma empresa na área dos serviços e consultoria, da Europa, refere que existe “um risco das pessoas confiarem demasiado na IA, colocando em causa o pensamento crítico”.

Outro participante, da área de engenharia e serviços, também oriundo da Europa, destaca como a IA está a “acelerar a produção, aumentando as expectativas sobre o quanto podemos produzir”. “Mas as pessoas podem estar demasiado confiantes nessa produção, existindo também pouco tempo para rever tudo isso”, alertou.

O relatório destaca como “a maioria também reconhece que a IA aumenta a carga de trabalho”, já que “muitos estimam que equipas mais pequenas terão de dar resposta a esse aumento, reduzindo oportunidades para os profissionais em início de carreira.”

Neste rol de opiniões, “os engenheiros, responsáveis pelo desenvolvimento destas ferramentas, continuam a ser o grupo mais céptico”. Nidhi Naithani, vice-presidente sénior de Operações Tecnológicas da Web Summit, destaca como o estudo “deixa claro que as pessoas estão divididas quanto a um futuro com IA”.

“O que mais me surpreende, embora não seja inteiramente inesperado, é o feedback da nossa comunidade de engenheiros e programadores. Aqueles que têm a responsabilidade de desenvolver processos e sistemas destinados a tornar o trabalho mais fácil e rápido são precisamente os que mais se preocupam com a segurança no emprego.”

“Parece contraditório”, frisou, “mas, como os engenheiros e fundadores são, em geral, os responsáveis pelo desenvolvimento destas tecnologias e os seus primeiros utilizadores, são também quem melhor as compreende e quem acompanha de perto o seu impacto”, acrescentou Nidhi Naithani.

A responsável diz ainda “compreender os receios em torno da IA”. “Não considero que devam ser ignorados os alertas relativos à perda de postos de trabalho e ao impacto social das mudanças associadas à IA. Muitos dos fundadores e directores executivos que participaram neste inquérito defendem a criação de equipas mais pequenas, capazes de fazer mais”, frisou.

Nidhi Naithani alerta para o facto de “sectores importantes, como os meios de comunicação social, estarem particularmente expostos, uma vez que a IA está a transformar o ecossistema da informação”. Estão, assim, em causa “pressões crescentes que podem ter efeitos duradouros e potencialmente prejudiciais”.

Questões de quantidade

O inquérito realizado pela Web Summit colocou ainda questões sobre o investimento feito no sector – será muito ou pouco? Também aqui as opiniões dividem-se. “Poucos estimam um colapso do investimento em IA”, lê-se no documento, já que “apenas cerca de um em cada dez inquiridos acredita que o investimento em IA vai sofrer uma queda acentuada”.

Por sua vez, “um terço [dos inquiridos] considera que o investimento é excessivo e irá abrandar, embora de forma gradual”. Além disso, “uma proporção semelhante entende que a tecnologia ainda se encontra numa fase inicial e continuará a crescer”.

Os “profissionais que desenvolvem soluções de IA são os mais cépticos, pois mais de metade dos inquiridos das áreas de engenharia e desenvolvimento de produtos considera que o investimento já é demasiado elevado”, é ainda explicado.

A Web Summit realiza-se em Lisboa no próximo mês, entre os dias 9 e 12 de Novembro, reunindo mais de 70 mil participantes, provenientes de mais de 100 países, incluindo 10 mil startups. Espera-se a realização de uma cimeira pensada para o sector da tecnologia da China, tida como a “maior concentração de sempre de líderes tecnológicos chineses num evento tecnológico ocidental, com representantes de empresas como a Tencent e a Xiaomi, bem como da Pony.AI e da Manus”, descreve-se na mesma nota.

28 Out 2026

Exposição de Li Gang a partir de hoje na Ochre Space

A galeria Ochre Space, em Lisboa, projecto criado pelo advogado, fotógrafo e curador João Miguel Barros, inaugura hoje, a partir das 18h30, uma nova exposição, encerrando o ciclo de três exposições sobre o Ano do Cavalo do horóscopo chinês. Desta vez, o fotógrafo em destaque é Li Gang.

“Appearance and Abstraction” é a última mostra da Ochre Space deste ano e pode ser vista até ao dia 14 de Novembro. Segundo uma nota da Ochre Space, nesta exposição pode ver-se como o trabalho de Li Gang “explora as fronteiras entre a fotografia e o abstracto através de um tema inesperado: o cavalo”.

“Há mais de uma década que Li Gang dedica a sua prática fotográfica aos cavalos, passando da observação das suas vidas e comportamentos para representações cada vez mais poéticas e experimentais. Em ‘Appearance and Abstraction’, esta exploração segue uma nova direcção. Em vez de fotografar os cavalos como figuras reconhecíveis, aproxima-se tanto deles que as suas formas começam a desvanecer-se”, é explicado.

Neste projecto, Li Gang trabalha sobretudo entre o preto e o branco e ainda “tonalidades intermédias”, explorando “a relação entre presença e ausência, movimento e imobilidade, ocultação e revelação”. Observa-se uma “linguagem visual reúne as qualidades expressivas da arte tradicional chinesa e as possibilidades formais da abstracção ocidental”.

Nas imagens de Li Gang, “os cavalos a galope transformam-se em vestígios, com os seus corpos a desvanecerem-se na paisagem envolvente”; enquanto em outras fotografias os animais “permanecem imóveis, com os corpos encostados uns aos outros até que as formas individuais dão lugar a uma única composição”.

É aqui que se dá um toque quase poético, com o “branco das pelagens [dos cavalos] a fundir-se com a luz” e ainda “o negro das crinas que evoca os traços expressivos da caligrafia chinesa”. “Aquilo que, à primeira vista, poderá parecer uma imagem abstracta revela gradualmente a sua origem no mundo físico”, é acrescentado.

Sombras e imagens

Com esta exposição, a Ochre Space convida os visitantes a “olhar além do reconhecimento e da representação”, onde o “cavalo nunca desaparece verdadeiramente, permanecendo presente em cada curva, cada sombra e movimento, mesmo no momento em que a imagem parece transformar-se em algo completamente diferente”.

Nascido em Henan, na China, em 1947, Li Gang recebeu várias distinções pelo seu trabalho, incluindo o “Prémio Estátua de Ouro da Fotografia da China”, em 2009, a mais alta distinção do país nesta área. Entre as suas publicações contam-se, em 2016, “Reincarnation” e ainda o livro que dá origem a esta mostra, “Appearance and Abstraction”, publicado em 2019. Este trabalho foi ainda distinguido em 2020 pelo projecto “The Beauty of Books in China”.

27 Out 2026

Albergue SCM | Pedro Proença apresenta pinturas sobre Luís de Camões

É inaugurada amanhã “Amor e Entendimento, Luís Vaz de Camões – Exposição de Pedro Proença, Comemorações do Quinto Centenário”, no Albergue da Santa Casa da Misericórdia de Macau. O público pode ver uma série de 40 aguarelas influenciadas pela escrita daquele que é considerado o maior poeta português de sempre, autor de alguns dos mais belos e conhecidos poemas de amor

O poeta português Luís Vaz de Camões, autor de “Os Lusíadas”, obra maior da língua portuguesa, e de muitos sonetos de amor, é protagonista da nova exposição de pintura de Pedro Proença, inaugurada amanhã, quarta-feira, dia 28, na galeria A2 do Albergue da Santa Casa da Misericórdia.

“Amor e Entendimento, Luís Vaz de Camões – Exposição de Pedro Proença, Comemorações do Quinto Centenário” apresenta-se ao público a partir das 18h30, numa iniciativa do CAC – Círculo dos Amigos da Cultura de Macau.

São 40 obras em aguarela onde Pedro Proença interpreta o tema “Amor e Entendimento”, numa tentativa de tradução da “sensibilidade literária numa linguagem visual”. Convida-se, assim, o público a “descobrir o encanto singular do encontro entre a literatura portuguesa e a pintura”, aponta o Albergue SCM, em comunicado.

Pedro Proença cita as palavras do próprio poeta para justificar a temática. Camões escreveu um dia “E sabei que segundo o amor tiverdes / Tereis o entendimento de meus versos”, enunciando-se a “experiência necessária para entrar na ‘sua’ poesia”.

“Nesta exposição é a arquitectura do amor, tão platónico quanto erótico, que nos faz mover. Mesmo quando revisito episódios dos Lusíadas, que por diversas vezes ilustrei, é a doce cor de oriental safira (Dante) que viceja contra a retórica tronitonante e os maneirismos do épico – mais esgalhada, pincelada, aguarelada, rápida”, escreve Pedro Proença.

O artista assume que desde a adolescência que desenha e pinta com o “comum pincel chinês”, mesmo “quando em puro preto e branco imito, noutra escala, gravuras quinhentistas e seiscentistas”.

“Nos últimos seis anos enamorei-me da aguarela e das subtilezas desta técnica. Por vezes de um só gesto saem, como por magia, coisas muito concretas, o que ainda me surpreende”, acrescenta Pedro Proença.

Entre a Babilónia e o Sião

Camões, poeta que viveu entre os anos de 1525 e 1580, escreveu os “Lusíadas” que não é mais do que um longo poema que conta, em verso, a Epopeia dos Descobrimentos portugueses. Mas são conhecidos muitos dos seus sonetos de amor, como o célebre “Amor é fogo que arde sem se ver”, que nos traz os contrastes e contradições deste sentimento, que pode acarretar um “contentamento descontente” ou ser uma “ferida que dói e não se sente”.

Com recurso às tintas e aos pincéis, Pedro Proença transfere para a arte as interpretações destas palavras e poemas, nomeadamente do poema “Sôbolos rios que vão”, a “longa redondilha do fim da vida de Camões”, e que se apresenta na série “Babel & Sião”. “Embora não acompanhe o ‘pathos’ pessimista do poeta, sinto-me embriagado do estilo”, confessa.

“Nas composições arquitectónicas aqui presentes uso o tema para compor com o descalabro, o desequilíbrio, como se o pensamento fosse émulo do mundo, entre a catástrofe e o seu contrário, num equilíbrio difícil, e, no entanto, naturalíssimo”, acrescenta o artista na sua nota.

Em “Sôbolos rios que vão”, Luís Vaz de Camões olha para a sua vida passada, descrevendo como se encontrou na Babilónia e chorou sentado “as lembranças de Sião e quanto nela passei”. “Ali, o rio corrente / de meus olhos foi manado, / e, tudo bem comparado, / Babilónia ao mal presente, / Sião ao tempo passado”, descreve o poema.

Nascido em Lubango, Angola, em 1962, Pedro Proença vive e trabalha actualmente em Lisboa. Começou a participar em exposições colectivas em 1981 e realizou a sua primeira exposição individual em 1984. Desde então, apresentou exposições individuais em instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian (1994), o Frankfurter Kunstverein (1988) e a Galeria Camargo Vilaça (1988), entre outras. Mais recentemente, expôs no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em 2025. Esta mostra tem entrada gratuita e está patente até ao dia 6 de Dezembro deste ano.

27 Out 2026

Armazém do Boi | “Ambiente sonoro” de Macau contado por Berend Strik

Com que sons se faz Macau? Foi a esta pergunta que o artista holandês Berend Strik quis responder. A resposta surge agora com uma nova exposição a inaugurar hoje no Armazém do Boi, no antigo Matadouro Municipal, e intitulada “Stolen Light – Drawing the Sounds of Macau: Berend Strik”. Em entrevista, o artista diz, por exemplo, que o “som do cantonês é muito peculiar”

O Armazém do Boi inaugura hoje, a partir das 18h30 no antigo Matadouro Municipal, três exposições que nascem de residências artísticas feitas em Macau. Uma delas é a do artista holandês Berend Strik, protagonista da mostra “Stolen Light – Drawing the Sounds of Macau” [Luz Roubada – Desenhando os Sons de Macau], que esteve no território durante um curto período a perceber de que sonoridades este é feito.

A curadoria está a cargo de Liu Gang, tratando-se de uma mostra que traz uma panóplia de apresentações artísticas, com Zoe Tam Hio Tong a dar voz à música apresentada e Yasmijn Karhof no vídeo, num percurso desenhado entre a Santa Casa da Misericórdia de Macau e os casinos. A sinopse desta exposição revela que a “história de Macau não é apenas escrita pelos casinos modernos, mas está profundamente envolvida com narrativas de destino e escolha”.

“Durante a residência no Armazém do Boi, o artista holandês Berend Strik traduziu a paisagem sonora distinta da cidade – do som dos corredores dos casinos até aos sinos do centro histórico – em quinze partituras gráficas”, revelando-se um pouco da história de Macau e das próprias línguas que fazem parte do território.

Questionado, em entrevista ao HM, como o território se revela nesta mostra, Berend Strik explica que “escolher olhar para Macau pode ser comparado à história de um casal que se apaixona”.

“No fundo, todas as pessoas têm a mesma estrutura: nascemos e depois morremos. E, quando morremos, já não temos nada com que nos preocupar, é simplesmente o fim. Mas enquanto estamos vivos, temos de fazer o nosso melhor para tornar possíveis coisas belas e para concretizar aquilo que desejamos. No livro ‘City of Broken Promises’ [Cidade das Promessas Quebradas], há um casal cuja história começa com o amor e se torna complicada. Entretanto, acontecem coisas extraordinárias, e vão continuar a acontecer. Macau revela-se através da história de um casal ali viveu.”

Esta história acaba por contar também “a história da evolução da cidade”, numa narrativa “composta por 32 desenhos e apresentada em forma de libreto”. É aqui que Zoe Tam interpreta o libreto através do canto, “acompanhado por movimentos muito delicados”.

Berend Strik considera que este projecto pode revelar Macau ao público sob uma perspectiva diferente, desde que as pessoas “dediquem tempo a apreciar a actuação de Zoe Tam e observem com atenção os trabalhos têxteis e os desenhos expostos nas duas paredes”. Isto porque, no conjunto, “o projecto transmite uma forma de estar que combina humor, beleza e experiências significativas”.

Diversidade por entender

Berend Strik nasceu em 1960 na Holanda, vivendo actualmente em Amesterdão. Segundo uma nota do Armazém do Boi, o seu trabalho foca-se essencialmente no “significado das imagens”, sendo que “o som e a música mantiveram-se presentes em toda a sua carreira como um tema contínuo”.

Nas suas mãos as imagens são transformadas através dos tecidos e bordados, ganhando novas perspectivas e mensagens. No contacto com as sonoridades de Macau, o artista destaca como “as máquinas de jogo produzem sons por todo o lado, mas a questão está em criar um significado mais contextual para esses sons”.

“O som do cantonês é muito peculiar e parece difícil de compreender. Por vezes, é intenso, agudo e alto, parece que nada é aquilo que significa. Aprender verdadeiramente a língua exige muito mais tempo”, referiu.

“Sempre pensei que os sons são mais universais do que a linguagem. Basta pensar nos sons das máquinas de jogo. Escrever esses sons em inglês não significava que pudessem ser transcritos em cantonês. As línguas são muito diferentes. Pelo que percebi, não existem palavras ou sons que possam ser escritos em cantonês da mesma forma que em inglês. O cantonês tem mais tons diferentes do que o inglês. Foi assim que aprendi que, em cantonês, também é preciso ter aulas sobre os tons, para além de aprender o significado das palavras”, referiu, quando questionado sobre a paisagem sonora que encontrou na RAEM.

Para Berend Strik, “a diversade cultural torna tudo ainda mais complicado”, sendo que “uma cultura complexa e diversificada precise, talvez, de mais tempo e não possa ser apressada, e essa é a parte positiva”. Neste sentido, “Macau parece precisar de mais tempo para assimilar todas essas diferenças”.

A possibilidade de fazer uma residência artística em Macau surgiu depois de um projecto em Pequim. “Há cerca de 15 anos quis alargar horizontes e decidi, através de um amigo, que poderia ir para Pequim. Havia uma fábrica de madeira que tinha sido reconvertida por Sam e sua família, juntamente com a minha amiga Nina van Zinninnq Bergmann, criando-se um espaço específico para artistas no interior da fábrica. Eu fui a cobaia.”

Nascia assim o “W.O.W”, um “espaço dedicado a designers, artistas e arquitectura”, onde Berend Strik conheceu Liu Gang, artista e curador deste projecto agora revelado no Armazém do Boi. Outra mostra hoje revelada é a dos artistas Gu Wenjia e Pan Zishen, intitulada “Doube Helix: Macau Folded”, com curadoria de Zhang Ting.

Aqui, existe a metáfora da dupla hélice e da teoria da “dobra” de Gilles Deleuze, recursos usados para analisar as movimentações culturais em Macau. As obras dos dois artistas apresentam, assim, perspectivas de passado e de futuro, em conjugação.

O tríptico de exposições encerra-se com “Love in the South — In Limbo”, de Fang Lu & Arie Kishon, com curadoria de Wang Jing. As três mostras podem ser visitadas até ao dia 24 de Novembro de forma gratuita.

26 Out 2026

Português | Directora do IPOR defende “estratégia concertada” para a Ásia

Patrícia Quaresma, directora do Instituto Português do Oriente, defende “uma estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. A ideia foi partilhada na conferência “China Sessions”, no Centro Científico e Cultural de Macau, que analisou a “Geopolítica da Língua Portuguesa a Oriente”

A directora do IPOR – Instituto Português do Oriente – considera que há pontos a mudar na forma como a língua portuguesa se posiciona na Ásia em conjugação com outros idiomas. Ao falar na conferência “China Sessions – Geopolítica da Língua Portuguesa no Oriente: Desafios e Oportunidades para Portugal e para a CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, acolhida pelo Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) na última quinta-feira, Patrícia Quaresma defendeu a criação de uma “estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. Essa estratégia deve envolver, na sua óptica, “Portugal, os Estados-membros da CPLP, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e Macau, aproveitando as estruturas já existentes, em vez de criar novas”.

“Portugal, os restantes Estados-membros da CPLP, o IILP, as universidades, Macau e as próprias empresas actuam, muitas vezes, em paralelo. Uma estratégia comum para a língua portuguesa na Ásia ganharia escala e visibilidade se estas vontades fossem coordenadas”, justificou.

Em relação a Macau, a responsável entende que o território deve posicionar-se de uma forma diferente. Patrícia Quaresma referiu a necessidade de “reconhecimento de Macau como centro regional de formação de professores de português como língua estrangeira”, mas não só. A RAEM deveria também ser o lugar preferencial para a “produção de recursos didácticos para a Ásia”. Macau deve ser “plataforma de língua e não apenas de comércio”, defendeu. “O papel de Macau como ponte entre a China e os países de língua portuguesa é reconhecido no plano económico. Importa reforçá-lo também no plano linguístico, educativo e cultural”, apontou.

Patrícia Quaresma considerou que em Macau existe uma “comunidade de prática da língua, de instituições de ensino superior com oferta em português”, e ainda uma “experiência acumulada de mais de três décadas” no ensino da língua. Factores que fazem do território “um centro natural de formação, certificação e produção de recursos para toda a região”.

Ao HM, a directora do IPOR destacou o que deve ser melhorado no ensino de português nas escolas locais. Deve-se apostar na “definição de um programa de PLE [português língua estrangeira] de referência para todas as instituições de ensino (por forma a uniformizar o ensino da língua portuguesa na RAEM)”.

Além disso, a responsável sugere “contratações de professores com habilitação própria para o ensino de PLE, um programa de formação contínua para professores nesta área e a definição de um organismo do Governo da RAEM para monitorizar as práticas de ensino em sala de aula, são elementos que podem contribuir para que muitas falhas sejam supridas”.

O papel de Timor

Tendo em conta a recente entrada de Timor-Leste para a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa), onde se fala português e tétum, Patrícia Quaresma acha que se deve reforçar “a cooperação com Timor-Leste no quadro da sua integração na ASEAN”.

“A adesão de Timor-Leste cria uma oportunidade inédita para a língua portuguesa no Sudeste Asiático. A cooperação entre Macau e Timor-Leste, na formação de professores, na produção de materiais e no intercâmbio cultural, pode contribuir para que o português ganhe visibilidade no espaço da ASEAN, onde o IPOR já trabalha com instituições no Vietname, na Malásia e na Indonésia”, adiantou.

Neste ponto, Patrícia Quaresma lembrou como, nos últimos anos, o IPOR tem conseguido expandir a sua rede na Ásia além Macau, tendo “consolidado uma rede colaborativa que envolve instituições na China, Vietname, Japão, Malásia, Indonésia e Coreia do Sul, em actuação com a rede de ensino do Camões, I.P e representações diplomáticas”.

Desde 2019 que existe um posto de docência em Pequim, localizado na Embaixada de Portugal em Pequim, onde são organizados cursos de português como língua estrangeira e actividades culturais.

Ao enumerar uma série de propostas para a dinamização do idioma, Patrícia Quaresma acrescentou a necessidade de “investimento em recursos digitais de acesso livre que coloquem o português em pé de igualdade com outras línguas”, nomeadamente no que diz respeito às “ferramentas de aprendizagem e de tradução”.

Deve ainda ser feita a “valorização da programação cultural como parte integrante da política de língua e não como dimensão acessória”.

“Se a geopolítica da língua portuguesa no Oriente tem um sentido, é este: o de uma geopolítica da confiança”, frisou. “Uma língua partilhada por povos de quatro continentes, presente em Macau e agora também na ASEAN, é um recurso de diálogo que Portugal e a CPLP não podem deixar de valorizar”, disse.

Língua tem de ser atractiva

Patrícia Quaresma referiu no CCCM os mais recentes dados que espelham o volume de trabalho do IPOR. Em 2025, teve “mais de 3.900 formandos em mais de 100 cursos, em diferentes modalidades e níveis de competência, num total de mais de 12.000 horas de formação, com recurso a materiais didácticos próprios”.

Desta forma, os dados revelam, na perspectiva de Patrícia Quaresma, que “a procura [pelo português] existe e é diversificada”. “Dizem-nos que, em Macau, o português continua a ser uma língua de cidadania, trabalho e de mobilidade”, acrescentou na sua apresentação. Os alunos do IPOR são “muito diversos”, sendo “estudantes do ensino secundário e superior, quadros da Administração pública, colaboradores de empresas e cidadãos que querem ampliar o repertório linguístico”.

No rol de “desafios” anunciados, Patrícia Quaresma enumerou cinco cenários que devem sofrer melhorias, sendo que a “atractividade” da língua portuguesa é um deles. “No Oriente, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e empregabilidade. O português compete com o inglês, naturalmente, mas também com outras línguas que dispõem de recursos muito superiores, como o espanhol, o francês, o alemão, o japonês ou o coreano.”

Desta forma, a directora do IPOR acredita que o português “precisa de associar factores de atractividade económica à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não ficar reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”.

Patrícia Quaresma chamou ainda a atenção para a qualidade da formação de docentes. “O crescimento da oferta de português na região, particularmente na China, não foi sempre acompanhado pela formação de docentes em número e com qualificação suficientes. A formação contínua, a certificação e o acompanhamento pedagógico são condições para que esse crescimento seja sustentável”.

Patrícia Quaresma acredita na “continuidade das redes”, defendendo uma “cooperação linguística” que tenha “recursos humanos, tecnológicos e financeiros estáveis, conhecimento das realidades institucionais de cada país e mecanismos de avaliação”. “Muitas iniciativas na Ásia dependem de esforços pontuais e do empenho individual de leitores e professores. Sem continuidade, perdem-se os investimentos realizados”, acrescentou.

A apresentação da directora do IPOR chamou também a atenção para a chegada da inteligência artificial (IA) e “transformação digital”. “A forma como hoje se aprendem e se usam línguas está a mudar rapidamente. A presença do português nos recursos digitais e ferramentas de tradução e aprendizagem irá determinar, em boa parte, o seu peso futuro.” Desta forma, “uma língua com pouca presença digital tem menor relevância no espaço global”, rematou.

A sessão de quinta-feira contou ainda com oradores como o embaixador português em Pequim, Manuel Cansado de Carvalho; João Laurentino Neves, antigo director do IPOR e actual director-executivo do IILP, ou ainda Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, entre outros.

Alinhamento em curso

Questionada pelo HM sobre o facto de, na China, terem sido encerrados mais de uma dezena de cursos de português em universidades no interior do país, Patrícia Quaresma considera que houve “o ajustamento a uma nova realidade”.
“Na China, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e de empregabilidade. Neste momento, apesar das relações comerciais com os países de língua portuguesa ainda se manterem em valores significativos, o mercado de trabalho já não tem capacidade para absorver todos os tradutores que se formaram nos últimos anos. Por outro lado, a inevitável inteligência artificial veio contribuir para a simplificação do trabalho de tradução”, destacou.
A directora do IPOR considera, portanto, que se deu “um alinhamento com o novo panorama socioeconómico da China, a que devemos prestar muita atenção e procurar combater através da associação da língua portuguesa a factores de atractividade económica, à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não fique reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”, explicou.

26 Out 2026

Metro Ligeiro | Governo diz que expandir horário exige mais análise

A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) defende que a extensão dos horários do Metro Ligeiro exige “uma análise global”. Em resposta a uma interpelação escrita do deputado Nick Lei, a entidade governamental garantiu que deve ser feita “uma avaliação global tendo em consideração as reais condições de funcionamento” deste meio de transporte público.

“Tendo em conta o grande volume de passageiros durante feriados e grandes eventos, a operadora já prolongou o horário de funcionamento, tendo aumentado a frequência das carruagens em função da afluência, a fim de dar resposta às necessidades de deslocação dos passageiros”, lê-se na resposta.

A DSAT disse ainda que, para garantir um funcionamento mais regular do Metro Ligeiro, seria necessário “assegurar a estabilidade do sistema de carruagens, realizar diariamente, durante a noite, trabalhos de manutenção e inspecção das vias, de forma a assegurar a segurança da operação”.

O deputado Nick Lei defendeu, na interpelação, que o horário do Metro Ligeiro deveria ser ajustado tendo em conta “as necessidades de deslocação de um maior número de residentes, sobretudo trabalhadores por turnos e profissionais do sector do jogo”.

Pagamentos coordenados

Na mesma resposta, a DSAT esclareceu que tem vindo a realizar a “substituição faseada dos acessos por equipamentos que permitem pagamentos digitais”. Assim, “com a entrada em funcionamento dos novos equipamentos, estarão reunidas condições de base para a articulação entre os sistemas de cobrança do metro ligeiro e dos restantes transportes públicos”, foi apontado.

A DSAT indica que a ligação dos meios de pagamento com os autocarros “tem sido discutido activamente” por parte das operadoras de transporte, a fim de assegurar “o desenvolvimento futuro dos serviços, e respectivas medidas de optimização” das redes de transporte.

23 Out 2026

IPOR | Edição chinesa de “Para sempre Vilarinho da Furna!” lançada amanhã

O livro “Para sempre Vilarinho da Furna” evoca, em banda desenhada, a história desta aldeia portuguesa na zona do Gerês. Da autoria de Luciana Castelli, a obra ganhou versão chinesa e é apresentada amanhã no Instituto Português do Oriente. Eis um projecto que nasceu da grande paixão de Manuel Antunes, docente e último morador da Vilarinho da Furna, pela aldeia

O Instituto Português do Oriente (IPOR) acolhe amanhã, a partir das 16h, na Biblioteca Camilo Pessanha, o lançamento da edição em chinês da obra de banda desenhada, pensada para crianças, “Para Sempre Vilarinho da Furna!”.

Segundo uma nota do IPOR, trata-se de uma história que dá a conhecer “às novas gerações o património, as tradições e a memória de Vilarinho da Furna, a aldeia do Gerês submersa nos anos 70”. “Com a tradução em chinês, esta mensagem ultrapassa barreiras linguísticas e aproxima crianças e famílias de Macau e de todo o universo cultural chinês”, lê-se.

Da autoria de Luciana Castelli, que escreve como se fosse uma menina de dez anos a contar a história, o livro nasce da grande paixão do professor Manuel Antunes pela sua aldeia. O fundador da AFURNA – Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna – foi o último morador a sair de Vilarinho da Furna, nos anos 70.

Ao HM, Manuel Antunes conta o trabalho que tem feito nos últimos anos para manter a memória desta aldeia, e que inclui a criação do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, que abriu portas em 1989.

“Tive a ideia mirabolante de criar um museu etnográfico evocativo da aldeia. Pensei que seria a coisa mais normal do planeta fazer-se qualquer coisa, evocar algo, e criar um espaço que lembrasse a aldeia que desapareceu com a barragem. Lancei essa ideia em 1978 ou 1979, e demorei aí uns 20 anos até construir o museu. Sou teimoso, os meus projectos são sempre assim, demora-se 20 anos, mas realizam-se.”

Manuel Antunes saiu de Vilarinho da Furna a 1 de Janeiro de 1971, a barragem foi inaugurada a 21 de Maio de 1972. O museu fez-se, em parte, com as pedras que restaram das casas. “Soube que estavam a retirar as pedras de umas casas e eu e o arquitecto João Rosado Correia, que fez o projecto do museu, fomos lá escolher umas pedras. Por mim, trazia a aldeia toda, mas trouxemos duas casas com as pedras todas numeradas.”

Nessa época, Manuel Antunes estudava Filosofia e fez todo esse trabalho nas férias de Verão, já na casa da tia, moradora de uma aldeia vizinha. Desde então que com a AFURNA, fundada em 1985, faz um trabalho de divulgação da aldeia, nomeadamente junto dos seus alunos. Luciana Castelli foi aluna de Manuel Antunes e foi assim que nasceu o livro que amanhã se apresenta.

Emoções à flor da pele

De pedidos de apoio em pedidos de apoio, Manuel Antunes acabou por estabelecer contactos com a comunidade chinesa de Macau, o que abriu portas à apresentação da obra em Macau.

“Esperamos que tenha sucesso. Vai ser muito agradável apresentar este livro na sua versão em chinês e só de pensar que as crianças chinesas de Macau vão saber a história e que as vamos pôr a contar a história de Vilarinho das Furnas, até fico emocionado”, contou.

Uma das entidades apoiantes desta obra foi a OMNI Investments. Numa nota divulgada no website da empresa, refere-se que Luciana Castelli disse que este livro foi “um projecto particularmente desafiante”, já que “nunca tinha escrito para crianças”.

“O resultado foi uma obra de linguagem simples, acessível e envolvente, mas profundamente rica em sentimentos, memórias e valores humanos. Através destas páginas, as novas gerações são convidadas a conhecer a história da aldeia comunitária de Vilarinho da Furna, preservando a memória colectiva de um património único da cultura portuguesa”, lê-se na mesma nota.

“Para sempre Vilarinho da Furna!” ganhou uma menção honrosa no Prémio Nacional do Ambiente Fernando Pereira 2023.

Coube à OMNI “o apoio e coordenação da tradução integral da obra para chinês simplificado, bem como a respectiva impressão, permitindo que a história de Vilarinho da Furna chegue a novos leitores e diferentes contextos culturais”, é ainda descrito.

23 Out 2026

Lisboa | Casa de Macau é o último reduto da comida macaense

Com o encerramento do restaurante Patuá, os almoços quinzenais na Casa de Macau em Lisboa tornaram-se o último reduto da comida macaense na capital portuguesa. No dia da visita do HM, o almoço foi Porco Bafassá cozinhado por Maria João Ferreira. Entre sócios e amigos há quem sonhe transformar o espaço numa espécie de restaurante

Ao abrir a porta na casa cor-de-rosa na Avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, o cheiro emana da cozinha onde todos ajudam por amor à camisola. Tem sido assim todas as quartas-feiras, a cada quinze dias, na Casa de Macau em Lisboa, lugar que passou a ser o único a servir comida verdadeiramente macaense desde que o restaurante Patuá, também em Lisboa, fechou portas. O Patuá serve ainda refeições temporariamente, mas apenas até à próxima segunda-feira, numa parceria com o bar, restaurante e sala de espectáculos Damas, numa acção intitulada “Patuá Takeover”.

No dia em que o HM almoçou na Casa de Macau, o menu foi Porco Bafassá e rolinhos de massa de arroz com camarão para entrada. Pelo meio-dia a azáfama na cozinha já era muita, e apesar de a cozinheira ter sido Maria João Ferreira, membro da direcção da Casa, muitos braços ajudaram.

“Não posso dizer quem me ensinou esta receita, porque é um prato feito com muita frequência nas casas macaenses. Provavelmente aprendi em Macau com a empregada chinesa que estava em nossa casa. Sempre gostei muito de cozinhar, de maneira que a pouco e pouco comecei a fazer em minha casa.”

Há muito que a Casa de Macau tenta promover a gastronomia macaense. Não apenas com almoços com minchi aos sábados, como na organização de almoços semanais que contavam com a chef Justina do Rosário. A sua saída levou a direcção a decidir manter a iniciativa, para não perderem “projecção”.

“A Justina foi-se embora por questões de saúde e tivemos uma quebra bastante grande. Para o assunto não morrer, decidimos, em reunião de direcção, organizar os almoços quinzenalmente e não semanalmente, como fazíamos com a Justina. Tentamos respeitar as receitas macaenses.”

A Casa de Macau conseguiu aumentar o número de sócios no mandato de Carlos Piteira, de 180 para cerca de 400. “Não se pode dizer que temos um lucro grande, mas para nós é sempre positivo e temos alguma projecção.” Maria João Ferreira entende que “faz falta comida macaense” em Portugal. “Não há. Quando muito, há restaurantes a fazer minchi, mas não passa disso.”

Transformar a iniciativa quinzenal da Casa de Macau numa espécie de restaurante, com apoios, “seria excelente”, confessa. “Acho que todos nós desejaríamos isso, mas não sei até que ponto se poderá concretizar, não sei se a RAEM tem interesse em financiar uma iniciativa dessas. Mas seria fantástico, é um sonho de todos nós. Gostaríamos imenso de ter um restaurante em casa de Macau.”

“Conheci-os no Instagram”

Pelas mesas a azáfama é muita e, pelo meio de sócios e rostos habituais da casa, há quem tenha ido almoçar para descobrir os sabores desta gastronomia de fusão. É o caso de Pedro Carneiro, que gosta de explorar o que de novo existe em Lisboa, em termos culturais. “Sempre fui interessado na cultura macaense e tenho família que vive em Macau, e quis experimentar. Já tinha algumas referências da comida macaense. Tinha alguma curiosidade para ver como é feita cá, e o tipo de eventos que se fazem.”

Naquele dia, mostrou mesmo interesse em fazer-se sócio da Casa. Sendo conhecedor do restaurante Patuá, considera “fundamental” a existência destes espaços. “Há vários espaços associativos ou de restauração que estão a fechar, por diferentes razões, o que significa que qualquer comunidade ou espaço que organize eventos que permitem às comunidades estarem próximas umas das outras, é fundamental.” “Sempre fui interessado por comidas crioulas, que juntam várias culturas. É sempre engraçado ver como as técnicas, ou os ingredientes portugueses, são confeccionados de maneira híbrida com ingredientes asiáticos”, destacou.

Também Gonçalo Lamy, de 19 anos, quis ir provar o Porco Bafassá e levou consigo dois amigos. O estudante da Universidade Nova de Lisboa viajou até Macau há dois anos graças a uma parceria entre a sua escola secundária e a Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes. “Gostei muito de Macau e quis experimentar estes almoços. Conheci-os no Instagram, comecei a seguir. Achei um ambiente bastante familiar e fomos muito bem-recebidos. É engraçado ver as pessoas a encontrarem-se aqui”, destacou.

A voz da tradição

Na televisão vê-se a TDM, o canal chinês. Pelos corredores, trocam-se dois dedos de conversa enquanto o almoço não está na mesa. No dia da reportagem, o jornalista português Ricardo Dias Felner, autor do podcast “O Homem que Comia Tudo”, e cronista do semanário Expresso, também se encontrava à mesa para descobrir aquele lugar de comida macaense genuína.

Disso percebe Manuel Fernandes Rodrigues, macaense de gema e autor de diversos estudos sobre a gastronomia da sua comunidade. Sócio e participante habitual das actividades da Casa de Macau, os almoços quinzenais servem para matar saudades.

“Em Lisboa não há restaurantes que façam comida macaense, e a Casa de Macau é o único sítio que conheço que faz comida genuína”, contou.

“A Casa de Macau já teve workshops semanais de gastronomia. É difícil manter um restaurante por uma razão muito simples: como se vão arranjar cozinheiros? A população de Macau que reside em Portugal tem uma idade avançada e as novas gerações não se interessam tanto por esta profissão. Ser cozinheiro já não é um modo de vida.”

Manuel Fernandes Rodrigues conhece as histórias que vivem no meio de sabores de cada prato. Explica-nos que a comida macaense tem origem em Malaca, que os portugueses conquistaram em 1511 e por onde passou grande parte do comércio feito na Ásia.

Questionado sobre se as autoridades de Macau deveriam apoiar este projecto gastronómico quinzenal, para que se sirvam refeições de forma mais frequente, Manuel Fernandes Rodrigues diz que seria importante tal acontecer. “Pessoalmente, acho que sim [que deveria haver apoios]. Mas as autoridades de Macau têm as suas prioridades, e não sei se o projecto da comida de Macau está nessas prioridades. Na minha óptica, deveria estar.”

O macaense entende que se deve apostar na divulgação que explicasse devidamente “o que é a comida macaense, porque não se resume apenas a receitas”. “Há muito mais, como a história dos macaenses, que têm a sua maneira de ser, e por detrás de cada receita está isso tudo.”

O almoço, acompanhado com xarope de figo, fechou com gelatina de agar-agar com chocolate. “Em Macau há dois tipos de gelatina de chocolate. A versão chinesa é menos rica, porque só leva o chocolate diluído em agar-agar, e esta leva leite normal ou leite condensado, portanto, tem mais doce”, explica Maria João Ferreira.

Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, também almoçou pela Casa de Macau. Ao HM, fala das dificuldades que é apoiar financeiramente estes projectos que vivem de acções voluntárias, mas que expandir os almoços quinzenais para um projecto mais regular seria importante.

“Não são fáceis os financiamentos. Mesmo em Macau os financiamentos passam por um escrutínio mais rigoroso. Desde que as instituições ligadas a Macau tenham condições de estudar possibilidades de subsidiar este ou aquele projecto, porque não? Nos tempos em que nos encontramos, a boa vontade tem um preço. As coisas custam dinheiro, o tempo que se dá a isto tem o seu preço, e é fundamental que se criem condições para este projecto seja uma realidade. Caso contrário, é mais uma coisa que acaba.”

Miguel de Senna Fernandes “lamenta” que o restaurante Patuá tenha fechado, assumindo que fazem falta espaços que mantenham a gastronomia macaense na comunidade. “A gastronomia macaense mantem-se nas casas. Há muitos macaenses que estão em Lisboa e seguem a sua própria comida com muito orgulho. É fundamental que se continue a pensar em termos comunitários. A Casa de Macau, por si só, não consegue fazer tudo, e é preciso boa vontade das pessoas”, concluiu.

23 Out 2026

Colóquio internacional na UM debate papel da IA no ensino superior

A Universidade de Macau (UM) acolhe a partir de hoje, e até sábado, dia 24, o colóquio internacional “A World Without Humanities – Rethinking the Role of Universities in the Age of AI” [Um Mundo sem Humanidades – Repensar o Papel das Universidades na Era da IA].

A organização está a cargo do departamento de português da UM e conta com a colaboração dos docentes Raquel Abi-Sâmara, Chen Keyi, Rivaldo Freire Tavares e Raquel de Sá. As sessões decorrem nas salas E1-UM Gallery e E22-G015.

A primeira sessão começa hoje às 10h tendo como orador Zhang Longxi que irá falar sobre “IA, Subjectividade Humana e Criatividade”. No período da tarde, a partir das 14h, é vez de subir ao palco o professor da Universidade de Potsdam, Ottmar Ette, que irá falar da “Filologia na Era Digital: Sobre a Vida Longa das Humanidades”.

Ligação à literatura

Não faltam neste colóquio sessões sobre a conexão entre a IA e a literatura e os actos de leitura. Hoje à tarde, a partir das 16h, Raquel Abi-Sâmara, da UM, fala sobre “A Poesia Digital de André Vallias: Da Poesia Concreta aos Novos Actos de Leitura e a Questão do Humano”. De frisar que André Vallias, poeta brasileiro de 63 anos, é visto como um pioneiro na relação entre a poesia e a Internet.

Raquel Abi-Sâmara regressa a esta temática no último dia da conferência, ao falar, a partir das 16h30, dos “70 Anos da Poesia Concreta e 70 Anos da IA: O ‘SonetarIA’ de André Vallias e a Máquina de Fazer-SonetosIA”.

Por sua vez, amanhã, Li Li, da Universidade Politécnica de Macau aborda a questão “O que pode a Tecnologia fazer à Literatura? Navegando no Espaço Emocional da Poesia dos Heterónimos de Fernando Pessoa.” Júlio Jatobá, da UM, e Lu Shi Yi, do Instituto Português do Oriente, falam, a partir das 15h50, também esta quinta-feira, de como a IA pode impactar a leitura, com a sessão “Lendo o Humano na Era da IA: Robots e Infância na Literatura Chinesa e Portuguesa”.

22 Out 2026